domingo, setembro 11, 2005

Canções de Guerra. Para uma Breve Introdução ao Longo Ciclo das Invocações

Lies will flow from my lips, but there may perhaps be some truth mixed up with them

Virginia Wolf, A Room of One's Own


Comecemos pelos factos, ainda que nem todos possam ser aqui expostos em toda a sua dimensão. Faz agora sensivelmente dois anos que conheci, em excelente companhia, a região alta de Glencoe, um dos mais extraordinários parques naturais que a Escócia oferece aos olhos de um visitante desprevenido. A viagem, abençoada por um inesperado sol de Setembro, tinha na altura dois propósitos bem definidos: conhecer uma paisagem natural deslumbrante e tomar contacto com uma das descobertas arqueológicas e filológicas mais significativas das últimas décadas: um largo conjunto de escritos recentemente descobertos numa pequena gruta da zona por um acidental trio de montanhistas. Várias dezenas de composições poéticas (pelo menos é o que aparentam ser), a cujo conjunto se deu na Escócia o nome de Duel Songs. Chamar-lhe-emos em português Ciclo das Invocações.
O grupo de estudo e trabalho entretanto constituído, ao qual tenho a imensa honra de pertencer, encontra-se ainda a braços com toda uma série de questões fundamentais, para as quais são maiores as suposições que efectivamente as respostas. A equipa encarregue da investigação arqueológica está neste emomento a preparar um primeiro artigo com conclusões prévias acerca de questões como datação, materiais de escrita e estados de conservação. O grupo de estudos filológicos, ao qual pertenço, encontra-se igualmente em condições de avançar algumas impressões, apesar do estado ainda embrionário dos trabalhos. Foi decidido logo de início, com minha total concordância, devo dizer, que o mais sensato seria em primeiro lugar procurar reconstituir os múltiplos textos, com uma possível e adicional adaptação para inglês mais corrente. Só depois, e à medida que o conteúdo e natureza formal das composições fosse ganhando contornos, poderiam ser avançadas considerações de ordem interpretativa acerca do ciclo. Fui autorizado a partilhar por este meio algumas dessas curtas impressões e, mais importante que isso, irei nos próximos tempos reproduzir aos poucos algumas destas "canções de guerra" em versão actualizada e adaptada.
O Ciclo das Invocações não terá sido escrito por um só autor, mas seguramente a várias mãos e no decurso de um relativamente curto espaço de tempo (não mais de uma década ou década e meia), provavelmente correspondendo a uma época de maior turbulência política externa. As várias composições que constituem o ciclo poderão não ter sido à partida concebidas para integrar um conjunto, ainda que seja aparente (quase notória) uma certa unidade formal entre elas. Isto leva a pensar que a sua produção deveria responder a um determinado modelo, ainda que mais ou menos flexível. Os poemas do Ciclo das Invocações parecem ter um cariz vincadamente bélico. Neles, a voz poética (perfeitamente indeterminada), parece exortar determinado soldado para uma acção de carácter militar ou, pelo menos, para uma manifestação dos seus poderes, afirmação do seu carácter, e até (pasme-se) confissão das suas turbulências interiores. Só esta curiosa coabitação de virilidade militar e sensibilidade dará concerteza material para vários volumes e inúmeros debates. O sujeito poético parece por isso identificar-se com uma chefia do exército ou com o próprio povo que deste modo celebra e apresenta os seus trunfos militares (nem todos do sexo masculino, atente-se). As produções poéticas seriam portanto escritas para declamação pública, possivelmente no contexto de um cerimonial específico, em circunstâncias bem determinadas. Isso poderá justificar o aparente modelo comum a todas elas: título (possivelmente o nome ou epíteto do guerreiro), estrofe principal maior com versos brancos de métrica irregular, estrofe final conclusiva de verso único.
As composições serão aqui progressivamente apresentadas para fruição pública e desejáveis comentários, independentemente da sua natureza. No final de cada composição incluiremos a sua referência de catalogação, respondendo esta a um critério próprio do grupo de trabalho que tem vindo a organizar os preciosos achados. A apresentação das canções será por vezes acompanhada de uma imagem para efeiros de puro ornamento.

2 comentários:

Anónimo disse...
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virna disse...

adorei, joão. uma nostalgia boa lembrar de glencoe e ler esta primeira duel song. ontem esteve por aqui uma poeta escocesa muito interessante, liz lochhead. publiquei a tradução de um poema seu no papel de rascunho.
um beijo