quarta-feira, maio 20, 2015

domingo, maio 17, 2015

domingo, abril 19, 2015

Da absolvição

For people don't know how to offer absolution by themselves, nor do they have the power to do so. They lack the power to annihilate a sin once it has taken place. They need outside assistance. Divesting a sin of it's validity, voiding it, rubbing it out of time, in other words making something into nothing, requires a mysterious and supernatural act. Only God - because he is exempt from earthly laws, because He is free, because He can work miracles - may wash away sin, transform it into nothing, and absolve the sinner. Man can hold out absolution to his fellow man only insofar as he founds it on divine absolution.

Milan Kundera, The Joke  


domingo, abril 05, 2015

Uma canção para domingo



Seems like a big deal now
But you will get over

domingo, março 29, 2015

domingo, março 15, 2015

Da distância

If home is the parental home, it is no thread; it is only the past. Letters written by parents are messages from a shore we are foresaking; all they can do is make us aware of how far we have strayed from the port  we left, enveloped in the selfless devotion of our loved ones. Yes, their letters say, the port still exists, it's still there in all its conforting, pristine beauty; but the road back, the way back is lost. 

Milan Kundera, The Joke 


sábado, março 07, 2015

Este - Oeste

Ten kilometers from the Western house there stands the clean room* of the Great Plain, which was furnished with the best furniture when the house was built, the beds were done up with the best bedclothes, then the curtains were drawn, the shutters closed, leaving the smell of stale mould to accumulate. No one ever steps inside, no one uses it. The clean room is the magical space of Eastern man, and anyone who might take it into his head to actually live there would be regarded has having lost his mind. In the West, there are no more such magical spaces. Of course, there are no other magical spaces either. The world has been humanized. Life has become less interesting, also less dangerous, more balanced, perhaps duller, but at the same time more secure and, above all, more gentrified.
 * The clean room of a peasant house was used only on special occasions, but was not lived in, reducing the family's living space to the smoky kitchen, possibly one small room, the stable and granary.

 Béla Hamvas, The Five Geniuses


 
 

domingo, fevereiro 15, 2015

Do atraso

À casa da família Machado chegava tudo tarde: o telefone, a televisão a cores, as transmissões e o canal 2 da RTP, que só dava chuva, as encomendas de França - perdidas no posto dos Correios da Baixa da Banheira - e o almoço do menino, a comer a fruta a caminho da escola, a chegar atrasado, a pedir desculpa à professora, "o almoço atrasou-se, senhora professora". Atrasava-se a mulher para apanhar o autocarro e o marido para o trabalho, os pagamentos a Idalécio e ao Venâncio da mercearia, a água, a luz, as bilhas de gás do senhor Neves da drogaria. As notícias dos falecimentos só lhes chegavam uma semana depois, "o funeral foi a semana passada", os filhos começaram a andar tarde, aprenderam a ler tarde, viviam num fuso horário diferente, com dias de atraso, num arquipélago mental, ligavam a televisão e já o filme estava a acabar, quando compravam os sapatos da moda a moda já tinha passado, viviam em diferido, a correr atrás do tempo.  

 As Primeiras Coisas, Bruno Vieira Amaral


domingo, janeiro 25, 2015

Três poemas de Fonte Breve




Fonte Breve, de João Miguel Henriques (Tea for One, 2015). À venda em Lisboa nas livrarias Ler Devagar, Paralelo W e Letra Livre.


quarta-feira, janeiro 07, 2015

Fonte breve


Lançamento do livro de poesia Fonte Breve, de João Miguel Henriques (editado pela Tea for One), dia 10 de Janeiro, pelas 18:30, no Bar do Teatro A Barraca, em Lisboa. Por lá nos vemos.





domingo, dezembro 21, 2014

Uma canção para domingo



You got to beat it down to get to my soul


domingo, novembro 16, 2014

quinta-feira, outubro 09, 2014

Dicionário de Mitologia

Um breve conto, publicado aqui pela Enfermaria 6




domingo, agosto 10, 2014

Uma canção para domingo



There’s a gap between what a man wants and what a man will receive.

sábado, agosto 02, 2014

Hotel Sarajevo


tu devias-me uma tragédia
e eu fiz-ta pagar em incêndios.

