sábado, agosto 02, 2014
Hotel Sarajevo
tu devias-me uma tragédia
e eu fiz-ta pagar em incêndios.
faculdade de direito
junto à estátua do cavalo.
a polícia anda à nossa procura
e o dia ameaça a denúncia
as fronteiras estão todas fechadas.
o povo exige a nossa cabeça
quero esconder-nos numa viela
na cave esconsa do taberneiro
mas não há ruas para o teu corpo
tu já sequer cabes no mundo
por isso pagaste a tragédia com fogo
ateado na ponta dos dedos
tudo isto, claro está, noutra cidade
que não a colónia massacrada
quarta-feira, julho 23, 2014
domingo, julho 20, 2014
William N. Loew. Terceira parte
Hoje sinto-me especulativo. Quero aproveitar esta disposição para rematar o apontamento. Vai já largo o texto, é preciso concluir e deixar William em paz, devolvê-lo à tranquilidade de um quase anonimato. Não conheço em rigor a mentalidade daquela época na Europa Central, logo não consigo imaginar com total segurança o que pode ter motivado a emigração forçada de um jovem como William, varão de uma família de considerável projeção local. Alvitro uma questão de honra, uma coisa gravíssima. William mantém em segredo uma relação sexual com uma senhora casada de Szeged. O caso é descoberto, o marido exige a reposição da honra e o pai rabino bane o filho para o outro lado do oceano por tempo indeterminado, preservando assim de alguma forma a integridade do nome familiar. Ou então, inusitadamente ébrio, numa noite estival de farra intensa, envolve-se em indesejada altercação, na qual acaba acidentalmente por matar um homem. É uma boa história, eu gosto da desgraça assim ocorrendo imprevisivelmente. Mas não creio que a família permitisse a fuga do filho aos rigores da lei, e a possibilidade do degredo enquanto pena prevista parece-me absolutamente anacrónica. Não, penso que não houve sangue. E a hipótese de enorme e irreparável desavença familiar não se adequa, como já foi aqui dito, ao carinho e respeito subsequentemente demonstrados pelo emigrado William. Uma das notas biográficas disponíveis contém uma curiosa frase, na qual se diz que William se alistou no exército em 1866, mas antes de poder iniciar a sua carreira militar teve lugar a Batalha de Custoza, tendo o jovem aspirante emigrado no ano seguinte. A relação causa-efeito aqui sugerida é tudo menos clara. Ainda dei por mim a pensar que talvez William tivesse desertado das fileiras em vésperas da importante batalha. A confirmar-se, isso seria sem dúvida ofensa suficiente para provocar expulsão do império, até mesmo pena de prisão ou sentença de morte, consequências possivelmente mitigadas pelo facto de se tratar do filho de uma das principais autoridades religiosas do território. Mas a informação sugere que ele nem sequer chegou a ser soldado, pelo que a hipótese se torna demasiado esdrúxula, mesmo para uma apetência como a minha.
Temos portanto William em Nova Iorque. Na verdade, temos William pela primeira vez na vida, anglicizado agora o Vilmos original. Löw passa também para Loew, de forma a evitar o exótico trema. A Grande Maçã é agora a sua nova casa e futuro local de trabalho e falecimento. Que sabemos da sua vida, para além da dedicação às letras magiares na qualidade de diligente tradutor? Torna-se advogado e abre um escritório para exercício da atividade. Surge em alguns registos como advogado de defesa nomeado pelo Estado, embora mais tarde, num dos seus prefácios, verbalize certa desilusão por falta de trabalho. Tem família e filhos, sendo um dos rebentos a notável advogada Rosalie Loew Whitney, sufragista de considerável proeminência. Participa ativamente na vida da comunidade húngara nos Estados Unidos, como o comprovam uma ou outra reportagem do New York Times, onde o seu nome surge referido como convidado ou discursante. No evento abaixo descrito pela imprensa, imaginamo-lo um daqueles indivíduos chatos, com a mania dos versos, a impor ao programa, contra todas as vontades, a leitura de poemas húngaros no original e respetiva tradução por si mesmo cristalizada.
