sábado, maio 11, 2013

Da dor. Um poema de Ana Cristina César


21 de fevereiro
Não quero mais a fúria da verdade. Entro na sapataria popular.
Chove por detrás. Gatos amarelos circulando no fundo.
Abomino Baudelaire querido, mas procuro na vitrina um
modelo brutal. Fica boazinha, dor; sábia como deve ser, não tão
generosa, não. Recebe o afeto que se encerra no meu peito. Me
calço decidida onde os gatos fazem que me amam, juvenis,
reais. Antes eu era 36, gata borralheira, pé ante pé, pequeno
polegar, pagar na caixa, receber na frente. Minha dor. Me dá a
mão. Vem por aqui, longe deles. Escuta, querida, escuta. A
marcha desta noite. Se debruça sobre os anos neste pulso. Belo
belo. Tenho tudo o que fere. As alemãs marchando que nem 
homem. As cenas mais belas do romance o autor não soube
comentar. Não me deixa agora, fera.


quarta-feira, maio 08, 2013

Ela

eu penso nela um bocadinho
a caminho do aeroporto
ou quase nela sobre o asfalto
confundido
é noutra que penso
congemino um pouco que seja
o amor dela noutra pessoa
para decidir o de hoje
ao volante do carro
sem pressa nenhuma
já quase atrasado


quinta-feira, maio 02, 2013

domingo, abril 21, 2013

Dos governos

Houve ainda algum tempo em que se atribuiu todo o mal ao Governo! Acusação grotesca que ninguém hoje ousaria repetir.
Os Governos! Podiam ter criado, é certo, mais artilharia, mais ambulâncias; mas o que eles não podiam criar era uma alma enérgica ao país! Tínhamos caído numa indiferença, num cepticismo imbecil, num desdém de toda a ideia, numa repugnância de todo o esforço, numa anulação de toda a vontade... Estávamos caquéticos! O Governo, a Constituição, a própria Carta tão escarnecida, dera-nos tudo o que nos podia dar: uma liberdade ampla. Era ao abrigo dessa liberdade que a Pátria, a massa dos portugueses tinha o dever de tornar o seu País próspero, vivo, forte, digno da independência. O Governo! O País esperava dele aquilo que devia tirar de si mesmo, pedindo ao Governo que fizesse tudo o que lhe competia a ele mesmo fazer!... Queria que o Governo lhe arroteasse as terras, que o Governo criasse a sua indústria, que o Governo escrevesse os seus livros, que o Governo alimentasse os seus filhos, que o Governo erguesse os seus edifícios, que o Governo lhe desse a ideia do seu Deus!
Sempre o Governo! O Governo devia ser o agricultor, o industrial, o comerciante, o filósofo, o sacerdote, o pintor, o arquitecto - tudo! Quando um País abdica assim nas mãos de um Governo toda a sua iniciativa, e cruza os braços, esperando que a civilização lhe caia feita das secretarias, como a luz que lhe vem do sol, esse País está mal: as almas perdem o vigor, os braços perdem o hábito do trabalho, a consciência perde a regra, o cérebro perde a acção. E como o Governo lá está para fazer tudo - o País estira-se ao sol e acomoda-se para dormir. Mas quando acorda - é como nós acordámos - com uma sentinela estrangeira à porta do Arsenal.


Eça de Queiroz, "A Catástrofe"



domingo, abril 07, 2013

Uma canção para domingo



I check my face
I look a little bit older
I look a little bit colder

quarta-feira, março 20, 2013

domingo, março 03, 2013

Este é o meu corpo


disseste 
buscar alento
como algo
para a boca
algum alimento
algo nosso
de cada dia
dado em dado momento
para a travessia

só que (lembras?)
nós não semeámos
nada lançámos ao vento
não madrugámos
nada colhemos
votámos a seara
ao esquecimento
e hoje nada há sobre a mesa
nada partido
e repartido
que não já o sentimento

(in Este é o meu corpo, Lisboa, Tea for One, 2013)

terça-feira, fevereiro 19, 2013

Antropofagia

Olhai, peixes, lá do mar para a terra. Não, não: não é isso que vos digo. Vós virais os olhos para os matos e para o sertão? Para cá, para cá; para a cidade é que haveis de olhar. Cuidais que só os Tapuias se comem uns aos outros? Muito maior açougue é o de cá, muito mais se comem os Brancos. Vedes vós todo aquele bulir, vedes todo aquele andar, vedes aquele concorrer às praças e cruzar as ruas; vedes aquele subir e descer as calçadas, vedes aquele entrar e sair sem quietação nem sossego? Pois tudo aquilo é andarem buscando os homens como hão-de comer e como se hão-de comer.

