terça-feira, dezembro 28, 2010

Um poema de László Nagy (já que termino o ano por estas bandas)

Quem levará consigo o amor?

Quando a minha existência tiver sido absorvida
Para sempre, quem prestará culto ao violino que há no grilo?
Quem bafejará de fogo os ramos enregelados pela geada?
E quem irá mutilar-se a si mesmo em cima do arco-íris?
Quem em lágrimas há-de enlaçar coxas como penhascos
Até as transformar em campos que ondulam mansamente?
Quem há-de acariciar os cabelos, as artérias
Que têm a sua raiz presa aos muros,
Quem levantará por fim catedrais de injúrias
Em louvor de crenças desfeitas?
Quando a minha existência para sempre for absorvida
Quem espantará os abutres?
Quem levará consigo para a outra margem
O Amor, apertado entre os dentes? 

(Tradução de Fiama Hasse Pais Brandão)

domingo, dezembro 26, 2010

Coisas daqui

Daqui, de Budapeste. Um belíssimo bife tártaro ao almoço. Servido com vegetais crus e pão torrado. Numa bonita casa de pasto húngara de nome Nosztalgia.

sexta-feira, dezembro 24, 2010

Presentes (via msn)

filipa says
é verdade queremos saber o que a sofia precisa/quer para o natal
para não falharmos

joão says
acho que ela anda a precisar de meias...
assim de repente...

filipa says
opá
não dá para oferecer meias

filipa says
mas o que é que ela gosta?

joão says
se lhe escolheres uma roupa ela vai gostar de certeza

filipa says
boa
é isso
vou comprar com a mãe

filipa says
eu queria comprar-lhe uma maluxa falsa como a minha
mas o nosso fornecedor foi preso

joão says
lol

filipa says
estamos à espera que saia

joão says
lindo!

filipa says 
foi recambiado para espanha
mas já telefonou a dizer que volta
tudo controlado

quarta-feira, dezembro 22, 2010

domingo, dezembro 12, 2010

Aniversário

Os Quartos Escuros fazem hoje sete anos, o que já é qualquer coisa. Para assinalar o feito (não tanto de resistir ao tempo, mas mais de não enjoar ir enfiando coisas nos cantos escuros do quarto), comprometo-me a enviar por e-mail um poema breve, de congeminação própria e absolutamente inédito, a todos os que se dignarem a deixar aqui um comentário.


Recupero também o poema da primeira entrada nos Quartos Escuros, em 12 de Dezembro de 2003:

se te atraem uns versos
de amor e pecado
e olhas as flores
de modo emotivo
se o sol p'la manhã
te incita ao lamento
e flutuas no espaço
perdido e ausente
se as coisas que dizes
não fazem sentido
e os dias parecem
mais longos que o tempo
então te digo
das duas uma

ou és mariconço
ou estás armado em parvo

quarta-feira, dezembro 08, 2010

sábado, dezembro 04, 2010

Na sala

estão na idade os pais
em que há medo de um certo futuro.
comem à mesa e trocam olhares.
sabem que os anos virão
mas não o que virá com eles

entretanto, no outro lado da sala,
falta-me o tunisino jaziri
para completar a colecção de cromos

TUNISIA - Ziad Jaziri #584 PANINI FIFA World Cup Germany 2006 Football Sticker

quinta-feira, dezembro 02, 2010

segunda-feira, novembro 29, 2010

A arte do epílogo (e da comédia de linguagem)

Dois vídeos em memória de Leslie Nielsen (1926-2010)




