Domingo, Novembro 08, 2009

Ouvido no metro



amanhã cedo não posso, desculpa
tenho um funeral às onze horas
(ouço a mulher de pele ardida
dizer à boca do telemóvel)

mas depois do enterro fico livre...

penso:
também eu conto com isso

Sexta-feira, Novembro 06, 2009

Punha-se angustiado com estas coisas, o moço


Minha inteligência tornou-se um coração cheio de pavor,
E é com minhas ideias que tremo, com a minha consciência de mim,
Com a substância essencial do meu ser abstracto
Que sufoco de incompreensível,
Que me esmago de ultratranscendente,
E deste medo, desta angústia, deste perigo do ultra-ser,
Não se pode fugir, não se pode fugir, não se pode fugir!

Cárcere do Ser, não há libertação de ti?
Cárcere do pensar, não há libertação de ti?

Álvaro de Campos


Sexta-feira, Outubro 30, 2009

O esplendor de Portugal

Agradeço ao Professor Pedro Calafate a recordação deste excerto absolutamente delicioso de A Ilustre Casa de Ramires. Partindo dos traços principais do protagonista, Gonçalo Mendes Ramires, Eça justifica aqui por inteiro, não apenas a fama de prosador virtuoso, como também o crédito de profundo conhecedor da alma portuguesa.

Então João Gouveia abandonou o recosto do banco de pedra e teso na estrada, com o coco à banda, reabotoando a sobrecasaca, como sempre que estabelecia um resumo:
- Pois eu tenho estudado muito o nosso amigo Gonçalo Mendes. E sabem vocês, sabe o Sr. Padre Soeiro quem ele me lembra?
- Quem?
- Talvez se riam. Mas eu sustento esta semelhança. Aquele todo de Gonçalo, a franqueza, a doçura, a imensa bondade, que notou o Padre Soeiro... Os fogachos e entusiasmos, que acabam logo em fumo, e juntamente muita persistência, muito aferro quando se fila à sua ideia... A generosidade, o desleixo, a constante trapalhada nos negócios, e sentimentos de muita honra, uns escrúpulos, quase pueris, não é verdade?... A imaginação que o leva sempre a exagerar até à mentira, e ao mesmo tempo um espírito prático, sempre atento à realidade útil. A viveza, a facilidade em compreender, em apanhar... A esperança constante nalgum milagre, no velho milagre de Ourique, que sanará todas as dificuldades... A vaidade, o gosto de se arrebicar, de luzir, e uma simplicidade tão grande, que dá na rua o braço a um mendigo... Um fundo de melancolia, apesar de tão palrador, tão sociável. A desconfiança terrível de si mesmo, que o acobarda, o encolhe, até que um dia se decide, e aparece um herói, que tudo arrasa... Até aquela antiguidade de raça, aqui pegada à sua velha Torre, há mil anos... Até agora aquele arranque para África... Assim todo completo, com o bem, com o mal, sabem vocês quem ele me lembra?
- Quem?
-Portugal.

Domingo, Outubro 25, 2009

Maria Fácil

Ocorreu-me recentemente começar a pensar a sério numa antologia de poesia sobre putas. São projectadas tantas antologias de versos hoje em dia: reuniões de poemas versando sobre um mesmo tema unificador, escolhas pessoais de ilustres personalidades e, claro está, as mais académicas antologias dedicadas a um dado período ou movimento literário. Porque não então o putedo, com todos os seus dramas e sucessos vertidos em poesia ao longo dos séculos? Não faltaria com certeza material de primeira qualidade.
Lembrei-me disto no decurso da minha profunda leitura de alguma poesia neo-realista portuguesa. A prostituição foi para alguns destes poetas tema de recorrente (e algo perverso) interesse. Já se imagina o motivo principal: na sua análise social de propósitos socialistas e redentores, prestaram os neo-realistas significativa atenção aos principais párias de uma sociedade desumanizada, putas naturalmente incluídas. Entre comiseração e crueza, com a assunção esporádica do desejo carnal por parte do próprio sujeito poético, muitos foram os poemas congeminados a este propósito.


