terça-feira, agosto 27, 2013

segunda-feira, agosto 19, 2013

domingo, agosto 18, 2013

Cartas panónias

Senhor,

Venho por este meio endereçar-Vos uma primeira missiva de natureza oficial, conforme me obrigam, creio, as disposições legais do Império, em sequência do inquietante e prolongado desaparecimento do nosso estimado governador. 
Devo a este respeito fazer desde já notar, não sem mágoa e uma certa perplexidade, a inconsequência de todas as diligências até agora levadas a cabo, das quais Vos pretendo dar detalhada conta em epístola futura. Adianto porém não ter sido ainda explorada a hipótese de um envolvimento das gentes nativas no misterioso incidente, dada a índole habitualmente mansa e cortês desta Vossa panónia massa de súbditos, em nada propensa, se não me engano, a actos de silenciosa sedição. 
Mas à parte deste episódio, que tanto sei muita tinta e verborreia fez já correr na capital do Império, bem como noutras províncias e redutos imperiais, cabe-me garantir-Vos, Senhor, de coração sincero e vincado sentido do dever, que assumo com absoluta dedicação a responsabilidade que me impõe o destino e o imperial regimento de Vos informar sobre tudo o que de relevante ocorre nestas panónias paragens do Vosso domínio. E ademais sabei que muitíssimo me honra esta incumbência, pelo desejo pessoal há muito sentido de conVosco partilhar, se tal me é permitido, o que durante largos meses pude aqui observar, matérias para as quais pouco espaço e propósito me oferecem ofícios e relatórios administrativos. 
Eis-me portanto aqui, Senhor, corpo batido pelas estações da planície, no espaço longínquo de insuspeitas longitudes, onde corpo morto de rato pequeno é repasto imediato de corvo ou gavião, e do estio ao inverno o grau cai a pique pela ausência de mar. Aqui o tempo tem muitas verdades. Por ora a terra panónia lá se vai preparando para a imperial colheita, na esperança, Senhor, de um dia lhe concederes o gáudio de uma visita Vossa.

Do Vosso súbdito fidelíssimo, 
com votos ardentes de que esta carta Vos encontre de excelente saúde e paz governativa.

J

sábado, agosto 10, 2013

A letra

atenta, a letra
de lenta curva
já curvilínea
vem lembrar-me que existe
que ainda corre
e se apresenta:

abrigo para a ira do dia
salvação para a tormenta


quinta-feira, agosto 01, 2013

terça-feira, julho 30, 2013

Penumbra

concede o corpo à penumbra
arrisca um recatamento
diz que foi ela a deter-te no quarto
a toldar-te o discernimento
prepara a noite para o parto

segunda-feira, junho 24, 2013

Versos para um pombal



carreiro de pedras
pombal
carreiro de penedia

na rota dos elfos
pé ante pé
e uma espiga na ponta do pé

mato denso
passámos p'lo meio
saídos do avesso

na orla do horto
enchente de água
aprendeste a nadar

a noite soletra
o último nome
e a casa desperta

sábado, maio 11, 2013

Da dor. Um poema de Ana Cristina César


21 de fevereiro
Não quero mais a fúria da verdade. Entro na sapataria popular.
Chove por detrás. Gatos amarelos circulando no fundo.
Abomino Baudelaire querido, mas procuro na vitrina um
modelo brutal. Fica boazinha, dor; sábia como deve ser, não tão
generosa, não. Recebe o afeto que se encerra no meu peito. Me
calço decidida onde os gatos fazem que me amam, juvenis,
reais. Antes eu era 36, gata borralheira, pé ante pé, pequeno
polegar, pagar na caixa, receber na frente. Minha dor. Me dá a
mão. Vem por aqui, longe deles. Escuta, querida, escuta. A
marcha desta noite. Se debruça sobre os anos neste pulso. Belo
belo. Tenho tudo o que fere. As alemãs marchando que nem 
homem. As cenas mais belas do romance o autor não soube
comentar. Não me deixa agora, fera.