Padre António Vieira, "Sermão de Santo António aos Peixes"

terça-feira, fevereiro 12, 2013

Entre lugares

Como noventa por cento de todas as pessoas, no fundo quero sempre estar onde não estou, estar no sítio de onde acabo de fugir. (...) E a verdade é que apenas sou feliz quando estou sentado no carro entre o lugar que acabei de deixar e o outro para onde me dirijo, apenas sou feliz no carro e durante a viagem, mas sou o mais infeliz recém-chegado que se pode imaginar, onde quer que chegue, logo que chego sou infeliz. Sou daquelas pessoas que no fundo não suportam nenhum lugar do mundo e só são felizes entre os lugares de onde partiram e para onde se dirigem. Ainda há alguns anos eu acreditava que uma tal fatalidade mórbida teria de conduzir forçosamente, dentro de pouco tempo, a uma loucura total, mas não me conduziu a essa loucura total, preservou-me efectivamente de uma tal loucura, de que tive toda a minha vida o maior pavor.

Thomas Bernhard, O Sobrinho de Wittgenstein

quinta-feira, janeiro 31, 2013

Por vezes, aqui o Inverno

é como estar num sonho cujo único sentido fosse precisamente não o ter, como sonhar com uma estrada que não principia, com uma sombra posta no chão sem corpo que a tivesse produzido, com uma palavra que o ar pronunciou e no mesmo ar se dasarticula.

José Saramago, O Ano da Morte de Ricardo Reis



quarta-feira, janeiro 23, 2013

Para alcançar um lugar ao sol. Um poema de György Petri



Era uma noite de verão como as outras.
Eu andava de tasca em tasca.
Talvez estivesse a beber no Nylon,
ao lado da estação de comboios, junto à Ponte Margit
(ou será que a ponte já tinha sido demolida?). Não sei,
pode ser que andasse pela Praça Boráros.
Essas andanças duravam sempre
até de manhã ou mesmo dois dias,
e levavam-me a lugares sem nome.
Em todo o caso, estava sentado a beber num sítio qualquer.
(Naquele tempo eu ainda bebia de tudo, os jovens não são esquisitos.)
Ainda não me punha a ler nas tascas,
não, não, ainda não me enterrava
em livros e revistas, ainda não pregava os olhos ao tampo da mesa.
Ainda não ficava nervoso quando os outros falavam comigo.

“O que é que pagas?”, perguntou atrás de mim
a voz catarrosa de uma mulher. Era uma voz jovem.
“Peça lá”, respondi, voltando-me para ela. Nas minhas costas
estava uma mulher de mais ou menos cinquenta anos. Cabelos outrora
castanhos claros, gordurosos, colados à cabeça,
as gengivas arruinadas, os lábios gretados, os olhos
raiados de veias, de um azul marinho*,
camisola sintética branca amarelada,
calças castanhas, sapatos de praia encontrados no lixo.
Pediu uma mistura de álcool e uma imperial. Sem comentários.
“Estou aqui para uma nota de vinte”, disse. Fiquei surpreendido.
O preço era incrivelmente barato (já naquele tempo o era).
Eu conhecia os preços da Praça Rákóczi. Vinte forints não era preço que se visse.
A mulher não teria tido sucesso
na Praça Rákóczi, nem em qualquer outra praça.
Mais lógico seria ela pagar para ir para a cama.
Inclusivamente mais do que estava a pedir. Mas era isso que ela queria. “Anda lá,
apetece-me”, disse ela, “estou cheia de vontade.”
Nunca fui capaz de ofender a feminilidade de uma mulher
(só quando esse foi declaradamente o objectivo).
Mas neste caso… fui com ela; achei que tinha de ser.
É que nesse tempo sentia-me acossado e turvo
como lama revolvida e
apenas experimentava alguma falsa superioridade
nessas tascas e casas de pasto
entre os verdadeiros miseráveis da privação e desabrigo.
Arrastou-me durante muito tempo por uma rua longa, e depois abraçou-me.
Foi embaraçoso, mas faz parte do negócio.
Abracei-a também,
atracámos a uma cave, havia muitos degraus
para descer, a uma  luz de origem
desconhecida.
A cama. Uma pocilga de peças encardidas de algodão.
Não se despiu, apenas baixou as calças.
“Era assim que eu fazia quando fodia atrás dos arbustos”,
Disse sem pejo. Por mim tudo bem.
Também tirei apenas as peças indispensáveis
e atirei o casaco para o chão. Mais vale sujo que amarrotado.
“Beija-me”. Tudo bem, era inevitável.
A boca cheirava a ranço, tinha os lábios escamados,
a língua e o céu da boca secos, como se a minha língua remexesse
numa lata de sardinhas vazia, para depois vir a cortar-se na borda afiada.
Fiquei com medo de logo vomitar na boca dela,
mas à conta disso apeteceu-me rir às gargalhadas,
com as lágrimas a derramarem-se sobre a sua grossa pele, até
eu conseguir dominar os movimentos peristálticos. Entre pernas,
era estreita e seca. Pouco se alargava e em caso algum ficaria molhada.
“Espera”, disse ela, e com os dedos esgravatou
numa margarina aberta. Esfregou-se lá por dentro,
uma e outra vez.
“Também vais comer daqui?”
“Há algum sítio onde possa lavar-me”, perguntei mais tarde.
Apontou para a ponta de um cano. A água esguichou
e fiquei com as calças cheias de lama, como se me tivesse mijado todo.
“Faz parte”, murmurei. Ainda tinha uma nota
de cinquenta. Ela abanou a cabeça: “Disse que era vinte,
o preço não é esse. O que eu mesmo preciso
é de uma nota de vinte”. “Então dá-me troco”, respondi,
“não vês que não tenho vinte?” “És estúpido ou quê?”,
disse ela. “Se pudesse dar troco de cinquenta,
é porque não precisava da tua nota de vinte”, disse logicamente.
E no momento seguinte ficou com a boca aberta.
Encolhi os ombros (“se és assim tão orgulhosa”),
Meti a nota de cinquenta no bolso, apanhei o casaco
e subi as escadas às cegas.
Para alcançar um lugar ao sol,
onde o fato bege e a camisa branca resplandeçam,
por degraus entalhados rumo à limpeza,
aí, onde o vento silva, a espuma branca crepita,
numa absolvição lúgubre, numa recriminação indiferente,
degraus de náusea, subcaves que recusam consumir-se,
madrugada de verão, mil novecentos e sessenta e um.
           

