amanhã cedo não posso, desculpa
tenho um funeral às onze horas
(ouço a mulher de pele ardida
dizer à boca do telemóvel)
mas depois do enterro fico livre...
penso:
também eu conto com isso
revelações, tiradas de espírito, coisinhas em verso
I
A que se deu sem sonhos e sem boda
não há proposta a que não diga sim.
Poisar a mão na sua é tê-la toda.
Conhece encruzilhadas, calaboiços,
mas quebra os olhos mudos num jardim,
faz festas aos meninos pequeninos
que brincam nos baloiços.
II
Tem uma cruz de buxo à cabeceira.
Tem o retrato da mãe.
Tem um livrete negro na carteira.
Nada mais tem.
Maria Fácil, chamam-lhe na rua…
É o «enguiço» da prostituição.
Todos a viram nua,
que, para a verem nua,
paga contribuição.
Quando morrer, dirão na viela:
- "Lá vai Maria Fácil, o «enguiço»…
Que bom caixão para o corpinho dela…"
E não se fala mais nisso.

Após quatro anos de contribuição para a literatura e crítica de língua portuguesa, com um formato online de prestígio internacional e mais de cinco milhões de acessos, a Revista Confraria converte-se numa edição impressa bimestral, editada simultaneamente no Rio de Janeiro e em Lisboa e com contribuições regulares de autores brasileiros e portugueses.
Após o lançamento no Brasil no passado dia 14 de Setembro, o número inaugural da Confraria chega finalmente a Portugal, numa distribuição que procurará chegar a número crescente de bancas e livrarias.
Para além de dossiês sobre vanguardas internacionais, perfis de autores menos conhecidos e entrevistas, a revista oferece também textos críticos, filosóficos, contos e poesia, sendo cada edição ilustrada por um artista plástico convidado. Adicionalmente, a revista conta com um conjunto de colunistas fixos de importante projecção, entre eles Luiz Costa Lima, Silviano Santiago, Gonçalo M. Tavares, Carlos Felipe Moisés, Clóvis Bulcão e valter hugo mãe.
Neste primeiro número o leitor pode encontrar, entre outras pérolas, material inédito de Arnaldo Antunes, Gonzalo Rojas, Maria do Rosário Pedreira, Octávio Paz, Raimundo Carrero e E.M. de Melo e Castro.
Em Portugal, a Revista Confraria é coordenada por João Miguel Henriques (para qualquer contacto editorial ou pedido de encomenda escrever para joao@confrariadovento.com).
O primeiro número encontra-se já à venda nas seguintes livrarias de Lisboa (com a certeza de que muito em breve estará também disponível nas cidades do Porto e Coimbra):
Poesia Incompleta (R. Cecílio de Sousa)
Trama (R. São Filipe Nery)
Letra Livre (Calçada do Combro)
Pó dos Livros (Av. Marquês de Tomar)

Exterminar formigas, esses sempre atarefados insectos, movimentando-se pelas paredes ou rodapés de casa em fileiras laboriosas, nunca me pareceu muito justo. Afinal de contas, os pobres animais estão a trabalhar, e se há coisa que a moral social nos incutiu desde cedo é que a uma pessoa que trabalha tudo é devido e consentido. Está bêbado o gajo? Gritou com a mulher? Esbofeteou as duas filhas? Sim, é verdade, mas passou o dia todo a trabalhar, está cansado, dêem-lhe um desconto. Também a formigagem trabalha que nem uma doida, pelo que não parece de todo eticamente apropriado proceder ao massivo holocausto de uma espécie que, na maioria dos casos, não morde, não suja, não cheira. Mas fazemo-lo. Eu faço-o. E recentemente passei a fazê-lo de forma especialmente malévola e calculista. Humana, portanto. Procurando infligir o maior dano possível da forma mais simples e higiénica possível. A Raid comercializa por estes dias aquilo que certa trupe de cientistas absolutamente geniais e alucinados etiquetou de "Cebos Hormigas", assim mesmo, em castelhano, para a coisa ficar bem sombria e maquiavélica. Em português seria "Iscos para Formigas", mas como na língua lusa certas inovações nunca têm o mesmo impacto, a malta da Raid portuguesa preferiu chamar o produto de "Controller Formigas". Os aerossóis são coisa do passado. Também nunca gostei muito deles, espalhafatosos e pouco eficazes que eram. A situação agora é a seguinte: