terça-feira, setembro 06, 2011
sábado, setembro 03, 2011
segunda-feira, agosto 29, 2011
Assalto ao corpo
1
ruboriza-se a face
ao escárnio do tempo
atemoriza-se a face
grade
grito
grão de pele
a meios vários
e engendramentos
recorre a carne
aflito o corpo
fazendo fé em fugazes salvamentos
2
porque sendo marca grave
de profunda marcação
e doentia
não permite ao dorso lento
mais que plácido lamento
ou orgânica ardentia
3
e move-se por acção do fulgor mais obscuro
largando à superfície do torso submisso
um vergão a lembrar incêndios
afoita a marca
isenta de água
exigirá mais tarde do dia
lenitiva superação de membros
de tudo isto se compondo
ou dissolvendo
vai somando o corpo os seus desastres
4
e ao mesmo tempo inclina-se a fronte
sobre o corpo há muito sentado
alvoroçando com um sopro somente
a penugem dos joelhos incautos
ademais empreende com isso
ranhura de carne a meio-torso
logo tornada
instaurado o calor
rego ou canal de águas salgadas
5
após o tumulto de nervos e vasos
em findando a borrasca
estabelecido já o repouso
enclausura-se o corpo
em sereno aforro de esforços
à noite reclamarão os sentidos
trégua de sono manso
ou travo de abandono
6
e em folgando o corpo de seus labores
ilibado já de diligências
de cargas enormes
de nefandos rigores
tem início no quarto
distensão espontânea de fibras
dilatação de carnes
o olhar percorre as paredes
em busca de um ponto de repouso
e a boca verte salivas
pelos queixos com pêlo
pelo pêlo dos peitos
superado o assalto
quinta-feira, agosto 18, 2011
sábado, agosto 13, 2011
A coisa inteira
Só o que eu quis, todo o tempo, o que eu pelejei para achar, era uma só coisa - a inteira - cujo significado e vislumbrado eu vejo que sempre tive. A que era: que existe uma receita, a norma dum caminho certo, estreito, de cada uma pessoa viver - e essa pauta cada um tem - mas a gente mesmo, no comum, não sabe encontrar; como é que, sozinho, por si, alguém ia poder encontrar e saber? Mas, esse norteado, tem. Tem que ter. Se não, a vida de todos ficava sendo sempre o confuso dessa doideira que é. E que: para cada dia, e cada hora, só uma acção possível da gente é que consegue ser a certa. Aquilo está no encoberto; mas, fora dessa consequência, tudo o que eu fizer, o que o senhor fizer, o que o beltrano fizer, o que todo-o-mundo fizer, ou deixar de fazer, fica sendo falso, e é o errado. Ah, porque aquela outra é a lei, escondida e vivível mas não achável, do verdadeiro viver: que para cada pessoa, sua continuação, já foi projetada, como o que se põe, em teatro, para cada representador - sua parte, que antes já foi inventada, num papel...
João Guimarães Rosa, Grande Sertão: Veredas
quarta-feira, agosto 10, 2011
Um conhecido paradoxo. Excerto de uma tese
Existe uma espécie de paradoxo na presença de estratos sociais mais desfavorecidos, situados nas margens dos principais núcleos de poder e proeminência social, em contexto de produção literária ou, mais notoriamente, em qualquer plano de discurso teórico filiado nas ciências humanas. Real ou infundado, questão que não valerá a pena aqui decidir, este é um paradoxo já apontado e em grande parte debatido no relativamente recente contexto dos chamados estudos culturais. Reside, segundo quem o discute, na apropriação de uma determinada classe (com tudo aquilo que lhe é característico) por parte de um representante de outra classe que com a primeira pouco ou nada partilha de experiência de vida, ansiedades ou expectativas, colocando-se este último discurso numa espécie de território de desfasamento entre locutor e objecto, desfasamento esse em que alguns identificariam laivos de um hipotético colonialismo intelectual. A legitimidade ou autoridade com que o texto teórico em particular, profundamente académico em bastantes casos, se acharia capaz de tratar a condição de um trabalhador ou o combate de toda uma classe oprimida teria, à luz deste paradoxo, os traços do cientista que no seu laboratório analisa determinadas reacções de um roedor, após impostas as condições de uma experiência que a cobaia desconhece por completo.
