sábado, março 24, 2012

Perna manca


perna manca
orelha mouca
já muito dano
p'ra vida pouca
p'ra breve ano
a voz tão rouca
já bate à porta
o vil engano
não há gaivota
no oceano
corre no cano
a última gota
pernada torta
à rédea solta

segunda-feira, março 19, 2012

Da inconstância

Nasce o sol e não dura mais que um dia,
Depois da luz se segue a noite escura,
Em tristes sombras morre a formusura,
Em contínuas tristezas a alegria.

Porém, se acaba o sol, porque nascia?
Se é tão formosa a luz, porque não dura?
Como a beleza assim se transfigura?
Como o gosto da pena assim se fia?

Mas no sol e na luz falta a firmeza,
Na formusura não se dê constância
E, na alegria, sinta-se tristeza.

Começa o mundo, enfim, pela ignorância,
E tem qualquer dos bens por natureza
A firmeza somente na inconstância.

Gregório de Matos

segunda-feira, fevereiro 20, 2012

Ele


Ele gosta dos cercos e dos apertos. Das tensões, dos encostos, das prisões. Das frechas, das frinchas, das brechas. Dos contactos, das atenções. E gosta dos quentes e dos esconsos. Dos espaços exíguos e das pequenas aflições. 

quinta-feira, fevereiro 09, 2012

domingo, fevereiro 05, 2012

Uma canção para domingo



I remember the smell of your skin forever
Love us being stupid together

terça-feira, janeiro 31, 2012

Dois poemas de Lígia Dabul



Lava a jato

véspera de feriado tudo o que é fosco
reluz o esforço para sair desta cidade
não resultou em absolutamente nada
essa espuma ali perto do maracanã
morrendo de medo no sinal você
quer biscoito globo outro vôo e
a praça da bandeira desembarca
no viaduto que mais parece
um poleiro os carros de longe
dormem mas eu subo furiosa
acelerando todas e confesso na
lata na lataria luzente ainda
daquela vez combinamos contar
os segredos mais guardados sabe
o que escrevi - sempre que me
confundo semânticas sem querer
e depois misturo a própria semântica
com outras fraudulências é um lance
é um dado eu detesto ficar parada
vamos, tem que ter outra saída

in Nave



Calendário

Volto do ponto morto. Ferve onde
não deve, no motor com estilo e água
à vontade. O gênio que trabalha esses
vapores imprime grato a graxa. Cada
peça passa, cada dia uma retífica
como se fosse a vida. Também abrasa
a lataria - talvez se locomova. Por
fora figuras que ligam tudo e
um mês ao outro e ainda depois.

in Algo do Gênero

sábado, janeiro 28, 2012

Do mal o menos


tu agora és dos montes entre os bosques
e eu já das largas avenidas
tu da casa onde arde um grande fogo
e eu, além rio, do quarto esconso

tu agora buscando o mais da vida
e porventura eu do mal o menos
reclamando à solidão o fraco lucro
de todas essas coisas já sabidas
que aligeiram assim uns quantos dias
que lhes dão enfim uma corzinha

como a música, bons almoços
olhos lentos, alguma poesia
enganos de contas a meu favor

segunda-feira, janeiro 23, 2012

Eduardo Jorge escreve sobre "Podgorje 8" (a propósito de um outro poema)

reina:
sem dentes,
disse a passagem
das unhas sobre
a pele e 
vibravam em si.
segunda falange
à esquerda
enquanto as unhas
sulcavam o pasto
deduzindo
almoço na relva.
os cascos vazios
de número 16
estavam imprecisos
para os pés,
restava dizer
em voz de porco:
abrir sulcos.
um cachorro
seu colar
elisabetano caseiro
incluía abajur
no reino animalia
lia a terra aberta 
com o focinho
joão e sofia,
se dissesse a fábula
moravam longe,
muito longe:
eles têm um quintal celta e um cão que late em pensamento.

sexta-feira, janeiro 20, 2012

O Robert escreve sobre árvores (a propósito do último sábado)

An João


Heute habt Ihr über Bäume gesprochen.
Dass sie lange leben, gross sind. Besondere Wesen. Metaphysisch?
Keiner hat gesagt wie friedlich sie sind. Kein bisschen agressiv. Wehren sich nicht einmal wenn man sie fällt.
Eigentlich sind sie Pflanzen. Kein fleischfressenden. Und auch keine Mimosen, die sich zusammenrollen, wenn man sie anfasst.
Manche umarmen sie sogar.
Doch ich frage mich nur: gibt es noch andere Pflanzen, andere Wesen, in denen und aus denen man ein Haus bauen kann?




