domingo, março 29, 2015
domingo, março 15, 2015
Da distância
If home is the parental home, it is no thread; it is only the past. Letters written by parents are messages from a shore we are foresaking; all they can do is make us aware of how far we have strayed from the port we left, enveloped in the selfless devotion of our loved ones. Yes, their letters say, the port still exists, it's still there in all its conforting, pristine beauty; but the road back, the way back is lost.
Milan Kundera, The Joke
sábado, março 07, 2015
Este - Oeste
Ten kilometers from the Western house there stands the clean room* of the Great Plain, which was furnished with the best furniture when the house was built, the beds were done up with the best bedclothes, then the curtains were drawn, the shutters closed, leaving the smell of stale mould to accumulate. No one ever steps inside, no one uses it. The clean room is the magical space of Eastern man, and anyone who might take it into his head to actually live there would be regarded has having lost his mind. In the West, there are no more such magical spaces. Of course, there are no other magical spaces either. The world has been humanized. Life has become less interesting, also less dangerous, more balanced, perhaps duller, but at the same time more secure and, above all, more gentrified.
* The clean room of a peasant house was used only on special occasions, but was not lived in, reducing the family's living space to the smoky kitchen, possibly one small room, the stable and granary.
Béla Hamvas, The Five Geniuses
domingo, fevereiro 15, 2015
Do atraso
À casa da família Machado chegava tudo tarde: o telefone, a televisão a cores, as transmissões e o canal 2 da RTP, que só dava chuva, as encomendas de França - perdidas no posto dos Correios da Baixa da Banheira - e o almoço do menino, a comer a fruta a caminho da escola, a chegar atrasado, a pedir desculpa à professora, "o almoço atrasou-se, senhora professora". Atrasava-se a mulher para apanhar o autocarro e o marido para o trabalho, os pagamentos a Idalécio e ao Venâncio da mercearia, a água, a luz, as bilhas de gás do senhor Neves da drogaria. As notícias dos falecimentos só lhes chegavam uma semana depois, "o funeral foi a semana passada", os filhos começaram a andar tarde, aprenderam a ler tarde, viviam num fuso horário diferente, com dias de atraso, num arquipélago mental, ligavam a televisão e já o filme estava a acabar, quando compravam os sapatos da moda a moda já tinha passado, viviam em diferido, a correr atrás do tempo.
As Primeiras Coisas, Bruno Vieira Amaral
domingo, janeiro 25, 2015
Três poemas de Fonte Breve
Fonte Breve, de João Miguel Henriques (Tea for One, 2015). À venda em Lisboa nas livrarias Ler Devagar, Paralelo W e Letra Livre.
sexta-feira, janeiro 16, 2015
quarta-feira, janeiro 07, 2015
Fonte breve
Lançamento do livro de poesia Fonte Breve, de João Miguel Henriques (editado pela Tea for One), dia 10 de Janeiro, pelas 18:30, no Bar do Teatro A Barraca, em Lisboa. Por lá nos vemos.
domingo, dezembro 21, 2014
domingo, novembro 16, 2014
quinta-feira, outubro 09, 2014
domingo, setembro 21, 2014
domingo, agosto 10, 2014
sábado, agosto 02, 2014
Hotel Sarajevo
tu devias-me uma tragédia
e eu fiz-ta pagar em incêndios.
faculdade de direito
junto à estátua do cavalo.
a polícia anda à nossa procura
e o dia ameaça a denúncia
as fronteiras estão todas fechadas.
o povo exige a nossa cabeça
quero esconder-nos numa viela
na cave esconsa do taberneiro
mas não há ruas para o teu corpo
tu já sequer cabes no mundo
por isso pagaste a tragédia com fogo
ateado na ponta dos dedos
tudo isto, claro está, noutra cidade
que não a colónia massacrada
quarta-feira, julho 23, 2014
domingo, julho 20, 2014
William N. Loew. Terceira parte
Hoje sinto-me especulativo. Quero aproveitar esta disposição para rematar o apontamento. Vai já largo o texto, é preciso concluir e deixar William em paz, devolvê-lo à tranquilidade de um quase anonimato. Não conheço em rigor a mentalidade daquela época na Europa Central, logo não consigo imaginar com total segurança o que pode ter motivado a emigração forçada de um jovem como William, varão de uma família de considerável projeção local. Alvitro uma questão de honra, uma coisa gravíssima. William mantém em segredo uma relação sexual com uma senhora casada de Szeged. O caso é descoberto, o marido exige a reposição da honra e o pai rabino bane o filho para o outro lado do oceano por tempo indeterminado, preservando assim de alguma forma a integridade do nome familiar. Ou então, inusitadamente ébrio, numa noite estival de farra intensa, envolve-se em indesejada altercação, na qual acaba acidentalmente por matar um homem. É uma boa história, eu gosto da desgraça assim ocorrendo imprevisivelmente. Mas não creio que a família permitisse a fuga do filho aos rigores da lei, e a possibilidade do degredo enquanto pena prevista parece-me absolutamente anacrónica. Não, penso que não houve sangue. E a hipótese de enorme e irreparável desavença familiar não se adequa, como já foi aqui dito, ao carinho e respeito subsequentemente demonstrados pelo emigrado William. Uma das notas biográficas disponíveis contém uma curiosa frase, na qual se diz que William se alistou no exército em 1866, mas antes de poder iniciar a sua carreira militar teve lugar a Batalha de Custoza, tendo o jovem aspirante emigrado no ano seguinte. A relação causa-efeito aqui sugerida é tudo menos clara. Ainda dei por mim a pensar que talvez William tivesse desertado das fileiras em vésperas da importante batalha. A confirmar-se, isso seria sem dúvida ofensa suficiente para provocar expulsão do império, até mesmo pena de prisão ou sentença de morte, consequências possivelmente mitigadas pelo facto de se tratar do filho de uma das principais autoridades religiosas do território. Mas a informação sugere que ele nem sequer chegou a ser soldado, pelo que a hipótese se torna demasiado esdrúxula, mesmo para uma apetência como a minha.
Temos portanto William em Nova Iorque. Na verdade, temos William pela primeira vez na vida, anglicizado agora o Vilmos original. Löw passa também para Loew, de forma a evitar o exótico trema. A Grande Maçã é agora a sua nova casa e futuro local de trabalho e falecimento. Que sabemos da sua vida, para além da dedicação às letras magiares na qualidade de diligente tradutor? Torna-se advogado e abre um escritório para exercício da atividade. Surge em alguns registos como advogado de defesa nomeado pelo Estado, embora mais tarde, num dos seus prefácios, verbalize certa desilusão por falta de trabalho. Tem família e filhos, sendo um dos rebentos a notável advogada Rosalie Loew Whitney, sufragista de considerável proeminência. Participa ativamente na vida da comunidade húngara nos Estados Unidos, como o comprovam uma ou outra reportagem do New York Times, onde o seu nome surge referido como convidado ou discursante. No evento abaixo descrito pela imprensa, imaginamo-lo um daqueles indivíduos chatos, com a mania dos versos, a impor ao programa, contra todas as vontades, a leitura de poemas húngaros no original e respetiva tradução por si mesmo cristalizada.
Não sei que mais diga. Também o tema já está um pouco esgotado. Pronto, encontrei por acidente um poema manuscrito num livro antigo, grande coisa. Investiguei o que pude para desenterrar o autor do lodo do tempo e adicionei eu próprio umas pinceladas. Ai, as coisas a que uma pessoa se presta por amor à palavra (ou tédio em relação a tudo o mais na vida). A figura também não é assim tão interessante. Penso que vi nela alguns pontos em comum comigo mesmo, tradutor e poeta de circunstância, emigrado também, se bem que não para tão longe.Vá, podes ir, William. Depois chamo-te se um dia encontrar mais alguma coisa. Obrigado pelas traduções e fica descansado que a tua Szeged cá continua formosa e verdejante. O teu poema mantém-se atual e lá permanece guardado num bom recanto de biblioteca.
domingo, julho 13, 2014
domingo, junho 08, 2014
Dois poemas de Pedro Corrêa
Debaixo das árvores lembro, pingar gomosa a figueira
ou o áspero cumprimento das suas folhas, abertas mãos
muito verde a infância a manchar a joelheira das calças
Pendurado na ácida ameixieira os galhos eram agulhas de tricô
intrometidas nas lãs da camisola e os seus frutos de um amarelo
que nem assim tem a adolescência e não sei remexer na memória
Nos altos voos da pereira perdíamos a coragem
infantil, era já dor o crescimento, a amarinhar a vida
Sem saber como descer, conquistávamos a intimidade
ao medo. Ainda não como o perder da inocência
que conheceria aos trinta anos. Na adulta adolescência
não éramos pútrida fruta beijando a úbere terra
nem nosso amor crestava aberto à violação dos pássaros
Das duas mulheres de Elcaná é Fenena quem dá à luz
Deus fizera estéril Ana, por razões que o livro não traduz
Contam as páginas porém, que nas montanhas de Efraim
Ama Elcaná mais a Ana
A cada ano o marido mais as duas mulheres partem
Peregrinando, em adoração e oferenda, ao santuário de Silo
sacrificando maior a porção de Fenena e a de Ana pequena
porque não gerara um filho
Ana é humilhada por Fenena por seu ventre não procriar
De tamanha a sua pena, a sufita morena se põe a chorar
Ao ver que não come, o marido, decidido, questiona a mulher
se por não gerarem menos o quer
Um dia Ana cumpre o sacrifício, comendo no santuário
chorando em silêncio pede a Deus o filho, que Lhe consagrará
Em vão o sacerdote tenta entender, pois na silenciosa oração
cala o estéril corpo, o filho que não lhe dá
Desconhecendo o sofrimento, o sacerdote julga-a embriagada
e no mesmo sôfrego momento, de pronto a condena por leviana
Aflita e triste com o ventre infrutífero, tal como fora o de Sara
perante Deus, ao sacerdote, se justifica Ana
Levantando-se de madrugada e após oração em solo sagrado
partem Elcaná e as duas mulheres de regresso à montanha
E querendo Deus, por amor do homem consumado em Ana
é o profeta Samuel para Si gerado
in Três Pontos
segunda-feira, junho 02, 2014
terça-feira, maio 27, 2014
Purificação pelo fogo
Then Rama turned his face away. "I do not wish to look on you," he said. "I have avenged my wrongs and cleared my honour, but you have lived in Ravana's palace and you can no longer be my wife."
