sábado, agosto 23, 2008

Dia oitavo. Ludwig. Primos




Até nem despertámos muito tarde, logo hoje que decidíramos ficar na cama o tempo que fosse preciso para conceder alguma trégua aos membros. Faz hoje uma semana que chegámos e o bom tempo ainda não nos abandonou. Disse-me ontem C. que talvez umas tempestades estivais venham a abater-se sobre a cidade, e a verdade é que uma certa brisa acabou por arrastar consigo algumas nuvens mais ou menos ameaçadoras.
Apanhámos o eléctrico número 1 para o Museu Ludwig, à beira-rio plantado, numa área elegantemente salpicada de vários edifícios modernos, muito agradável e espaçosa, com todas aquelas mil possibilidades de lazer e negócio que este tipo de projectos urbanísticos invariavelmente oferece.
Passámos no caminho por três diferentes estádios de futebol: o estádio nacional, que recentemente recebeu o nome do lendário futebolista Ferenc Puskás, o estádio do Ferencváros, e o velhinho e degradado campo do MTK, curiosamente o campeão em título na Hungria. A propósito deste último clube, recordo a S. a conquista da única taça europeia por parte do Sporting Clube de Portugal, também entre nós conhecido por "asco do mundo" ou "repugnante dejecto".
O Ludwig propriamente dito surpreendeu pela positiva, com um bom acervo permanente de arte moderna, do qual fazem parte um par de Picassos, o Elvis de Warhol e obras de outros nomes importantes. A exposição temporária consistia numa retrospectiva do bósnio Broca Dimitrijevic, artista que, na esteira de outros, procurou com a sua obra questionar o próprio conceito de arte, colocando em causa noções fundamentais como as de autoria ou originalidade. Numa determinada fase do seu percurso, decidiu Dimitrijevic fotografar a cara de pessoas que casualmente encontrava na rua, em várias cidades europeias, exibindo-as posteriormente em larga escala na fachada de edifícios e, desse modo, sublimando ao estatuto de pessoa importantíssima o anónimo transeunte (foto). Do mesmo modo, esculpiu bustos comemorativos de pessoas comuns e afixou em paredes de ruas diversas placas de pedra assinalando que este ou aquele comum indivíduo ali vivera durante este ou aquele período. Só para dar mais um exemplo do seu género de inciativas artísiticas, as quais de modo algum, ao longo das décadas, se ficaram pelo que aqui exponho, resolveu Dimitrijevic colocar água, pacotes de leite ou folhas de papel no meio da via pública e esperar, de máquina fotográfica em punho, pela passagem de alguma viatura. Ao passar, o automóvel fazia espalhar a poça de água, rebentava o pacote de leite ou amachucava a folha de papel. Quando possível, o automobilista era então convidado a assinar aquela circunstancial "obra de arte", perfeitamente filha do acaso. Assim que isso sucedia, a autoria da obra era, de um momento para o outro, transferida para o anónimo condutor.
Saí do museu com a sensação de se ter tratado mais de uma exposição de conceitos do que propriamente de obras de arte. Mas também não serei eu a pessoa mais habilitada para discorrer sobre o assunto.
Pelas oito da noite, sob a ameaça de chuva e vento forte, recebemos em casa de S. uma pequena legião de primos seus, em número de cinco. A abundância de bebida, conversa e algum calor levou-nos a dada altura para o simpático terraço, onde fomos depois surpreendidos por certa revelação afectiva de R., a qual o pejo me impede aqui de reproduzir em concreto. Digamos que teve que ver com o sentimento amoroso e sua (será que inevitável?) erosão às mãos do tempo, essa cruel ave de rapina.
Pela uma da manhã despediram-se as últimas visitas e adormecemos nós, eu e S., pouco depois, agastados por certa já estabelecida embriaguez.

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