Reproduz-se aqui um exemplo dos mais cruelmente realistas, a roçar a indiferença atroz no tom e no tratamento da figura principal. "Maria Fácil" se chama o poema, e é um dos primeiros da estreia de Sidónio Muralha, com o volume Beco, em 1941. Apesar de cedo ter emigrado para os brasis, onde ao longo das décadas atingiu notoriedade pública na qualidade de autor para crianças (alguns recordarão o seu nome dos livros da primária), Muralha foi um importante nome da fase de definição e afirmação do nosso neo-realismo literário, contando-se entre os mais marcadamente interventivos, e participando inclusivamente na fundamental colecção de poesia "Novo Cancioneiro" com o livro Passagem de Nível (1942). Ora vejai se logo aos 20 anos de idade não revelava já o jovem Sidónio um espírito de implacável análise social:


I

A que se deu sem sonhos e sem boda

não há proposta a que não diga sim.

Poisar a mão na sua é tê-la toda.

Conhece encruzilhadas, calaboiços,

mas quebra os olhos mudos num jardim,

faz festas aos meninos pequeninos

que brincam nos baloiços.


II


Tem uma cruz de buxo à cabeceira.

Tem o retrato da mãe.

Tem um livrete negro na carteira.

Nada mais tem.

Maria Fácil, chamam-lhe na rua…

É o «enguiço» da prostituição.

Todos a viram nua,

que, para a verem nua,

paga contribuição.

Quando morrer, dirão na viela:

- "Lá vai Maria Fácil, o «enguiço»…

Que bom caixão para o corpinho dela…"

E não se fala mais nisso.




Sábado, Outubro 24, 2009

Conselho (via msn)

Ele: e por aí? trabalha-se muito?

Eu: estou na biblioteca nacional. tenta-se. mas as ideias dispersam-se inseguras, sem rumo certo...

Ele: amuralha-as em papel, que com a chuva por certo não arderá...


Quinta-feira, Outubro 22, 2009

Adorava ter dito isto

Domingo, Outubro 18, 2009

Vilão


Quando não está absorvido na leitura do seu querido António Maria Lisboa, ou no exercício perfomático de uma redentora experiência surrealista; quando não desliza sobre o relvado, com a bola na ponta da bota, em estonteantes fintas de corpo, ou quando não se encontra ocupado na edição da sua bonita revista Bicicleta; quando enfim, naquele que é o seu habitat mais natural, interroga a palavra e testa o que pela escrita pode ser alcançado, o poeta Bruno Vilão sai-se com coisinhas deste género:


A escrita
adensa a densa
pretensão de sentir.
Por isso escrevo,
escravo dos sentidos.


Quinta-feira, Outubro 15, 2009

Boa cena

A tensão na troca de olhares, o cruel ardor do ciúme, a perplexidade... E durante tudo isto, as palavras apenas segredadas, o volume crescente da música, a alternância dos planos de imagem. No final, aquele trágico movimento da câmara, percorrendo o espaço que, numa mesma casa, separa um homem e uma mulher, condenados pelo equívoco dos sentimentos ocultados. Zach and Miri Make a Porn é uma comédia, é verdade. Mas esta cena é mesmo muito boa. E nem as legendas em espanhol do vídeo que aqui se disponibiliza chegam para estragar.

Domingo, Outubro 11, 2009

Consolo


Escrevendo de Lisboa, o solitário editor português da binacional Revista Confraria lamenta o fuso horário que o separa dos seus colegas brasileiros e que dificulta a regularidade e consequência das reuniões editoriais via internet. Do outro lado do Atlântico, recebe do Rio um consolo belíssimo e absolutamente visionário. E agradece as lenitivas palavras.

João, fique tranquilo; toda essa dificuldade é passageira. No futuro, a Confraria terá seu escritório na divisa imaginária de Greenwich, onde o tempo, na pureza de sua existência, nem impede nem separa, pois não anda nem evolui, senão concentra e reúne a todos na plenitude de seu estado, na sua maior densidade por estar sendo na verdade simples.

Sexta-feira, Outubro 09, 2009

Chave de Ignição


Já aqui falei do poeta Ruy Ventura. Por duas ocasiões, creio. A propósito da tradução para o inglês do seu terceiro livro Assim Se Deixa Uma Casa (2003), e anunciando o lançamento do seu último título, Chave de Ignição (Labirinto, 2009). Foi este livro de matéria e sublimação que andei a ler, a espaços desiguais, nos últimos tempos. Incursões íntimas pelo comportamento físico do mundo próximo (paisagem, habitação), invariavelmente processadas no plano emocional e espiritual de um sujeito que caminha sempre muito para além dos limites do estrito, ainda que belíssimo, mapa sensorial. Um livro denso, de cuja pluralidade de sentidos e de virtudes formais não me cabe dar conta nestas breves palavras. Elas servem sobretudo para introduzir o poema que retirei do livro e que aqui se dá a conhecer.

queimo tudo dentro deste quarto -
no lugar onde o teu corpo
parte.
o campanário permanece.
a alma renasce
com a poeira.
faz parte da serra
- a que chega, a que fica, a que
abala como abrigo
escavado na rocha -.
a pedra recebe o teu corpo.
desaparece. apenas um rasgo
entre dois líquenes
recorda a fundura
das células.

queimo tudo - nesta casa.
os sinos pontuam o sono.
- a melodia cresce.


