quinta-feira, fevereiro 09, 2012
domingo, fevereiro 05, 2012
terça-feira, janeiro 31, 2012
Dois poemas de Lígia Dabul
Lava a jato
véspera de feriado tudo o que é fosco
reluz o esforço para sair desta cidade
não resultou em absolutamente nada
essa espuma ali perto do maracanã
morrendo de medo no sinal você
quer biscoito globo outro vôo e
a praça da bandeira desembarca
no viaduto que mais parece
um poleiro os carros de longe
dormem mas eu subo furiosa
acelerando todas e confesso na
lata na lataria luzente ainda
daquela vez combinamos contar
os segredos mais guardados sabe
o que escrevi - sempre que me
confundo semânticas sem querer
e depois misturo a própria semântica
com outras fraudulências é um lance
é um dado eu detesto ficar parada
vamos, tem que ter outra saída
in Nave
Calendário
Volto do ponto morto. Ferve onde
não deve, no motor com estilo e água
à vontade. O gênio que trabalha esses
vapores imprime grato a graxa. Cada
peça passa, cada dia uma retífica
como se fosse a vida. Também abrasa
a lataria - talvez se locomova. Por
fora figuras que ligam tudo e
um mês ao outro e ainda depois.
in Algo do Gênero
sábado, janeiro 28, 2012
Do mal o menos
tu agora és dos montes entre os bosques
e eu já das largas avenidas
tu da casa onde arde um grande fogo
e eu, além rio, do quarto esconso
tu agora buscando o mais da vida
e porventura eu do mal o menos
reclamando à solidão o fraco lucro
de todas essas coisas já sabidas
que aligeiram assim uns quantos dias
que lhes dão enfim uma corzinha
como a música, bons almoços
olhos lentos, alguma poesia
enganos de contas a meu favor
segunda-feira, janeiro 23, 2012
Eduardo Jorge escreve sobre "Podgorje 8" (a propósito de um outro poema)
reina:
sem dentes,
disse a passagem
das unhas sobre
a pele e
vibravam em si.
segunda falange
à esquerda
enquanto as unhas
sulcavam o pasto
deduzindo
almoço na relva.
os cascos vazios
de número 16
estavam imprecisos
para os pés,
restava dizer
em voz de porco:
abrir sulcos.
um cachorro
seu colar
elisabetano caseiro
incluía abajur
no reino animalia
lia a terra aberta
com o focinho
joão e sofia,
se dissesse a fábula
moravam longe,
muito longe:
eles têm um quintal celta e um cão que late em pensamento.
sem dentes,
disse a passagem
das unhas sobre
a pele e
vibravam em si.
segunda falange
à esquerda
enquanto as unhas
sulcavam o pasto
deduzindo
almoço na relva.
os cascos vazios
de número 16
estavam imprecisos
para os pés,
restava dizer
em voz de porco:
abrir sulcos.
um cachorro
seu colar
elisabetano caseiro
incluía abajur
no reino animalia
lia a terra aberta
com o focinho
joão e sofia,
se dissesse a fábula
moravam longe,
muito longe:
eles têm um quintal celta e um cão que late em pensamento.
sexta-feira, janeiro 20, 2012
O Robert escreve sobre árvores (a propósito do último sábado)
An João
Heute habt Ihr über Bäume gesprochen.
Dass sie lange leben, gross sind. Besondere Wesen. Metaphysisch?
Keiner hat gesagt wie friedlich sie sind. Kein bisschen agressiv. Wehren sich nicht einmal wenn man sie fällt.
Eigentlich sind sie Pflanzen. Kein fleischfressenden. Und auch keine Mimosen, die sich zusammenrollen, wenn man sie anfasst.
Manche umarmen sie sogar.
Doch ich frage mich nur: gibt es noch andere Pflanzen, andere Wesen, in denen und aus denen man ein Haus bauen kann?
Para o João
Ontem estiveram a conversar sobre árvores.
Disseram que vivem muito tempo, que são grandes. Seres especiais. Metafísicos?
Ninguém referiu como são pacíficas. Não têm ponta de agressividade. Não se defendem quando alguém vai para cortá-las.
Na verdade são plantas. Não comem carne. Mas também não são como as mimosas, que se encarquilham quando alguém lhes toca.
Há até quem as abrace.
Mas agora eu pergunto: existe outra planta, outro ser, dentro do qual e partir do qual é possível construir uma casa?
Heute habt Ihr über Bäume gesprochen.
Dass sie lange leben, gross sind. Besondere Wesen. Metaphysisch?
Keiner hat gesagt wie friedlich sie sind. Kein bisschen agressiv. Wehren sich nicht einmal wenn man sie fällt.