sexta-feira, novembro 26, 2010

Rei Batráquio. Uma fábula muito pequena


 Nós vivemos ali perto da Imprensa Nacional, numa daquelas íngremes artérias desarborizadas, expostas a todos os caprichos do clima, da invernosa inclemência à canícula mais severa. A casa não é particularmente espaçosa, mas já luz não lhe falta, luz em marés permanentes, e um certo encanto de recato aburguesado, com a sua biblioteca colorida, a pequena sala de refeições e o soalho original em madeira escura. Aqui vivemos, ia dizendo, numa tranquilidade amorosa conquistada ao rigor do quotidiano e ao efeito cruel de certos dias menos conseguidos. Vivemos, eu e ela. E praticamente desde o início do nosso consórcio, também um terceiro simpático elemento, que com os meses foi ganhando o seu espaço e peculiar influência, como que estranhamente alimentado pela atenção que lhe fomos concedendo, meio ingénuos do que ali se prefigurava.
A vida conjugal, mesmo se isenta de prole, como é o nosso caso, nunca se resume em absoluto a uma existência a dois. Um casal monta casa. É escolhido o mobiliário e são dispostos objectos e comodidades. A todos eles, naturalmente a uns mais do que a outros, fica ligado o casal por laços afectivos de ambígua natureza, amiúde construídos por força e desfrute da diária coabitação, numa mecânica de inconscientes traços panteístas.
Homem e mulher vivem portanto ali perto da Imprensa Nacional, rodeados de livros, ícones decorativos, roupa de cama, instrumentalidades de cozinha e higiene pessoal, e um certo pequeno e flácido animal, de parcas palavras e reduzida locomoção, ao qual se deve atribuir o mérito de connosco ter logrado constituir família.
É que somos mesmo uma família, em todas as mais ambiciosas acepções do termo. Eu, ela e um sapo verde de peluche, de enormes olhos salientes, uma bocarra de interior vermelho vivo e, em cima da cabeça, entre as duas órbitas vigilantes, uma coroa dourada de rei, ostentação permanente de sua batráquia realeza.




Não sei honestamente que movimento afectivo ou rebuscado exercício do nosso intelecto terá promovido este dócil boneco ao estatuto de que hoje é incontestável detentor. O nosso rei, de personalidade um tanto ou quanto fleumática, é suave ao tacto como só o alcança essa prodigiosa combinação de excelsa matéria industrial chinesa, recheada da melhor espuma que até hoje para o efeito se concebeu. Rei de manhã à noite. Onde dorme? Na nossa cama, ora envolvido em abraços ternos ou esmagado, sem um queixume, sob o peso dos nossos corpos. Rei fiel e eterno. O que come? Constantemente a mesmíssima mosca, repetidamente apanhada com admirável perícia, bordada no interior da enorme boca. Rei nosso, nunca posto ou morto. E como passa o dia? A esmagadora maioria do tempo, espojado na cama, na penumbra do quarto, em insondáveis meditações do espírito ou em silenciosa avaliação do estado do seu exíguo reino. 



 
Pus-me recentemente a pensar que coisa poderia significar ou que papel desempenhar este rei batráquio, em volta do qual, por toda a casa, fomos dispondo outras réplicas de sapos e salamandras, em jeito de séquito ou população governada. Fala pouco, sua alteza. Suspeito que jamais nos poderá dizer ao que veio, que ente é. Quando abre a boca é não mais que para repetir, quase ipsis verbis, uma frase ali mesmo formulada, ou para plagiar uma ideia por nós trocada e discutida. Estranha eloquência, aquela.
Creio porém ter já percebido a sua natureza última, se é que não é absolutamente descabido dizer tal coisa de uma figura assim letárgica e sintética. É que faz algum sentido esta suspeita que guardo dentro, até agora inconfessada. Não é rei batráquio outra coisa que uma imagem do nosso amor conjugal, e de tudo o que isso inclui de beijos, juras e sentimentos. Se pela metáfora todos os dias se transmitem e descrevem emoções e arrebatamentos, porque não haveria o amor de se materializar de vez em quando em pedra, objecto, animal, em vez de poema, verso ou palavra? Porque não um sapo reinante em vez de um suspiro ou um silêncio. Sim, julgo que ele é mesmo o amor desta casa, e o amor que um dia levaremos connosco para outro lugar. Não faz uso de extensas palavras e reina sempre sobre todas as coisas à volta.

terça-feira, novembro 23, 2010

Sozinhos

... No, it is impossible; it is impossible to convey the life-sensation of any given epoch of one's existence - that which makes its truth, its meaning - its subtle and penetrating essence. It is impossible. We live, as we dream -  alone...