Não sei que mais diga. Também o tema já está um pouco esgotado. Pronto, encontrei por acidente um poema manuscrito num livro antigo, grande coisa. Investiguei o que pude para desenterrar o autor do lodo do tempo e adicionei eu próprio umas pinceladas. Ai, as coisas a que uma pessoa se presta por amor à palavra (ou tédio em relação a tudo o mais na vida). A figura também não é assim tão interessante. Penso que vi nela alguns pontos em comum comigo mesmo, tradutor e poeta de circunstância, emigrado também, se bem que não para tão longe.Vá, podes ir, William. Depois chamo-te se um dia encontrar mais alguma coisa. Obrigado pelas traduções e fica descansado que a tua Szeged cá continua formosa e verdejante. O teu poema mantém-se atual e lá permanece guardado num bom recanto de biblioteca.
domingo, julho 13, 2014
domingo, junho 08, 2014
Dois poemas de Pedro Corrêa
Debaixo das árvores lembro, pingar gomosa a figueira
ou o áspero cumprimento das suas folhas, abertas mãos
muito verde a infância a manchar a joelheira das calças
Pendurado na ácida ameixieira os galhos eram agulhas de tricô
intrometidas nas lãs da camisola e os seus frutos de um amarelo
que nem assim tem a adolescência e não sei remexer na memória
Nos altos voos da pereira perdíamos a coragem
infantil, era já dor o crescimento, a amarinhar a vida
Sem saber como descer, conquistávamos a intimidade
ao medo. Ainda não como o perder da inocência
que conheceria aos trinta anos. Na adulta adolescência
não éramos pútrida fruta beijando a úbere terra
nem nosso amor crestava aberto à violação dos pássaros
Das duas mulheres de Elcaná é Fenena quem dá à luz
Deus fizera estéril Ana, por razões que o livro não traduz
Contam as páginas porém, que nas montanhas de Efraim
Ama Elcaná mais a Ana
A cada ano o marido mais as duas mulheres partem
Peregrinando, em adoração e oferenda, ao santuário de Silo
sacrificando maior a porção de Fenena e a de Ana pequena
porque não gerara um filho
Ana é humilhada por Fenena por seu ventre não procriar
De tamanha a sua pena, a sufita morena se põe a chorar
Ao ver que não come, o marido, decidido, questiona a mulher
se por não gerarem menos o quer
Um dia Ana cumpre o sacrifício, comendo no santuário
chorando em silêncio pede a Deus o filho, que Lhe consagrará
Em vão o sacerdote tenta entender, pois na silenciosa oração
cala o estéril corpo, o filho que não lhe dá
Desconhecendo o sofrimento, o sacerdote julga-a embriagada
e no mesmo sôfrego momento, de pronto a condena por leviana
Aflita e triste com o ventre infrutífero, tal como fora o de Sara
perante Deus, ao sacerdote, se justifica Ana
Levantando-se de madrugada e após oração em solo sagrado
partem Elcaná e as duas mulheres de regresso à montanha
E querendo Deus, por amor do homem consumado em Ana
é o profeta Samuel para Si gerado
in Três Pontos
segunda-feira, junho 02, 2014
terça-feira, maio 27, 2014
Purificação pelo fogo
Then Rama turned his face away. "I do not wish to look on you," he said. "I have avenged my wrongs and cleared my honour, but you have lived in Ravana's palace and you can no longer be my wife."
The cheering troops became silent as they heard the stern words, and Sita's eyes filled with tears. "My lord, these are cruel and unjust words," she said. "Never, even in thought, have I been unfaithful to you. Have you rescued me only to abandon me? If I had known this, I would have killed myself long ago, and I will live no longer now. Dear brother Lakshmana, prepare my funeral pile and let me enter the fire."
Lakshmana looked at Rama in horror, but Rama was silent, so with a heavy heart he obeyed, and with the help of the monkeys he prepared the pyre. Them Sita prayed: "O Agni, Lord of flame, who knows the heart, protect my body in the fire and prove me true to Rama." The flames blazed up, and Sita embraced Rama's feet and fearlessly entered the fire.
