quinta-feira, dezembro 15, 2011
segunda-feira, dezembro 12, 2011
A arte e a vida (no oitavo aniversário destes quartos)
Ellen. My wife: someone I feel I understand less well than a foreign writer dead for a hundred years. Is this an aberration, or is it normal? Books say: She did this because. Life says: She did this. Books are where things are explained to you; life is where things aren't. I'm not surprised some people prefer books. Books make sense of life. The only problem is that the lives they make sense of are other people's lives, never your own. (...) A maxim upon maxims. Truths about writing can be framed before you've published a word; truths about life can be framed only when it's too late to make any difference.
Julian Barnes, Flaubert's Parrot
terça-feira, dezembro 06, 2011
sexta-feira, novembro 25, 2011
Quase bonita
I am mainly an idiot
you are almost beautiful
Robert Creeley
eu julgo que és quase bonita
ao ver-te duplicada na janela
imunda de um comboio de inverno
ajeitas dois fios do teu cabelo
metes a mão à cara, porventura
a cheirar nos dedos o almoço
conferes o bilhete, o telemóvel
o conteúdo da mala não sem peso
toda a soma de últimos valores
de boa passageira infrequente
é que és mesmo quase de se amar
mirando a paisagem desolada
comigo, o maior dos idiotas
suspeitando de repente alguma morte
vagão quinze, pela tarde
körmend-szombathely
sexta-feira, novembro 11, 2011
Da ocorrência da obra de arte
Uma obra de arte não pode existir sem um terreno social onde mergulhe as raízes. É o vértice de uma pirâmide que precisa de uma base. E a base é tanto mais ampla, as raízes vão tanto mais fundo, o processo de elaboração é tanto mais complexo e integrador, quanto mais elaborada nos aparece a síntese - estética ou ideológica. É necessário que haja grupos humanos com escalas de valores definidos; é necessário que haja consciência dos limites e da transitoriedade desses valores, quer por serem patentes as suas contradições, quer porque entram em oposição com os de escalas diferentes; e é necessária a experiência humana vivida e meditada à luz destas contradições, desta mutabilidade dos valores que se contradizem ou se opõem e que se sujeitam à revisão.
Esta base e experiência social é condição necessária de toda a forma de elaboração ideológica ou estética. Lá onde foi possível uma obra de arte existiu necessariamente essa base. É por isso que uma obra de arte é significativa, e tanto mais quanto maior é o seu nível estético, ou seja, o seu grau de elaboração. Mas a recíproca não é verdadeira: lá onde existiu uma base social adequada não é necessário que exista também a correspondente síntese ideológica ou estética. A condição necessária para o florescimento da obra de arte não é só por si suficiente. A obra de arte exige mecanismos delicados, tais como escolas, tradições, convívios, etc., coincidências de oportunidades cujo cálculo não conhecemos ainda, tais como a convergência pouco comum de certa feições temperamentais no mesmo indivíduo, juntamente com uma experiência pessoal e circunstâncias particulares (certa combinação de actividade e de ócio, etc.). A Espanha barroca é a base necessária do Quixote; e a pessoa de Cervantes, com a sua formação, o seu meu próprio, o seu temperamento, a sua biografia, etc., constitui uma das condições complementares sem as quais o Quixote não existiria.
