domingo, novembro 06, 2011

Uma canção para domingo




I walk with others in me, yearning to get out
Claw at my skin and gnash their teeth and shout

domingo, outubro 30, 2011

São Martinho

leva-os pelo caminho do santo
pela vereda do peregrino

diz-lhes do viço e da ventura
do jugo e da longa jornada

assinala na terra ensopada
pegadas de porco e de cervo

e fá-los deslizar dedos por sebes
cabelos e pontas de dedos
por ramos e folhas de sebes

diante já do cotovelo
onde a estrada dobra para a floresta
fá-los reparar nesse estandarte
de são martinho, branco e amarelo
que um dia arranquei ao teu vestido

sexta-feira, outubro 07, 2011

A propósito de um prémio

 Três poemas de Tomas Tranströmer, retirados da belíssima Poesia Ilimitada



Histórias de marinheiros

Há dias de inverno sem neve em que o mar é parente
de zonas montanhosas, encolhido sob plumagem cinza,
azul só por um minuto, longas horas com ondas quais pálidos
linces, buscando em vão sustento nas pedras de à beira-mar.

Em dias como estes saem do mar restos de naufrágios em busca
de seus proprietários, sentados no bulício da cidade, e afogadas
tripulações vêm a terra, más ténues que fumo de cachimbo.

(No Norte andam os verdadeiros linces, com garras afiadas
e olhos sonhadores. No Norte, onde o dia
vive numa mina, de dia e de noite.

Ali, onde o único sobrevivente pode estar
junto ao forno da Aurora Boreal escutando
a música dos mortos de frio).

(1954)





A árvore e a nuvem


Uma árvore anda de aqui para ali sob a chuva,
com pressa, ante nós, derramando-se na cinza.
Leva um recado. Da chuva arranca vida
como um melro ante um jardim de fruta.

Quando a chuva cessa, detém-se a árvore.
Vislumbramo-la direita, quieta em noites claras,
à espera, como nós, do instante
em que flocos de neve floresçam no espaço.

(1962)




Desde a montanha


Estou na montanha e vejo a enseada.
Os barcos descansam sobre a superfície do verão.
«Somos sonâmbulos. Luas vagabundas.»
Isso dizem as velas brancas.

«Deslizamos por uma casa adormecida.
Abrimos as portas lentamente.
Assomamo-nos à liberdade.»
Isso dizem as velas brancas.

Um dia vi navegar os desejos do mundo.
Todos, no mesmo rumo – uma só frota.
«Agora estamos dispersos. Séquito de ninguém.»
Isso dizem as velas brancas.

(1962)

sexta-feira, setembro 30, 2011

Hervás, sábio e herege

Quanto ao homem e aos animais, deviam a sua existência, segundo Hervás, a um certo ácido gerador que, ao fazer fermentar a matéria, lhe dava formas permanentes, da mesma maneira que os ácidos cristalizam as bases alcalinas e terrosas em poliedros sempre semelhantes. Considerava as substâncias fungosas que a madeira húmida produz como o elo que une a cristalização dos fósseis à reprodução dos animais e dos vegetais, e que indica, senão a sua identidade, pelo menos a sua analogia.
A um sábio como Hervás não custou muito trabalho escorar o seu falso sistema com argumentos e provas sofísticas, preparadas para ofuscar os espíritos. Afirmava, por exemplo, que as mulas, que são de duas espécies, podiam ser comparadas aos sais de base misturada, cuja cristalização é confusa. A efervescência de algumas terras com os ácidos pareceu-lhe que podia relacionar-se com a fermentação dos vegetais mucosos, e a esta, por sua vez, considerava-a como um começo de vida que não tinha podido desenvolver-se por falta de circunstâncias favoráveis. 
Hervás tinha observado que os cristais, ao formarem-se, se reuniam nas partes mais iluminadas do recipiente, ao passo que na obscuridade se formavam dificilmente. E como a luz é igualmente favorável à vegetação, considerou o fluido luminoso como um dos elementos que compõem o ácido universal que anima a natureza. Como tinha visto, também, a luz tornar vermelhos, pela longa exposição, os  papéis pintados de azul, isto pareceu-lhe mais uma prova de que podia considerá-la um ácido.
Hervás sabia que nas altas latitudes, nas proximidades do polo, o sangue, por falta do necessário calor, estava exposto a uma alcalescência que não podia ser detida a não ser pelo uso interno dos ácidos. Daí deduziu que, posto que o calor podia por vezes ser substituído por um ácido, o próprio calor era, sem dúvida, também um ácido, ou, pelo menos, um dos elementos do ácido universal. 
Hervás sabia que o trovão podia azedar e fazer fermentar os vinhos. E tendo lido em Sanchoniaton que, no começo do mundo, os seres destinados a viver tinham sido como que despertados para a vida pelo violento ruído do trovão, não teve escrúpulo em apoiar-se nessa cosmogonia pagã para afirmar que a matéria do raio teria podido dar o primeiro impulso ao ácido gerador, infinitamente variado, mas constante na reprodução de formas semelhantes.
O lógico teria sido que Hervás, no seu propósito de penetrar nos mistérios da criação, reconhecesse o seu Criador e lhe rendesse a sua glória. Oxalá o tivesse feito! Mas o seu anjo da guarda tinha-o abandonado, e a sua mente, extraviada pelo orgulho do saber, entregou-o sem defesa à tentação dos espíritos soberbos, cuja queda arrastou a do mundo. 