A cry of grief and horror arose from the army, and from the citizens who watched from the walls of Lanka. Rama, seeing his beloved wife surounded by the flames, was wild with remorse. "What have I done, what have I done?", he moaned. Them the leaping flames changed to a calmer, purer light, and out of the fire rose the mighty Agni himself. He carried Sita as his daughter on his knee, more lovely than she had ever been. "Receive your faithful wife," he said to Rama, "for I know the hearts of all, and she is pure and true." The Gandharvas and the gods appeared in the skies and among them Rama beheld his father Dasaratha.
The Prince bowed his head humbly before the divine beings. Then taking Sita's hand in his, he said, "Before all these witnesses I take you as my wife. I was maddened with suspicion even though I knew your faithfulness, and I thank the gods for guarding you from harm."
Then there arose a great cry of joy and thankfulness. Thrones were made ready by eager hands, and Sita sat beside Rama in happiness while the trumpets sounded and scented flower petals were showered on their heads.
The Story of Ramayana
domingo, maio 18, 2014
Memória de William N. Loew. Segunda Parte
Já estou mesmo a ver o que vai acontecer. Se eu me puser aqui a construir uma biografia à minha maneira, sem respeito por fontes ou factos, algum leitor mais escrupuloso e atento há-de inevitavelmente descobrir-me a careca (confesso, tenho um fraco por idiomatismos) e criticar-me o desplante. Dir-se-á, não sem ponta de justiça, que empolei vida e obra de William N. Loew para do mesmo modo engrandecer a relevância do meu achado bibliográfico. Não irei, por conseguinte, fazer vista grossa dos dados disponíveis, ainda que não possa resistir a preencher lacunas e deslindar dúvidas com o que me ditam as afeições do intelecto.
Tanto quanto pôde ser determinado, William N. Loew nunca publicou poesia em nome próprio, embora seja legítimo concluir, com base em palavras escritas por seu punho, que tivesse certas ambições literárias (1). Isso e o poema descoberto admitem a hipótese de que escrevesse com maior ou menor regularidade para a gaveta. Imagino-o a mostrar os seus versos a um qualquer amigo com sensibilidade literária ou a oferecer uma estância por ocasião do aniversário de um familiar. O único título por si publicado na qualidade de autor é nem mais nem menos que uma biografia do seu pai Leopold Loew (Lipóti Löw, na versão húngara), rabino de Szeged e figura de relevo na história dos judeus na Europa (2). Não pretendo desvirtuar esta memória do filho com o peso que a figura do pai teve para os judeus da Europa Central. Uma pesquisa das mais superficiais dará de Leopold todos os contornos de uma vida e obra de envergadura significativa. Por comparação até com os seus cinco irmãos varões (não contamos aqui com os meio-irmãos, fruto do segundo casamento do pai), William parece ser a figura mais indeterminada, tanto mais se do todo subtrairmos as ocorrências em que o seu nome surge meramente na qualidade de tradutor para inglês de autores húngaros, labor em que se mostrou aliás incansável. Por conseguinte, de William Noah Loew temos informações soltas no tempo e no espaço, não sendo porém impossível uni-las num todo coerente.
Nasceu na Hungria oitocentista, onde recebeu o nome de Vilmos, o equivalente húngaro do posterior William. As duas brevíssimas notas biográficas disponíveis fornecem 1847 como ano de nascimento, ainda que ambas o façam acompanhar de um ponto de interrogação. Discordam porém no local, uma delas referindo a dilecta Szeged, a cuja destruição em 1879 William teve a fortuna de já não assistir, e a outra fazendo-o nascer na histórica cidade de Pápa, no condado de Veszprém. Não deixa de fazer mais sentido esta segunda hipótese, uma vez que foi nessa cidade que o seu pai exerceu as funções de rabino entre 1846 e 1850, antes da mudança da família para Szeged. Mas eu cá prefiro a segunda hipótese. Não quero muito saber desses primeiros anos de choros e incontinências. Nunca estive em Pápa. Em tempos conheci um casal que por lá vivera uns tempos e não recordo que falassem do lugar com grande entusiasmo. Além disso, descubro agora, por observações do próprio William na mencionada