António José Saraiva, Comércio do Porto (número especial dedicado aos escritores portuenses)
domingo, novembro 06, 2011
Uma canção para domingo
I walk with others in me, yearning to get out
Claw at my skin and gnash their teeth and shout
Claw at my skin and gnash their teeth and shout
domingo, outubro 30, 2011
São Martinho
leva-os pelo caminho do santo
pela vereda do peregrino
diz-lhes do viço e da ventura
do jugo e da longa jornada
assinala na terra ensopada
pegadas de porco e de cervo
e fá-los deslizar dedos por sebes
cabelos e pontas de dedos
por ramos e folhas de sebes
diante já do cotovelo
onde a estrada dobra para a floresta
fá-los reparar nesse estandarte
de são martinho, branco e amarelo
que um dia arranquei ao teu vestido
pela vereda do peregrino
diz-lhes do viço e da ventura
do jugo e da longa jornada
assinala na terra ensopada
pegadas de porco e de cervo
e fá-los deslizar dedos por sebes
cabelos e pontas de dedos
por ramos e folhas de sebes
diante já do cotovelo
onde a estrada dobra para a floresta
fá-los reparar nesse estandarte
de são martinho, branco e amarelo
que um dia arranquei ao teu vestido
sexta-feira, outubro 21, 2011
sexta-feira, outubro 14, 2011
sexta-feira, outubro 07, 2011
A propósito de um prémio
Três poemas de Tomas Tranströmer, retirados da belíssima Poesia Ilimitada
Histórias de marinheiros
Há dias de inverno sem neve em que o mar é parente
de zonas montanhosas, encolhido sob plumagem cinza,
azul só por um minuto, longas horas com ondas quais pálidos
linces, buscando em vão sustento nas pedras de à beira-mar.
Em dias como estes saem do mar restos de naufrágios em busca
de seus proprietários, sentados no bulício da cidade, e afogadas
tripulações vêm a terra, más ténues que fumo de cachimbo.
(No Norte andam os verdadeiros linces, com garras afiadas
e olhos sonhadores. No Norte, onde o dia
vive numa mina, de dia e de noite.
Ali, onde o único sobrevivente pode estar
junto ao forno da Aurora Boreal escutando
a música dos mortos de frio).
(1954)
A árvore e a nuvem
Uma árvore anda de aqui para ali sob a chuva,
com pressa, ante nós, derramando-se na cinza.
Leva um recado. Da chuva arranca vida
como um melro ante um jardim de fruta.
Quando a chuva cessa, detém-se a árvore.
Vislumbramo-la direita, quieta em noites claras,
à espera, como nós, do instante
em que flocos de neve floresçam no espaço.
(1962)
Desde a montanha
Estou na montanha e vejo a enseada.
Os barcos descansam sobre a superfície do verão.
«Somos sonâmbulos. Luas vagabundas.»
Isso dizem as velas brancas.
«Deslizamos por uma casa adormecida.
Abrimos as portas lentamente.
Assomamo-nos à liberdade.»
Isso dizem as velas brancas.
Um dia vi navegar os desejos do mundo.
Todos, no mesmo rumo – uma só frota.
«Agora estamos dispersos. Séquito de ninguém.»
Isso dizem as velas brancas.
(1962)
Histórias de marinheiros
Há dias de inverno sem neve em que o mar é parente
de zonas montanhosas, encolhido sob plumagem cinza,
azul só por um minuto, longas horas com ondas quais pálidos
linces, buscando em vão sustento nas pedras de à beira-mar.
Em dias como estes saem do mar restos de naufrágios em busca
de seus proprietários, sentados no bulício da cidade, e afogadas
tripulações vêm a terra, más ténues que fumo de cachimbo.
(No Norte andam os verdadeiros linces, com garras afiadas
e olhos sonhadores. No Norte, onde o dia
vive numa mina, de dia e de noite.
Ali, onde o único sobrevivente pode estar
junto ao forno da Aurora Boreal escutando
a música dos mortos de frio).
(1954)
A árvore e a nuvem
Uma árvore anda de aqui para ali sob a chuva,
com pressa, ante nós, derramando-se na cinza.
Leva um recado. Da chuva arranca vida
como um melro ante um jardim de fruta.
Quando a chuva cessa, detém-se a árvore.
Vislumbramo-la direita, quieta em noites claras,
à espera, como nós, do instante
em que flocos de neve floresçam no espaço.
(1962)
Desde a montanha
Estou na montanha e vejo a enseada.
Os barcos descansam sobre a superfície do verão.
«Somos sonâmbulos. Luas vagabundas.»
Isso dizem as velas brancas.
«Deslizamos por uma casa adormecida.
Abrimos as portas lentamente.
Assomamo-nos à liberdade.»
Isso dizem as velas brancas.
Um dia vi navegar os desejos do mundo.
Todos, no mesmo rumo – uma só frota.
«Agora estamos dispersos. Séquito de ninguém.»
