quinta-feira, janeiro 28, 2010

De uma morte


Eu queria escrever aqui sobre algo que me apanhou completamente desprevenido há coisa de dois dias. Queria falar de uma morte. É que uns irem e outros ficarem tem ao mesmo tempo muito e quase nada que se lhe diga. As palavras ficam sempre aquém de um possível sentido, mas este não pode nunca ser buscado sem o auxílio delas. Queria falar de um falecimento brusco e dei por mim sem palavras. Bem sei que ela já estava com uma certa idade. Também que se andava a queixar de umas dores, vim depois a saber. Mas agora que já não poderei vê-la sobre este mundo, ponho-me a pensar no que me dizia. És muito bonito, tu. Um casal não pode adormecer arreliado, há que fazer sempre as pazes antes de ir para a cama. Ou há coisa de quase trinta anos: vai lá arrumar os brinquedos que a sopa está pronta. Queria aqui dar conta da morte dela e de como, com isso, levou a ventania um ramo grosso da minha árvore. Mas talvez o outro tenha razão: a arte sempre desumaniza um pouco. E eu pouco mais tenho que penas e pensamentos para falar desta morte.

3 comentários:

Anónimo disse...

Amigo, não sei a quem te referes no teu texto, mas deve ser alguém muito próximo. Quero apenas deixar-te um abraço de solidariedade.
Ruy Ventura

Beggars: disse...

Passo pelos mesmos questionamentos que você neste momento, relacionado à morte e a minha superficial frieza a ela.

Não é a morte de alguém que me é caro, mas caro de alguém próximo, deixo já claro para evitar confusões.

Estou me sentindo a pessoa mais fria do mundo, por não conseguir ser sincera em meus pêsames, mas sincera apenas em compartilhar lembranças. Acredito que você foi mais sincero neste texto, que poderia ser em mil lágrimas.

Beijos e saudades de Portugal e dos amigos que fiz.

POESIA EM VOLTA disse...

"Existirmos, a aue será que se destina". Ela deve ser sua mamãe. Eu perdi meu pai há um mês. As palavras não sabem dessa dor. Abraço