biografia do seu pai, que os anos nessa cidade foram penosos para a família Löw (assim originalmente grafado em húngaro), uma vez que o rabino Leopold se viu aí constantemente alvo de intrigas e ataques por parte da ala mais ortodoxa do seu rebanho. Coloquemos portanto William desde sempre em Szeged, onde teria seguramente encontrado berço mais tranquilo. Pouco sabemos da sua juventude nesta cidade, embora o poema encontrado e a estima com que a ela se refere no já citado prefácio nos façam crer ter sido de boa memória (3). Como Cristo, se bem que de forma não tão misteriosa e flagrante, dele pouco ou nada sabemos nos anos seguintes, até 1867, ano da sua partida para a América e do importante Compromisso Austro-Húngaro, o qual veio em parte satisfazer os desejos de autonomia do governo magiar, após a malograda revolução de 1848. Estaremos aqui perante uma coincidência de datas ou terá havido alguma relação entre a mudança política no país e a forma como William, na flor dos seus vinte anos de idade, abandonou a pátria amada rumo ao desconhecido? Nos prefácios por si assinados, William permanece calado sobre o assunto, preferindo apenas celebrar a sua memória da Hungria, os melhores cultores do singular idioma e a família de que há tantos anos se apartara. Ficamos por vezes com a sensação de estar a redimir-se de algo, como se lhe pesasse ainda o episódio da partida. De um dos seus bisnetos norte-americanos temos o único comentário acerca da sua emigração, creditando-a a uma decisão familiar. Citamos: "My father’s grandfather came here from Hungary in 1866, when he was nineteen. His family sent him off with a one-way ticket! We suspect he must have been a bit of a rebel, one of thirteen kids, seeking independence and secular identity, battling the obstacles in his path. The family had a proud history in Hungary, with rabbis and doctors and industrialists, including one of the most famous rabbis in Slavic History, Jehude Loew of Prague, who died in 1609" (4). Penso que o bisneto se equivoca no ano da partida, mas em compensação abre-me portas para toda uma série de conjeturas. E sem isso, sejamos sinceros, escasso interesse teria a vida do nosso William.
(1) No prefácio de 1908 a uma nova edição, revista e aumentada, das suas traduções de poesia húngara, Loew afirma: “I need not repeat here what I said in the preface to the last volume, which was published about ten years ago, that my work in this field is by no means to be ascribed to any ambition on my part to be recognized as a God-born son of song”. Talvez o espírito da época exigisse semelhante ressalva, embora não deixe de ser curioso que um tradutor se veja impelido a negar veia lírica própria. Por conseguinte, pode a afirmação pretender precisamente lembrar o leitor que também o tradutor é poeta, embora não seja sua intenção evidenciá-lo no volume em causa. De William N. Loew conhecemos apenas dois poemas impressos, ambos inesperadamente incluídos em jeito de introdução a dois volumes da sua responsabilidade.
(2) Leopold Loew: a biography. With a translation of some of the tributes paid to his memory on the occasion of the centenary of his birth, celebrated at Szeged, Hungary, June 4, 1911 (New York, Privately Printed, 1912). O volume é introduzido por um poema de William intitulado “In Memoriam”. Dedicado ao pai, a composição mantém o tom laudatório e a rima emparelhada do manuscrito encontrado na Biblioteca da Universidade de Szeged.
(3) Nesse texto, Loew fala do seu admirável labor de tradução como “token of my undying love for my native land, which a residence of more than forty years in the United States has not diminished, I devote my time”.
(4) http://www.iibayarea.org/wp-content/themes/institute/resources/annualreports/iisf_ar2005.pdf. Consultado em Maio de 2014.
sexta-feira, maio 16, 2014
Engodo
Rama woke before dawn and quietly waked Lakshmana. "We must not let these good people follow us any further," he said. "For their own sakes we must play a little trick on them. Let us get out the chariot before they wake and drive back a little way on the road to Ayodhya. They will see the hoofmarks and follow them and hurry back to the city. But we will turn off the road again and take another route."
