segunda-feira, fevereiro 24, 2014

domingo, fevereiro 02, 2014

Uma canção para domingo



When I said "I can see me in your eyes"
You said "I can see you in my bed"


quarta-feira, janeiro 22, 2014

A última noite

Ninguém poderá acusar-me de não conhecer extensiva e detalhadamente o sistema produtivo deste país. Como é bem sabido por quem de direito e atestado nos inúmeros relatórios produzidos, procurei incansavelmente, durante os largos meses da minha comissão, formar a mais rigorosa ideia possível a respeito do sector de produção agrícola e industrial da nação, conforme me fora incumbido. Nisso creio ter sido sem dúvida bem sucedido. Movido pelo brio e paixão profissionais que julgo me caracterizarem, qualidades às quais não deixou de aliar-se certo natural interesse por paragens estrangeiras e estranhas culturas, calcorreei este território literalmente de lés a lés, em trabalho de campo pelas mais representativas unidades fabris e propriedades agrícolas, privilegiando em todas essas excursões o contacto pessoal com os responsáveis no terreno. Devo a propósito acrescentar, não sem ponta de justificado orgulho, ter logrado aprender qualquer coisa do grotesco linguajar que por aqui se fala, nomeadamente formas de saudação e apresentação, perguntas de âmbito quotidiano e vocabulário elementar relativo à minha área profissional. Tudo isto levei a cabo, tudo cumpri na máxima medida das minhas responsabilidades. Do resto não sinto que deva falar. Que queira. O extra-laboral só a mim me diz respeito, e asseguro que um ou outro delito possivelmente cometido jamais afetou o meu desempenho. Como disse e volto a sublinhar, aí está toda esse cúmulo de análises, relatórios e entrevistas a confirmar o cumprimento inatacável das minhas funções.
Foi portanto com aquilo a que costuma designar-se por "sentimento de dever cumprido" que na minha última noite de exílio, na véspera do meu regresso à saudosa pátria, decidi visitar uma última vez o meu bordel de eleição, o lugar que em tantas noites frias e solitárias me acolhera, na benevolência dos seus sórdidos veludos e lenitivas aguardentes de fruta. Chamam gato preto ao meu lupanar, nome que, tendo em conta a conhecida superstição popular, sempre me pareceu terrivelmente injusto por aí ter ido invariavelmente encontrar bonanças e fortunas após extenuantes jornadas de trabalho. Entrei nessa noite com um sorriso nos lábios, fugindo de uma chuva pesada que lá fora caía com insistência. Pedi um cálice e perguntei pela minha noiva, por aquela a que o meu corpo desde cedo se habituara. Suponho que a variedade nunca fez realmente o meu género, sou mais de afetos constantes e sólidos hábitos. Ela não estava. Fiz questão de lembrar à madame que era a minha última noite, mas a minha noiva adoecera essa semana. Estava de cama, mas desta feita engripada e não como habitualmente nas horas de serviço, acrescentara a matrona com um sorriso. Depois lá me foi recordando as virtudes e competências das outras moças, coisa da qual eu aliás não duvidava. Convenceu-me, deixei que uma se me sentasse no colo, toda beijos, carícias e ditos que nesta língua diabólica sempre soam a promessas de perdição. Levei-a para casa. À saída. tomando-a pela cintura com o táxi já à espera, ouvi ainda madame dizer, trata bem do senhor doutor que amanhã se vai embora.
Era boa rapariga, disso não havia dúvida, embora pouco se parecesse com a minha noiva. Quase nada tinha dos olhos melosos, dos lábios urgentes, da cintura ondulante. Um colega dissera-me um dia que eu sempre lhe parecia apaixonado quando falava desse anjo de prostíbulo, sugerindo-me inclusivamente resgatar a moça da má-vida, fazer-lhe um filho, prometer-lhe uma existência segura e tranquila. Mas eu jamais colocara a hipótese de me deixar ficar por ali, por aquelas remotas paragens, ideia que aliás me era positivamente insuportável. Entrámos no apartamento, já despido de tudo quanto era meu. O comboio partia cedo na manhã seguinte e eu já tinha as malas feitas, tudo preparado para o meu regresso a casa. Estava bem-disposta a moça, disse que eu era um homem charmoso e perguntou o que eu fazia. Ofereci-lhe vinho tinto, que ela não só aceitou como bebeu com estranha sofreguidão. Sentei-me no sofá e pedi-lhe que se despisse. Nada de especialmente rebuscado, apenas que tirasse a roupa à minha frente. Para dizer a verdade, eu não estava para grandes floreados, apenas tencionava cumprir a elementar sequência erecção-penetração-ejaculação, para depois mandar a rapariga à vida dela e gozar ainda umas poucas horas de sono. Disse que sim, que se despia, mas primeiro o dinheiro, queria ver o dinheiro, só para não haver mal-entendidos, conforme se justificou, sem conseguir olhar-me nos olhos, não sei se por embaraço ou já ligeira embriaguez. Passei-lhe o dinheiro para a mão e tentei beijá-la no pescoço, no lóbulo da orelha, ao mesmo tempo que lhe apertava o pulso em sinal de autoridade. Ela riu-se e mandou-me voltar para o sofá. Já em roupa interior, aproximou-se de mim insinuante e pediu-me que tomasse um duche, que eu não levasse a mal, mas que era uma questão de higiene. Desta vez não era para evitar mal-entendidos, embora eu já começasse a impacientar-me ligeiramente com tantos avanços e  recuos. Tudo era tão mais fácil com a minha noiva, pensei. E a falta que ela me fazia naquele momento, naquela minha última noite. Mas acontece que sou boa pessoa, modéstia à parte. E a última coisa que eu queria era arranjar problemas e pôr-me ali a discutir com a moça. Tomei o meu duche e quando saí da casa de banho ela tinha ido embora com o dinheiro.

