sábado, agosto 09, 2008

Dia segundo. Dia de peste

Liget. Não sei bem o que persiste em atrair-me para os parques principais de uma cidade. Talvez essa recôndita consciência de serem dos poucos lugares que ao longo dos tempos lograram manter alguma original fisionomia. Não saberia enumerar todos os versos que já compus à conta de parques públicos como o de Liget. Os edifícios de recreio e cultura, os caminhos poeirentos, a estatuária dispersa por todo o lado e em alguns casos sonegada por razão do seu bronze... E depois o mágico arvoredo, sempre o mágico arvoredo. Ibirapuera, o Bom Retiro, Jardin du Luxembourg, todos esses bons antros de flora me vieram um pouco à memória.

Após um passeio pelo Liget, identificou-me S. as personagens históricas representadas em estátua de corpo inteiro na Praça dos Heróis, ali a meia dúzia de passos da antiga sede do Partido Comunista Húngaro. Sem dúvida que se trata de um fulgurante repertório de reis mandões, todos másculos e ditosos, cada qual destacando-se por este ou aquele feito pátrio.

Depois de percorrida a elegante Avenida Andrássy e parte da grande circular que rodeia o centro da cidade, avistei por fim o Danúbio, ou Duna, como por aqui o nomeiam. Devo dizer que no passado já o vira carregar as suas águas, dessa feita em Dresda, quase completamente gelado, em certo intenso e já longínquo Inverno. Outras eram as lides e as companhias nessa altura. Para além desse pormenor, sei que S. voltará a dizer-me, como em outras ocasiões já mo disse, que em nenhum outro lugar é o Danúbio tão bonito como na sua cidade. Talvez assim seja...

Após curta e repousante visita à ilha fluvial de Margit, outrora morada de coelhos aos milhares, regressámos a casa, quase esgotados, não sem antes aflorarmos em conversa a questão dos anos de sangue, todos esses dramáticos episódios de combate contra o jugo estrangeiro que povoam a história húngara dos últimos cinco ou seis séculos. Turcos, habsburgos, soviéticos, todos eles chucharam o que puderam da boa mama húngara. Mas disso e de todos os memoriais que combatem o esquecimento darei conta noutra altura, que por ora se cansam os dedos ao peso da pena e a cabeça ao jugo do sono.

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