Para o João


Ontem estiveram a conversar sobre árvores.
Disseram que vivem muito tempo, que são grandes. Seres especiais. Metafísicos? 
Ninguém referiu como são pacíficas. Não têm ponta de agressividade. Não se defendem quando alguém vai para cortá-las.
Na verdade são plantas. Não comem carne. Mas também não são como as mimosas, que se encarquilham quando alguém lhes toca.
Há até quem as abrace.
Mas agora eu pergunto: existe outra planta, outro ser, dentro do qual e partir do qual é possível construir uma casa?

domingo, janeiro 08, 2012

Uma canção para domingo



Oh, and I go to the fire
But God knows it's the sound of love

quinta-feira, dezembro 29, 2011

segunda-feira, dezembro 12, 2011

A arte e a vida (no oitavo aniversário destes quartos)

Ellen. My wife: someone I feel I understand less well than a foreign writer dead for a hundred years. Is this an aberration, or is it normal? Books say: She did this because. Life says: She did this. Books are where things are explained to you; life is where things aren't. I'm not surprised some people prefer books. Books make sense of life. The only problem is that the lives they make sense of are other people's lives, never your own. (...) A maxim upon maxims. Truths about writing can be framed before you've published a word; truths about life can be framed only when it's too late to make any difference.

Julian Barnes, Flaubert's Parrot

terça-feira, dezembro 06, 2011

sexta-feira, novembro 25, 2011

Quase bonita

I am mainly an idiot
you are almost beautiful

Robert Creeley


eu julgo que és quase bonita
ao ver-te duplicada na janela
imunda de um comboio de inverno

ajeitas dois fios do teu cabelo
metes a mão à cara, porventura
a cheirar nos dedos o almoço

conferes o bilhete, o telemóvel
o conteúdo da mala não sem peso
toda a soma de últimos valores
de boa passageira infrequente

é que és mesmo quase de se amar
mirando a paisagem desolada
comigo, o maior dos idiotas
suspeitando de repente alguma morte

vagão quinze, pela tarde
körmend-szombathely

sexta-feira, novembro 11, 2011

Da ocorrência da obra de arte

Uma obra de arte não pode existir sem um terreno social onde mergulhe as raízes. É o vértice de uma pirâmide que precisa de uma base. E a base é tanto mais ampla, as raízes vão tanto mais fundo, o processo de elaboração é tanto mais complexo e integrador, quanto mais elaborada nos aparece a síntese - estética ou ideológica. É necessário que haja grupos humanos com escalas de valores definidos; é necessário que haja consciência dos limites e da transitoriedade desses valores, quer por serem patentes as suas contradições, quer porque entram em oposição com os de escalas diferentes; e é necessária a experiência humana vivida e meditada à luz destas contradições, desta mutabilidade dos valores que se contradizem ou se opõem e que se sujeitam à revisão.
Esta base e experiência social é condição necessária de toda a forma de elaboração ideológica ou estética. Lá onde foi possível uma obra de arte existiu necessariamente essa base. É por isso que uma obra de arte é significativa, e tanto mais quanto maior é o seu nível estético, ou seja, o seu grau de elaboração. Mas a recíproca não é verdadeira: lá onde existiu uma base social adequada não é necessário que exista também a correspondente síntese ideológica ou estética. A condição necessária para o florescimento da obra de arte não é só por si suficiente. A obra de arte exige mecanismos delicados, tais como escolas, tradições, convívios, etc., coincidências de oportunidades cujo cálculo não conhecemos ainda, tais como a convergência pouco comum de certa feições temperamentais no mesmo indivíduo, juntamente com uma experiência pessoal e circunstâncias particulares (certa combinação de actividade e de ócio, etc.). A Espanha barroca é a base necessária do Quixote; e a pessoa de Cervantes, com a sua formação, o seu meu próprio, o seu temperamento, a sua biografia, etc., constitui uma das condições complementares sem as quais o Quixote não existiria.

António José Saraiva, Comércio do Porto (número especial dedicado aos escritores portuenses)