Se é certo que, para bem do debate e do conhecimento, a falta de uma determinada vivência ou experiência de formação dificilmente poderá desautorizar o indivíduo a um qualquer exercício de reflexão, é porém também legítimo questionar a dimensão ética, digamos assim, da atitude do académico perante o seu objecto de discussão. E isto porque o paradoxo não só reside na opção de estudo ou reflexão, mas também no facto de, sob determinada perspectiva, essa opção congregar um desconfortável e ambíguo misto de consideração e condescendência piedosa: aos olhos do locutor habilitado, o homem que, por exemplo, labora a terra é suficientemente interessante para ser discutido, criticamente abordado e até moralmente promovido, mas curiosamente não suficientemente capaz de tão simplesmente falar por si próprio, até mesmo de esgrimir os argumentos conducentes a um qualquer acto de emancipação[1]. O objecto central do jogo discursivo não conhece as regras desse jogo, nem sequer é considerado capaz de as entender[2]. Tratámos sumariamente esta questão em dissertação de mestrado (Addressing the canon. Beyond the rule of literary politics, Universidade de Edimburgo, 2003) a propósito do cânone literário e da forma absolutamente determinada como a dada altura, especialmente no mundo anglo-saxónico, mas não exclusivamente, se pugnou pela presença, quer a nível de autores quer em termos das temáticas abordadas pelas obras, de grupos étnicos e sociais desfavorecidos e marginais num cânone acusado de, à falta dessa abrangência, ser demasiado masculino, branco, europeu e, para todos os efeitos, na maior parte dos casos, já falecido. Perante tais bem-intencionadas reivindicações, filhas do mais arreigado multiculturalismo, a evidência de que a constituição de um cânone literário só interessaria a quem por isso lutava na arena das paixões académicas levantava a questão sobre se seria justo, ou sequer adequado, utilizar nesse combate o argumento da representação de uma esfera marginal da sociedade num cânone que, para essa esfera, pouco ou nada significa. Mais uma vez o paradoxo mostrava os seus contornos.
No contexto que agora mais nos interessa, o da geração neo-realista em Portugal, o problema ganha uma dimensão mais contundente na medida em que, pelo menos ao nível de um programa de intenções, a massa trabalhadora seria não apenas um objecto ao qual se dedicaria a literatura e a arte em geral, desejadamente empenhada em abrir-se a uma realidade até então tão menosprezada, mas sim, em última análise, a verdadeira razão de ser de uma arte social que se queria interventiva, capaz de denunciar desigualdades e de contribuir para as mudanças necessárias. Regressamos aqui ao de leve à questão da simplisticamente chamada “arte social” porque é obviamente neste plano que o paradoxo de que temos vindo a falar ganha mais força. A discussão do papel do artista e do intelectual, na sua relação com todos os indivíduos que têm em comum não serem artistas ou intelectuais[3], é especialmente central em momentos do pensamento histórico e filosófico (como o marxismo) ou no seio de correntes culturais e artísticas (no caso em questão, o neo-realismo português) em que se invoca precisamente o dever de uns para com outros. A este propósito, é curioso verificar que os jovens escritores e pensadores que enformaram o nosso neo-realismo parecem ter uma aguda noção dos problemas levantados pela relação entre o artista ou intelectual e seu preferencial objecto de análise. No seu segundo romance Fogo na Noite Escura (1943), para dar apenas um exemplo, Fernando Namora relata um serão de tertúlia intelectual que tem lugar no solar de família de um abastado jovem universitário. O capítulo é especialmente tenso, fruto das diferenças sociais, em alguns casos abissais, que separam os presentes. A dada altura, Júlio, um dos protagonistas, é especialmente contundente no retrato do exercício a que ele próprio também ali se dedica:
Os intelectuais, em face das tragédias que os rodeiam, satisfazem as suas responsabilidades iludindo-as com convicções muito sonoras, é certo, mas livrescas. Isto é: conservam-se prudentemente a distância. Este procedimento lembra-me muito o dos ricaços. O rico sabe que existem dramas, é claro. E abre a sua bolsa, inventa a caridade, para que a miséria se não veja forçada a arrombar-lhe a porta. Paga justamente na altura crítica. Nem antes nem depois. Não desperdiça o seu dinheiro com precipitações. Ora nós, os bons burgueses intelectuais, somos evidentemente mais subtis: justificamos o nosso bem-estar, o nosso confortável isolamento, com adesões da inteligência. Como quem diz: estou aqui, deste lado, mas sou dos vossos.[4]
