sexta-feira, setembro 17, 2010

Miguel

fora atropelado gravemente
numa passadeira dos subúrbios,
modo e local tão costumeiros
em desaires de chapa veloz
contra corpo indefeso

passara meio ano no estaleiro
por entre sonos induzidos aos dias
e tratamentos aos membros,
ao ânimo frágil, ao que restava
de um qualquer arcaboiço de vida

sobrevivera, é certo:
o verdadeiro testa de ferro
de um outro esquecido miguel,
crente na bonomia de uma vida
e na segurança das passadeiras

contava-nos isto com ligeireza
por entre cervejas, cigarros de rir
e sorrisos de explícita amargura
(nunca é implícito o desalento
e o atropelado sabia-o havia muito)

ao seu lado, um semiconhecido
quis dar uma de phil, o doutor,
o nicholas sparks da esplanada santo isidro,
observando, solene e bacoco:
depois de teres visto a morte tão de perto
passaste com certeza (ele tinha a certeza)
a valorizar muito mais a tua vida

a coisa até fazia sentido, não fora
o brutal paradoxo que encerrava:
passar a estimar mais a existência
conhecendo o que em breve se avizinha

e como perdera o sentido do pejo
seis meses antes numa rua de lisboa
miguel sorriu (já sem amargura)
e contrapôs que não
que nem por isso:
a principal diferença é que agora
(à conta de dores, talvez,
ou de lembranças)
passava o dia inteiro a fumar ganzas

2 comentários:

nils disse...

Gostei muito, João. Mesmo muito. São pérolas como estas que fazem com que interrompa o trabalho para ir às ostras...

João Miguel Henriques disse...

Obrigado, amigo. Pela tua leitura, pelo teu comentário na Porosidade Éterea, pelo vais escrevendo na tua página. Um forte abraço de até breve.