Joseph Conrad, Heart of Darkness (1902)

domingo, novembro 21, 2010

Coisas daqui



Tal como em casa, duas cervejas principais: Union e Laško

quinta-feira, novembro 18, 2010

Revisionamento

Depois de ver Another Year, o admirável novo filme de Mike Leigh, no âmbito deste bonito festival, não pude deixar regressar aos Segredos e Mentiras, uma pequena maravilha já com quinze anos (quem diria). E voltei a encontrar aquilo que tanto me tinha comovido ao ver este filme pela primeira vez no cinema: o texto prodigioso, as interpretações imaculadas, a grande libertação final... E pelo meio, esta cena, o momento da revelação, da viragem. Aquele ponto na vida das pessoas a partir do qual as coisas não mais podem continuar a ser o que sempre até então tinham sido. Mike Leigh rules!


segunda-feira, novembro 15, 2010

Ninguém dirá

ninguém dirá com acerto ou justiça
que aqui não tentámos o bastante
que aqui não tentámos
um pouco que fosse.
fugir também é mudar um pouco
e o inverso, fugir mudando,
livrou-nos de todos os perigos
que imaginámos, sem conhecer.
ninguém há-de portanto nos dizer
que aqui não tentámos com empenho
a construção de um refúgio
ou o adiamento da ruína.
ficará o feito de um intento
até que nos esmague a notícia do fracasso

quinta-feira, novembro 11, 2010

terça-feira, novembro 09, 2010

Coisas daqui

Um ou outro evento na capital, como o bonito concerto de  Caribou, no domingo passado

domingo, novembro 07, 2010

Dia de Outono

  
(Rainer Maria Rilke, traduzido por Vasco Graça Moura)


Senhor: é tempo. Foi muito grande o verão.
Nos relógios de sol estira as tuas sombras,
deixa que pelo prado os ventos vão.

Manda aos últimos frutos a espessura,
dá-lhes do sul ainda mais dois dias,
força a plenitude neles, vê se envias
ao vinho forte a última doçura.

Quem não tem casa agora, já não constrói nenhuma,
quem agora está só, vai ficar só, sombrio,
perder o sono, ler, escrever cartas a fio,
e a um ir e vir inquieto nas áleas se acostuma,
vagueando enquanto as folhas lá vão num rodopio. 


Herr: es ist Zeit. Der Sommer war sehr groß.
Leg deinen Schatten auf die Sonnenuhren,
und auf den Fluren laß die Winde los. 

Befiel den letzten Früchten voll zu sein;
gib ihnen noch zwei südlichere Tage,
dränge sie zur Vollendung hin und jage
die letzte Süße in den schweren Wein.

Wer jetzt kein Haus hat, baut sich keines mehr.
Wer jetzt allein ist, wird es lange bleiben,
wird wachen, lesen, lange Briefe schreiben
und wird in den Alleen hin und her
unruhig wandern, wenn die Blätter treiben.

quinta-feira, novembro 04, 2010

Coisas daqui





Cogumelos aos montes pela floresta, de todos os tamanhos e feitios, especialmente depois de uns dias de chuva. As fotografias são, como sempre, de Zsófia Pilhál.

segunda-feira, novembro 01, 2010

Pingo



Quero desta vez contar-vos a história exactamente como se passou, sem rodeios ou falsos detalhes. Andava eu a caminhar sozinho na praia, num dia lento e cinzento como hoje, quando avistei na areia, ali onde rebentavam as tímidas ondas, um pássaro ferido nas suas asas. Peguei nele, envolvi-o no meu casaco, e levei-o para casa, para junto da lareira, onde pudesse secar-se e recuperar do trauma. Alimentei-o, falei com ele. E cedo verifiquei que as pobres asas estavam inutilizadas para sempre, pelo que logo decidi compensar com amizade e afecto aquilo que o pobre animal perdera em voo e vista de horizontes. Tomei-o para mim, e na mesma medida também ele me fez seu. Com o tempo, e por via daquilo que os mais entendedores chamam de adaptação ao meio, tiveram lugar na fisionomia do simpático passarão algumas importantes alterações. As penas foram substituídas por um mais resistente casaco de pêlo lustroso, e o bico transformou-se num focinho de lobo ou raposa, rematado por um pequeno nariz cor de carvão, de astuto farejar, indispensável aos animais de rasteira existência. As asas feridas, essas, deram lugar a dois membros dianteiros que o animal aprendeu a usar como forma de locomoção a quatro patas. Resolvi dar-lhe o nome de Pingo (com variações em Pingueiro, Pingalho ou Pingoso), por efeito de um momento de maior lamechice poética: um pássaro que me caiu do céu, como o primeiro pingo da esparsa chuva de Outono.