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domingo, julho 31, 2011
sexta-feira, julho 29, 2011
Da releitura. Excerto de uma tese
Num artigo de 2006, publicado no Jornal de Letras, Artes e Ideias (“Terrenos antigos”, Jornal de Letras, Artes e Ideias, 30 Agosto – 12 Setembro 2006, p.23), António Carlos Cortez faz a elogiosa recensão ao livro Outro Nome, Escassez, As Aves, do poeta Gastão Cruz, uma reunião de três volumes de poesia publicados pelo autor na década de 1960. Deste modo, conforme o autor do artigo tem por bem referir, “estes poemas reportam-se, em primeira instância, a um tempo concreto, facilmente identificável com determinada situação histórica”. No entanto, Cortez não reduz obviamente o impacto desta parte da obra poética de Gastão Cruz a um contexto social e político restrito, sublinhando, por um lado, o paralelo que podemos fazer entre essa atribulada década e os tempos que correm, e por outro lado, e talvez mais importante ainda, “o gesto editorial e autoral que fazem desta edição um exercício de releitura do próprio poeta”. O autor do artigo chega logo a seguir a uma versão própria de certa questão que consideramos decisiva no âmbito da reflexão que os estudos literários se vêem de tempos a tempos obrigados a fazer sobre o seu próprio labor:
Como ler, melhor dito, como reler estes textos? Se até aqui o olhar que por sobre os poemas lançávamos estava votado a uma leitura claramente balizada, muitas vezes submetendo a leitura que deles pudéssemos fazer a uma espécie de preconceito cronológico (como se tais textos mais não fossem que a fotografia de um período absolutamente ultrapassado), como interpretar, agora que novamente se editam, textos que nos assaltam pela sua actualidade?
Em certa medida, o termo “releitura”, conforme empregue por Cortez, designa no contexto dos estudos literários um conceito curioso na sua significação, dado o sentido quase pleonástico que em si mesmo contém. Todo e qualquer trabalho no campo dos estudos literários parte de uma leitura de textos que é, na esmagadora maioria dos casos, uma espécie qualquer de releitura. Muitas vezes uma releitura que o próprio investigador faz de textos de uma qualquer sua anterior e repetida predilecção, e quase sempre uma releitura de textos já lidos em muitas outras instâncias desde a sua publicação, quando não já mesmo analisados e debatidos em anteriores trabalhos de investigação académica ou crítica literária. Porém, jamais se manifesta a necessidade de alertar uma audiência ou um público leitor para o facto de um dado texto, um conjunto de textos ou a obra de um determinado autor já terem sido no passado objecto de leitura. Leitura é quase sempre sinónimo de releitura, e o significado de releitura é invariavelmente subentendido, diríamos até naturalmente subentendido, passando a palavra à triste condição de supérflua. Certas formulações ajudam a esclarecer a natureza do procedimento em questão, caso ainda fosse necessário. Dizemos muitas vezes “a nossa leitura” ou “a leitura que hoje fazemos”. Com construções deste tipo queremos dizer que um dado texto literário, sempre escrito e, na maior parte dos casos, publicado antes do nosso discurso, foi já alvo de tratamento anterior, e que a leitura que nessa instância se leva a cabo é diferente de leituras anteriores. Diferente não apenas por ser a “nossa” ou a de “hoje”. Essa diferença é acima de tudo qualitativa, dada a crença de que uma herança literária pode sempre ser (re)lida de forma potencialmente inovadora. Não pretendemos aqui lidar com a ideia generalizada e evidente, fruto de muito labor teórico do século XX em torno do conceito de recepção literária, de que cada indivíduo lê um poema ou um romance à sua maneira, dele retirando uma quantidade muito personalizada de sugestões e assim construindo inclusivamente o seu próprio texto e contribuindo para a iluminação da obra em causa. Falamos aqui exclusivamente em termos que poderíamos classificar de científicos, pelo menos no sentido mais ou menos académico do termo. Quando se trabalha um autor, uma obra ou um “momento” literário, quando se regressa portanto a um determinado texto ou conjunto de textos, acredita-se que há qualquer coisa ainda de válido a transmitir. As razões que o justificam são múltiplas e em muitos casos bastante específicas. Ou ainda nem tudo foi dito, ou então terá já passado tempo suficiente para permitir uma nova leitura e análise, cuja diferença de abordagem é a razão da sua legitimidade. É natural que se intrometa igualmente neste conjunto de factores essa noção tão cara a T.S. Eliot de que toda a produção poética marcante nos obriga, não só a uma nova perspectiva sobre as produções que se seguem, como a uma reavaliação da tradição precedente, impossível a partir desse momento de ser lida com os mesmos olhos. O tempo, a memória e também o esquecimento provisório são, em certo sentido, os grandes adjuvantes da releitura. Os exemplos são constantes, e aquele que começámos por dar, ilustrativo da reunião de textos em novas edições, é apenas um entre muitíssimos.