Jan Potocki, O Manuscrito Encontrado em Saragoça 

domingo, setembro 25, 2011

Uma canção para domingo



Loneliness is such a sad affair
And I can hardly wait to be you again

sexta-feira, setembro 23, 2011

O mundo desconcertado. Dois poemas





Vejo eu as gentes andar revolvendo


Vejo eu as gentes andar revolvendo
e mudando aginha os corações
do que põen antre si as nações;
e já me eu aquesto vou aprendendo
e ora mais cedo aprenderei:
a quen poser preito, mentir-lho-ei,
e assi irei melhor guarecendo.


Ca vejo eu ir melhor ao mentireiro
que ao que diz verdade ao seu amigo;
e por aquesto o juro e o digo
que já mais nunca seja verdadeiro;
mais mentirei e firmarei logo al:
a quen quero hoje ben, querrei-lhe mal, 
e assi guarrei como cavaleiro


Pois que meu prez nen mia honra non crece,
por que me quigi teer à verdade,
vede-lo que farei, par caridade,
pois que vejo o que me assi acaece:
mentirei ao amigo e ao senhor,
e poiará meu prez e meu valor
con mentira, pois com verdade dece.

Pero Mafaldo



Ao desconcerto do mundo


Os bons vi sempre passar
No mundo grandes tormentos
E pera mais me espantar
Os maus vi sempre nadar
Em mar de contentamentos.
Cuidando alcançar assim
O bem tão mal ordenado
Fui mau, mas fui castigado:
Assim que, só pera mim,
Anda o mundo concertado


Luís de Camões

quarta-feira, setembro 14, 2011

A propósito de um recente aniversário

Um brilhante filme de Ken Loach, sugerido pelo Flávio Ricardo Vassoler, que o faz acompanhar de um texto bem a propósito.

segunda-feira, setembro 12, 2011

Admirável mundo nosso



We were keeping our eye on 1984. When the year came and [Orwell's] prophecy didn't, thoughtful Americans sang softly in praise of themselves. The roots of liberal democracy had held. Wherever else terror had happened, we, at least, had not been visited by Orwellian nightmares. But we had forgotten that alongside Orwell's dark vision, there was another - slightly older, slightly less know, equally chilling: Aldous Huxley's Brave New World.   
Contrary to common belief even among the educated, Huxley and Orwell did not prophesy the same thing. Orwell warns that we will be overcome by an externally imposed oppression. But in Huxley's vision, no Big Brother is required to deprive people of their autonomy, maturity and history. As he saw it, people will come to love their oppression, to adore the technologies that undo their capacities to think.      
What Orwell feared were those who would ban books. What Huxley feared was that there would be no reason to ban a book, for there would be no one who wanted to read one. Orwell feared those who would deprive us of information. Huxley feared those who would give us so much that we would be reduced to passivity and egoism. Orwell feared that the truth would be concealed from us. Huxley feared that the truth would be drown in a sea of irrelevance.
Orwell feared we would become a captive culture. Huxley feared we would become a trivial culture, preoccupied with some equivalent of the feelies, the orgy porgy, and the centrifugal bumblepuppy. As Huxley remarked in Brave New World Revisited, the civil libertarians and rationalists who are ever on the alert to oppose tyranny "failed to take into account man's almost infinite appetite for distractions." In 1984, Huxley added, people are controlled by inflicting pain. In Brave New World, they are controlled by inflicting pleasure. In short, Orwell feared that what we hate will ruin us. Huxley feared that what we love will ruin us


