quarta-feira, julho 22, 2009

Também a memória é algum conhecimento

A memória é a sucessora da tartaruga. Livro novo que há dias me chegou às mãos. Duas dúzias de poemas editados pela brasileira Lumme, com o título Também a Memória É Algum Conhecimento.

Gosto do livro. Não está infelizmente distribuído em Portugal, mas encontra-se disponível mediante encomenda junto da própria editora, através do e-mail "vendas@lummeeditor.com". É de comprar, digo eu. Sou naturalmente suspeito.

Uma apresentação do livro será em breve anunciada. Fiquem atentos.



sexta-feira, julho 17, 2009

Portuguesia - Apontamentos 2

Somos gentilmente instalados em Vila Nova de Famalicão no Hotel Moutados. O nome sugere-me toda uma série de potenciais sentidos que decido não explorar. Tem uma coisa em comum com certas pessoas que conheci ao longo dos anos: feio por fora, bonito por dentro. É o que conta, dizem. Subo ao quarto, banho-me e adormeço por meia-hora. Depois volto a descer ao chamado lobby. Encontro R.V. à conversa com o poeta W.S., o laborioso e inspirado responsável pelo projecto Portuguesia, e amigo que não via há já ano e meio. Estou contente por lhe pôr os olhos na fronha, por lhe sentir os ossos. Conversamos, trocamos novidades.
Outros poetas vão pouco depois chegando, uns conhecidos outros não. Um há que me sonega um exemplar do meu último livro. Apropria-se dele nas minhas barbas. É a primeira vez que eu próprio tenho o rebento nas mãos, disponibilizo-o amavelmente às pessoas à minha volta, para que o vejam e toquem, e logo sou espoliado de um dos escassos cinco exemplares que por ora me são entregues, espoliado da forma mais ardilosa possível, por entre sorrisos querendo dizer "vá lá, que te custa?, não me faças essa desfeita". Dois dias mais tarde, S. irá confrontar-me com a minha incapacidade de dizer não às pessoas, ainda que à força de algum atrito. Sim, sou um pouco fraco. Evito a toda a hora confrontações embaraçosas. Em boa verdade, não posso perante isto lamentar que, por consequência, me acabem por roubar livros, alma.
O encontro terá início nessa mesma noite na Casa de Camilo em Seide S. Miguel. Ou melhor, no espaçoso e recente edifício do Centro de Estudos Camilianos, uma vez que a casa do bom prosador fica, em rigor, do outro lado da estrada, estando de igual modo aberta ao público para visita. Antes do início dos trabalhos, passamos de rajada pelo Centro onde temos a oportunidade de passar os olhos por uma interessante exposição acerca das mulheres na vida de Camilo, cada qual especial à sua maneira. Culminando todas essas arrebatadoras e atribuladas relações, teria tido Camilo em Ana Plácido uma admirável síntese de tudo quanto um homem procura numa mulher. Segundo consta, claro. Seguimos depois para jantar ali bem perto.



Os poetas reúnem-se à mesa e atacam as entradinhas. À minha esquerda começam a ser tecidas considerações e revelações sobre Eugénio. Sorrio perante algumas histórias e fico boquiaberto com outras. Pouco depois ganho coragem e peço ao simpático empregado que mude a televisão para o hóquei em patins. Alguns poetas aderem. Ouço alguém falar do génio de Livramento, mais ou menos na mesma altura em que no ecrã começa a desenhar-se a derrota das lusas cores. Fico com pena.
Olho para o relógio. Já são horas de dar início ao Portuguesia e estamos nós ainda a iniciar o segundo prato que, se querem mesmo saber, consiste de uma mista de carne grelhada acompanhada das guarnições da praxe. O poeta A.B. classifica o feijão preto de demasiado salgado. Vem-me à cabeça que, no Brasil, semelhante adjectivo poderia querer dizer "caro", "dispendioso". Já "quente" ou "escaldante" seriam possíveis qualificações para as discussões desse serão, como aliás daremos conta já de seguida.

terça-feira, julho 14, 2009

Amanhã e depois. Os poetas apresentam-se

Amanhã, dia 15, no café-teatro do Centro Cultural da Malaposta, por volta das 20:30, o poeta Wilmar Silva, novamente de visita a Portugal e com o seu livro Yguarani acabado de sair pela Cosmorama, irá dar-nos a conhecer parte da sua obra. Para tal, faz-se acompanhar dos poetas convidados Fernando Aguiar e João Miguel Henriques.