Isso dizem as velas brancas.
(1962)
sexta-feira, setembro 30, 2011
Hervás, sábio e herege
Quanto ao homem e aos animais, deviam a sua existência, segundo Hervás, a um certo ácido gerador que, ao fazer fermentar a matéria, lhe dava formas permanentes, da mesma maneira que os ácidos cristalizam as bases alcalinas e terrosas em poliedros sempre semelhantes. Considerava as substâncias fungosas que a madeira húmida produz como o elo que une a cristalização dos fósseis à reprodução dos animais e dos vegetais, e que indica, senão a sua identidade, pelo menos a sua analogia.
A um sábio como Hervás não custou muito trabalho escorar o seu falso sistema com argumentos e provas sofísticas, preparadas para ofuscar os espíritos. Afirmava, por exemplo, que as mulas, que são de duas espécies, podiam ser comparadas aos sais de base misturada, cuja cristalização é confusa. A efervescência de algumas terras com os ácidos pareceu-lhe que podia relacionar-se com a fermentação dos vegetais mucosos, e a esta, por sua vez, considerava-a como um começo de vida que não tinha podido desenvolver-se por falta de circunstâncias favoráveis.
Hervás tinha observado que os cristais, ao formarem-se, se reuniam nas partes mais iluminadas do recipiente, ao passo que na obscuridade se formavam dificilmente. E como a luz é igualmente favorável à vegetação, considerou o fluido luminoso como um dos elementos que compõem o ácido universal que anima a natureza. Como tinha visto, também, a luz tornar vermelhos, pela longa exposição, os papéis pintados de azul, isto pareceu-lhe mais uma prova de que podia considerá-la um ácido.
Hervás sabia que nas altas latitudes, nas proximidades do polo, o sangue, por falta do necessário calor, estava exposto a uma alcalescência que não podia ser detida a não ser pelo uso interno dos ácidos. Daí deduziu que, posto que o calor podia por vezes ser substituído por um ácido, o próprio calor era, sem dúvida, também um ácido, ou, pelo menos, um dos elementos do ácido universal.
Hervás sabia que o trovão podia azedar e fazer fermentar os vinhos. E tendo lido em Sanchoniaton que, no começo do mundo, os seres destinados a viver tinham sido como que despertados para a vida pelo violento ruído do trovão, não teve escrúpulo em apoiar-se nessa cosmogonia pagã para afirmar que a matéria do raio teria podido dar o primeiro impulso ao ácido gerador, infinitamente variado, mas constante na reprodução de formas semelhantes.
O lógico teria sido que Hervás, no seu propósito de penetrar nos mistérios da criação, reconhecesse o seu Criador e lhe rendesse a sua glória. Oxalá o tivesse feito! Mas o seu anjo da guarda tinha-o abandonado, e a sua mente, extraviada pelo orgulho do saber, entregou-o sem defesa à tentação dos espíritos soberbos, cuja queda arrastou a do mundo.
Jan Potocki, O Manuscrito Encontrado em Saragoça
domingo, setembro 25, 2011
sexta-feira, setembro 23, 2011
O mundo desconcertado. Dois poemas
Vejo eu as gentes andar revolvendo
Vejo eu as gentes andar revolvendo
e mudando aginha os corações
do que põen antre si as nações;
e já me eu aquesto vou aprendendo
e ora mais cedo aprenderei:
a quen poser preito, mentir-lho-ei,
e assi irei melhor guarecendo.
Ca vejo eu ir melhor ao mentireiro
que ao que diz verdade ao seu amigo;
e por aquesto o juro e o digo
que já mais nunca seja verdadeiro;
mais mentirei e firmarei logo al:
a quen quero hoje ben, querrei-lhe mal,
e assi guarrei como cavaleiro
Pois que meu prez nen mia honra non crece,
por que me quigi teer à verdade,
vede-lo que farei, par caridade,
pois que vejo o que me assi acaece:
mentirei ao amigo e ao senhor,
e poiará meu prez e meu valor
con mentira, pois com verdade dece.