quinta-feira, julho 28, 2011
quinta-feira, julho 14, 2011
Como já devem ter percebido
A loja está fechada para vacances, voltando a abrir brevemente num outro lugar, com outros olhos...
segunda-feira, junho 27, 2011
Ainda a floresta. Dois poemas
caçar não sei e já confesso:
fraquejo de arco em punho
sou mão de lenta lança
recolho só à flor da erva
o fruto de baga rubra
ossadas de musgo e de ouro
galhos para uma fogueira
nas cercanias de szatta
que é nome de nítida aldeia
tanto achado como perdido
nos desvios do bosque escuro
onde testei a resistência
de pau lançado a tronco
e peito à fúria dos dias
não nascerá flor alguma
ou erva brava, inesperada
no lugar do cervo morto
apenas pó daquelas carnes
ou cinza de algum incêndio
e antes disso
oportuna passarada
de pena negra
e bico torto
fraquejo de arco em punho
sou mão de lenta lança
recolho só à flor da erva
o fruto de baga rubra
ossadas de musgo e de ouro
galhos para uma fogueira
nas cercanias de szatta
que é nome de nítida aldeia
tanto achado como perdido
nos desvios do bosque escuro
onde testei a resistência
de pau lançado a tronco
e peito à fúria dos dias
não nascerá flor alguma
ou erva brava, inesperada
no lugar do cervo morto
apenas pó daquelas carnes
ou cinza de algum incêndio
e antes disso
oportuna passarada
de pena negra
e bico torto
sábado, junho 18, 2011
domingo, junho 12, 2011
Por coragem
(...) o que queria e o que não queria, estória sem final. O correr da vida embrulha tudo, a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem. O que Deus quer é ver a gente aprendendo a ser capaz de ficar alegre a mais, no meio da alegria, e inda mais alegre ainda no meio da tristeza! Só assim de repente, na horinha em que se quer, de propósito - por coragem. Será? Era o que eu às vezes achava. Ao clarear do dia.
João Guimarães Rosa, Grande Sertão: Veredas
quarta-feira, junho 08, 2011
sexta-feira, junho 03, 2011
Cinquenta poemas
Para assinalar o #50 da sua admirável sèrieAlfa, o poeta, tradutor e editor Joan Navarro reuniu cinquenta poetas que no passado participaram no projecto. São cinquenta poemas de uma família muito heterogénea, como sempre traduzidos em quatro idiomas. Aqui, senhores.
segunda-feira, maio 30, 2011
Em casa
Às vezes esqueço-me um pouco, perco-me um pouco. Não acontece muito, nem nunca por muito tempo. Mas saio um pouco de mim, fico fora do que sou. Falha-me a memória, esqueço-me de onde estou. Um pouco apenas, não mais que uns segundos. Se fosse um olhar seria um relance, ou um lapsus linguae num discurso de horas. Coisa pouca, ainda assim um esquecimento. Mas depois olho para ela. Fico a olhá-la sem que me veja. Estudo-lhe as linhas, a cadência das pálpebras, e depois olho para o cão ao lado dela, sapiente monte de pêlo, quieto e um pouco indefeso. Olho para estas coisas e lembro-me Olho e sei que estou em casa.
domingo, maio 22, 2011
quinta-feira, maio 19, 2011
Recebido hoje, via e-mail, de uma galáxia longínqua
Máquinas, convocai a vós o sangue verdadeiro que vos percorre!
Humanos, ligai em vós a turbina de metal que vos suporta!
Seres cyborguianos do futuro, sejamos o tempo que há em nós... para sempre!
Humanos, ligai em vós a turbina de metal que vos suporta!