No dia seguinte, quinta-feira, é a vez de Ruy Ventura apresentar o seu mais recente livro Chave de Ignição. A sessão está marcada para as 21:00, na Biblioteca Municipal da bonita vila de Sesimbra, e estará a cargo do escritor e também poeta João Candeias.




Duas oportunidades, portanto, de conhecer coisas assim tipo meio maradas, estão a ver? É de surgir por lá aos cachos gigantes, rapaziada!

segunda-feira, julho 13, 2009

Portuguesia - Apontamentos 1

O poeta e amigo R.V. diz-me ao telefone que o melhor é que partamos cedo, "pela fresca", e eu concordo em absoluto. Saiamos por isso cedo, por la carretera, que sem pressa e em boa conversa se faz ligeira a viagem e prazenteira.
Encontramo-nos no pequeno café da estação de Coina (não, não vou cair na tentação da piada fácil): R.V., pontualíssimo, folheia o jornal do dia, de cujas páginas me fica na retina certo artigozinho no qual se revela o verdadeiro e até agora algo desconhecido processo de formação das carapaças de tartaruga. Mais à frente, após breve merenda na estação de serviço de Santarém e a propósito de tartarugas, R.V. perguntar-me-á a razão do título do meu livro. Como sempre, não me escuso a responder sumariamente, remetendo o assunto para uns versos mais elucidativos da página 34 do dito volume.
Dia soalheiro, propício para uma descansada viagem. Falamos de livros, trabalho, família. Suponho que a isto se chama conhecer-se melhor. Sim, estamos a conhecer-nos melhor. R.V. é sem dúvida um óptimo conversador. O tempo passa rapidamente e quando damos por nós estamos já a uma dúzia de quilómetros da sempre invicta cidade. Almoçamos nos Carvalhos e comentamos o bom ambiente e simpatia de preços do restaurante escolhido. Entrecosto-me na brasa e bebo uma cerveja.
Rumamos depois para o Minho e quando por lá se entra é difícil ficar indiferente à paisagem verdejante, ao ambiente de certa intimidade rural, acolhedora e tranquila. O milho alto, a vibrar à luz da tarde, as extensões de vinha (gostamos que haja imensas e para todo o sempre), as estradas muradas. Paira no ar aquele clima de verão setenterional, a um mesmo tempo fresco e luminoso, entremeado de brisas quentes e já com todos os incansáveis preparativos de festas populares, à espera de filhos pródigos e familiares longínquos.



Estamos já às portas de Vila Nova de Famalicao, onde terá lugar a apresentação do ambicioso projecto Portuguesia. Com duas horas ainda para gastar antes de darmos entrada no hotel, paramos às portas da cidade para uma breve visita à bonita igreja de São Tiago das Antas (foto), onde R.V. me presenteia com toda a sua sabedoria em matéria de arte sacra, conhecimento esse que eu próprio já atestara durante leitura do seu bilingue El Lugar, La Imagen (2006), o primeiro livro que das sua mãos recebi. Tiramos umas fotografias e pomo-nos a caminho do nosso primacial objectivo de visitantes em Famalicão: a Fundação Cupertino de Miranda, pois claro.
Aí sabemos ir encontrar um importante espólio do surrealismo luso e não somos com efeito defraudados. O edifício, só por si, é já merecedor de uma observação atenta, com aquele enorme torreão, dominando toda a central praça (foto). Somos recebidos por uma simpática senhora e acedemos à exposição sem pagar: desenhos de António Maria Lisboa e Mário Henrique Leiria, figuras a quem eu jamais conhecera qualquer veia de artistas plásticos, mas suponho que naqueles anos de desenfreadas experiências estéticas nenhum campo artístico pudesse estar vedado. Encontramos também desenhos, pinturas e colagens de todos os principais nomes da época. Ao vaguear pelas várias salas da fundação-museu, curiosamente dispostas em espiral ascendente, vamos trocando algumas observações: a crueldade da família de António Maria Lisboa, por sempre ter reprimido o génio do rebelde rebento; as acusações a Cesariny pela deturpação da obra de António Maria e outras atitudes menos dignas; e também a dificuldade de R.V. em adquirir o volume de poesia de Pedro Oom, editado pela &etc e impossível de encontrar.