Num plano similar, onde pretendemos agora chegar para discutir o que realmente nos interessa, poderia igualmente questionar-se se um poema neo-realista sobre a falta de trabalho de um assalariado rural lhe é também dirigido, e se para ele poderá ter o poder de um alento ou insinuação de mudança. Sabemos que, nestes termos, o poema em causa teria talvez maior impacto para quem nada conhecesse das agruras da vida rural do que propriamente para o trabalhador que conhece bem de mais a sua condição. Para além disso, falar da criação literária deste modo, falar da sua função, excede em larga medida o propósito destas linhas: não só esta é uma questão com largos séculos de bagagem, como nem sequer terá especial interesse avaliar ao milímetro o que pretende um romance, um poema, um verso que seja, se é que uma obra literária pretende univocamente alguma coisa. O que é certo é que no conjunto de livros de poesia da colecção “Novo Cancioneiro”, para todos os efeitos expressão poética proeminente, ainda que não exclusiva, da geração neo-realista em Portugal, observamos o recurso a várias estratégias com o objectivo aparente de legitimar o poema (numa aparição do poeta em território que não o do turbulento intimismo de linhagem presencista) no que diz respeito à sua relação com o meio social ao qual deseja votar-se e, em última instância, também ao nível da sua relação com os restantes membros de geração, companheiros na concretização de uma determinada orientação artística. A razão de ser da análise que a este respeito se pretende aqui desenvolver prende-se com a riqueza retórica e versatilidade formal que a este nível muita da poesia neo-realista portuguesa patenteia, facto que até certo ponto poucas vezes foi devidamente pesado numa justa apreciação de parte deste legado poético. Quer em termos das mais diversas (ainda que tipificadas) figuras convocadas ou encarnadas pelo sujeito poético, quer ao nível de uma consciente recuperação de formas tradicionais colhidas do ambiente com o qual a poesia procura contactar, parece-nos bastante interessante atestar de que forma os poetas desta geração procuraram atenuar um abismo do qual parecem ter precoce noção, e que corresponde à larga distância social que vai do trabalhador ao intelectual.
[1] Na sua introdução ao estudo etnográfico de Alves Redol intitulado Glória (1938), trabalho com o qual o romancista afirma o seu interesse por um conhecimento real da vida rural ribatejana, tal como sugerido na sua advertência introdutória ao romance Gaibéus, João David Pinto Correia identifica também, até numa personalidade como Redol, “uma concepção de certo modo negativa da cultura popular, na medida em que nos são por vezes apresentadas com pasmo as produções dessa mesma cultura”.
[2] No contexto do neo-realismo português, cuja linhagem política e filosófica predominante evidentemente se enquadra na problemática relação entre intelectual e trabalhador, esta espécie de velada condescendência relativamente à massa social para cuja emancipação a arte nova deveria contribuir decisivamente surge, em alguns casos, corajosamente denunciada, como em certo artigo de Artur Justino, publicado num dos primeiros números da revista portuense Sol Nascente (“Arte de élites? Arte popular?”, p. 12). Nessa intervenção, o autor exprime as suas reservas, um pouco contra o espírito de outros colaboradores, em relação à aproximação da arte para junto das camadas populares, receando que algo se perca da “arte adulta”.
[3] Falamos aqui, segundo a distinção de Antonio Gramsci, em intelectuais tradicionais, de profissão, e não tanto nos intelectuais orgânicos que, de acordo com o autor italiano, seriam aqueles que, surgindo no seio da própria classe, lograriam liderar a consciência e batalha dessa mesma classe, independentemente da sua ocupação ou actividade profissional. É evidente que a forma como Gramsci caracteriza os intelectuais tradicionais nem sempre se aplica na totalidade aos escritores que aqui nos ocupam a reflexão, embora, a bem dizer, se aplique um razoável número de vezes.
