domingo, agosto 11, 2013
sábado, agosto 10, 2013
A letra
atenta, a letra
de lenta curva
já curvilínea
vem lembrar-me que existe
que ainda corre
e se apresenta:
abrigo para a ira do dia
salvação para a tormenta
de lenta curva
já curvilínea
vem lembrar-me que existe
que ainda corre
e se apresenta:
abrigo para a ira do dia
salvação para a tormenta
quinta-feira, agosto 01, 2013
terça-feira, julho 30, 2013
Penumbra
concede o corpo à penumbra
arrisca um recatamento
diz que foi ela a deter-te no quarto
a toldar-te o discernimento
prepara a noite para o parto
arrisca um recatamento
diz que foi ela a deter-te no quarto
a toldar-te o discernimento
prepara a noite para o parto
segunda-feira, junho 24, 2013
Versos para um pombal
carreiro de pedras
pombal
carreiro de penedia
na rota dos elfos
pé ante pé
e uma espiga na ponta do pé
mato denso
passámos p'lo meio
saídos do avesso
na orla do horto
enchente de água
aprendeste a nadar
a noite soletra
o último nome
e a casa desperta
sábado, junho 01, 2013
sábado, maio 11, 2013
Da dor. Um poema de Ana Cristina César
21 de fevereiro
Não quero mais a fúria da verdade. Entro na sapataria popular.
Chove por detrás. Gatos amarelos circulando no fundo.
Abomino Baudelaire querido, mas procuro na vitrina um
modelo brutal. Fica boazinha, dor; sábia como deve ser, não tão
generosa, não. Recebe o afeto que se encerra no meu peito. Me
calço decidida onde os gatos fazem que me amam, juvenis,
reais. Antes eu era 36, gata borralheira, pé ante pé, pequeno
polegar, pagar na caixa, receber na frente. Minha dor. Me dá a
mão. Vem por aqui, longe deles. Escuta, querida, escuta. A
marcha desta noite. Se debruça sobre os anos neste pulso. Belo
belo. Tenho tudo o que fere. As alemãs marchando que nem
homem. As cenas mais belas do romance o autor não soube
comentar. Não me deixa agora, fera.
quarta-feira, maio 08, 2013
Ela
eu penso nela um bocadinho
a caminho do aeroporto
ou quase nela sobre o asfalto
confundido
é noutra que penso
congemino um pouco que seja
o amor dela noutra pessoa
para decidir o de hoje
ao volante do carro
sem pressa nenhuma
já quase atrasado
a caminho do aeroporto
ou quase nela sobre o asfalto
confundido
é noutra que penso
congemino um pouco que seja
o amor dela noutra pessoa
para decidir o de hoje
ao volante do carro
sem pressa nenhuma
já quase atrasado
quinta-feira, maio 02, 2013
domingo, abril 21, 2013
Dos governos
Houve ainda algum tempo em que se atribuiu todo o mal ao Governo! Acusação grotesca que ninguém hoje ousaria repetir.
Os Governos! Podiam ter criado, é certo, mais artilharia, mais ambulâncias; mas o que eles não podiam criar era uma alma enérgica ao país! Tínhamos caído numa indiferença, num cepticismo imbecil, num desdém de toda a ideia, numa repugnância de todo o esforço, numa anulação de toda a vontade... Estávamos caquéticos! O Governo, a Constituição, a própria Carta tão escarnecida, dera-nos tudo o que nos podia dar: uma liberdade ampla. Era ao abrigo dessa liberdade que a Pátria, a massa dos portugueses tinha o dever de tornar o seu País próspero, vivo, forte, digno da independência. O Governo! O País esperava dele aquilo que devia tirar de si mesmo, pedindo ao Governo que fizesse tudo o que lhe competia a ele mesmo fazer!... Queria que o Governo lhe arroteasse as terras, que o Governo criasse a sua indústria, que o Governo escrevesse os seus livros, que o Governo alimentasse os seus filhos, que o Governo erguesse os seus edifícios, que o Governo lhe desse a ideia do seu Deus!
Sempre o Governo! O Governo devia ser o agricultor, o industrial, o comerciante, o filósofo, o sacerdote, o pintor, o arquitecto - tudo! Quando um País abdica assim nas mãos de um Governo toda a sua iniciativa, e cruza os braços, esperando que a civilização lhe caia feita das secretarias, como a luz que lhe vem do sol, esse País está mal: as almas perdem o vigor, os braços perdem o hábito do trabalho, a consciência perde a regra, o cérebro perde a acção. E como o Governo lá está para fazer tudo - o País estira-se ao sol e acomoda-se para dormir. Mas quando acorda - é como nós acordámos - com uma sentinela estrangeira à porta do Arsenal.