The Story of Ramayana
domingo, maio 11, 2014
Memória de William N. Loew. Primeira parte
Na primavera de 2012 (escrevo assim, com todo o descaramento, como se de um remoto tempo se tratasse), dei por mim a explorar com empenho as estantes de literatura húngara da admirável Biblioteca da Universidade de Szeged. Quem por lá hoje passar, por uma daquelas casualidades de que se tece boa parte da existência, encontrará seguramente ainda o mesmo imponente edifício envidraçado, de linhas sóbrias e espaços funcionais, inundado de luz e do perfume a tomos esquecidos e moçoilas estudantes. Não deixará também seguramente de reparar no pequeno jardim da Praça Ády, para onde estão voltadas as mesas de estudo mais concorridas, com o seu memorial à Revolução de 1956 e a sua Árvore da Ciência, plantada por nove prémios nobel em tributo à vida e obra de Albert Szentgyörgyi. Foi aí, nesse espaço ajardinado que não chega a merecer o título de parque, que tantas vezes passeei certo extraordinário animal, de cujo inesperado afastamento jamais me recompus por completo. Mas isso são contas de outro rosário, para usar aqui a expressão popular, sedimentos de um rio bem mais escuro e cruel que o dos livros e leituras. Percorria, contava eu, essas estantes de desconhecidos volumes (pouco me tinha ainda dedicado à literatura do meu bisonho país de acolhimento), por simpática incumbência do meu amigo e escritor Jordi Gimeno (chefe de cozinha também, para além de pai extremoso e medíocre intérprete musical em sórdidas noites de karaoke). Os leitorados de catalão, espanhol e português da Universidade Szeged, com o catalaníssimo Jordi à cabeça da organização, preparavam-se para levar alguns dos seus estudantes e um punhado de convidados para um fim-de-semana de tradução na belíssima Casa do Tradutor, na localidade de Balatonfüred, estância termal e terapêutica nas margens do afamado lago húngaro. A mim cabia-me a seleção dos textos a traduzir nesses dias de labor conjunto, estando já estabelecido que haveriam de ser vertidos para os ditos idiomas peninsulares poetas húngaros do século XX, de preferência já falecidos. O sucesso e aceitação dos textos que acabei por escolher podem ser justamente avaliados pelo rimado cântico “João, cabrão, muda a seleção”, repetidamente entoado pela ala catalã nessa jornada de mais traição que tradução, principalmente devido a dois longuíssimos poemas de István Bella, causa de profunda frustração nos jovens tradutores que a eles estoicamente se entregaram. Nessa minha visita à soalheira biblioteca, decidira começar por consultar antologias de poesia húngara em tradução inglesa (por essa altura eu estava longe de dominar o denso idioma magiar e nem sequer descobrira ainda no bonito verbo hianyzni um apto correspondente para a saudade portuguesa).
Ora, um dos volumes desde logo consultado, sem que se soubesse de antemão a natureza do seu conteúdo, apresentava o título Magyar Poetry, sendo a seleção e tradução dos poemas nele contidos da responsabilidade de um certo William N. Loew, também ele supostamente poeta, ainda que de modesta projeção, como mais tarde pude determinar. Reproduzo a página de rosto da dita antologia, na qual surgem desde logo uns pujantes versos de Petöfi, que eu já antes ouvira declamados no original por lábios indígenas:
Para além do evidente mérito do trabalho, nada haveria de especialmente interessante no volume, não fora encontrar-se numa das páginas iniciais em branco daquele exemplar em particular um poema do próprio “autor-tradutor” da edição, uma comovente estância em rimas emparelhadas, no qual Loew parece convocar a memória para cantar o viço e a virtude da sua terra natal, nem mais nem menos que Szeged, em cuja biblioteca universitária terá portanto ficado esquecido ou intencionalmente deixado um exemplar com os versos manuscritos, a acompanhar a obra traduzida dos poetas húngaros mais canonizados.
Since childhood’s days I know you well.
Can those who did in Szeged dwell,
Have seen the “Délibáb” on high, -
Light fairy of the alföld sky; -
Enjoyed to list to népdal air,
Saw sweet menyecske, debonnair,
Inflamed were by the czigány’s play,
Nourished on famous halászlé
Gulyás and world-famed paprikás,
Enjoyed in Tisza’s mud to splash,
Ran nagyméta in Uj-szeged
Lighthearted as a tan-cheeked lad,
And who Löw’s scholar once had been
Jealously kept his memory green
Oh! Can it be, I ask, that we
Shall ever cease dear friends to be?