Saímos uma horita depois. Decido não comprar o belíssimo catálogo do espólio da Fundação, tendo em conta que não é propriamente barato e que o verão exigirá de mim ainda umas massas valentes. Ah, o vil metal, sedutor e ruinoso. Rumamos ao hotel para nos encontrarmos com os restantes versejadores, desejosos já de rever o poeta W.S., o grande responsável pelo Portuguesia.

sábado, julho 04, 2009

Portuguesia - Festa da Poesia Lusófona


Concebido e laboriosamente desenvolvido pelo poeta e editor mineiro Wilmar Silva, o projecto Portuguesia, minas entre os povos da mesma língua, antropologia de uma poética, vai ter a primeira apresentação em Portugal, nos próximos dias 10 e 11 de Julho, na Casa de Camilo / Centro de Estudos Camilianos, em S. Miguel de Seide, Vila Nova de Famalicão.

Serão dois dias de diálogos e leituras, com a presença de cerca de dezenas de poetas de expressão portuguesa. Pelo meio, a apresentação do livro e filme que resultaram de largos meses de pesquisas "antropológicas", nas quais o Wilmar empenhou toda a sua sensibilidade e afecto pela palavra escrita.

É pois de acorrer em vagas desenfreadas, sequiosas de poesias. Famalicão será sem dúvida, durante esse par de jornadas, um lugar fervilhante de coisas boas.

Para uma ideia do que por lá se irá passar, consultai aqui o programa das festas. E aqui uma entrevista concedida pelo Wilmar, onde se dá conta do ambicioso projecto.


quinta-feira, junho 25, 2009

Errata

Em paleio recente, fez-me o bom Vilão recordar aquele que é para si o mais belo poema de Fernando Aguiar. E isto não é coisa pouca, dada a inesgotável torrente criativa de um dos nossos grandes poetas visuais e experimentais. Anos antes, também o ouvira recitar este mesmíssimo texto numa já extinta mas agradável livraria da Rua da Rosa. Recordai pois o poema "Errata (em forma de soneto com rabo)" e asseverai se de igual modo vos apraz. Não descurai igualmente o pequeno vídeo (para visionamento atento) da acção de Fernando Aguiar no último ArtSeries, que em Faro teve lugar.

- Logo na primeira página, precisamente na primeira linha, onde se lê era
uma vez..., leia-se finalmente...
- Na página catorze, na linha quatro, onde se lê quadro, leia-se quarto.
- Na página seguinte, na linha oito e meio, onde se lê por meio de, leia-se
no meio que.
- Quase na página trinta, na linha férrea, onde se lê tanto mar, leia-se pouca
terra.
- Na página rasgada, na linha de fogo, onde se lê forca, leia-se força.
- Numa página inexistente, na linha do horizonte, onde se deveria ler, leia –
- se mesmo.
- Na página do meio, na linha do equador, onde se lê em paralelo, leia-se
em diagonal.
- Na página obscura, nas entrelinhas, onde se lê fode-se, leia-se pode-se.
- Na página solta, na linha terra, onde se lê chão, leia-se cãho.
- Numa página distante, na linha do pensamento, onde se lê não penso,
leia-se mas existo.
- Ao virar da página, na linha do infinito, onde se tem muito que ler, leia-se
o muito que se tem.
- Na página em branco, na linha do imaginário, onde não se lê, não se leia.
- Numa página perdida, numa linha ao acaso, onde se lê mesmo assim, leia-
- se assim mesmo.
- A páginas tantas, na linha com que cada um se cose, onde se lê entrevista-
- se, leia-se entredispa-se.
- Na última página, mesmo na última linha, onde se lê finalmente..., leia-se
era uma vez...



