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| Um ou outro evento na capital, como o bonito concerto de Caribou, no domingo passado |
terça-feira, novembro 09, 2010
domingo, novembro 07, 2010
Dia de Outono
(Rainer Maria Rilke, traduzido por Vasco Graça Moura)
Senhor: é tempo. Foi muito grande o verão.
Nos relógios de sol estira as tuas sombras,
deixa que pelo prado os ventos vão.
Manda aos últimos frutos a espessura,
dá-lhes do sul ainda mais dois dias,
força a plenitude neles, vê se envias
ao vinho forte a última doçura.
Quem não tem casa agora, já não constrói nenhuma,
quem agora está só, vai ficar só, sombrio,
perder o sono, ler, escrever cartas a fio,
e a um ir e vir inquieto nas áleas se acostuma,
vagueando enquanto as folhas lá vão num rodopio.
Nos relógios de sol estira as tuas sombras,
deixa que pelo prado os ventos vão.
Manda aos últimos frutos a espessura,
dá-lhes do sul ainda mais dois dias,
força a plenitude neles, vê se envias
ao vinho forte a última doçura.
Quem não tem casa agora, já não constrói nenhuma,
quem agora está só, vai ficar só, sombrio,
perder o sono, ler, escrever cartas a fio,
e a um ir e vir inquieto nas áleas se acostuma,
vagueando enquanto as folhas lá vão num rodopio.
Herr: es ist Zeit. Der Sommer war sehr groß.
Leg deinen Schatten auf die Sonnenuhren,
und auf den Fluren laß die Winde los.
Leg deinen Schatten auf die Sonnenuhren,
und auf den Fluren laß die Winde los.
Befiel den letzten Früchten voll zu sein;
gib ihnen noch zwei südlichere Tage,
dränge sie zur Vollendung hin und jage
die letzte Süße in den schweren Wein.
gib ihnen noch zwei südlichere Tage,
dränge sie zur Vollendung hin und jage
die letzte Süße in den schweren Wein.
Wer jetzt kein Haus hat, baut sich keines mehr.
Wer jetzt allein ist, wird es lange bleiben,
wird wachen, lesen, lange Briefe schreiben
und wird in den Alleen hin und her
unruhig wandern, wenn die Blätter treiben.
Wer jetzt allein ist, wird es lange bleiben,
wird wachen, lesen, lange Briefe schreiben
und wird in den Alleen hin und her
unruhig wandern, wenn die Blätter treiben.
quinta-feira, novembro 04, 2010
Coisas daqui
segunda-feira, novembro 01, 2010
Pingo
Quero desta vez contar-vos a história exactamente como se passou, sem rodeios ou falsos detalhes. Andava eu a caminhar sozinho na praia, num dia lento e cinzento como hoje, quando avistei na areia, ali onde rebentavam as tímidas ondas, um pássaro ferido nas suas asas. Peguei nele, envolvi-o no meu casaco, e levei-o para casa, para junto da lareira, onde pudesse secar-se e recuperar do trauma. Alimentei-o, falei com ele. E cedo verifiquei que as pobres asas estavam inutilizadas para sempre, pelo que logo decidi compensar com amizade e afecto aquilo que o pobre animal perdera em voo e vista de horizontes. Tomei-o para mim, e na mesma medida também ele me fez seu. Com o tempo, e por via daquilo que os mais entendedores chamam de adaptação ao meio, tiveram lugar na fisionomia do simpático passarão algumas importantes alterações. As penas foram substituídas por um mais resistente casaco de pêlo lustroso, e o bico transformou-se num focinho de lobo ou raposa, rematado por um pequeno nariz cor de carvão, de astuto farejar, indispensável aos animais de rasteira existência. As asas feridas, essas, deram lugar a dois membros dianteiros que o animal aprendeu a usar como forma de locomoção a quatro patas. Resolvi dar-lhe o nome de Pingo (com variações em Pingueiro, Pingalho ou Pingoso), por efeito de um momento de maior lamechice poética: um pássaro que me caiu do céu, como o primeiro pingo da esparsa chuva de Outono.