Eigentlich sind sie Pflanzen. Kein fleischfressenden. Und auch keine Mimosen, die sich zusammenrollen, wenn man sie anfasst.
Manche umarmen sie sogar.
Doch ich frage mich nur: gibt es noch andere Pflanzen, andere Wesen, in denen und aus denen man ein Haus bauen kann?
Para o João
Ontem estiveram a conversar sobre árvores.
Disseram que vivem muito tempo, que são grandes. Seres especiais. Metafísicos?
Ninguém referiu como são pacíficas. Não têm ponta de agressividade. Não se defendem quando alguém vai para cortá-las.
Na verdade são plantas. Não comem carne. Mas também não são como as mimosas, que se encarquilham quando alguém lhes toca.
Há até quem as abrace.
Mas agora eu pergunto: existe outra planta, outro ser, dentro do qual e partir do qual é possível construir uma casa?
quarta-feira, janeiro 11, 2012
domingo, janeiro 08, 2012
domingo, janeiro 01, 2012
quinta-feira, dezembro 29, 2011
quinta-feira, dezembro 15, 2011
segunda-feira, dezembro 12, 2011
A arte e a vida (no oitavo aniversário destes quartos)
Ellen. My wife: someone I feel I understand less well than a foreign writer dead for a hundred years. Is this an aberration, or is it normal? Books say: She did this because. Life says: She did this. Books are where things are explained to you; life is where things aren't. I'm not surprised some people prefer books. Books make sense of life. The only problem is that the lives they make sense of are other people's lives, never your own. (...) A maxim upon maxims. Truths about writing can be framed before you've published a word; truths about life can be framed only when it's too late to make any difference.
Julian Barnes, Flaubert's Parrot
terça-feira, dezembro 06, 2011
sexta-feira, novembro 25, 2011
Quase bonita
I am mainly an idiot
you are almost beautiful
Robert Creeley
eu julgo que és quase bonita
ao ver-te duplicada na janela
imunda de um comboio de inverno
ajeitas dois fios do teu cabelo
metes a mão à cara, porventura
a cheirar nos dedos o almoço
conferes o bilhete, o telemóvel
o conteúdo da mala não sem peso
toda a soma de últimos valores
de boa passageira infrequente
é que és mesmo quase de se amar
mirando a paisagem desolada
comigo, o maior dos idiotas
suspeitando de repente alguma morte
vagão quinze, pela tarde
körmend-szombathely
sexta-feira, novembro 11, 2011
Da ocorrência da obra de arte
Uma obra de arte não pode existir sem um terreno social onde mergulhe as raízes. É o vértice de uma pirâmide que precisa de uma base. E a base é tanto mais ampla, as raízes vão tanto mais fundo, o processo de elaboração é tanto mais complexo e integrador, quanto mais elaborada nos aparece a síntese - estética ou ideológica. É necessário que haja grupos humanos com escalas de valores definidos; é necessário que haja consciência dos limites e da transitoriedade desses valores, quer por serem patentes as suas contradições, quer porque entram em oposição com os de escalas diferentes; e é necessária a experiência humana vivida e meditada à luz destas contradições, desta mutabilidade dos valores que se contradizem ou se opõem e que se sujeitam à revisão.
Esta base e experiência social é condição necessária de toda a forma de elaboração ideológica ou estética. Lá onde foi possível uma obra de arte existiu necessariamente essa base. É por isso que uma obra de arte é significativa, e tanto mais quanto maior é o seu nível estético, ou seja, o seu grau de elaboração. Mas a recíproca não é verdadeira: lá onde existiu uma base social adequada não é necessário que exista também a correspondente síntese ideológica ou estética. A condição necessária para o florescimento da obra de arte não é só por si suficiente. A obra de arte exige mecanismos delicados, tais como escolas, tradições, convívios, etc., coincidências de oportunidades cujo cálculo não conhecemos ainda, tais como a convergência pouco comum de certa feições temperamentais no mesmo indivíduo, juntamente com uma experiência pessoal e circunstâncias particulares (certa combinação de actividade e de ócio, etc.). A Espanha barroca é a base necessária do Quixote; e a pessoa de Cervantes, com a sua formação, o seu meu próprio, o seu temperamento, a sua biografia, etc., constitui uma das condições complementares sem as quais o Quixote não existiria.