Pero Mafaldo
Ao desconcerto do mundo
Os bons vi sempre passar
No mundo grandes tormentos
E pera mais me espantar
Os maus vi sempre nadar
Em mar de contentamentos.
Cuidando alcançar assim
O bem tão mal ordenado
Fui mau, mas fui castigado:
Assim que, só pera mim,
Anda o mundo concertado
Luís de Camões
terça-feira, setembro 20, 2011
quarta-feira, setembro 14, 2011
A propósito de um recente aniversário
Um brilhante filme de Ken Loach, sugerido pelo Flávio Ricardo Vassoler, que o faz acompanhar de um texto bem a propósito.
segunda-feira, setembro 12, 2011
Admirável mundo nosso
We were keeping our eye on 1984. When the year came and [Orwell's] prophecy didn't, thoughtful Americans sang softly in praise of themselves. The roots of liberal democracy had held. Wherever else terror had happened, we, at least, had not been visited by Orwellian nightmares. But we had forgotten that alongside Orwell's dark vision, there was another - slightly older, slightly less know, equally chilling: Aldous Huxley's Brave New World.
Contrary to common belief even among the educated, Huxley and Orwell did not prophesy the same thing. Orwell warns that we will be overcome by an externally imposed oppression. But in Huxley's vision, no Big Brother is required to deprive people of their autonomy, maturity and history. As he saw it, people will come to love their oppression, to adore the technologies that undo their capacities to think.
What Orwell feared were those who would ban books. What Huxley feared was that there would be no reason to ban a book, for there would be no one who wanted to read one. Orwell feared those who would deprive us of information. Huxley feared those who would give us so much that we would be reduced to passivity and egoism. Orwell feared that the truth would be concealed from us. Huxley feared that the truth would be drown in a sea of irrelevance.
Orwell feared we would become a captive culture. Huxley feared we would become a trivial culture, preoccupied with some equivalent of the feelies, the orgy porgy, and the centrifugal bumblepuppy. As Huxley remarked in Brave New World Revisited, the civil libertarians and rationalists who are ever on the alert to oppose tyranny "failed to take into account man's almost infinite appetite for distractions." In 1984, Huxley added, people are controlled by inflicting pain. In Brave New World, they are controlled by inflicting pleasure. In short, Orwell feared that what we hate will ruin us. Huxley feared that what we love will ruin us
Neil Postman, Amusing Ourselves to Death
terça-feira, setembro 06, 2011
sábado, setembro 03, 2011
segunda-feira, agosto 29, 2011
Assalto ao corpo
1
ruboriza-se a face
ao escárnio do tempo
atemoriza-se a face
grade
grito
grão de pele
a meios vários
e engendramentos
recorre a carne
aflito o corpo
fazendo fé em fugazes salvamentos
2
porque sendo marca grave
de profunda marcação
e doentia
não permite ao dorso lento
mais que plácido lamento
ou orgânica ardentia
3
e move-se por acção do fulgor mais obscuro
largando à superfície do torso submisso
um vergão a lembrar incêndios
afoita a marca
isenta de água
exigirá mais tarde do dia
lenitiva superação de membros
de tudo isto se compondo
ou dissolvendo
vai somando o corpo os seus desastres
4
e ao mesmo tempo inclina-se a fronte
sobre o corpo há muito sentado
alvoroçando com um sopro somente
a penugem dos joelhos incautos
ademais empreende com isso
ranhura de carne a meio-torso
logo tornada
instaurado o calor
rego ou canal de águas salgadas
5
após o tumulto de nervos e vasos
em findando a borrasca
estabelecido já o repouso
enclausura-se o corpo
em sereno aforro de esforços
à noite reclamarão os sentidos
trégua de sono manso
ou travo de abandono
6
e em folgando o corpo de seus labores
ilibado já de diligências
de cargas enormes
de nefandos rigores
tem início no quarto
distensão espontânea de fibras
dilatação de carnes
o olhar percorre as paredes
em busca de um ponto de repouso
e a boca verte salivas
pelos queixos com pêlo
pelo pêlo dos peitos
superado o assalto
quinta-feira, agosto 18, 2011
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