The cheering troops became silent as they heard the stern words, and Sita's eyes filled with tears. "My lord, these are cruel and unjust words," she said. "Never, even in thought, have I been unfaithful to you. Have you rescued me only to abandon me? If I had known this, I would have killed myself long ago, and I will live no longer now. Dear brother Lakshmana, prepare my funeral pile and let me enter the fire."
Lakshmana looked at Rama in horror, but Rama was silent, so with a heavy heart he obeyed, and with the help of the monkeys he prepared the pyre. Them Sita prayed: "O Agni, Lord of flame, who knows the heart, protect my body in the fire and prove me true to Rama." The flames blazed up, and Sita embraced Rama's feet and fearlessly entered the fire.
A cry of grief and horror arose from the army, and from the citizens who watched from the walls of Lanka. Rama, seeing his beloved wife surounded by the flames, was wild with remorse. "What have I done, what have I done?", he moaned. Them the leaping flames changed to a calmer, purer light, and out of the fire rose the mighty Agni himself. He carried Sita as his daughter on his knee, more lovely than she had ever been. "Receive your faithful wife," he said to Rama, "for I know the hearts of all, and she is pure and true." The Gandharvas and the gods appeared in the skies and among them Rama beheld his father Dasaratha.
The Prince bowed his head humbly before the divine beings. Then taking Sita's hand in his, he said, "Before all these witnesses I take you as my wife. I was maddened with suspicion even though I knew your faithfulness, and I thank the gods for guarding you from harm."
Then there arose a great cry of joy and thankfulness. Thrones were made ready by eager hands, and Sita sat beside Rama in happiness while the trumpets sounded and scented flower petals were showered on their heads.
The Story of Ramayana
domingo, maio 18, 2014
Memória de William N. Loew. Segunda Parte
Já estou mesmo a ver o que vai acontecer. Se eu me puser aqui a construir uma biografia à minha maneira, sem respeito por fontes ou factos, algum leitor mais escrupuloso e atento há-de inevitavelmente descobrir-me a careca (confesso, tenho um fraco por idiomatismos) e criticar-me o desplante. Dir-se-á, não sem ponta de justiça, que empolei vida e obra de William N. Loew para do mesmo modo engrandecer a relevância do meu achado bibliográfico. Não irei, por conseguinte, fazer vista grossa dos dados disponíveis, ainda que não possa resistir a preencher lacunas e deslindar dúvidas com o que me ditam as afeições do intelecto.
Tanto quanto pôde ser determinado, William N. Loew nunca publicou poesia em nome próprio, embora seja legítimo concluir, com base em palavras escritas por seu punho, que tivesse certas ambições literárias (1). Isso e o poema descoberto admitem a hipótese de que escrevesse com maior ou menor regularidade para a gaveta. Imagino-o a mostrar os seus versos a um qualquer amigo com sensibilidade literária ou a oferecer uma estância por ocasião do aniversário de um familiar. O único título por si publicado na qualidade de autor é nem mais nem menos que uma biografia do seu pai Leopold Loew (Lipóti Löw, na versão húngara), rabino de Szeged e figura de relevo na história dos judeus na Europa (2). Não pretendo desvirtuar esta memória do filho com o peso que a figura do pai teve para os judeus da Europa Central. Uma pesquisa das mais superficiais dará de Leopold todos os contornos de uma vida e obra de envergadura significativa. Por comparação até com os seus cinco irmãos varões (não contamos aqui com os meio-irmãos, fruto do segundo casamento do pai), William parece ser a figura mais indeterminada, tanto mais se do todo subtrairmos as ocorrências em que o seu nome surge meramente na qualidade de tradutor para inglês de autores húngaros, labor em que se mostrou aliás incansável. Por conseguinte, de William Noah Loew temos informações soltas no tempo e no espaço, não sendo porém impossível uni-las num todo coerente.
