segunda-feira, setembro 06, 2010

Dois poemas de Manuel de Freitas


Dos livros Infernos Artificiais (2001) e Terra Sem Coroa (2007) respectivamente, e incluídos na recente antologia do poeta A Última Porta.


Lonely woman

«Fode-me» - diziam
os olhos ébrios e desamparados, 
o cigarro asmático
que em mãos pequenas ardia,
os jactos de saliva
que vinham tolher o meu rosto.
Tudo menos as palavras,
que a existirem
seriam apenas um modo de corroborar.
Sim, esse verbo indecente
que é - por acaso - o mais conjugado
em todas as posições.

Acabou por me apresentar
o nome gasto e obeso
que no preciso momento esqueci.
Professora de História, 39 anos,
divorciada, dois filhos:
Miguel Maria e Ana somente.
Foi tudo o que retive, apesar
de saber que não iria resistir
à crueldade de a meter num poema
mais à sua medida que a mini-saia
que entre risos chorava o tempo.

Também para ela o paraíso
não ficava ao virar da esquina
(nada de original, convenhamos).
A coisa só piorou quando
com tiques professorais me perguntou
pelos escritores preferidos («sentimentais»
os seus, numa estranha hierarquia
governada pelo mais subterrâneo dos russos.
Nenhuns os meus, em seus vários
modos de mudez e escárnio).

De qualquer modo a noite
já estava perdida.
Para ela, e para mim
- que não passava, desenganado,
do corpo mais a jeito
para um húmido convite
sem sequer a máscara do sentimento.
Um «bem-haja» inocente traiu-lhe
a origem beirã - e pudemos falar
desse nada, menos perigoso
ou indefensável do que os arbítrios
e desrazões que sobre nós fazem cair
a eufórica cinza da literatura.

À terceira margarita levantou-se
de vez, procurando nos passos
a vontade de o serem, uma porta
da vida a fechar-se com zelo.
Sobre o balcão ficaram 
um copo de bourbon em forma de catarse,
o suado odor da derrota
e um último recado que surgiu premente
do lado de fora: «se quiseres
beber um copo estou nas Catacumbas».

Devia saber que não, que com ela
não, mas um grito larvar ludibriou-lhe
ainda a certeza do corpo consigo,
inexorável e só. Talvez alguém
a tenha fodido, com apressado
amor, num quarto qualquer
onde o retrato de um menino triste
chora lágrimas fulvas de urinol.

Talvez, quem sabe? Eu
a esse desencontro já não assisti.



Praia de Santa Rita

Não há muitas tardes assim.
O vento chegava quase devagar
ao teu e ao meu rosto, o mar
fazia-nos parecer mais juntos,
o próprio sol era uma carícia
- enquanto um mosquito
assediava o meu copo de cerveja.

Mas chegaram os das roulottes,
em busca de mesa, obrigando-nos
à sua voz motorizada, suspensa
entre palitos. Lembrei-me, claro,
desse nojo atávico, das tendas
inabitáveis da infância, de tudo o que fez
de mim um instrumento do desastre,
alguém que já não encontra o esquecimento
na espuma das cervejas mortas
o conhece todos os antónimos de beleza.


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