sexta-feira, outubro 29, 2010
terça-feira, outubro 26, 2010
Canção de infância
já noite dentro vimos então um sapo
um vulto escuro e lento
destacado contra o murete caiado
à luz mortiça de uma lua nova
só dias mais tarde, semanas,
lembrados do sapo gordo e nocturno
nos veio à cabeça a tal cançoneta de infância
e o batráquio animal, de boca torta,
pareceu-nos já outra coisa:
o tempo, aquele olhar
a existência
tudo comeu
nem ofereceu
um vulto escuro e lento
destacado contra o murete caiado
à luz mortiça de uma lua nova
só dias mais tarde, semanas,
lembrados do sapo gordo e nocturno
nos veio à cabeça a tal cançoneta de infância
e o batráquio animal, de boca torta,
pareceu-nos já outra coisa:
o tempo, aquele olhar
a existência
tudo comeu
nem ofereceu
segunda-feira, outubro 25, 2010
Vindima
Podia ser um ditado popular, mas creio que não é: uma pessoa acaba por fazer longe de casa, passados tantos anos, aquilo que nunca fez com os seus, no seu ambiente. Neste caso concreto, andei pela primeira vez na vida a apanhar uva em Outubro. Como quase sempre sucede nestas coisas, o trabalho foi mais pretexto para copos e conversa, a maior parte da qual me passou completamente ao lado. E nem a safra foi este ano grande coisa: o mau tempo das semanas anteriores reduziu o riesling a um terço da sua habitual quantidade. Bebeu-se enfim o vinho de outras vindimas, à vista do grande lago Balaton.
segunda-feira, outubro 18, 2010
sexta-feira, outubro 15, 2010
Os mortos, os vivos
(...) é difícil a um vivo entender os mortos, Julgo que não será menos difícil a um morto entender os vivos, O morto tem a vantagem de já ter sido vivo, conhece todas as coisas deste mundo e desse mundo, mas os vivos são incapazes de aprender a coisa fundamental e tirar proveito dela, Qual, Que se morre, Nós, vivos, sabemos que morreremos, Não sabem, ninguém sabe, como eu também não sabia quando vivi, o que nós sabemos, isso sim, é que os outros morrem (...)
José Saramago, O Ano da Morte de Ricardo Reis (1984)
terça-feira, outubro 12, 2010
quinta-feira, outubro 07, 2010
domingo, outubro 03, 2010
Cadáver
fedor! (teimaste)
a qualquer coisa como
merda ou lixo antigo
emanando daquelas ervas bravas
em tufos densos
crescendo junto ao muro
nós não acreditámos
nada nos cheirava que não
exactamente erva
erva ensopada
erva quase esgotada
pelo pior janeiro da história
dias mais tarde
à força de uma enxurrada
lá tivemos de segar a erva
expulsá-la aos cachos imensos
para soltar o rego de águas
tinhas razão
havia um cadáver de sapo
já profanado pelo tempo
jazendo sobre uma pedra
a qualquer coisa como
merda ou lixo antigo
emanando daquelas ervas bravas
em tufos densos
crescendo junto ao muro
nós não acreditámos
nada nos cheirava que não
exactamente erva
erva ensopada
erva quase esgotada
pelo pior janeiro da história
dias mais tarde
à força de uma enxurrada
lá tivemos de segar a erva
expulsá-la aos cachos imensos
para soltar o rego de águas
tinhas razão
havia um cadáver de sapo
já profanado pelo tempo
jazendo sobre uma pedra
quinta-feira, setembro 30, 2010
Philosoraptor
Vou confessar uma coisa. Eu tenho uma ligação ao mundo da Internet melhor que qualquer site ou motor de busca. É o Rui. O meu amigo Rui que, à distância, presenteia-me com pérolas absolutamente impagáveis. Escusado será dizer que nem metade das coisas que ele me revela poderiam ser aqui publicadas. Mas o Philosoraptor tinha mais tarde ou mais cedo de vir aqui parar. As questões que coloca, a profundidade das reflexões, a forma como põe o dedo crítico na ferida que é a nossa existência, tudo isso inunda estes Quartos Escuros de uma claridade benfazeja. Deixo-vos algumas meadas por onde pegar. E aconselho-vos a explorar os meandros da consciência perplexa pela mão deste dinossauro amigo.
domingo, setembro 26, 2010
sexta-feira, setembro 24, 2010
Cristovam Pavia
A propósito da reedição da sua obra poética, pela Dom Quixote, este par de versos, tão exagerados e ao mesmo tempo tão verdadeiros:
Ó Portugal minha pátria de meia-tigela
- Aqui para nós, passa-se tão bem sem ela!