Terça-feira, Outubro 06, 2009

Roupa interior



Voltei no outro dia a ouvir esta malha inolvidável. If fashion is your trade then when you're naked I guess you must be unemployed...

Domingo, Outubro 04, 2009

Revista Confraria chega a Portugal. Rejubilai e apregoai a boa nova


Periódico binacional oferece um amplo e irreverente panorama da arte, literatura e reflexão crítica contemporâneas.

Após quatro anos de contribuição para a literatura e crítica de língua portuguesa, com um formato online de prestígio internacional e mais de cinco milhões de acessos, a Revista Confraria converte-se numa edição impressa bimestral, editada simultaneamente no Rio de Janeiro e em Lisboa e com contribuições regulares de autores brasileiros e portugueses.

Após o lançamento no Brasil no passado dia 14 de Setembro, o número inaugural da Confraria chega finalmente a Portugal, numa distribuição que procurará chegar a número crescente de bancas e livrarias.

Para além de dossiês sobre vanguardas internacionais, perfis de autores menos conhecidos e entrevistas, a revista oferece também textos críticos, filosóficos, contos e poesia, sendo cada edição ilustrada por um artista plástico convidado. Adicionalmente, a revista conta com um conjunto de colunistas fixos de importante projecção, entre eles Luiz Costa Lima, Silviano Santiago, Gonçalo M. Tavares, Carlos Felipe Moisés, Clóvis Bulcão e valter hugo mãe.

Neste primeiro número o leitor pode encontrar, entre outras pérolas, material inédito de Arnaldo Antunes, Gonzalo Rojas, Maria do Rosário Pedreira, Octávio Paz, Raimundo Carrero e E.M. de Melo e Castro.

Em Portugal, a Revista Confraria é coordenada por João Miguel Henriques (para qualquer contacto editorial ou pedido de encomenda escrever para joao@confrariadovento.com).

O primeiro número encontra-se já à venda nas seguintes livrarias de Lisboa (com a certeza de que muito em breve estará também disponível nas cidades do Porto e Coimbra):

Poesia Incompleta (R. Cecílio de Sousa)

Trama (R. São Filipe Nery)

Letra Livre (Calçada do Combro)

Pó dos Livros (Av. Marquês de Tomar)


Sexta-feira, Outubro 02, 2009

Receio


À conta de ocasionais falhas de memória, e por força do início do ano académico, prenhe de responsabilidades e solicitações, decidiu ela há dias iniciar um tratamento com certo auxiliar farmacopeico, recomendado por um boticário lá do bairro.
Observo-a todas as manhãs na meticulosa preparação da grave fórmula: os piparotes com o dedo anelar nas extremidades da ampola de vidro, a poção vertida para um copo de sumo de maçã (curiosa escolha, certamente motivada pela semelhança cromática), e por fim a solene ingestão da translúcida mistura.
Quedo-me de seguida um bom par de minutos vigiando-a atentamente. Conservo em mim o secreto receio de que algum insuspeito efeito secundário possa logo ali manifestar-se, poderosíssimo. O receio de que ela de repente se expanda em volume e altura, dominando por completo o pé direito da casa. Ou que adquira a incómoda faculdade de me ler o pensamento ou prever acontecimentos futuros. Hipóteses do género, porventura fantasias. Suponho que hoje em dias essas coisas de farmácia já sejam testadas antes, à cautela...

Quarta-feira, Setembro 30, 2009

Escutado ontem


Ay dolor, que ya me volviste a dar

Agradeço ao poeta e amigo Ramón Peralta, ilustre mexicano a viver por ora em Lisboa, o conhecimento de um punhado de enunciados populares da sua terra. Este, em especial, aproxima-se muito de certa inesperada criatividade sintáctica que qualquer indivíduo de bom senso deve buscar.