Nasceu na Hungria oitocentista, onde recebeu o nome de Vilmos, o equivalente húngaro do posterior William. As duas brevíssimas notas biográficas disponíveis fornecem 1847 como ano de nascimento, ainda que ambas o façam acompanhar de um ponto de interrogação. Discordam porém no local, uma delas referindo a dilecta Szeged, a cuja destruição em 1879 William teve a fortuna de já não assistir, e a outra fazendo-o nascer na histórica cidade de Pápa, no condado de Veszprém. Não deixa de fazer mais sentido esta segunda hipótese, uma vez que foi nessa cidade que o seu pai exerceu as funções de rabino entre 1846 e 1850, antes da mudança da família para Szeged. Mas eu cá prefiro a segunda hipótese. Não quero muito saber desses primeiros anos de choros e incontinências. Nunca estive em Pápa. Em tempos conheci um casal que por lá vivera uns tempos e não recordo que falassem do lugar com grande entusiasmo. Além disso, descubro agora, por observações do próprio William na mencionada biografia do seu pai, que os anos nessa cidade foram penosos para a família Löw (assim originalmente grafado em húngaro), uma vez que o rabino Leopold se viu aí constantemente alvo de intrigas e ataques por parte da ala mais ortodoxa do seu rebanho. Coloquemos portanto William desde sempre em Szeged, onde teria seguramente encontrado berço mais tranquilo. Pouco sabemos da sua juventude nesta cidade, embora o poema encontrado e a estima com que a ela se refere no já citado prefácio nos façam crer ter sido de boa memória (3). Como Cristo, se bem que de forma não tão misteriosa e flagrante, dele pouco ou nada sabemos nos anos seguintes, até 1867, ano da sua partida para a América e do importante Compromisso Austro-Húngaro, o qual veio em parte satisfazer os desejos de autonomia do governo magiar, após a malograda revolução de 1848. Estaremos aqui perante uma coincidência de datas ou terá havido alguma relação entre a mudança política no país e a forma como William, na flor dos seus vinte anos de idade, abandonou a pátria amada rumo ao desconhecido? Nos prefácios por si assinados, William permanece calado sobre o assunto, preferindo apenas celebrar a sua memória da Hungria, os melhores cultores do singular idioma e a família de que há tantos anos se apartara. Ficamos por vezes com a sensação de estar a redimir-se de algo, como se lhe pesasse ainda o episódio da partida. De um dos seus bisnetos norte-americanos temos o único comentário acerca da sua emigração, creditando-a a uma decisão familiar. Citamos: "My father’s grandfather came here from Hungary in 1866, when he was nineteen. His family sent him off with a one-way ticket! We suspect he must have been a bit of a rebel, one of thirteen kids, seeking independence and secular identity, battling the obstacles in his path. The family had a proud history in Hungary, with rabbis and doctors and industrialists, including one of the most famous rabbis in Slavic History, Jehude Loew of Prague, who died in 1609" (4). Penso que o bisneto se equivoca no ano da partida, mas em compensação abre-me portas para toda uma série de conjeturas. E sem isso, sejamos sinceros, escasso interesse teria a vida do nosso William.
(1) No prefácio de 1908 a uma nova edição, revista e aumentada, das suas traduções de poesia húngara, Loew afirma: “I need not repeat here what I said in the preface to the last volume, which was published about ten years ago, that my work in this field is by no means to be ascribed to any ambition on my part to be recognized as a God-born son of song”. Talvez o espírito da época exigisse semelhante ressalva, embora não deixe de ser curioso que um tradutor se veja impelido a negar veia lírica própria. Por conseguinte, pode a afirmação pretender precisamente lembrar o leitor que também o tradutor é poeta, embora não seja sua intenção evidenciá-lo no volume em causa. De William N. Loew conhecemos apenas dois poemas impressos, ambos inesperadamente incluídos em jeito de introdução a dois volumes da sua responsabilidade.
(2) Leopold Loew: a biography. With a translation of some of the tributes paid to his memory on the occasion of the centenary of his birth, celebrated at Szeged, Hungary, June 4, 1911 (New York, Privately Printed, 1912). O volume é introduzido por um poema de William intitulado “In Memoriam”. Dedicado ao pai, a composição mantém o tom laudatório e a rima emparelhada do manuscrito encontrado na Biblioteca da Universidade de Szeged.
(3) Nesse texto, Loew fala do seu admirável labor de tradução como “token of my undying love for my native land, which a residence of more than forty years in the United States has not diminished, I devote my time”.
(4) http://www.iibayarea.org/wp-content/themes/institute/resources/annualreports/iisf_ar2005.pdf. Consultado em Maio de 2014.
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