[4] NAMORA, Fernando, Fogo na Noite Escura, 7ª ed., Mem Martins, Europa-América, 1971, pp.164-165.
domingo, julho 31, 2011
sexta-feira, julho 29, 2011
Da releitura. Excerto de uma tese
Num artigo de 2006, publicado no Jornal de Letras, Artes e Ideias (“Terrenos antigos”, Jornal de Letras, Artes e Ideias, 30 Agosto – 12 Setembro 2006, p.23), António Carlos Cortez faz a elogiosa recensão ao livro Outro Nome, Escassez, As Aves, do poeta Gastão Cruz, uma reunião de três volumes de poesia publicados pelo autor na década de 1960. Deste modo, conforme o autor do artigo tem por bem referir, “estes poemas reportam-se, em primeira instância, a um tempo concreto, facilmente identificável com determinada situação histórica”. No entanto, Cortez não reduz obviamente o impacto desta parte da obra poética de Gastão Cruz a um contexto social e político restrito, sublinhando, por um lado, o paralelo que podemos fazer entre essa atribulada década e os tempos que correm, e por outro lado, e talvez mais importante ainda, “o gesto editorial e autoral que fazem desta edição um exercício de releitura do próprio poeta”. O autor do artigo chega logo a seguir a uma versão própria de certa questão que consideramos decisiva no âmbito da reflexão que os estudos literários se vêem de tempos a tempos obrigados a fazer sobre o seu próprio labor:
Como ler, melhor dito, como reler estes textos? Se até aqui o olhar que por sobre os poemas lançávamos estava votado a uma leitura claramente balizada, muitas vezes submetendo a leitura que deles pudéssemos fazer a uma espécie de preconceito cronológico (como se tais textos mais não fossem que a fotografia de um período absolutamente ultrapassado), como interpretar, agora que novamente se editam, textos que nos assaltam pela sua actualidade?
Em certa medida, o termo “releitura”, conforme empregue por Cortez, designa no contexto dos estudos literários um conceito curioso na sua significação, dado o sentido quase pleonástico que em si mesmo contém. Todo e qualquer trabalho no campo dos estudos literários parte de uma leitura de textos que é, na esmagadora maioria dos casos, uma espécie qualquer de releitura. Muitas vezes uma releitura que o próprio investigador faz de textos de uma qualquer sua anterior e repetida predilecção, e quase sempre uma releitura de textos já lidos em muitas outras instâncias desde a sua publicação, quando não já mesmo analisados e debatidos em anteriores trabalhos de investigação académica ou crítica literária. Porém, jamais se manifesta a necessidade de alertar uma audiência ou um público leitor para o facto de um dado texto, um conjunto de textos ou a obra de um determinado autor já terem sido no passado objecto de leitura. Leitura é quase sempre sinónimo de releitura, e o significado de releitura é invariavelmente subentendido, diríamos até naturalmente subentendido, passando a palavra à triste condição de supérflua. Certas formulações ajudam a esclarecer a natureza do procedimento em questão, caso ainda fosse necessário. Dizemos muitas vezes “a nossa leitura” ou “a leitura que hoje fazemos”. Com construções deste tipo queremos dizer que um dado texto literário, sempre escrito e, na maior parte dos casos, publicado antes do nosso discurso, foi já alvo de tratamento anterior, e que a leitura que nessa instância se leva a cabo é diferente de leituras anteriores. Diferente não apenas por ser a “nossa” ou a de “hoje”. Essa diferença é acima de tudo qualitativa, dada a crença de que uma herança literária pode sempre ser (re)lida de forma potencialmente inovadora. Não pretendemos aqui lidar com a ideia generalizada e evidente, fruto de muito labor teórico do século XX em torno do conceito de recepção literária, de que cada indivíduo lê um poema ou um romance à sua maneira, dele retirando uma quantidade muito personalizada de sugestões e assim construindo inclusivamente o seu próprio texto e contribuindo para a iluminação da obra em causa. Falamos aqui exclusivamente em termos que poderíamos classificar de científicos, pelo menos no sentido mais ou menos académico do termo. Quando se trabalha um autor, uma obra ou um “momento” literário, quando se regressa portanto a um determinado texto ou conjunto de textos, acredita-se que há qualquer coisa ainda de válido a transmitir. As razões que o justificam são múltiplas e em muitos casos bastante específicas. Ou ainda nem tudo foi dito, ou então terá já passado tempo suficiente para permitir uma nova leitura e análise, cuja diferença de abordagem é a razão da sua legitimidade. É natural que se intrometa igualmente neste conjunto de factores essa noção tão cara a T.S. Eliot de que toda a produção poética marcante nos obriga, não só a uma nova perspectiva sobre as produções que se seguem, como a uma reavaliação da tradição precedente, impossível a partir desse momento de ser lida com os mesmos olhos. O tempo, a memória e também o esquecimento provisório são, em certo sentido, os grandes adjuvantes da releitura. Os exemplos são constantes, e aquele que começámos por dar, ilustrativo da reunião de textos em novas edições, é apenas um entre muitíssimos.
