quinta-feira, janeiro 09, 2014
sexta-feira, dezembro 27, 2013
domingo, dezembro 15, 2013
Dez
Os quartos escuros fizeram recentemente dez anos. Cá se vão publicando umas coisas, com maior ou menor regularidade, e por cá vão passando uns quantos poucos seguidores, cada vez menos, que as modas hoje param noutros lugares mais iluminados. Não há nada de especial para assinalar, apenas um redondo aniversário, não mais que a bruta e segura passagem do tempo. E o tempo é uma grandessíssima besta quadrada, é o que é.
domingo, dezembro 08, 2013
quarta-feira, novembro 27, 2013
Cartas Panónias
Senhor,
Escrevo-Vos hoje com tal embaraço e angústia, que muito me pesa a pena que empunho e mais me resiste o fólio à escritura a que me vejo obrigado. Tomei recente conhecimento de que não terá chegado à metrópole toda a tara de mercancias resultantes da panónia colheita, conforme aqui registada à partida da caravana. A este respeito não poderá seguramente falar-se de nada menos que furto de imperial propriedade, crime para o qual é bem conhecida em todas as partes a costumeira punição. Sabei porém não haver registo ou sequer suspeita, em todo o largo percurso até à metrópole, de incidente ou quebra de protocolo que possa ter conduzido ao desaparecimento das mais de dez arrobas em falta. E é neste ponto que se me enrola a língua e se me adormentam os dedos, Senhor, por não ter algo de concreto que Vos possa desde já transmitir a este respeito. Não posso deixar de aparentar este episódio com o enigmático desaparecimento do nosso saudoso governador, pelo que a meu ver se torna agora inevitável mão mais pesada nas averiguações que se impõem.
Assumo, Senhor, a minha enorme culpa pelo escrúpulo que até agora exibi em tratar destes graves acontecimentos com a firmeza que é forçoso aplicar. Alguns me acusarão, não sem certa justiça, de excessiva afeição pelas gentes locais, o que porventura tende a toldar-me a razão e a refrear em mim certa necessária dureza na demonstração da autoridade imperial. Desse grave pecado, Senhor, não pretendo ser de futuro acusado, pelo que darei início, logo que puder contar com Vosso soberano consentimento, a todo um preparado conjunto de detenções e interrogatórios, com o fim de esclarecer os incidentes mais recentes e evitar que na panónia província se instale qualquer clima de impunidade, o qual, como decerto sabeis, é a daninha raíz da queda de impérios e civilizações.
À falta de resultados concretos em sequência das investigações que pretendo pessoalmente levar a cabo, encontram-se em preparação algumas medidas de punição arbitrária colectiva, com o mencionado propósito de, se me é permitida metáfora em oficial epístola, cravar fundo na escura terra da Panónia o magno selo do Vosso ditoso império.
Ergo agora os olhos, Senhor, e diante de mim corre suave o rio à luz difusa desta manhã de Outono. O mesmo rio que, léguas mais abaixo, delimita a autoridade por Vós estabelecida sobre esta desolada planície. Não posso deixar de pensar, Senhor, que talvez se esconda na outra margem, por detrás das fileiras arbóreas que bordejam as águas, a explicação para as inquietações de que hoje padecemos. Virá o dia, imposto pelo destino ou pela necessidade, em que forçoso será cruzar as águas e enfrentar o que a lonjura nos reserva. Também para isso servirão como preparação e sondagem os interrogatórios de Inverno que Vos proponho.
Ardo, Senhor, por célere resposta, na esperança de que podeis confirmar a Vossa confiança na minha função e assim honrar-me com o ensejo de pugnar pela perpetuação do Vosso nome.
O Vosso servo
J
terça-feira, novembro 26, 2013
quinta-feira, novembro 21, 2013
Boa promessa
não tem de ser hoje não
nem mesmo amanhã
ou muito em breve
apenas que seja
que dê um dia
que um dia se dê
chamemos boa promessa
à vileza do adiamento
que as coisas boas vêm com o tempo
e só quem espera muito alcança
não tem pois de ser já
agora mesmo
ou mesmo para ontem
somente que seja
apenas que valha a pena
nem mesmo amanhã
ou muito em breve
apenas que seja
que dê um dia
que um dia se dê
chamemos boa promessa
à vileza do adiamento
que as coisas boas vêm com o tempo
e só quem espera muito alcança
não tem pois de ser já
agora mesmo
ou mesmo para ontem
somente que seja
apenas que valha a pena
terça-feira, novembro 12, 2013
domingo, outubro 27, 2013
sexta-feira, outubro 18, 2013
domingo, outubro 13, 2013
Planetário
o mundo arde, amor
as árvores mergulham no rio
os homens fogem para dentro da terra
em covas escuras, para junto dos mortos
a palavra regressa à boca
a ideia à pedra
e nós, amor, já longe de tudo
adormecidos no planetário
as árvores mergulham no rio
os homens fogem para dentro da terra
em covas escuras, para junto dos mortos
a palavra regressa à boca
a ideia à pedra
e nós, amor, já longe de tudo
adormecidos no planetário
quarta-feira, outubro 09, 2013
Humor melancólico
Por quanto sei que muitos foram, são, e ao diante serão tocados deste pecado de tristeza que procede da vontade desconcertada, que ao presente chamam em os mais dos casos doença de humor melancólico, do qual dizem os físicos que vem de muitas maneiras por fundamentos e sentidos desvairados, mais de três anos continuados fui dele muito sentido, e por especial mercê de nosso senhor deus houve perfeita saúde. Com a tenção que primeiro escrevi, de alguns desta breve e simples leitura filharem proveitosa ensinança e avisamento, propus de vos escrever o começo, prosseguimento e cura que dele houve, por tal que minha experiência a outros seja exemplo. Pois não é pequeno conforto e remédio aos que são disto tocados saberem como os outros sentiram o que eles padecem, e houveram comprida saúde, porque um dos seus principais sentimentos é pensarem que outrem jamais nunca tal sentiu que fosse tornado a seu bom estado em que antes era.