terça-feira, setembro 21, 2010
Estugarda
Terça-feira. Acordo sozinho. A casa está vazia. Afogada no silêncio da floresta. Saio com o cão para o espesso nevoeiro da manhã. Tomo o café. Envio-lhe uma mensagem a dizer os bons-dias, ao que ela responde: Estamos perto de Estugarda. Está tudo bem. Amo-te! Vem-me logo à cabeça o seu rosto, os lábios finos, os dedos de criança sobre as teclas do telemóvel. E isto, claro:
segunda-feira, setembro 20, 2010
sexta-feira, setembro 17, 2010
Miguel
fora atropelado gravemente
numa passadeira dos subúrbios,
modo e local tão costumeiros
em desaires de chapa veloz
contra corpo indefeso
passara meio ano no estaleiro
por entre sonos induzidos aos dias
e tratamentos aos membros,
ao ânimo frágil, ao que restava
de um qualquer arcaboiço de vida
sobrevivera, é certo:
o verdadeiro testa de ferro
de um outro esquecido miguel,
crente na bonomia de uma vida
e na segurança das passadeiras
contava-nos isto com ligeireza
por entre cervejas, cigarros de rir
e sorrisos de explícita amargura
(nunca é implícito o desalento
e o atropelado sabia-o havia muito)
ao seu lado, um semiconhecido
quis dar uma de phil, o doutor,
o nicholas sparks da esplanada santo isidro,
observando, solene e bacoco:
depois de teres visto a morte tão de perto
passaste com certeza (ele tinha a certeza)
a valorizar muito mais a tua vida
a coisa até fazia sentido, não fora
o brutal paradoxo que encerrava:
passar a estimar mais a existência
conhecendo o que em breve se avizinha
e como perdera o sentido do pejo
seis meses antes numa rua de lisboa
miguel sorriu (já sem amargura)
e contrapôs que não
que nem por isso:
a principal diferença é que agora
(à conta de dores, talvez,
ou de lembranças)
passava o dia inteiro a fumar ganzas
numa passadeira dos subúrbios,
modo e local tão costumeiros
em desaires de chapa veloz
contra corpo indefeso
passara meio ano no estaleiro
por entre sonos induzidos aos dias
e tratamentos aos membros,
ao ânimo frágil, ao que restava
de um qualquer arcaboiço de vida
sobrevivera, é certo:
o verdadeiro testa de ferro
de um outro esquecido miguel,
crente na bonomia de uma vida
e na segurança das passadeiras
contava-nos isto com ligeireza
por entre cervejas, cigarros de rir
e sorrisos de explícita amargura
(nunca é implícito o desalento
e o atropelado sabia-o havia muito)
ao seu lado, um semiconhecido
quis dar uma de phil, o doutor,
o nicholas sparks da esplanada santo isidro,
observando, solene e bacoco:
depois de teres visto a morte tão de perto
passaste com certeza (ele tinha a certeza)
a valorizar muito mais a tua vida
a coisa até fazia sentido, não fora
o brutal paradoxo que encerrava:
passar a estimar mais a existência
conhecendo o que em breve se avizinha
e como perdera o sentido do pejo
seis meses antes numa rua de lisboa
miguel sorriu (já sem amargura)
e contrapôs que não
que nem por isso:
a principal diferença é que agora
(à conta de dores, talvez,
ou de lembranças)
passava o dia inteiro a fumar ganzas
quinta-feira, setembro 16, 2010
terça-feira, setembro 14, 2010
Apontamento de língua 4
Em tempo de início de mais um ano lectivo, regressam os Quartos Escuros a uma rubrica que tem por humilde intenção iluminar alguns aspectos do nosso idioma, como o sejam curiosidades do uso, construções particulares ou tendências evolutivas.
Não será descabido afirmar que a progressiva perda da casuística latina nas língua românicas resultou em português numa riqueza preposicional assinalável, que nada fica a dever, por exemplo, à quantidade e diversidade semânticas dos "phrasal verbs" ingleses.
Uma das curiosas instâncias em que uma preposição, em toda a sua admirável versatilidade, age em contexto semântico e gramatical manifestamente distinto daquele que lhe é natural é a utilização de "em", não como habitual indicação de lugar ou estado (como seria dizer "exilar-se em Mogadíscio" ou "estar em grandes apuros"), mas com sentido condicional. Tal sucede na singular construção de "em" com forma verbal no gerúndio. Atentemos pois a um exemplo retirado de O Ano da Morta de Ricardo Reis, de José Saramago:
Ao entrar no quarto, Ricardo Reis vê a cama aberta, colcha e lençol afastados e dobrados em ângulo nítido, porém discretamente, sem aquele desmanchado impudor da roupa que se lança para trás, aqui há apenas uma sugestão, em querendo deitar-se, este é o lugar.
Alguns dirão, e até com propriedade, ser esta construção já raramente produzida pelos falantes, tendo talvez inclusivamente alguns traços de regionalismo. Outros sustentarão que o sentido aqui será mais temporal do que propriamente condicional. Mas o que pretendemos salientar, para além da comprovada riqueza da língua pátria, é a forma como por vezes o idioma acaba por estranhamente reflectir a vida. Ou talvez se passe o contrário, possivelmente, como tivemos aliás oportunidade de sugerir no anterior Apontamento 3. É que tal como sucede com a preposição "em", também na vida um estado ou um lugar funcionam em certos contextos como férrea condição de ser-se no mundo. O tempo, esse, lança permanentemente a sua sombra sobre tudo o que somos. Pois que, em querendo, tudo nos sonega ou oferece.
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