quinta-feira, julho 28, 2011
quinta-feira, julho 14, 2011
Como já devem ter percebido
A loja está fechada para vacances, voltando a abrir brevemente num outro lugar, com outros olhos...
segunda-feira, junho 27, 2011
Ainda a floresta. Dois poemas
caçar não sei e já confesso:
fraquejo de arco em punho
sou mão de lenta lança
recolho só à flor da erva
o fruto de baga rubra
ossadas de musgo e de ouro
galhos para uma fogueira
nas cercanias de szatta
que é nome de nítida aldeia
tanto achado como perdido
nos desvios do bosque escuro
onde testei a resistência
de pau lançado a tronco
e peito à fúria dos dias
não nascerá flor alguma
ou erva brava, inesperada
no lugar do cervo morto
apenas pó daquelas carnes
ou cinza de algum incêndio
e antes disso
oportuna passarada
de pena negra
e bico torto
fraquejo de arco em punho
sou mão de lenta lança
recolho só à flor da erva
o fruto de baga rubra
ossadas de musgo e de ouro
galhos para uma fogueira
nas cercanias de szatta
que é nome de nítida aldeia
tanto achado como perdido
nos desvios do bosque escuro
onde testei a resistência
de pau lançado a tronco
e peito à fúria dos dias
não nascerá flor alguma
ou erva brava, inesperada
no lugar do cervo morto
apenas pó daquelas carnes
ou cinza de algum incêndio
e antes disso
oportuna passarada
de pena negra
e bico torto
sábado, junho 18, 2011
domingo, junho 12, 2011
Por coragem
(...) o que queria e o que não queria, estória sem final. O correr da vida embrulha tudo, a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem. O que Deus quer é ver a gente aprendendo a ser capaz de ficar alegre a mais, no meio da alegria, e inda mais alegre ainda no meio da tristeza! Só assim de repente, na horinha em que se quer, de propósito - por coragem. Será? Era o que eu às vezes achava. Ao clarear do dia.
João Guimarães Rosa, Grande Sertão: Veredas
quarta-feira, junho 08, 2011
sexta-feira, junho 03, 2011
Cinquenta poemas
Para assinalar o #50 da sua admirável sèrieAlfa, o poeta, tradutor e editor Joan Navarro reuniu cinquenta poetas que no passado participaram no projecto. São cinquenta poemas de uma família muito heterogénea, como sempre traduzidos em quatro idiomas. Aqui, senhores.
segunda-feira, maio 30, 2011
Em casa
Às vezes esqueço-me um pouco, perco-me um pouco. Não acontece muito, nem nunca por muito tempo. Mas saio um pouco de mim, fico fora do que sou. Falha-me a memória, esqueço-me de onde estou. Um pouco apenas, não mais que uns segundos. Se fosse um olhar seria um relance, ou um lapsus linguae num discurso de horas. Coisa pouca, ainda assim um esquecimento. Mas depois olho para ela. Fico a olhá-la sem que me veja. Estudo-lhe as linhas, a cadência das pálpebras, e depois olho para o cão ao lado dela, sapiente monte de pêlo, quieto e um pouco indefeso. Olho para estas coisas e lembro-me Olho e sei que estou em casa.
domingo, maio 22, 2011
quinta-feira, maio 19, 2011
Recebido hoje, via e-mail, de uma galáxia longínqua
Máquinas, convocai a vós o sangue verdadeiro que vos percorre!
Humanos, ligai em vós a turbina de metal que vos suporta!
Seres cyborguianos do futuro, sejamos o tempo que há em nós... para sempre!
Humanos, ligai em vós a turbina de metal que vos suporta!
Seres cyborguianos do futuro, sejamos o tempo que há em nós... para sempre!
terça-feira, maio 17, 2011
domingo, maio 01, 2011
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