D. Duarte, O Leal Conselheiro
domingo, outubro 06, 2013
Uma canção para domingo
Someone in my dictionary's up to no good
I never find the very special words I should
terça-feira, outubro 01, 2013
quarta-feira, setembro 25, 2013
Da memória
It was the first time since his master's death that he had been able to think about such things withouth feeling crushed by sorrow, the first time he had understood that memory was a place, a real place that one could visit, and that to spend a few moments among the dead was not necessarily bad for you, that it could in fact be a source of great comfort and happiness.
Paul Auster, Timbuktu
domingo, setembro 22, 2013
sexta-feira, setembro 20, 2013
sábado, setembro 14, 2013
quinta-feira, setembro 12, 2013
Tu
Tu, qu'inventaste as Sciencias e as Philosophias,
as Politicas, as Artes e as Leis,
e outros quebra-cabeças de sala
e outros dramas de grande espectaculo...
Tu, que aperfeiçoas a arte de matar...
Tu que descobriste o cabo da Boa-Esperança
e o Caminho-Maritimo da India
e as duas Grandes Américas.
e que levaste a chatice a estas terras.
e que trouxeste de lá mais Chatos pr'aqui
e qu'inda por cima cantaste estes Feitos...
Tu, qu'inventaste a chatice e o balão,
e que farto de te chateares no chão
te foste chatear no ar,
e qu'inda foste inventar submarinos
pr'a te chateares também por debaixo d'agua...
Tu, que tens a mania das Invenções e das Descobertas
e que nunca descobriste que eras bruto,
e que nunca inventaste a maneira de o não seres...
Tu consegues ser cada vez mais bêsta
e a este progresso chamas Civilização!
José de Almada-Negreiros, "A Scena do Odio" (1915)
sábado, setembro 07, 2013
Cartas Panónias
Senhor,
Recebei em Vossas ebúrneas mãos, com a parcimónia que sei pautar a Vossa natureza, mais esta humilde missiva, que tantas léguas veio a cobrir para Vos encontrar. Daqui, onde o estio vai lentamente esmorecendo e já a frescura das noites pressagia a estação que se avizinha, enviam-Vos Vossos súbditos e servidores as mais sinceras e dedicadas saudações, que o Vosso nome, à falta ainda de uma imagem ou contorno de rosto, é lenitivo permanente para todas as agruras da existência, pronunciado em todas as panónias partes por lábios modestos, em sinal de louvor e esperança.
Sabeis bem que por aqui se aproxima o mês das colheitas, e não é sem certo traço de reprovável orgulho que me atrevo a prever resultados portentosos nesta Vossa província, dos quais, como é devido, não deixarei de dar conta, em documento próprio, aos oficiais do tesouro, para que posteriormente seja preparada a respectiva guia de transporte para a metrópole. Orgulha-se a enfadonha Panónia das suas artes agrícolas, e é certo que por aqui não nos tem desiludido a terra escura. Que assim seja, esperamos todos, por largos e pacíficos anos.
Distinta empresa, Senhor,será manter as populações indígenas no conveniente estado de mansidão laboriosa que por ora as caracteriza. Pergunta-me a metrópole, não sem algum propósito, se não haverá dedo nativo no desaparecimento do nosso saudoso governador, e eu próprio, ainda que me envergonhe a incerteza, tenho a maior dificuldade em considerar semelhante hipótese, por jamais ter testemunhado o mínimo indício de atrito ou sedição no seio das comunidades. Em todo o caso, Senhor, na eventualidade de se decidir confrontar os reservados indígenas com a suspeita do crime de rapto ou homicídio, ficai desde já com o meu humilde conselho de que tal seja empreendido apenas após as colheitas, de modo a não melindrar o espírito de tranquilidade e dedicação que as propicia.
Tenho bem a consciência, Senhor, sem que Vós o digais, que de tudo isto depende o meu posto, a minha honra, o meu prestígio a Vossos suaves olhos. Tranquiliza-me porém saber que de Vós não receberá o panónio domínio menos que a mais justa consideração.
Já o choupo vai perdendo a sua primeira folha e eu sorrio, Senhor, ao pensar que este vento que a noite arrasta também já Vos terá percorrido a face e levantado a ponta de Vosso real manto.
E assim já por ora me despeço, com as costumeiras saudações que me impõe o ofício e os calorosos votos de saúde e bonança que me dita o coração.
O Vosso humilíssimo súbdito
J
Subscrever:
Mensagens (Atom)
.jpg)