sexta-feira, julho 28, 2006

Uma suspeita

No meu íntimo, ainda que sem qualquer motivo sólido, eu pensava que ele pudesse ter morrido. Isso sem dúvida que explicaria a total ausência de notícias suas durantes aqueles dias. Como viria mais tarde a comprovar, não tinha esta suspeita qualquer cabimento, mas o certo é que na altura eu não possuía qualquer rigoroso conhecimento do seu estado de saúde. A doença, pública como se tornara nos últimos meses, permanecia porém envolta em mistério quanto à sua verdadeira gravidade. Lembro-me que ele me havia um dia confessado as dificuldades que começava a sentir em deslocar-se de um sítio para o outro, por mais curtas que fossem as distâncias. Alguns dos olhares que me lançava, por entre palavras esforçadas, denotavam sem dúvida um sofrimento copioso. Por tudo isto, após dias de silêncio da sua parte, pensei realmente que tivesse falecido, simplesmente deixado de ser, como sucede às palavras depois de proferidas e extinto o seu eco no pensamento e na memória. O seu telefonema acabou por ser uma agradável surpresa. É evidente que não lhe dei a entender o quão aliviado ficara, a nossa relação é ainda demasiado formal. Talvez com a ineviável morte de um de nós a nossa intimidade ganhe novo fôlego.

1 comentário:

rutebruno disse...

Por mais estranho que parece, identifiquei com esta escrita, não na semelhança mas na maneira como penetra em mim.
volto.
http://pegadasemim.blogspot.com/