sábado, maio 24, 2008

Da releitura


Num artigo de 2006, publicado no Jornal de Letras, Artes e Ideias, António Carlos Cortez faz a elogiosa recensão ao livro Outro Nome, Escassez, As Aves, do poeta Gastão Cruz (1). Trata-se de uma reunião de três livros de poesia publicados pelo autor na década de 1960. Deste modo, conforme o autor do artigo acha por bem referir, “estes poemas reportam-se, em primeira instância, a um tempo concreto, facilmente identificável com determinada situação histórica”. No entanto, Cortez não reduz obviamente o impacto desta parte da obra poética de Gastão Cruz a um contexto social e político restrito, sublinhando, por um lado, o paralelo que podemos fazer entre essa atribulada década e os tempos que correm e, por outro lado, e talvez mais importante ainda, “o gesto editorial e autoral que fazem desta edição um exercício de releitura do próprio poeta”. O autor do artigo chega muito pouco depois a uma versão sua de certa questão que consideramos decisiva no âmbito da reflexão que os estudos literários se vêem de tempos a tempos obrigados a fazer sobre si próprios:

Como ler, melhor dito, como reler estes textos? Se até aqui o olhar que por sobre os poemas lançávamos estava votado a uma leitura claramente balizada, muitas vezes submetendo a leitura que deles pudéssemos fazer a uma espécie de preconceito cronológico (como se tais textos mais não fossem que a fotografia de um período absolutamente ultrapassado), como interpretar, agora que novamente se editam, textos que nos assaltam pela sua actualidade?


O termo “releitura” refere-se no contexto dos estudos literários a um conceito estranho na sua significação, na sua natureza de quase paráfrase desnecessária. Todo e qualquer trabalho nesta área parte de uma leitura de textos que é, na esmagadora maioria dos casos, uma espécie qualquer de releitura. Muitas vezes uma releitura que o próprio investigador faz de textos de uma qualquer anterior e repetida predilecção, e sempre uma releitura de textos já lidos em tantas outras instâncias desde a sua publicação, quando não já mesmo avaliados e problematizados em anteriores trabalhos de investigação ou crítica literária. Porém não existe jamais a necessidade de alertar uma audiência ou um público leitor para o facto de um dado texto, um conjunto de obras ou a obra de um autor já ter sido lida no passado. Leitura é quase sempre sinónimo de releitura, e o significado de releitura é apenas subentendido, diríamos até, obviamente subentendido, passando a palavra em si à triste condição de supérflua. Certas formulações ajudam a transmiti-lo, caso ainda fosse necessário. Daí dizer-se “a nossa leitura” ou “ a leitura que hoje fazemos”. Com construções deste tipo queremos dizer que um dado texto literário, sempre escrito e na maior parte dos casos publicado antes do nosso discurso, foi já alvo de tratamento anterior, e a leitura que agora se faz é diferente de leituras anteriores, e diferente não apenas por ser a “nossa” ou a de “hoje”. Essa diferença é relevante porque existe a crença absolutamente esmagadora de que uma herança literária pode sempre ser lida (relida) de forma potencialmente inovadora. Não queremos aqui lidar com a ideia geral e evidente que cada indivíduo lê um poema ou um romance à sua maneira, dele retirando uma quantidade muito personalizada de sugestões. Falamos exclusivamente aqui em termos que poderíamos classificar de científicos, pelo menos no sentido mais ou menos académico do termo. Quando se trabalha um autor, uma obra ou um “momento” literário, acredita-se que há qualquer coisa ainda de válida a transmitir. As razões que o justificam são múltiplas e em muitos casos muito específicas. Ou ainda nem tudo foi dito, ou então terá já passado tempo suficiente para permitir uma nova leitura e análise, cuja diferença de abordagem é a razão da sua legitimidade. É natural que se intrometa igualmente neste conjunto de factores essa noção tão cara a T.S. Eliot de que toda a produção poética marcante nos obriga, não só a uma nova perspectiva sobre as produções que se seguem, como a uma reavaliação da tradição precedente, impossível a partir desse momento de ser lida com os mesmos olhos. O tempo, a lembrança e também o esquecimento provisório são grandes adjuvantes da releitura. Os exemplos são constantes, e aquele que começámos por dar, a propósito da reunião de textos em novas edições, é apenas um entre muitíssimos.



(1) CORTEZ, António Carlos, “Terrenos Antigos”, Jornal de Letras, Artes e Ideias, 30 Agosto – 12 Setembro 2006, p. 23.

3 comentários:

Anabela disse...

A releitura é sempre importante, eu acho. Porque o tempo deixa sempre pó em cima dos textos.

E o olhar de cada tempo é sempre só o olhar daquele tempo. Por exemplo, Proust e Joyce foram recebidos pela crítica contemporânea como maus escritores, como autores de maus livros, e hoje são mais compreendidos, são estimados pela crítica e pelo público, são vistos com um olhar distanciado pelo tempo que passou. São admirados e aclamados, hoje.

E, mesmo sabendo que os tempos mudam, que a Humanidade evolui em algumas coisas, que os modos de vida se vão transformando, a literatura, que fala, essencialmente, da VIDA, mostra-nos que em muitas coisas nós somos os mesmos de há séculos atrás. Mantêm-se as antigas formas de viver, de pensar, de amar, de reagir... Lemos a Bíblia, Homero, Ovídio, Propércio, Luciano, as cantigas de amigo, Camões e percebemos que é tudo tão actual! Que talvez, em certas coisas, não sejamos assim tão diferentes dos antigos...

Já não sei bem se foi o Harold Bloom que disse que um clássico é aquele livro que nunca esgota o que tem para dizer. É isso um bom livro.

Daí a importância da releitura. Limpar o pó e acender as luzes.

(E agora, João, estou a lembrar-me daquela aula que tivemos em que estava lá o poeta Gastão Cruz... Estava quase toda a gente com os livrinhos dele na mesa e tímida demais para fazer perguntas... :-) )

Beijinhos!

António disse...

A propósito disto, só me lembro de algo que li no Inimigo Público: um intelectual nunca admite que lê um livro pela primeira vez. Está sempre a RELER qualquer coisa.

Arquiduquesa de Grayskull disse...

Pois a mim acontece-me quase não ter coragem de reler os meus livros preferidos. É como se tivesse medo que eles me pudessem desiludir ao fim de alguns anos...