Eça de Queiroz, "A Catástrofe"
domingo, abril 07, 2013
quarta-feira, março 20, 2013
quarta-feira, março 06, 2013
domingo, março 03, 2013
Este é o meu corpo
disseste
buscar alento
como algo
para a boca
algum alimento
algo nosso
de cada dia
dado em dado momento
para a travessia
só que (lembras?)
nós não semeámos
nada lançámos ao vento
não madrugámos
nada colhemos
votámos a seara
ao esquecimento
e hoje nada há sobre a mesa
nada partido
e repartido
que não já o sentimento
(in Este é o meu corpo, Lisboa, Tea for One, 2013)
terça-feira, fevereiro 19, 2013
Antropofagia
Olhai, peixes, lá do mar para a terra. Não, não: não é isso que vos digo. Vós virais os olhos para os matos e para o sertão? Para cá, para cá; para a cidade é que haveis de olhar. Cuidais que só os Tapuias se comem uns aos outros? Muito maior açougue é o de cá, muito mais se comem os Brancos. Vedes vós todo aquele bulir, vedes todo aquele andar, vedes aquele concorrer às praças e cruzar as ruas; vedes aquele subir e descer as calçadas, vedes aquele entrar e sair sem quietação nem sossego? Pois tudo aquilo é andarem buscando os homens como hão-de comer e como se hão-de comer.
Padre António Vieira, "Sermão de Santo António aos Peixes"
terça-feira, fevereiro 12, 2013
Entre lugares
Como noventa por cento de todas as pessoas, no fundo quero sempre estar onde não estou, estar no sítio de onde acabo de fugir. (...) E a verdade é que apenas sou feliz quando estou sentado no carro entre o lugar que acabei de deixar e o outro para onde me dirijo, apenas sou feliz no carro e durante a viagem, mas sou o mais infeliz recém-chegado que se pode imaginar, onde quer que chegue, logo que chego sou infeliz. Sou daquelas pessoas que no fundo não suportam nenhum lugar do mundo e só são felizes entre os lugares de onde partiram e para onde se dirigem. Ainda há alguns anos eu acreditava que uma tal fatalidade mórbida teria de conduzir forçosamente, dentro de pouco tempo, a uma loucura total, mas não me conduziu a essa loucura total, preservou-me efectivamente de uma tal loucura, de que tive toda a minha vida o maior pavor.
Thomas Bernhard, O Sobrinho de Wittgenstein
quinta-feira, janeiro 31, 2013
Por vezes, aqui o Inverno
é como estar num sonho cujo único sentido fosse precisamente não o ter, como sonhar com uma estrada que não principia, com uma sombra posta no chão sem corpo que a tivesse produzido, com uma palavra que o ar pronunciou e no mesmo ar se dasarticula.
José Saramago, O Ano da Morte de Ricardo Reis
quarta-feira, janeiro 23, 2013
Para alcançar um lugar ao sol. Um poema de György Petri
Era uma noite de verão como as outras.
Eu andava de tasca em tasca.
Talvez estivesse a beber no Nylon,
ao lado da estação de comboios, junto à Ponte
Margit
(ou será que a ponte já tinha sido demolida?).
Não sei,
pode ser que andasse pela Praça Boráros.
Essas andanças duravam sempre
até de manhã ou mesmo dois dias,
e levavam-me a lugares sem nome.
Em todo o caso, estava sentado a beber num sítio
qualquer.
(Naquele tempo eu ainda bebia de tudo, os jovens
não são esquisitos.)
Ainda não me punha a ler nas tascas,
não, não, ainda não me enterrava
em livros e revistas, ainda não pregava os olhos
ao tampo da mesa.
Ainda não ficava nervoso quando os outros falavam
comigo.
“O que é que pagas?”, perguntou atrás de mim
a voz catarrosa de uma mulher. Era uma voz jovem.
“Peça lá”, respondi, voltando-me para ela. Nas
minhas costas
estava uma mulher de mais ou menos cinquenta
anos. Cabelos outrora
castanhos claros, gordurosos, colados à cabeça,
as gengivas arruinadas, os lábios gretados, os
olhos
raiados de veias, de um azul marinho*,
camisola sintética branca amarelada,
calças castanhas, sapatos de praia encontrados no
lixo.