Terça-feira, Setembro 29, 2009

De volta a casa

Segunda-feira, Setembro 21, 2009

Caos

Lá fora, à minha porta, o caos completo. Há quem lhe chame reabilitação urbana, eu chamo-lhe o pesadelo medonho. Máquinas às dúzias, num uníssono de ruídos ensurdecedores. Pó em nuvens densas, grávidas de lixo e infecções. Entulho aos magotes, impedindo a circulação dos passos, invadindo os passeios. Trabalhadores aos gritos, telefonias aos berros, o mundo inteiro na iminência de rebentar. E tudo isto, todos os dias da semana, das oito às dezoito.
Fica assim explicado o meu refúgio no campo silencioso, onde só bulem coisinhas prazenteiras e não há grande risco de uma pessoa ser violentada na alma e nos sentidos.
Fui. Estou mais ou menos longe. Só regresso para votar.

Sábado, Setembro 12, 2009

Matar formigas

Exterminar formigas, esses sempre atarefados insectos, movimentando-se pelas paredes ou rodapés de casa em fileiras laboriosas, nunca me pareceu muito justo. Afinal de contas, os pobres animais estão a trabalhar, e se há coisa que a moral social nos incutiu desde cedo é que a uma pessoa que trabalha tudo é devido e consentido. Está bêbado o gajo? Gritou com a mulher? Esbofeteou as duas filhas? Sim, é verdade, mas passou o dia todo a trabalhar, está cansado, dêem-lhe um desconto. Também a formigagem trabalha que nem uma doida, pelo que não parece de todo eticamente apropriado proceder ao massivo holocausto de uma espécie que, na maioria dos casos, não morde, não suja, não cheira. Mas fazemo-lo. Eu faço-o. E recentemente passei a fazê-lo de forma especialmente malévola e calculista. Humana, portanto. Procurando infligir o maior dano possível da forma mais simples e higiénica possível. A Raid comercializa por estes dias aquilo que certa trupe de cientistas absolutamente geniais e alucinados etiquetou de "Cebos Hormigas", assim mesmo, em castelhano, para a coisa ficar bem sombria e maquiavélica. Em português seria "Iscos para Formigas", mas como na língua lusa certas inovações nunca têm o mesmo impacto, a malta da Raid portuguesa preferiu chamar o produto de "Controller Formigas". Os aerossóis são coisa do passado. Também nunca gostei muito deles, espalhafatosos e pouco eficazes que eram. A situação agora é a seguinte:

  • Coloca-se o isco num lugar alvitrado de estratégico. O isco é um pequeno casulo de plástico com várias entradas, recheado, segundo nos diz o fabricante, de manteiga e óleo de amendoim.
  • As formigas entram no casulo, atraídas pelo manjar oferecido, e voltam a sair, ainda de perfeita saúde, transportando porém consigo quantidades, por vezes mínimas, do nefasto alimento.
  • A coisa dá para o torto quando chegam aos lares (tocas, retiros, galerias, eu sei lá). Aí é que o veneno transportado e distribuído pelos amiguinhos começa a fazer efeito, exterminando famílias inteiras.
A morte silenciosa, dentro de casa, pela calada. Nada de cadáveres para limpar. Nenhum grito. Daquele buraco escuros nenhuma formiga voltará a sair para trabalhar. Agoram todas dormem sossegadas e para sempre. Cruel. Limpo.

Foi ela que comprou isto, não fui eu.

Terça-feira, Setembro 08, 2009

Sárbogárd: Estação





Sexta-feira, Setembro 04, 2009

À atenção da brasileirada (em breve também aqui no burgo)

Terça-feira, Setembro 01, 2009

Entrevistadeiro


Já há algum tempo que o profícuo Cálssio, essa quase-instituição com a qual os Quartos Escuros se sentem irmanados por laços de amizade e admiração, leva a cabo o ambicioso projecto de entrevistar em exclusivo alguns nomes sonantes da cena musical do mundo inteiro. Não só as entrevistas são de altíssimo calibre, como a iniciativa em causa demonstra bem os altos voos que um blogue pessoal bem nutrido pode ambicionar. Serve esta nota para alertar os mais desatentos que por lá já está disponível a terceira entrevista. Depois de Ladytron e Cut Copy, foi a vez de os Junior Boys serem contemplados com inquirições inteligentes e oportunas. É visitar o Cálssio e consultar as entrevistas perfiladas na coluna de ligações à esquerda. Deliciai-vos.