domingo, maio 13, 2012

À espera

All that he had now was an idea - and it was like a belief in magic - that one day something would happen, an illumination would come to him, and he would be taken by a set of events to the place he should go. What he had to do was to hold himself in readiness, to recognise the moment.

V.S. Naipul, Half a Life

quinta-feira, maio 10, 2012

domingo, abril 22, 2012

Longe da cidade

Como eu observei ao meu Jacinto, na cidade nunca se olham os astros por causa dos candeeiros - que os ofuscam: e nunca se entra por isso numa completa comunhão com o universo. O homem nas capitais pertence à sua casa, ou se o impelem fortes tendências de sociabilidade, ao seu bairro. Tudo o isola e o separa da restante natureza - os prédios obstrutores de seis andares, a fumaça das chaminés, o rolar moroso e grosso dos ónibus, a trama encarceradora da vida urbana... Mas que diferença, num cimo de monte como Torges! Aí todas essas belas estrelas olham para nós de perto, rebrilhando, à maneira de olhos conscientes, umas fixamente, com sublime indiferença, outras ansiosamente, com uma luz que palpita, uma luz que chama, como se tentassem revelar os seus segredos ou compreender os nossos... E é impossível não sentir uma solidariedade perfeita entre esses imensos mundos e os nossos pobres corpos. Todos são obras da mesma vontade. Todos vivem da acção dessa vontade imanente. Todos portanto, desde os Úranos até aos Jacintos, constituem modos diversos de um ser único, e através das suas transformações somam na mesma unidade. Não há ideia mais consoladora do que esta - que eu, e tu, e aquele monte, e o sol que agora se esconde, são moléculas do mesmo Todo, governadas pela mesma Lei, rolando para o mesmo Fim. Desde logo se somem as responsabilidades torturantes do individualismo. Que somos nós? Formas sem força, que uma Força impele. E há um descanso delicioso nesta certeza, mesmo fugitiva, de que se é o grão de pó irresponsável e passivo que vai levado no grande vento, ou a gota perdida na torrente! Jacinto concordava, sumido na sombra. Nem ele nem eu sabíamos os nomes desses astros admiráveis. Eu, por causa da maciça e indesbastável ignorância de bacharel, com que saí do ventre de Coimbra, minha mãe espiritual. Jacinto, porque na sua ponderosa biblioteca tinha trezentos e dezoito tratados de astronomia! Mas que nos importava de resto que aquele astro além se chamasse Sirius e aquele outro Aldebaran? Que lhes importava a eles que um de nós fosse José e o outro Jacinto? Éramos formas transitórias do mesmo ser eterno - e em nós havia o mesmo Deus. E se eles também assim o compreendiam, estávamos ali, nós à janela num casarão serrano, eles no seu maravilhoso infinito, perfazendo num acto sacrossanto, um perfeito acto de Graça - que era sentir conscientemente a nossa unidade, e realizar, durante um instante, na consciência, a nossa divinização.

Eça de Queiroz, "Civilização"


quinta-feira, abril 05, 2012

domingo, abril 01, 2012

sábado, março 24, 2012

Perna manca


perna manca
orelha mouca
já muito dano
p'ra vida pouca
p'ra breve ano
a voz tão rouca
já bate à porta
o vil engano
não há gaivota
no oceano
corre no cano
a última gota
pernada torta
à rédea solta

segunda-feira, março 19, 2012

Da inconstância

Nasce o sol e não dura mais que um dia,
Depois da luz se segue a noite escura,
Em tristes sombras morre a formusura,
Em contínuas tristezas a alegria.

Porém, se acaba o sol, porque nascia?
Se é tão formosa a luz, porque não dura?
Como a beleza assim se transfigura?
Como o gosto da pena assim se fia?

Mas no sol e na luz falta a firmeza,
Na formusura não se dê constância
E, na alegria, sinta-se tristeza.

Começa o mundo, enfim, pela ignorância,
E tem qualquer dos bens por natureza
A firmeza somente na inconstância.