faculdade de direito
junto à estátua do cavalo.
a polícia anda à nossa procura
e o dia ameaça a denúncia

as fronteiras estão todas fechadas.
o povo exige a nossa cabeça

quero esconder-nos numa viela
na cave esconsa do taberneiro
mas não há ruas para o teu corpo
tu já sequer cabes no mundo

por isso pagaste a tragédia com fogo
ateado na ponta dos dedos

tudo isto, claro está, noutra cidade
que não a colónia massacrada

quarta-feira, julho 23, 2014

domingo, julho 20, 2014

William N. Loew. Terceira parte


Hoje sinto-me especulativo. Quero aproveitar esta disposição para rematar o apontamento. Vai já largo o texto, é preciso concluir e deixar William em paz, devolvê-lo à tranquilidade de um quase anonimato. Não conheço em rigor a mentalidade daquela época na Europa Central, logo não consigo imaginar com total segurança o que pode ter motivado a emigração forçada de um jovem como William, varão de uma família de considerável projeção local. Alvitro uma questão de honra, uma coisa gravíssima. William mantém em segredo uma relação sexual com uma senhora casada de Szeged. O caso é descoberto, o marido exige a reposição da honra e o pai rabino bane o filho para o outro lado do oceano por tempo indeterminado, preservando assim de alguma forma a integridade do nome familiar. Ou então, inusitadamente ébrio, numa noite estival de farra intensa, envolve-se em indesejada altercação, na qual acaba acidentalmente por matar um homem. É uma boa história, eu gosto da desgraça assim ocorrendo imprevisivelmente. Mas não creio que a família permitisse a fuga do filho aos rigores da lei, e a possibilidade do degredo enquanto pena prevista parece-me absolutamente anacrónica. Não, penso que não houve sangue. E a hipótese de enorme e irreparável desavença familiar não se adequa, como já foi aqui dito, ao carinho e respeito subsequentemente demonstrados pelo emigrado William. Uma das notas biográficas disponíveis contém uma curiosa frase, na qual se diz que William se alistou no exército em 1866, mas antes de poder iniciar a sua carreira militar teve lugar a Batalha de Custoza, tendo o jovem aspirante emigrado no ano seguinte. A relação causa-efeito aqui sugerida é tudo menos clara. Ainda dei por mim a pensar que talvez William tivesse desertado das fileiras em vésperas da importante batalha. A confirmar-se, isso seria sem dúvida ofensa suficiente para provocar expulsão do império, até mesmo pena de prisão ou sentença de morte, consequências possivelmente mitigadas pelo facto de se tratar do filho de uma das principais autoridades religiosas do território. Mas a informação sugere que ele nem sequer chegou a ser soldado, pelo que a hipótese se torna demasiado esdrúxula, mesmo para uma apetência como a minha. 
Temos portanto William em Nova Iorque. Na verdade, temos William pela primeira vez na vida, anglicizado agora o Vilmos original. Löw passa também para Loew, de forma a evitar o exótico trema. A Grande Maçã é agora a sua nova casa e futuro local de trabalho e falecimento. Que sabemos da sua vida, para além da dedicação às letras magiares na qualidade de diligente tradutor? Torna-se advogado e abre um escritório para exercício da atividade. Surge em alguns registos como advogado de defesa nomeado pelo Estado, embora mais tarde, num dos seus prefácios, verbalize certa desilusão por falta de trabalho. Tem família e filhos, sendo um dos rebentos a notável advogada Rosalie Loew Whitney, sufragista de considerável proeminência. Participa ativamente na vida da comunidade húngara nos Estados Unidos, como o comprovam uma ou outra reportagem do New York Times, onde o seu nome surge referido como convidado ou discursante. No evento abaixo descrito pela imprensa, imaginamo-lo um daqueles indivíduos chatos, com a mania dos versos, a impor ao programa, contra todas as vontades, a leitura de poemas húngaros no original e respetiva tradução por si mesmo cristalizada. 



Não sei que mais diga. Também o tema já está um pouco esgotado. Pronto, encontrei por acidente um poema manuscrito num livro antigo, grande coisa. Investiguei o que pude para desenterrar o autor do lodo do tempo e adicionei eu próprio umas pinceladas. Ai, as coisas a que uma pessoa se presta por amor à palavra (ou tédio em relação a tudo o mais na vida). A figura também não é assim tão interessante. Penso que vi nela alguns pontos em comum comigo mesmo, tradutor e poeta de circunstância, emigrado também, se bem que não para tão longe.Vá, podes ir, William. Depois chamo-te se um dia encontrar mais alguma coisa. Obrigado pelas traduções e fica descansado que a tua Szeged cá continua formosa e verdejante. O teu poema mantém-se atual e lá permanece guardado num bom recanto de biblioteca.