António José Saraiva, Comércio do Porto (número especial dedicado aos escritores portuenses)
domingo, novembro 06, 2011
Uma canção para domingo
I walk with others in me, yearning to get out
Claw at my skin and gnash their teeth and shout
Claw at my skin and gnash their teeth and shout
domingo, outubro 30, 2011
São Martinho
leva-os pelo caminho do santo
pela vereda do peregrino
diz-lhes do viço e da ventura
do jugo e da longa jornada
assinala na terra ensopada
pegadas de porco e de cervo
e fá-los deslizar dedos por sebes
cabelos e pontas de dedos
por ramos e folhas de sebes
diante já do cotovelo
onde a estrada dobra para a floresta
fá-los reparar nesse estandarte
de são martinho, branco e amarelo
que um dia arranquei ao teu vestido
pela vereda do peregrino
diz-lhes do viço e da ventura
do jugo e da longa jornada
assinala na terra ensopada
pegadas de porco e de cervo
e fá-los deslizar dedos por sebes
cabelos e pontas de dedos
por ramos e folhas de sebes
diante já do cotovelo
onde a estrada dobra para a floresta
fá-los reparar nesse estandarte
de são martinho, branco e amarelo
que um dia arranquei ao teu vestido
sexta-feira, outubro 21, 2011
sexta-feira, outubro 14, 2011
sexta-feira, outubro 07, 2011
A propósito de um prémio
Três poemas de Tomas Tranströmer, retirados da belíssima Poesia Ilimitada
Histórias de marinheiros
Há dias de inverno sem neve em que o mar é parente
de zonas montanhosas, encolhido sob plumagem cinza,
azul só por um minuto, longas horas com ondas quais pálidos
linces, buscando em vão sustento nas pedras de à beira-mar.
Em dias como estes saem do mar restos de naufrágios em busca
de seus proprietários, sentados no bulício da cidade, e afogadas
tripulações vêm a terra, más ténues que fumo de cachimbo.
(No Norte andam os verdadeiros linces, com garras afiadas
e olhos sonhadores. No Norte, onde o dia
vive numa mina, de dia e de noite.
Ali, onde o único sobrevivente pode estar
junto ao forno da Aurora Boreal escutando
a música dos mortos de frio).
(1954)
A árvore e a nuvem
Uma árvore anda de aqui para ali sob a chuva,
com pressa, ante nós, derramando-se na cinza.
Leva um recado. Da chuva arranca vida
como um melro ante um jardim de fruta.
Quando a chuva cessa, detém-se a árvore.
Vislumbramo-la direita, quieta em noites claras,
à espera, como nós, do instante
em que flocos de neve floresçam no espaço.
(1962)
Desde a montanha
Estou na montanha e vejo a enseada.
Os barcos descansam sobre a superfície do verão.
«Somos sonâmbulos. Luas vagabundas.»
Isso dizem as velas brancas.
«Deslizamos por uma casa adormecida.
Abrimos as portas lentamente.
Assomamo-nos à liberdade.»
Isso dizem as velas brancas.
Um dia vi navegar os desejos do mundo.
Todos, no mesmo rumo – uma só frota.
«Agora estamos dispersos. Séquito de ninguém.»
Isso dizem as velas brancas.
(1962)
Histórias de marinheiros
Há dias de inverno sem neve em que o mar é parente
de zonas montanhosas, encolhido sob plumagem cinza,
azul só por um minuto, longas horas com ondas quais pálidos
linces, buscando em vão sustento nas pedras de à beira-mar.
Em dias como estes saem do mar restos de naufrágios em busca
de seus proprietários, sentados no bulício da cidade, e afogadas
tripulações vêm a terra, más ténues que fumo de cachimbo.
(No Norte andam os verdadeiros linces, com garras afiadas
e olhos sonhadores. No Norte, onde o dia
vive numa mina, de dia e de noite.
Ali, onde o único sobrevivente pode estar
junto ao forno da Aurora Boreal escutando
a música dos mortos de frio).
(1954)
A árvore e a nuvem
Uma árvore anda de aqui para ali sob a chuva,
com pressa, ante nós, derramando-se na cinza.
Leva um recado. Da chuva arranca vida
como um melro ante um jardim de fruta.
Quando a chuva cessa, detém-se a árvore.
Vislumbramo-la direita, quieta em noites claras,
à espera, como nós, do instante
em que flocos de neve floresçam no espaço.
(1962)
Desde a montanha
Estou na montanha e vejo a enseada.
Os barcos descansam sobre a superfície do verão.
«Somos sonâmbulos. Luas vagabundas.»
Isso dizem as velas brancas.
«Deslizamos por uma casa adormecida.
Abrimos as portas lentamente.
Assomamo-nos à liberdade.»
Isso dizem as velas brancas.
Um dia vi navegar os desejos do mundo.
Todos, no mesmo rumo – uma só frota.
«Agora estamos dispersos. Séquito de ninguém.»
Isso dizem as velas brancas.
(1962)
Subscrever:
Mensagens (Atom)