Seres cyborguianos do futuro, sejamos o tempo que há em nós... para sempre!
terça-feira, maio 17, 2011
domingo, maio 01, 2011
quinta-feira, abril 28, 2011
sexta-feira, abril 22, 2011
Dois poemas de Ana Rüsche
Retirados do último livro da autora, Nós Que Adoramos um Documentário (São Paulo, 2010)
e assim ficamos
como tudo, como sempre
esse ever unfinished business
sem a coragem dum chefe da máfia pra te aprontar
na rua as vias de facto
como tudo e como sempre
with so much love
esse isso tão difícil, a kind of rush
um compromisso com algo mais terrível do que o
amor
o arrastado passar dos dias
a cirurgia foi um after hours, mas estou
acostumada a ir dormir tarde
acho que os médicos também, tão animados
fui sim até o centro cirúrgico bem acordada e
fiquei acordada, sinto a hack entrando
entrando...
ainda ao longe, bem corajosinha, uma conversa
sobre qualquer coisa, luzes nos olhos
para que me sinta bem iluminada, bem disposta
de súbito lembro que não fiz depilação, e isso me
envergonha mortalmente
seria tudo filmado e colocado no youtube da
faculdade de medicina, ririam de mim
mas tenho de explicar - foi de urgência a
cirurgia, não houve tempo
nunca há tempo para nada nessas terras, apenas
para ficar ali, suspensa
e, afinal, não tenho namorado, foi uma urgência,
acontece
no início me estacionaram com o carro-maca ao
lado de um cara paciente também
podíamos até começar ali um romance,
lembro de ter desejado ao final "boa sorte, moça"
e isso acabou já com tudo, que bobo
ele morria de medo, ia retirar uma pedra do rim e
não se rendia a dormir
eu logo disse, ah, comigo também pensaram que
era cálculo renal, pela dor,
mas depois viram que era uma laranja na
barriga que eu tinha...
de súbito lembro que removeram o cara paciente
com seu carro-maca e com seu medo
e fiquei pensando num poema do zukofsky, sobre
uma laranja e o sol e a letra a
e estava já chorando, desesperada por estar sozinha
e confundindo os poemas, estar tão sozinha,
e a dor, bem, isso é com as mulheres
os papéis
e assim ficamos
como tudo, como sempre
esse ever unfinished business
sem a coragem dum chefe da máfia pra te aprontar
na rua as vias de facto
como tudo e como sempre
with so much love
esse isso tão difícil, a kind of rush
um compromisso com algo mais terrível do que o
amor
o arrastado passar dos dias
num quando
a cirurgia foi um after hours, mas estou
acostumada a ir dormir tarde
acho que os médicos também, tão animados
fui sim até o centro cirúrgico bem acordada e
fiquei acordada, sinto a hack entrando
entrando...
ainda ao longe, bem corajosinha, uma conversa
sobre qualquer coisa, luzes nos olhos
para que me sinta bem iluminada, bem disposta
de súbito lembro que não fiz depilação, e isso me
envergonha mortalmente
seria tudo filmado e colocado no youtube da
faculdade de medicina, ririam de mim
mas tenho de explicar - foi de urgência a
cirurgia, não houve tempo
nunca há tempo para nada nessas terras, apenas
para ficar ali, suspensa
e, afinal, não tenho namorado, foi uma urgência,
acontece
no início me estacionaram com o carro-maca ao
lado de um cara paciente também
podíamos até começar ali um romance,
lembro de ter desejado ao final "boa sorte, moça"
e isso acabou já com tudo, que bobo
ele morria de medo, ia retirar uma pedra do rim e
não se rendia a dormir
eu logo disse, ah, comigo também pensaram que
era cálculo renal, pela dor,
mas depois viram que era uma laranja na
barriga que eu tinha...
de súbito lembro que removeram o cara paciente
com seu carro-maca e com seu medo
e fiquei pensando num poema do zukofsky, sobre
uma laranja e o sol e a letra a
e estava já chorando, desesperada por estar sozinha
e confundindo os poemas, estar tão sozinha,
e a dor, bem, isso é com as mulheres
segunda-feira, abril 18, 2011
Decrescimento. Uma ideia para o futuro
Porque o consumo sempre escraviza. Porque o aclamado crescimento económico nunca conduziu a justiça, igualdade e crescimento humano. Porque se aos poucos mais gente começar a sair da lógica do mercado, o mercado definha, a besta morre.
terça-feira, abril 12, 2011
domingo, abril 10, 2011
sexta-feira, abril 01, 2011
Dois poemas de Virna Teixeira
o rio seguia seu curso
molhava os pés nas margens
Lisboa vista de longe,
no esquadro de um muro em ruínas
dois pescadores, anzóis
a cidade chovia
na distância ,cercada
de ciprestes
,seu labirinto visto
da colina
muralha de
pedras .móveis
molhava os pés nas margens
Lisboa vista de longe,
no esquadro de um muro em ruínas
dois pescadores, anzóis
in Atlântico
a cidade chovia
na distância ,cercada
de ciprestes
,seu labirinto visto
da colina
muralha de
pedras .móveis
na arena do tempo
in Mar Morto
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