Pediu uma mistura de álcool e uma imperial. Sem
comentários.
“Estou aqui para uma nota de vinte”, disse.
Fiquei surpreendido.
O preço era incrivelmente barato (já naquele
tempo o era).
Eu conhecia os preços da Praça Rákóczi. Vinte
forints não era preço que se visse.
A mulher não teria tido sucesso
na Praça Rákóczi, nem em qualquer outra praça.
Mais lógico seria ela pagar para ir para a cama.
Inclusivamente mais do que estava a pedir. Mas
era isso que ela queria. “Anda lá,
apetece-me”, disse ela, “estou cheia de vontade.”
Nunca fui capaz de ofender a feminilidade de uma
mulher
(só quando esse foi declaradamente o objectivo).
Mas neste caso… fui com ela; achei que tinha de
ser.
É que nesse tempo sentia-me acossado e turvo
como lama revolvida e
apenas experimentava alguma falsa superioridade
nessas tascas e casas de pasto
entre os verdadeiros miseráveis da privação e
desabrigo.
Arrastou-me durante muito tempo por uma rua
longa, e depois abraçou-me.
Foi embaraçoso, mas faz parte do negócio.
Abracei-a também,
atracámos a uma cave, havia muitos degraus
para descer, a uma luz de origem
desconhecida.
A cama. Uma pocilga de peças encardidas de
algodão.
Não se despiu, apenas baixou as calças.
“Era assim que eu fazia quando fodia atrás dos
arbustos”,
Disse sem pejo. Por mim tudo bem.
Também tirei apenas as peças indispensáveis
e atirei o casaco para o chão. Mais vale sujo que
amarrotado.
“Beija-me”. Tudo bem, era inevitável.
A boca cheirava a ranço, tinha os lábios
escamados,
a língua e o céu da boca secos, como se a minha
língua remexesse
numa lata de sardinhas vazia, para depois vir a
cortar-se na borda afiada.
Fiquei com medo de logo vomitar na boca dela,
mas à conta disso apeteceu-me rir às gargalhadas,
com as lágrimas a derramarem-se sobre a sua
grossa pele, até
eu conseguir dominar os movimentos peristálticos.
Entre pernas,
era estreita e seca. Pouco se alargava e em caso
algum ficaria molhada.
“Espera”, disse ela, e com os dedos esgravatou
numa margarina aberta. Esfregou-se lá por dentro,
uma e outra vez.
“Também vais comer daqui?”
“Há algum sítio onde possa lavar-me”, perguntei
mais tarde.
Apontou para a ponta de um cano. A água esguichou
e fiquei com as calças cheias de lama, como se me
tivesse mijado todo.
“Faz parte”, murmurei. Ainda tinha uma nota
de cinquenta. Ela abanou a cabeça: “Disse que era
vinte,
o preço não é esse. O que eu mesmo preciso
é de uma nota de vinte”. “Então dá-me troco”,
respondi,
“não vês que não tenho vinte?” “És estúpido ou
quê?”,
disse ela. “Se pudesse dar troco de cinquenta,
é porque não precisava da tua nota de vinte”,
disse logicamente.
E no momento seguinte ficou com a boca aberta.
Encolhi os ombros (“se és assim tão orgulhosa”),
Meti a nota de cinquenta no bolso, apanhei o casaco
e subi as escadas às cegas.
Para alcançar um lugar ao sol,
onde o fato bege e a camisa branca resplandeçam,
por degraus entalhados rumo à limpeza,
aí, onde o vento silva, a espuma branca crepita,
numa absolvição lúgubre, numa recriminação indiferente,
degraus de náusea, subcaves que recusam consumir-se,
madrugada de verão, mil novecentos e sessenta e um.
*Que disparate. Tu é que tens os olhos azuis
marinhos.
Os dela? Sei lá.
Como água sulfurosa numa banheira.
Só queria oferecer qualquer coisa a esta criatura
desafortunada,
como por exemplo a cor dos teus olhos, uma
palavra rara,
para ela não ficar tão repugnantemente lastimável
e eu parecer mais inteligível.
Tradução de Barbara
Szöllősi, João Miguel Henriques e Kata Kosiczky.
quinta-feira, janeiro 10, 2013
Sul
The months came and went. There was plenty of food and no work in the Southland, and White Fang lived fat, prosperous and happy. Not alone was he in the geographical Southland, for he was in the Southland of life. Human kindness was like a sun shining upon him, and he flourished like a flower planted in good soil.
White Fang, Jack London
sexta-feira, dezembro 28, 2012
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