Elegia 1938
Trabalhas sem alegria para um mundo caduco,
onde as formas e as acções não encerram nenhum exemplo.
Praticas laboriosamente os gestos universais,
sentes calor e frio, falta de dinheiro, fome e desejo sexual.
Heróis enchem os parques da cidade em que te arrastas,
e preconizam a virtude, a renúncia, o sangue-frio, a concepção.
À noite, se neblina, abrem guardas chuvas de bronze
ou se recolhem aos volumes de sinistras bibliotecas.
Amas a noite pelo poder de aniquilamento que encerra
e sabes que, dormindo, os problemas te dispensam de morrer.
Mas o terrível despertar prova a existência da Grande Máquina
e te repõe, pequenino, em face de indecifráveis palmeiras.
Caminhas entre mortos e com eles conversas
sobre coisas do tempo futuro e negócios do espírito.
A literatura estragou tuas melhores horas de amor.
Ao telefone perdeste muito, muitíssimo tempo de semear.
Coração orgulhoso, tens pressa de confessar tua derrota
e adiar para outro século a felicidade coletiva.
Aceitas a chuva, a guerra, o desemprego e a injusta distribuição
porque não podes, sozinho, dinamitar a ilha de Manhattan.
sábado, setembro 29, 2012
domingo, setembro 23, 2012
quinta-feira, setembro 20, 2012
O grito de Wilhelm
O grito de Wilhelm é um efeito sonoro utilizado repetidamente ao longo das décadas em produções cinematográficas norte-americanas, sempre que um dado personagem é atingido por um projéctil ou cai de uma grande altura. Embora tivesse utilizado pela primeira vez no filme Distant Drums (1953), o grito obteve o seu nome após utilizado no filme The Charge at Feather River (1953), onde o personagem Wilhelm é atingido por uma seta índia (início do vídeo).
terça-feira, setembro 11, 2012
quarta-feira, setembro 05, 2012
De regresso. Com poema de Nagy László
O meu coração brinca,
transluz-me pela camisa,
é fada para outro coração,
até que chegue a madrugada
Nasci, cresci
num bosque denso de ervas daninhas,
sou uma flor, tenho medo:
e se um dia eu passar a urtiga?
Os meus anos proliferam
em luz, em trovão,
devo trocar por vinagre
tudo o que tenho de doce
segunda-feira, agosto 06, 2012
terça-feira, junho 26, 2012
sexta-feira, junho 15, 2012
terça-feira, junho 05, 2012
Amor inventado
que foi que me fez inventar o amor
e imaginar-te objecto de beijos?
um passo ao acaso, terá sido?
ou o peito exibido entre ombros?
um arco de olho, um desamparo?
um abandono ao verso medonho?
um gesto de nuvem na curva do dia?
que sei eu, que queres que te diga?
eu já só domino o foro do sonho
tu estás muito longe e eu deste lado
bebeste do lago a maior poesia
e eu do poema o amor inventado
e imaginar-te objecto de beijos?
um passo ao acaso, terá sido?
ou o peito exibido entre ombros?
um arco de olho, um desamparo?
um abandono ao verso medonho?
um gesto de nuvem na curva do dia?
que sei eu, que queres que te diga?
eu já só domino o foro do sonho
tu estás muito longe e eu deste lado
bebeste do lago a maior poesia
e eu do poema o amor inventado
domingo, maio 20, 2012
domingo, maio 13, 2012
À espera
All that he had now was an idea - and it was like a belief in magic - that one day something would happen, an illumination would come to him, and he would be taken by a set of events to the place he should go. What he had to do was to hold himself in readiness, to recognise the moment.
