domingo, junho 08, 2014

Dois poemas de Pedro Corrêa

Debaixo das árvores lembro, pingar gomosa a figueira
ou o áspero cumprimento das suas folhas, abertas mãos
muito verde a infância a manchar a joelheira das calças
Pendurado na ácida ameixieira os galhos eram agulhas de tricô
intrometidas nas lãs da camisola e os seus frutos de um amarelo
que nem assim tem a adolescência e não sei remexer na memória
Nos altos voos da pereira perdíamos a coragem
infantil, era já dor o crescimento, a amarinhar a vida
Sem saber como descer, conquistávamos a intimidade
ao medo. Ainda não como o perder da inocência
que conheceria aos trinta anos. Na adulta adolescência
não éramos pútrida fruta beijando a úbere terra
nem nosso amor crestava aberto à violação dos pássaros


Das duas mulheres de Elcaná é Fenena quem dá à luz
Deus fizera estéril Ana, por razões que o livro não traduz
Contam as páginas porém, que nas montanhas de Efraim
Ama Elcaná mais a Ana
A cada ano o marido mais as duas mulheres partem
Peregrinando, em adoração e oferenda, ao santuário de Silo
sacrificando maior a porção de Fenena e a de Ana pequena
porque não gerara um filho

Ana é humilhada por Fenena por seu ventre não procriar
De tamanha a sua pena, a sufita morena se põe a chorar
Ao ver que não come, o marido, decidido, questiona a mulher
se por não gerarem menos o quer

Um dia Ana cumpre o sacrifício, comendo no santuário
chorando em silêncio pede a Deus o filho, que Lhe consagrará
Em vão o sacerdote tenta entender, pois na silenciosa oração
cala o estéril corpo, o filho que não lhe dá

Desconhecendo o sofrimento, o sacerdote julga-a embriagada
e no mesmo sôfrego momento, de pronto a condena por leviana
Aflita e triste com o ventre infrutífero, tal como fora o de Sara
perante Deus, ao sacerdote, se justifica Ana

Levantando-se de madrugada e após oração em solo sagrado
partem Elcaná e as duas mulheres de regresso à montanha
E querendo Deus, por amor do homem consumado em Ana
é o profeta Samuel para Si gerado

in Três Pontos

1 comentário:

Pedro Corrêa disse...

Eh, poeminha sem jeito... ;) Obrigado, João. Fiquei sem palavras? Fiquei sem jeito também. Abraço.