quarta-feira, julho 27, 2005

Por vezes pensava que podia continuar a caminhar eternamente, por esses montes, ao deus-dará, sem descanso e faminto, mas em sossego, como o judeu errante. De vez em quando dava uma ajuda na recolha do feno. Pagavam-lhe então com uma dormida. E, à noite, quando ficava sentado junto dos lavradores, que apagavam o candeeiro cedo para não gastar petróleo ou cera, pensava mal humorado: «Para que vive esta gente, afinal ?» Sentia saudades de música, de passos de marcha, de ordens de comando. Não apreciava aquela vida insípida que lhe escorregava por entre os dedos. Suspirava por alguma resistência brusca e violenta para poder esmagá-la com os pés, até que berrasse, gemesse e esguichasse sangue. Estava farto de proceder como um humilde submisso, de ser como a relva por entre o ancinho.

Anna Seghers, O Fim

1 comentário:

nils disse...

Aqui para agradecer o livro que muito educadamente foi dirigido ao casal...acho que devias aceitar "algum" por ele, porque a vida não está fácil...paga-se bem porque vale...já li um pouco ainda não todo...