Tal como o poema aqui transcrito, cujo fundo supera largamente a forma, William N. Loew é uma curiosidade. É uma micro-história de traços vagos no contexto maior de uma história qualquer, seja o panorama da literatura húngara traduzida para inglês ou a história da comunidade húngara judaica nos Estados Unidos. Mas essas histórias maiores não me interessam. Não tenho vagar nem me sinto habilitado. Interessa-me o William, advogado e homem de letras em Nova Iorque. E interessa-me o jovem Vilmos, o filho do rabino de Szeged e o único de cinco irmãos varões a emigrar para a terra das oportunidades. Interessa-me muito a reconstrução possível da sua vida, porque uma qualquer casualidade me lançou certo dia para as mãos um poema manuscrito de sua autoria. E também porque a escassez de dados concretos acerca do seu percurso se presta muito a isto mesmo, que é eu estar aqui a escrever sobre alguém que faleceu há quase cem anos, todo orgulhoso de uma descoberta bibliográfica cujo interesse só eu verdadeiramente reconheço.
segunda-feira, maio 05, 2014
Da verdade nos livros
A verdade é algumas vezes o escolho de um romance.
Na vida real recebemo-la como ela sai dos encontrados casos ou lógica implacável das coisas; mas, na novela, custa-nos a sofrer que o autor, se inventa, não invente melhor; e, se copia, não minta por amor da arte.
Um romance que estriba na verdade o seu merecimento é frio, é impertinente, é uma coisa que não sacode os nervos, nem tira a gente, sequer uma temporada, enquanto ele nos lembra, deste jogo de nora, cujos alcatruzes somos, uns a subir, outros a descer, movidos pela manivela do egoísmo.
A verdade! Se ela é feita, para que oferecê-la em painéis ao público!?
A verdade do coração humano! Se o coração humano tem filamentos de ferro que o prendem ao barro donde saiu, ou pesam nele e o submergem no charco da culpa primitiva, para que é emergi-lo, retratá-lo e pô-lo à venda!?
Os reparos são de quem tem o juízo no seu lugar; mas, pois que eu perdi o meu a estudar a verdade, já agora a desforra que tenho é pintá-la como ela é, feia e repugnante.
Camilo Castelo Branco, Amor de Perdição
domingo, abril 20, 2014
domingo, abril 13, 2014
segunda-feira, fevereiro 24, 2014
domingo, fevereiro 02, 2014
quarta-feira, janeiro 22, 2014
A última noite
Ninguém poderá acusar-me de não conhecer extensiva e detalhadamente o sistema produtivo deste país. Como é bem sabido por quem de direito e atestado nos inúmeros relatórios produzidos, procurei incansavelmente, durante os largos meses da minha comissão, formar a mais rigorosa ideia possível a respeito do sector de produção agrícola e industrial da nação, conforme me fora incumbido. Nisso creio ter sido sem dúvida bem sucedido. Movido pelo brio e paixão profissionais que julgo me caracterizarem, qualidades às quais não deixou de aliar-se certo natural interesse por paragens estrangeiras e estranhas culturas, calcorreei este território literalmente de lés a lés, em trabalho de campo pelas mais representativas unidades fabris e propriedades agrícolas, privilegiando em todas essas excursões o contacto pessoal com os responsáveis no terreno. Devo a propósito acrescentar, não sem ponta de justificado orgulho, ter logrado aprender qualquer coisa do grotesco linguajar que por aqui se fala, nomeadamente formas de saudação e apresentação, perguntas de âmbito quotidiano e vocabulário elementar relativo à minha área profissional. Tudo isto levei a cabo, tudo cumpri na máxima medida das minhas responsabilidades. Do resto não sinto que deva falar. Que queira. O extra-laboral só a mim me diz respeito, e asseguro que um ou outro delito possivelmente cometido jamais afetou o meu desempenho. Como disse e volto a sublinhar, aí está toda esse cúmulo de análises, relatórios e entrevistas a confirmar o cumprimento inatacável das minhas funções.