Gregório de Matos

segunda-feira, fevereiro 20, 2012

Ele


Ele gosta dos cercos e dos apertos. Das tensões, dos encostos, das prisões. Das frechas, das frinchas, das brechas. Dos contactos, das atenções. E gosta dos quentes e dos esconsos. Dos espaços exíguos e das pequenas aflições. 

quinta-feira, fevereiro 09, 2012

domingo, fevereiro 05, 2012

Uma canção para domingo



I remember the smell of your skin forever
Love us being stupid together

terça-feira, janeiro 31, 2012

Dois poemas de Lígia Dabul



Lava a jato

véspera de feriado tudo o que é fosco
reluz o esforço para sair desta cidade
não resultou em absolutamente nada
essa espuma ali perto do maracanã
morrendo de medo no sinal você
quer biscoito globo outro vôo e
a praça da bandeira desembarca
no viaduto que mais parece
um poleiro os carros de longe
dormem mas eu subo furiosa
acelerando todas e confesso na
lata na lataria luzente ainda
daquela vez combinamos contar
os segredos mais guardados sabe
o que escrevi - sempre que me
confundo semânticas sem querer
e depois misturo a própria semântica
com outras fraudulências é um lance
é um dado eu detesto ficar parada
vamos, tem que ter outra saída

in Nave



Calendário

Volto do ponto morto. Ferve onde
não deve, no motor com estilo e água
à vontade. O gênio que trabalha esses
vapores imprime grato a graxa. Cada
peça passa, cada dia uma retífica
como se fosse a vida. Também abrasa
a lataria - talvez se locomova. Por
fora figuras que ligam tudo e
um mês ao outro e ainda depois.

in Algo do Gênero

sábado, janeiro 28, 2012

Do mal o menos


tu agora és dos montes entre os bosques
e eu já das largas avenidas
tu da casa onde arde um grande fogo
e eu, além rio, do quarto esconso

tu agora buscando o mais da vida
e porventura eu do mal o menos
reclamando à solidão o fraco lucro
de todas essas coisas já sabidas
que aligeiram assim uns quantos dias
que lhes dão enfim uma corzinha

como a música, bons almoços
olhos lentos, alguma poesia
enganos de contas a meu favor

segunda-feira, janeiro 23, 2012

Eduardo Jorge escreve sobre "Podgorje 8" (a propósito de um outro poema)

reina:
sem dentes,
disse a passagem
das unhas sobre
a pele e 
vibravam em si.
segunda falange
à esquerda
enquanto as unhas
sulcavam o pasto
deduzindo
almoço na relva.
os cascos vazios
de número 16
estavam imprecisos
para os pés,
restava dizer
em voz de porco:
abrir sulcos.
um cachorro
seu colar
elisabetano caseiro
incluía abajur
no reino animalia
lia a terra aberta 
com o focinho
joão e sofia,
se dissesse a fábula
moravam longe,
muito longe:
eles têm um quintal celta e um cão que late em pensamento.

sexta-feira, janeiro 20, 2012

O Robert escreve sobre árvores (a propósito do último sábado)

An João


Heute habt Ihr über Bäume gesprochen.
Dass sie lange leben, gross sind. Besondere Wesen. Metaphysisch?
Keiner hat gesagt wie friedlich sie sind. Kein bisschen agressiv. Wehren sich nicht einmal wenn man sie fällt.
Eigentlich sind sie Pflanzen. Kein fleischfressenden. Und auch keine Mimosen, die sich zusammenrollen, wenn man sie anfasst.
Manche umarmen sie sogar.
Doch ich frage mich nur: gibt es noch andere Pflanzen, andere Wesen, in denen und aus denen man ein Haus bauen kann?




Para o João


Ontem estiveram a conversar sobre árvores.
Disseram que vivem muito tempo, que são grandes. Seres especiais. Metafísicos? 
Ninguém referiu como são pacíficas. Não têm ponta de agressividade. Não se defendem quando alguém vai para cortá-las.
Na verdade são plantas. Não comem carne. Mas também não são como as mimosas, que se encarquilham quando alguém lhes toca.
Há até quem as abrace.
Mas agora eu pergunto: existe outra planta, outro ser, dentro do qual e partir do qual é possível construir uma casa?

domingo, janeiro 08, 2012

Uma canção para domingo



Oh, and I go to the fire
But God knows it's the sound of love

quinta-feira, dezembro 29, 2011