quarta-feira, maio 08, 2013

Ela

eu penso nela um bocadinho
a caminho do aeroporto
ou quase nela sobre o asfalto
confundido
é noutra que penso
congemino um pouco que seja
o amor dela noutra pessoa
para decidir o de hoje
ao volante do carro
sem pressa nenhuma
já quase atrasado


quinta-feira, maio 02, 2013

domingo, abril 21, 2013

Dos governos

Houve ainda algum tempo em que se atribuiu todo o mal ao Governo! Acusação grotesca que ninguém hoje ousaria repetir.
Os Governos! Podiam ter criado, é certo, mais artilharia, mais ambulâncias; mas o que eles não podiam criar era uma alma enérgica ao país! Tínhamos caído numa indiferença, num cepticismo imbecil, num desdém de toda a ideia, numa repugnância de todo o esforço, numa anulação de toda a vontade... Estávamos caquéticos! O Governo, a Constituição, a própria Carta tão escarnecida, dera-nos tudo o que nos podia dar: uma liberdade ampla. Era ao abrigo dessa liberdade que a Pátria, a massa dos portugueses tinha o dever de tornar o seu País próspero, vivo, forte, digno da independência. O Governo! O País esperava dele aquilo que devia tirar de si mesmo, pedindo ao Governo que fizesse tudo o que lhe competia a ele mesmo fazer!... Queria que o Governo lhe arroteasse as terras, que o Governo criasse a sua indústria, que o Governo escrevesse os seus livros, que o Governo alimentasse os seus filhos, que o Governo erguesse os seus edifícios, que o Governo lhe desse a ideia do seu Deus!
Sempre o Governo! O Governo devia ser o agricultor, o industrial, o comerciante, o filósofo, o sacerdote, o pintor, o arquitecto - tudo! Quando um País abdica assim nas mãos de um Governo toda a sua iniciativa, e cruza os braços, esperando que a civilização lhe caia feita das secretarias, como a luz que lhe vem do sol, esse País está mal: as almas perdem o vigor, os braços perdem o hábito do trabalho, a consciência perde a regra, o cérebro perde a acção. E como o Governo lá está para fazer tudo - o País estira-se ao sol e acomoda-se para dormir. Mas quando acorda - é como nós acordámos - com uma sentinela estrangeira à porta do Arsenal.


Eça de Queiroz, "A Catástrofe"



domingo, abril 07, 2013

Uma canção para domingo



I check my face
I look a little bit older
I look a little bit colder

quarta-feira, março 20, 2013

domingo, março 03, 2013

Este é o meu corpo


disseste 
buscar alento
como algo
para a boca
algum alimento
algo nosso
de cada dia
dado em dado momento
para a travessia

só que (lembras?)
nós não semeámos
nada lançámos ao vento
não madrugámos
nada colhemos
votámos a seara
ao esquecimento
e hoje nada há sobre a mesa
nada partido
e repartido
que não já o sentimento

(in Este é o meu corpo, Lisboa, Tea for One, 2013)

terça-feira, fevereiro 19, 2013

Antropofagia

Olhai, peixes, lá do mar para a terra. Não, não: não é isso que vos digo. Vós virais os olhos para os matos e para o sertão? Para cá, para cá; para a cidade é que haveis de olhar. Cuidais que só os Tapuias se comem uns aos outros? Muito maior açougue é o de cá, muito mais se comem os Brancos. Vedes vós todo aquele bulir, vedes todo aquele andar, vedes aquele concorrer às praças e cruzar as ruas; vedes aquele subir e descer as calçadas, vedes aquele entrar e sair sem quietação nem sossego? Pois tudo aquilo é andarem buscando os homens como hão-de comer e como se hão-de comer.

Padre António Vieira, "Sermão de Santo António aos Peixes"

terça-feira, fevereiro 12, 2013

Entre lugares

Como noventa por cento de todas as pessoas, no fundo quero sempre estar onde não estou, estar no sítio de onde acabo de fugir. (...) E a verdade é que apenas sou feliz quando estou sentado no carro entre o lugar que acabei de deixar e o outro para onde me dirijo, apenas sou feliz no carro e durante a viagem, mas sou o mais infeliz recém-chegado que se pode imaginar, onde quer que chegue, logo que chego sou infeliz. Sou daquelas pessoas que no fundo não suportam nenhum lugar do mundo e só são felizes entre os lugares de onde partiram e para onde se dirigem. Ainda há alguns anos eu acreditava que uma tal fatalidade mórbida teria de conduzir forçosamente, dentro de pouco tempo, a uma loucura total, mas não me conduziu a essa loucura total, preservou-me efectivamente de uma tal loucura, de que tive toda a minha vida o maior pavor.

Thomas Bernhard, O Sobrinho de Wittgenstein

quinta-feira, janeiro 31, 2013

Por vezes, aqui o Inverno

é como estar num sonho cujo único sentido fosse precisamente não o ter, como sonhar com uma estrada que não principia, com uma sombra posta no chão sem corpo que a tivesse produzido, com uma palavra que o ar pronunciou e no mesmo ar se dasarticula.

José Saramago, O Ano da Morte de Ricardo Reis