Neil Postman, Amusing Ourselves to Death


sábado, setembro 03, 2011

segunda-feira, agosto 29, 2011

Assalto ao corpo


1
ruboriza-se a face
ao escárnio do tempo

atemoriza-se a face

grade
grito
grão de pele

a meios vários
e engendramentos
recorre a carne
aflito o corpo
fazendo fé em fugazes salvamentos


2
porque sendo marca grave
de profunda marcação
e doentia
não permite ao dorso lento
mais que plácido lamento
ou orgânica ardentia


3
e move-se por acção do fulgor mais obscuro
largando à superfície do torso submisso
um vergão a lembrar incêndios

afoita a marca
isenta de água
exigirá mais tarde do dia
lenitiva superação de membros

de tudo isto se compondo
ou dissolvendo
vai somando o corpo os seus desastres

 

4
e ao mesmo tempo inclina-se a fronte
sobre o corpo há muito sentado
alvoroçando com um sopro somente
a penugem dos joelhos incautos

ademais empreende com isso
ranhura de carne a meio-torso
logo tornada
instaurado o calor
rego ou canal de águas salgadas



5
após o tumulto de nervos e vasos
em findando a borrasca
estabelecido já o repouso
enclausura-se o corpo
em sereno aforro de esforços

à noite reclamarão os sentidos
trégua de sono manso
ou travo de abandono


6
e em folgando o corpo de seus labores
ilibado já de diligências
de cargas enormes
de nefandos rigores
tem início no quarto
distensão espontânea de fibras
dilatação de carnes

o olhar percorre as paredes
em busca de um ponto de repouso
e a boca verte salivas
pelos queixos com pêlo
pelo pêlo dos peitos
superado o assalto

quinta-feira, agosto 18, 2011

sábado, agosto 13, 2011

A coisa inteira

Só o que eu quis, todo o tempo, o que eu pelejei para achar, era uma só coisa - a inteira - cujo significado e vislumbrado eu vejo que sempre tive. A que era: que existe uma receita, a norma dum caminho certo, estreito, de cada uma pessoa viver - e essa pauta cada um tem - mas a gente mesmo, no comum, não sabe encontrar; como é que, sozinho, por si, alguém ia poder encontrar e saber? Mas, esse norteado, tem. Tem que ter. Se não, a vida de todos ficava sendo sempre o confuso dessa doideira que é. E que: para cada dia, e cada hora, só uma acção possível da gente é que consegue ser a certa. Aquilo está no encoberto; mas, fora dessa consequência, tudo o que eu fizer, o que o senhor fizer, o que o beltrano fizer, o que todo-o-mundo fizer, ou deixar de fazer, fica sendo falso, e é o errado. Ah, porque aquela outra é a lei, escondida e vivível mas não achável, do verdadeiro viver: que para cada pessoa, sua continuação, já foi projetada, como o que se põe, em teatro, para cada representador - sua parte, que antes já foi inventada, num papel...