*Que disparate. Tu é que tens os olhos azuis marinhos.
Os dela? Sei lá.
Como água sulfurosa numa banheira.
Só queria oferecer qualquer coisa a esta criatura desafortunada,
como por exemplo a cor dos teus olhos, uma palavra rara,
para ela não ficar tão repugnantemente lastimável
e eu parecer mais inteligível.



Tradução de Barbara Szöllősi, João Miguel Henriques e Kata Kosiczky. 

quinta-feira, janeiro 10, 2013

Sul



The months came and went. There was plenty of food and no work in the Southland, and White Fang lived fat, prosperous and happy. Not alone was he in the geographical Southland, for he was in the Southland of life. Human kindness was like a sun shining upon him, and he flourished like a flower planted in good soil. 

White Fang, Jack London

sexta-feira, dezembro 28, 2012

terça-feira, dezembro 18, 2012

Tens o corpo a arder sobre a colina

tens o corpo a arder sobre a colina
esquecida da casa
da penumbra do quarto

alastras fogo
pelo bosque
como musgo

chamam-te chama
assinas labareda

e a um toque de tronco
incendeia-se o planeta
como lava perpétua

hás-de um dia enlevar-me nesse fogo
eu que pela orla do teu mato
há tanto me arrasto
morto de frio

domingo, dezembro 09, 2012

Uma canção para domingo



Hope I'm ready, able to make my own, good home

sábado, dezembro 01, 2012

Um melro na minha garganta. Três poetas húngaros



O mais recente número da revista online valenciana sèrieAlfa é dedicado a três poetas húngaros da segunda metade do século XX, a saber, Bella István,Nagy László e Petri György. Apresentam-se alguns poemas dos autores, traduzidos para catalão, espanhol e português, resultado de uma oficina de tradução em que participaram professores e alunos da Universidade de Szeged, na Hungria. Para ler, desfrutar e comentar.


quinta-feira, novembro 15, 2012

sábado, setembro 29, 2012

Ontem como hoje. Um poema de Carlos Drummond de Andrade

Elegia 1938


Trabalhas sem alegria para um mundo caduco,
onde as formas e as acções não encerram nenhum exemplo.
Praticas laboriosamente os gestos universais,
sentes calor e frio, falta de dinheiro, fome e desejo sexual.

Heróis enchem os parques da cidade em que te arrastas,
e preconizam a virtude, a renúncia, o sangue-frio, a concepção.
À noite, se neblina, abrem guardas chuvas de bronze
ou se recolhem aos volumes de sinistras bibliotecas.

Amas a noite pelo poder de aniquilamento que encerra
e sabes que, dormindo, os problemas te dispensam de morrer.
Mas o terrível despertar prova a existência da Grande Máquina
e te repõe, pequenino, em face de indecifráveis palmeiras.

Caminhas entre mortos e com eles conversas
sobre coisas do tempo futuro e negócios do espírito.
A literatura estragou tuas melhores horas de amor.
Ao telefone perdeste muito, muitíssimo tempo de semear.

Coração orgulhoso, tens pressa de confessar tua derrota
e adiar para outro século a felicidade coletiva.
Aceitas a chuva, a guerra, o desemprego e a injusta distribuição
porque não podes, sozinho, dinamitar a ilha de Manhattan.


domingo, setembro 23, 2012

Uma canção para domingo


Wouldn't you like to know how far you've got left to go?