V.S. Naipul, Half a Life
quinta-feira, maio 10, 2012
domingo, abril 22, 2012
Longe da cidade
Como eu observei ao meu Jacinto, na cidade nunca se olham os astros por causa dos candeeiros - que os ofuscam: e nunca se entra por isso numa completa comunhão com o universo. O homem nas capitais pertence à sua casa, ou se o impelem fortes tendências de sociabilidade, ao seu bairro. Tudo o isola e o separa da restante natureza - os prédios obstrutores de seis andares, a fumaça das chaminés, o rolar moroso e grosso dos ónibus, a trama encarceradora da vida urbana... Mas que diferença, num cimo de monte como Torges! Aí todas essas belas estrelas olham para nós de perto, rebrilhando, à maneira de olhos conscientes, umas fixamente, com sublime indiferença, outras ansiosamente, com uma luz que palpita, uma luz que chama, como se tentassem revelar os seus segredos ou compreender os nossos... E é impossível não sentir uma solidariedade perfeita entre esses imensos mundos e os nossos pobres corpos. Todos são obras da mesma vontade. Todos vivem da acção dessa vontade imanente. Todos portanto, desde os Úranos até aos Jacintos, constituem modos diversos de um ser único, e através das suas transformações somam na mesma unidade. Não há ideia mais consoladora do que esta - que eu, e tu, e aquele monte, e o sol que agora se esconde, são moléculas do mesmo Todo, governadas pela mesma Lei, rolando para o mesmo Fim. Desde logo se somem as responsabilidades torturantes do individualismo. Que somos nós? Formas sem força, que uma Força impele. E há um descanso delicioso nesta certeza, mesmo fugitiva, de que se é o grão de pó irresponsável e passivo que vai levado no grande vento, ou a gota perdida na torrente! Jacinto concordava, sumido na sombra. Nem ele nem eu sabíamos os nomes desses astros admiráveis. Eu, por causa da maciça e indesbastável ignorância de bacharel, com que saí do ventre de Coimbra, minha mãe espiritual. Jacinto, porque na sua ponderosa biblioteca tinha trezentos e dezoito tratados de astronomia! Mas que nos importava de resto que aquele astro além se chamasse Sirius e aquele outro Aldebaran? Que lhes importava a eles que um de nós fosse José e o outro Jacinto? Éramos formas transitórias do mesmo ser eterno - e em nós havia o mesmo Deus. E se eles também assim o compreendiam, estávamos ali, nós à janela num casarão serrano, eles no seu maravilhoso infinito, perfazendo num acto sacrossanto, um perfeito acto de Graça - que era sentir conscientemente a nossa unidade, e realizar, durante um instante, na consciência, a nossa divinização.
Eça de Queiroz, "Civilização"
quinta-feira, abril 05, 2012
domingo, abril 01, 2012
sábado, março 24, 2012
Perna manca
perna manca
orelha mouca
já muito dano
p'ra vida pouca
p'ra breve ano
a voz tão rouca
já bate à porta
o vil engano
não há gaivota
no oceano
corre no cano
a última gota
pernada torta
à rédea solta
segunda-feira, março 19, 2012
Da inconstância
Nasce o sol e não dura mais que um dia,
Depois da luz se segue a noite escura,
Em tristes sombras morre a formusura,
Em contínuas tristezas a alegria.
Porém, se acaba o sol, porque nascia?
Se é tão formosa a luz, porque não dura?
Como a beleza assim se transfigura?
Como o gosto da pena assim se fia?
Mas no sol e na luz falta a firmeza,
Na formusura não se dê constância
E, na alegria, sinta-se tristeza.
Começa o mundo, enfim, pela ignorância,
E tem qualquer dos bens por natureza
A firmeza somente na inconstância.
Gregório de Matos
segunda-feira, março 05, 2012
quarta-feira, fevereiro 29, 2012
segunda-feira, fevereiro 20, 2012
Ele
Ele gosta dos cercos e dos apertos. Das tensões, dos encostos, das prisões. Das frechas, das frinchas, das brechas. Dos contactos, das atenções. E gosta dos quentes e dos esconsos. Dos espaços exíguos e das pequenas aflições.
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