João Guimarães Rosa, Grande Sertão: Veredas

quarta-feira, agosto 10, 2011

Um conhecido paradoxo. Excerto de uma tese


Existe uma espécie de paradoxo na presença de estratos sociais mais desfavorecidos, situados nas margens dos principais núcleos de poder e proeminência social, em contexto de produção literária ou, mais notoriamente, em qualquer plano de discurso teórico filiado nas ciências humanas. Real ou infundado, questão que não valerá a pena aqui decidir, este é um paradoxo já apontado e em grande parte debatido no relativamente recente contexto dos chamados estudos culturais. Reside, segundo quem o discute, na apropriação de uma determinada classe (com tudo aquilo que lhe é característico) por parte de um representante de outra classe que com a primeira pouco ou nada partilha de experiência de vida, ansiedades ou expectativas, colocando-se este último discurso numa espécie de território de desfasamento entre locutor e objecto, desfasamento esse em que alguns identificariam laivos de um hipotético colonialismo intelectual. A legitimidade ou autoridade com que o texto teórico em particular, profundamente académico em bastantes casos, se acharia capaz de tratar a condição de um trabalhador ou o combate de toda uma classe oprimida teria, à luz deste paradoxo, os traços do cientista que no seu laboratório analisa determinadas reacções de um roedor, após impostas as condições de uma experiência que a cobaia desconhece por completo.
Se é certo que, para bem do debate e do conhecimento, a falta de uma determinada vivência ou experiência de formação dificilmente poderá desautorizar o indivíduo a um qualquer exercício de reflexão, é porém também legítimo questionar a dimensão ética, digamos assim, da atitude do académico perante o seu objecto de discussão. E isto porque o paradoxo não só reside na opção de estudo ou reflexão, mas também no facto de, sob determinada perspectiva, essa opção congregar um desconfortável e ambíguo misto de consideração e condescendência piedosa: aos olhos do locutor habilitado, o homem que, por exemplo, labora a terra é suficientemente interessante para ser discutido, criticamente abordado e até moralmente promovido, mas curiosamente não suficientemente capaz de tão simplesmente falar por si próprio, até mesmo de esgrimir os argumentos conducentes a um qualquer acto de emancipação[1]. O objecto central do jogo discursivo não conhece as regras desse jogo, nem sequer é considerado capaz de as entender[2]. Tratámos sumariamente esta questão em dissertação de mestrado (Addressing the canon. Beyond the rule of literary politics, Universidade de Edimburgo, 2003) a propósito do cânone literário e da forma absolutamente determinada como a dada altura, especialmente no mundo anglo-saxónico, mas não exclusivamente, se pugnou pela presença, quer a nível de autores quer em termos das temáticas abordadas pelas obras, de grupos étnicos e sociais desfavorecidos e marginais num cânone acusado de, à falta dessa abrangência, ser demasiado masculino, branco, europeu e, para todos os efeitos, na maior parte dos casos, já falecido. Perante tais bem-intencionadas reivindicações, filhas do mais arreigado multiculturalismo, a evidência de que a constituição de um cânone literário só interessaria a quem por isso lutava na arena das paixões académicas levantava a questão sobre se seria justo, ou sequer adequado, utilizar nesse combate o argumento da representação de uma esfera marginal da sociedade num cânone que, para essa esfera, pouco ou nada significa. Mais uma vez o paradoxo mostrava os seus contornos.
No contexto que agora mais nos interessa, o da geração neo-realista em Portugal, o problema ganha uma dimensão mais contundente na medida em que, pelo menos ao nível de um programa de intenções, a massa trabalhadora seria não apenas um objecto ao qual se dedicaria a literatura e a arte em geral, desejadamente empenhada em abrir-se a uma realidade até então tão menosprezada, mas sim, em última análise, a verdadeira razão de ser de uma arte social que se queria interventiva, capaz de denunciar desigualdades e de contribuir para as mudanças necessárias. Regressamos aqui ao de leve à questão da simplisticamente chamada “arte social” porque é obviamente neste plano que o paradoxo de que temos vindo a falar ganha mais força. A discussão do papel do artista e do intelectual, na sua relação com todos os indivíduos que têm em comum não serem artistas ou intelectuais[3], é especialmente central em momentos do pensamento histórico e filosófico (como o marxismo) ou no seio de correntes culturais e artísticas (no caso em questão, o neo-realismo português) em que se invoca precisamente o dever de uns para com outros. A este propósito, é curioso verificar que os jovens escritores e pensadores que enformaram o nosso neo-realismo parecem ter uma aguda noção dos problemas levantados pela relação entre o artista ou intelectual e seu preferencial objecto de análise. No seu segundo romance Fogo na Noite Escura (1943), para dar apenas um exemplo, Fernando Namora relata um serão de tertúlia intelectual que tem lugar no solar de família de um abastado jovem universitário. O capítulo é especialmente tenso, fruto das diferenças sociais, em alguns casos abissais, que separam os presentes. A dada altura, Júlio, um dos protagonistas, é especialmente contundente no retrato do exercício a que ele próprio também ali se dedica:

Os intelectuais, em face das tragédias que os rodeiam, satisfazem as suas responsabilidades iludindo-as com convicções muito sonoras, é certo, mas livrescas. Isto é: conservam-se prudentemente a distância. Este procedimento lembra-me muito o dos ricaços. O rico sabe que existem dramas, é claro. E abre a sua bolsa, inventa a caridade, para que a miséria se não veja forçada a arrombar-lhe a porta. Paga justamente na altura crítica. Nem antes nem depois. Não desperdiça o seu dinheiro com precipitações. Ora nós, os bons burgueses intelectuais, somos evidentemente mais subtis: justificamos o nosso bem-estar, o nosso confortável isolamento, com adesões da inteligência. Como quem diz: estou aqui, deste lado, mas sou dos vossos.[4]