terça-feira, junho 16, 2009

Bem sei



sim, bem sei

que cedo me desoriento
se ela não me orienta
que só logro chegar ao cento
quando ela ao cento e cinquenta
que é só por conta do seu alento
que o dia em mim se aguenta

e?

sábado, junho 13, 2009

Esta não consigo parar de ouvir



Final Fantasy, This Lamb Sells Condos

quinta-feira, junho 11, 2009

Cantina


É tal, por estes dias, o meu apreço pela Cantina da Universidade de Lisboa que chego, na minha desviante cabeça, a relacioná-la onomasticamente com alguma moçoila que se pudesse estimar imenso. Cantina Marta. A existência tem destas curiosas circularidades, o já conhecido vai e vem de pessoas e lugares. Há mais de uma década que não punha os pés no vetusto edifício da cantina, cuja traça caminha já a passos largos para a consagração que os espíritos revivalistas invariavelmente concedem aos designs mais retro. Cantina Isabel. Lembrava-me de filas um pouco maiores que o admissível, de um espaço exterior decadente, dos pratos fumegantes de Inverno, coisas fartas e salgadas que eu insistia em jamais fazer anteceder de sopa. Recordava também conversas e companhias, a invariável sequência de fome, apetite e satisfação, a marcha lenta de regresso às aulas da tarde. Por fim, ficara-me também na memória certa peça de teatro do grupo da faculdade de letras, Cerimonial para o Massacre (se bem me lembro), representada no pequeno auditório que o edifício alberga. Cantina Rita. Fui recentemente desafiado por S. a visitá-la sempre que os afazeres e horários o permitem. Acedi, atraído pela perspectiva de poder almoçar em maravilhosa companhia, de experimentar as afamadas ousadias da cozinha macrobiótica e de pagar pouco mais de duas moedas de euro por um repasto condigno. Cantina Maria. Vejai até que, à falta de cartão de estudante (titular apenas que sou de um duplicado de matrícula), me dei ao incómodo (plenamente recompensado, devo confessar) de providenciar, junto dos serviços sociais, um pequeno cartão exclusivamente destinado ao meu acesso ao depósito de insuspeitos banquetes. A verdade é que se tem comido bem, sem grandes enchentes humanas (mercê da criteriosa escolha da hora de almoço, nunca antes das catorze), e em ditoso usufruto de um jardim exterior em impecáveis condições de manutenção. Cantina Rosa. Pena que as férias académicas estejam já aí à porta, altura em que o pavilhão das iguarias selará temporariamente as suas portas. Terei de comer em casa. Ou na reitoria. Não vou passar mal, como é evidente, mas não é seguramente a mesma coisa.

sexta-feira, junho 05, 2009

Tokalon

Isto de andar a pesquisar publicações periódicas de tempos idos tem a sua graça, sim senhor. Há uns meses pus-me a folhear A Mocidade, e ainda trouxe para aqui escabrosos relatos da pequena actividade criminosa da época. Por estes dias ando a braços com O Diabo. Não o da Vera Lagoa, está claro, mas o semanário lisboeta que se publicou entre 1934 e 1940.