Foi portanto com aquilo a que costuma designar-se por "sentimento de dever cumprido" que na minha última noite de exílio, na véspera do meu regresso à saudosa pátria, decidi visitar uma última vez o meu bordel de eleição, o lugar que em tantas noites frias e solitárias me acolhera, na benevolência dos seus sórdidos veludos e lenitivas aguardentes de fruta. Chamam gato preto ao meu lupanar, nome que, tendo em conta a conhecida superstição popular, sempre me pareceu terrivelmente injusto por aí ter ido invariavelmente encontrar bonanças e fortunas após extenuantes jornadas de trabalho. Entrei nessa noite com um sorriso nos lábios, fugindo de uma chuva pesada que lá fora caía com insistência. Pedi um cálice e perguntei pela minha noiva, por aquela a que o meu corpo desde cedo se habituara. Suponho que a variedade nunca fez realmente o meu género, sou mais de afetos constantes e sólidos hábitos. Ela não estava. Fiz questão de lembrar à madame que era a minha última noite, mas a minha noiva adoecera essa semana. Estava de cama, mas desta feita engripada e não como habitualmente nas horas de serviço, acrescentara a matrona com um sorriso. Depois lá me foi recordando as virtudes e competências das outras moças, coisa da qual eu aliás não duvidava. Convenceu-me, deixei que uma se me sentasse no colo, toda beijos, carícias e ditos que nesta língua diabólica sempre soam a promessas de perdição. Levei-a para casa. À saída. tomando-a pela cintura com o táxi já à espera, ouvi ainda madame dizer, trata bem do senhor doutor que amanhã se vai embora.
Era boa rapariga, disso não havia dúvida, embora pouco se parecesse com a minha noiva. Quase nada tinha dos olhos melosos, dos lábios urgentes, da cintura ondulante. Um colega dissera-me um dia que eu sempre lhe parecia apaixonado quando falava desse anjo de prostíbulo, sugerindo-me inclusivamente resgatar a moça da má-vida, fazer-lhe um filho, prometer-lhe uma existência segura e tranquila. Mas eu jamais colocara a hipótese de me deixar ficar por ali, por aquelas remotas paragens, ideia que aliás me era positivamente insuportável. Entrámos no apartamento, já despido de tudo quanto era meu. O comboio partia cedo na manhã seguinte e eu já tinha as malas feitas, tudo preparado para o meu regresso a casa. Estava bem-disposta a moça, disse que eu era um homem charmoso e perguntou o que eu fazia. Ofereci-lhe vinho tinto, que ela não só aceitou como bebeu com estranha sofreguidão. Sentei-me no sofá e pedi-lhe que se despisse. Nada de especialmente rebuscado, apenas que tirasse a roupa à minha frente. Para dizer a verdade, eu não estava para grandes floreados, apenas tencionava cumprir a elementar sequência erecção-penetração-ejaculação, para depois mandar a rapariga à vida dela e gozar ainda umas poucas horas de sono. Disse que sim, que se despia, mas primeiro o dinheiro, queria ver o dinheiro, só para não haver mal-entendidos, conforme se justificou, sem conseguir olhar-me nos olhos, não sei se por embaraço ou já ligeira embriaguez. Passei-lhe o dinheiro para a mão e tentei beijá-la no pescoço, no lóbulo da orelha, ao mesmo tempo que lhe apertava o pulso em sinal de autoridade. Ela riu-se e mandou-me voltar para o sofá. Já em roupa interior, aproximou-se de mim insinuante e pediu-me que tomasse um duche, que eu não levasse a mal, mas que era uma questão de higiene. Desta vez não era para evitar mal-entendidos, embora eu já começasse a impacientar-me ligeiramente com tantos avanços e recuos. Tudo era tão mais fácil com a minha noiva, pensei. E a falta que ela me fazia naquele momento, naquela minha última noite. Mas acontece que sou boa pessoa, modéstia à parte. E a última coisa que eu queria era arranjar problemas e pôr-me ali a discutir com a moça. Tomei o meu duche e quando saí da casa de banho ela tinha ido embora com o dinheiro.