quinta-feira, janeiro 09, 2014

sexta-feira, dezembro 27, 2013

domingo, dezembro 15, 2013

Dez

Os quartos escuros fizeram recentemente dez anos. Cá se vão publicando umas coisas, com maior ou menor regularidade, e por cá vão passando uns quantos poucos seguidores, cada vez menos, que as modas hoje param noutros lugares mais iluminados. Não há nada de especial para assinalar, apenas um redondo aniversário, não mais que a bruta e segura passagem do tempo. E o tempo é uma grandessíssima besta quadrada, é o que é.

domingo, dezembro 08, 2013

quarta-feira, novembro 27, 2013

Cartas Panónias

Senhor,

Escrevo-Vos hoje com tal embaraço e angústia, que muito me pesa a pena que empunho e mais me resiste o fólio à escritura a que me vejo obrigado. Tomei recente conhecimento de que não terá chegado à metrópole toda a tara de mercancias resultantes da panónia colheita, conforme aqui registada à partida da caravana. A este respeito não poderá seguramente falar-se de nada menos que furto de imperial propriedade, crime para o qual é bem conhecida em todas as partes a costumeira punição. Sabei porém não haver registo ou sequer suspeita, em todo o largo percurso até à metrópole, de incidente ou quebra de protocolo que possa ter conduzido ao desaparecimento das mais de dez arrobas em falta. E é neste ponto que se me enrola a língua e se me adormentam os dedos, Senhor, por não ter algo de concreto que Vos possa desde já transmitir a este respeito. Não posso deixar de aparentar este episódio com o enigmático desaparecimento do nosso saudoso governador, pelo que a meu ver se torna agora inevitável mão mais pesada nas averiguações que se impõem. 

Assumo, Senhor, a minha enorme culpa pelo escrúpulo que até agora exibi em tratar destes graves acontecimentos com a firmeza que é forçoso aplicar. Alguns me acusarão, não sem certa justiça, de excessiva afeição pelas gentes locais, o que porventura tende a toldar-me a razão e a refrear em mim certa necessária dureza na demonstração da autoridade imperial. Desse grave pecado, Senhor, não pretendo ser de futuro acusado, pelo que darei início, logo que puder contar com Vosso soberano consentimento, a todo um preparado conjunto de detenções e interrogatórios, com o fim de esclarecer os incidentes mais recentes e evitar que na panónia província se instale qualquer clima de impunidade, o qual, como decerto sabeis, é a daninha raíz da queda de impérios e civilizações. 

