quinta-feira, março 03, 2005

Nove

Estão dois homens fardados a dez metros de uma encruzilhada deserta. Cada um traz uma espingarda suja da poeira da estrada. E um cantil de água morna, transportado à tira colo. Foi-lhes construído há mês e meio aquele ponto de vigia cansado. Um albergue apertado, erguido a madeira e pregos, embandeirado no topo, ausente. Matam o tempo a esquivar-se ao medo e ao silêncio. Conhecem de cor a paisagem. Partilham os parcos mantimentos e pela noite acendem juntos um fogo inocente. Há dois dias que os rádios deixaram de emitir instruções. Há dois dias que nada sabem da cidade ou do futuro. Encontram-se a dez metros da encruzilhada. Fardados e escassos de munições. Um deles limpa o suor do rosto e por momentos repara na cor esbatida do horizonte. Amanhã pelo entardecer começarão a ouvir uns tiros ao longe, vindos do lado da cidade. E misturados com o som das balas, os grãos de poeira levantados pelo vento contra casebre. Irão recolher-se ao refúgio para limpar as espingardas e carregá-las de medo.

2 comentários:

watchout disse...

Muito bom, se é que estes comentários se podem permitir avaliar. Ainda assim, acho que tens o mesmo problema que eu, ou eu o mesmo que tu, que é trabalhar a relação entre a dimensão gráfica do texto (extensão) e a densidade da mensagem ("intensão").
O Augusto Abelaira faz isso na boa, por exemplo no romance Outrora Agora, e é claro que este "Nove" é um texto pequeno.
De qualquer forma, o "Nove" parece-se já muito mais com um excerto de romance do que com um fragmento pós-moderno (categoria velha para prática estafada, porque não?). Continua assim que vais mesmo longe.

Anónimo disse...

Muito bom. Extremamente interessante.
Rui Sequeira