Foi portanto com aquilo a que costuma designar-se por "sentimento de dever cumprido" que na minha última noite de exílio, na véspera do meu regresso à saudosa pátria, decidi visitar uma última vez o meu bordel de eleição, o lugar que em tantas noites frias e solitárias me acolhera, na benevolência dos seus sórdidos veludos e lenitivas aguardentes de fruta. Chamam gato preto ao meu lupanar, nome que, tendo em conta a conhecida superstição popular, sempre me pareceu terrivelmente injusto por aí ter ido invariavelmente encontrar bonanças e fortunas após extenuantes jornadas de trabalho. Entrei nessa noite com um sorriso nos lábios, fugindo de uma chuva pesada que lá fora caía com insistência. Pedi um cálice e perguntei pela minha noiva, por aquela a que o meu corpo desde cedo se habituara. Suponho que a variedade nunca fez realmente o meu género, sou mais de afetos constantes e sólidos hábitos. Ela não estava. Fiz questão de lembrar à madame que era a minha última noite, mas a minha noiva adoecera essa semana. Estava de cama, mas desta feita engripada e não como habitualmente nas horas de serviço, acrescentara a matrona com um sorriso. Depois lá me foi recordando as virtudes e competências das outras moças, coisa da qual eu aliás não duvidava. Convenceu-me, deixei que uma se me sentasse no colo, toda beijos, carícias e ditos que nesta língua diabólica sempre soam a promessas de perdição. Levei-a para casa. À saída. tomando-a pela cintura com o táxi já à espera, ouvi ainda madame dizer, trata bem do senhor doutor que amanhã se vai embora.
Era boa rapariga, disso não havia dúvida, embora pouco se parecesse com a minha noiva. Quase nada tinha dos olhos melosos, dos lábios urgentes, da cintura ondulante. Um colega dissera-me um dia que eu sempre lhe parecia apaixonado quando falava desse anjo de prostíbulo, sugerindo-me inclusivamente resgatar a moça da má-vida, fazer-lhe um filho, prometer-lhe uma existência segura e tranquila. Mas eu jamais colocara a hipótese de me deixar ficar por ali, por aquelas remotas paragens, ideia que aliás me era positivamente insuportável. Entrámos no apartamento, já despido de tudo quanto era meu. O comboio partia cedo na manhã seguinte e eu já tinha as malas feitas, tudo preparado para o meu regresso a casa. Estava bem-disposta a moça, disse que eu era um homem charmoso e perguntou o que eu fazia. Ofereci-lhe vinho tinto, que ela não só aceitou como bebeu com estranha sofreguidão. Sentei-me no sofá e pedi-lhe que se despisse. Nada de especialmente rebuscado, apenas que tirasse a roupa à minha frente. Para dizer a verdade, eu não estava para grandes floreados, apenas tencionava cumprir a elementar sequência erecção-penetração-ejaculação, para depois mandar a rapariga à vida dela e gozar ainda umas poucas horas de sono. Disse que sim, que se despia, mas primeiro o dinheiro, queria ver o dinheiro, só para não haver mal-entendidos, conforme se justificou, sem conseguir olhar-me nos olhos, não sei se por embaraço ou já ligeira embriaguez. Passei-lhe o dinheiro para a mão e tentei beijá-la no pescoço, no lóbulo da orelha, ao mesmo tempo que lhe apertava o pulso em sinal de autoridade. Ela riu-se e mandou-me voltar para o sofá. Já em roupa interior, aproximou-se de mim insinuante e pediu-me que tomasse um duche, que eu não levasse a mal, mas que era uma questão de higiene. Desta vez não era para evitar mal-entendidos, embora eu já começasse a impacientar-me ligeiramente com tantos avanços e recuos. Tudo era tão mais fácil com a minha noiva, pensei. E a falta que ela me fazia naquele momento, naquela minha última noite. Mas acontece que sou boa pessoa, modéstia à parte. E a última coisa que eu queria era arranjar problemas e pôr-me ali a discutir com a moça. Tomei o meu duche e quando saí da casa de banho ela tinha ido embora com o dinheiro.
quinta-feira, janeiro 09, 2014
sexta-feira, dezembro 27, 2013
domingo, dezembro 15, 2013
Dez
Os quartos escuros fizeram recentemente dez anos. Cá se vão publicando umas coisas, com maior ou menor regularidade, e por cá vão passando uns quantos poucos seguidores, cada vez menos, que as modas hoje param noutros lugares mais iluminados. Não há nada de especial para assinalar, apenas um redondo aniversário, não mais que a bruta e segura passagem do tempo. E o tempo é uma grandessíssima besta quadrada, é o que é.
domingo, dezembro 08, 2013
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