À falta de resultados concretos em sequência das investigações que pretendo pessoalmente levar a cabo, encontram-se em preparação algumas medidas de punição arbitrária colectiva, com o mencionado propósito de, se me é permitida metáfora em oficial epístola, cravar fundo na escura terra da Panónia o magno selo do Vosso ditoso império. 

Ergo agora os olhos, Senhor, e diante de mim corre suave o rio à luz difusa desta manhã de Outono. O mesmo rio que, léguas mais abaixo, delimita a autoridade por Vós estabelecida sobre esta desolada planície. Não posso deixar de pensar, Senhor, que talvez se esconda na outra margem, por detrás das fileiras arbóreas que bordejam as águas, a explicação para as inquietações de que hoje padecemos. Virá o dia, imposto pelo destino ou pela necessidade, em que forçoso será cruzar as águas e enfrentar o que a lonjura nos reserva. Também para isso servirão como preparação e sondagem os interrogatórios de Inverno que Vos proponho.

Ardo, Senhor, por célere resposta, na esperança de que podeis confirmar a Vossa confiança na minha função e assim honrar-me com o ensejo de pugnar pela perpetuação do Vosso nome.

O Vosso servo

J

terça-feira, novembro 26, 2013

quinta-feira, novembro 21, 2013

Boa promessa

não tem de ser hoje não
nem mesmo amanhã
ou  muito em breve
apenas que seja
que dê um dia
que um dia se dê

chamemos boa promessa
à vileza do adiamento
que as coisas boas vêm com o tempo
e só quem espera muito alcança

não tem pois de ser já
agora mesmo
ou mesmo para ontem

somente que seja
apenas que valha a pena

terça-feira, novembro 12, 2013

domingo, outubro 27, 2013

domingo, outubro 13, 2013

Planetário

o mundo arde, amor
as árvores mergulham no rio
os homens fogem para dentro da terra
em covas escuras, para junto dos mortos

a palavra regressa à boca
a ideia à pedra

e nós, amor, já longe de tudo
adormecidos no planetário


quarta-feira, outubro 09, 2013

Humor melancólico

Por quanto sei que muitos foram, são, e ao diante serão tocados deste pecado de tristeza que procede da vontade desconcertada, que ao presente chamam em os mais dos casos doença de humor melancólico, do qual dizem os físicos que vem de muitas maneiras por fundamentos e sentidos desvairados, mais de três anos continuados fui dele muito sentido, e por especial mercê de nosso senhor deus houve perfeita saúde. Com a tenção que primeiro escrevi, de alguns desta breve e simples leitura filharem proveitosa ensinança e avisamento, propus de vos escrever o começo, prosseguimento e cura que dele houve, por tal que minha experiência a outros seja exemplo. Pois não é pequeno conforto e remédio aos que são disto tocados saberem como os outros sentiram o que eles padecem, e houveram comprida saúde, porque um dos seus principais sentimentos é pensarem que outrem jamais nunca tal sentiu que fosse tornado a seu bom estado em que antes era.

D. Duarte, O Leal Conselheiro 

domingo, outubro 06, 2013

Uma canção para domingo



Someone in my dictionary's up to no good
I never find the very special words I should

quarta-feira, setembro 25, 2013

Da memória

It was the first time since his master's death that he had been able to think about such things withouth feeling crushed by sorrow, the first time he had understood that memory was a place, a real place that one could visit, and that to spend a few moments among the dead was not necessarily bad for you, that it could in fact be a source of great comfort and happiness.

Paul Auster, Timbuktu


domingo, setembro 22, 2013

Uma canção para domingo



Tears on my pillow, of course they're not mine

sexta-feira, setembro 20, 2013