Num plano similar, onde pretendemos agora chegar para discutir o que realmente nos interessa, poderia igualmente questionar-se se um poema neo-realista sobre a falta de trabalho de um assalariado rural lhe é também dirigido, e se para ele poderá ter o poder de um alento ou insinuação de mudança. Sabemos que, nestes termos, o poema em causa teria talvez maior impacto para quem nada conhecesse das agruras da vida rural do que propriamente para o trabalhador que conhece bem de mais a sua condição. Para além disso, falar da criação literária deste modo, falar da sua função, excede em larga medida o propósito destas linhas: não só esta é uma questão com largos séculos de bagagem, como nem sequer terá especial interesse avaliar ao milímetro o que pretende um romance, um poema, um verso que seja, se é que uma obra literária pretende univocamente alguma coisa. O que é certo é que no conjunto de livros de poesia da colecção “Novo Cancioneiro”, para todos os efeitos expressão poética proeminente, ainda que não exclusiva, da geração neo-realista em Portugal, observamos o recurso a várias estratégias com o objectivo aparente de legitimar o poema (numa aparição do poeta em território que não o do turbulento intimismo de linhagem presencista) no que diz respeito à sua relação com o meio social ao qual deseja votar-se e, em última instância, também ao nível da sua relação com os restantes membros de geração, companheiros na concretização de uma determinada orientação artística. A razão de ser da análise que a este respeito se pretende aqui desenvolver prende-se com a riqueza retórica e versatilidade formal que a este nível muita da poesia neo-realista portuguesa patenteia, facto que até certo ponto poucas vezes foi devidamente pesado numa justa apreciação de parte deste legado poético. Quer em termos das mais diversas (ainda que tipificadas) figuras convocadas ou encarnadas pelo sujeito poético, quer ao nível de uma consciente recuperação de formas tradicionais colhidas do ambiente com o qual a poesia procura contactar, parece-nos bastante interessante atestar de que forma os poetas desta geração procuraram atenuar um abismo do qual parecem ter precoce noção, e que corresponde à larga distância social que vai do trabalhador ao intelectual.  


[1] Na sua introdução ao estudo etnográfico de Alves Redol intitulado Glória (1938), trabalho com o qual o romancista afirma o seu interesse por um conhecimento real da vida rural ribatejana, tal como sugerido na sua advertência introdutória ao romance Gaibéus, João David Pinto Correia identifica também, até numa personalidade como Redol, “uma concepção de certo modo negativa da cultura popular, na medida em que nos são por vezes apresentadas com pasmo as produções dessa mesma cultura”.
[2] No contexto do neo-realismo português, cuja linhagem política e filosófica predominante evidentemente se enquadra na problemática relação entre intelectual e trabalhador, esta espécie de velada condescendência relativamente à massa social para cuja emancipação a arte nova deveria contribuir decisivamente surge, em alguns casos, corajosamente denunciada, como em certo artigo de Artur Justino, publicado num dos primeiros números da revista portuense Sol Nascente (“Arte de élites? Arte popular?”, p. 12). Nessa intervenção, o autor exprime as suas reservas, um pouco contra o espírito de outros colaboradores, em relação à aproximação da arte para junto das camadas populares, receando que algo se perca da “arte adulta”.
[3] Falamos aqui, segundo a distinção de Antonio Gramsci, em intelectuais tradicionais, de profissão, e não tanto nos intelectuais orgânicos que, de acordo com o autor italiano, seriam aqueles que, surgindo no seio da própria classe, lograriam liderar a consciência e batalha dessa mesma classe, independentemente da sua ocupação ou actividade profissional. É evidente que a forma como Gramsci caracteriza os intelectuais tradicionais nem sempre se aplica na totalidade aos escritores que aqui nos ocupam a reflexão, embora, a bem dizer, se aplique um razoável número de vezes.
[4] NAMORA, Fernando, Fogo na Noite Escura, 7ª ed., Mem Martins, Europa-América, 1971, pp.164-165.

domingo, julho 31, 2011

sexta-feira, julho 29, 2011

Da releitura. Excerto de uma tese


Num artigo de 2006, publicado no Jornal de Letras, Artes e Ideias (“Terrenos antigos”, Jornal de Letras, Artes e Ideias, 30 Agosto – 12 Setembro 2006, p.23), António Carlos Cortez faz a elogiosa recensão ao livro Outro Nome, Escassez, As Aves, do poeta Gastão Cruz, uma reunião de três volumes de poesia publicados pelo autor na década de 1960. Deste modo, conforme o autor do artigo tem por bem referir, “estes poemas reportam-se, em primeira instância, a um tempo concreto, facilmente identificável com determinada situação histórica”. No entanto, Cortez não reduz obviamente o impacto desta parte da obra poética de Gastão Cruz a um contexto social e político restrito, sublinhando, por um lado, o paralelo que podemos fazer entre essa atribulada década e os tempos que correm, e por outro lado, e talvez mais importante ainda, “o gesto editorial e autoral que fazem desta edição um exercício de releitura do próprio poeta”. O autor do artigo chega logo a seguir a uma versão própria de certa questão que consideramos decisiva no âmbito da reflexão que os estudos literários se vêem de tempos a tempos obrigados a fazer sobre o seu próprio labor:

Como ler, melhor dito, como reler estes textos? Se até aqui o olhar que por sobre os poemas lançávamos estava votado a uma leitura claramente balizada, muitas vezes submetendo a leitura que deles pudéssemos fazer a uma espécie de preconceito cronológico (como se tais textos mais não fossem que a fotografia de um período absolutamente ultrapassado), como interpretar, agora que novamente se editam, textos que nos assaltam pela sua actualidade? 

Em certa medida, o termo “releitura”, conforme empregue por Cortez, designa no contexto dos estudos literários um conceito curioso na sua significação, dado o sentido quase pleonástico que em si mesmo contém. Todo e qualquer trabalho no campo dos estudos literários parte de uma leitura de textos que é, na esmagadora maioria dos casos, uma espécie qualquer de releitura. Muitas vezes uma releitura que o próprio investigador faz de textos de uma qualquer sua anterior e repetida predilecção, e quase sempre uma releitura de textos já lidos em muitas outras instâncias desde a sua publicação, quando não já mesmo analisados e debatidos em anteriores trabalhos de investigação académica ou crítica literária. Porém, jamais se manifesta a necessidade de alertar uma audiência ou um público leitor para o facto de um dado texto, um conjunto de textos ou a obra de um determinado autor já terem sido no passado objecto de leitura. Leitura é quase sempre sinónimo de releitura, e o significado de releitura é invariavelmente subentendido, diríamos até naturalmente subentendido, passando a palavra à triste condição de supérflua. Certas formulações ajudam a esclarecer a natureza do procedimento em questão, caso ainda fosse necessário. Dizemos muitas vezes “a nossa leitura” ou “a leitura que hoje fazemos”. Com construções deste tipo queremos dizer que um dado texto literário, sempre escrito e, na maior parte dos casos, publicado antes do nosso discurso, foi já alvo de tratamento anterior, e que a leitura que nessa instância se leva a cabo é diferente de leituras anteriores. Diferente não apenas por ser a “nossa” ou a de “hoje”. Essa diferença é acima de tudo qualitativa, dada a crença de que uma herança literária pode sempre ser (re)lida de forma potencialmente inovadora. Não pretendemos aqui lidar com a ideia generalizada e evidente, fruto de muito labor teórico do século XX em torno do conceito de recepção literária, de que cada indivíduo lê um poema ou um romance à sua maneira, dele retirando uma quantidade muito personalizada de sugestões e assim construindo inclusivamente o seu próprio texto e contribuindo para a iluminação da obra em causa. Falamos aqui exclusivamente em termos que poderíamos classificar de científicos, pelo menos no sentido mais ou menos académico do termo. Quando se trabalha um autor, uma obra ou um “momento” literário, quando se regressa portanto a um determinado texto ou conjunto de textos, acredita-se que há qualquer coisa ainda de válido a transmitir. As razões que o justificam são múltiplas e em muitos casos bastante específicas. Ou ainda nem tudo foi dito, ou então terá já passado tempo suficiente para permitir uma nova leitura e análise, cuja diferença de abordagem é a razão da sua legitimidade. É natural que se intrometa igualmente neste conjunto de factores essa noção tão cara a T.S. Eliot de que toda a produção poética marcante nos obriga, não só a uma nova perspectiva sobre as produções que se seguem, como a uma reavaliação da tradição precedente, impossível a partir desse momento de ser lida com os mesmos olhos. O tempo, a memória e também o esquecimento provisório são, em certo sentido, os grandes adjuvantes da releitura. Os exemplos são constantes, e aquele que começámos por dar, ilustrativo da reunião de textos em novas edições, é apenas um entre muitíssimos.

quinta-feira, julho 28, 2011