Não pude deixar de reparar, tanto pela excelência das ilustrações como pelos argumentos publicitários, no quanto o creme feminino Tokalon investiu nas páginas deste jornal com vista à promoção do produto junto das mulheres lusas, associando, como poderão ver, os pretensos efeitos benéficos do cosmético com a mais que provável felicidade marital das suas clientes. A palavra "marido" é, neste contexto, absolutamente fulcral, quer se trate de o encontrar, manter ou reconquistar. Deixo aqui quatro exemplos da sombria estratégia publicitária da Tokalon (clicar para aumentar), prevendo já a indignação das leitoras mais acesamente feministas. Para as menos feministas, lembro apenas que o creme está à venda em todos os bons estabelecimentos. Não encontrando, dirija-se à Agência Tokalon - 88, Rua da Assunção, Lisboa - que atende na volta do correio. Whatever that means...





sábado, maio 30, 2009

Relíquia boa


Desencantei O Canto no Acaso (1984), quinto título do desconcertante Rui Nunes (abri-vos, ó cânones da prosa pátria), num insuspeito pouso de venda da feira da ladra. Cinquenta cêntimos, propôs-me a ambulante senhora. Aceitei num ápice. Levei-o para casa. Uma belíssima publicação das Edições Rolim e número inaugural da colecção "A Hora do Lobo". As ilustrações povoam o volume inteiro e são um mimo. Começa assim:

Os insectos à volta das laranjeiras, as flores que tombam sobre a mesa de pedra, carnudas pétalas, há o crepitar de uma sombra frágil nas umbelas dos agapantos, refúgio de abelhas que tecem no ar vertigens consistentes, Marie pensa: os tempos da infância tinham ruas largas orladas de amoreiras e frutos carmesins que tornavam o Verão escorregadio, sangue expectorado nos passeios de calcário e no verde adjacente das ervas, havia um zumbido de vespas e moscas, patinhava-se um creme peganhento que deixava manchas no algodão das meias, era assim Julho de minúsculos indícios, de riachos que a transparência das folhas tornava quase frios, os frutos caíam na erva e exalavam um apodrecer mirrado como o cheiro do chá, enquanto a serra transformava o amarelo em hálito, era a época claríssima da flor do tojo.


quarta-feira, maio 27, 2009

Depoimentozinho...

... no Sambaquis, blogue do poeta, músico e editor brasileiro Edson Cruz.

terça-feira, maio 26, 2009

Rapaz novo


Estou a descer a rua a passo lento, com o sol de fim de tarde pela frente. Estou com tempo. Tenho este defeito (eu digo qualidade, ainda que de fraco lucro) de sair de casa com excessiva antecedência para um compromisso. Mais uma vez calculei mal o tempo que levaria a pé de casa ao lugar combinado. Estou com tempo, portanto. Caminho a passo lento, lançando o olhar por cada esquina e fachada, parando para inspeccionar as ementas de restaurantes, aberto às propostas de todos os cartazes e aos alertas, por vezes confissões, dos verbais rabiscos de parede.

A meio da rua, aí a uns cem metros à minha frente, topo com um rapazola encostado a um carro. É jovem, o moço. Não terá mais de catorze anos. Quinze, no máximo. Está todo arranjadinho, com calça de vinco, camisa engomada, sapatinho e blazer. Um homenzinho, já. E fuma o seu cigarrito, o gaiato. Que peça. Encostado a um carro, todo pimpão, de mão esquerda no bolso da calça clássica e na direita um adulto cigarro. Acho piada a esta juventude, toda já senhora de si. Agora já estou perto dele, caminhando lento do outro lado do passeio. Estou bem disposto. O último calor do dia banha-me a cara, a cidade passa por mim sossegada. Resolvo atirar um comentário gratuito, em jeito de amistosa interacção. "Larga o tabaco, moço. Isso é terrível". O rapaz levanta o olhar, avalia-me o tipo e responde, mais seco que um austral deserto. "Moço é o seu avô. E meta-se na sua vida, se não se importa". Nesse exacto momento entreabre-se a porta do prédio diante do qual o carro está estacionado. Uma mulher na casa dos trinta assoma ao passeio, segurando um berço de bebé. O rapaz vai em seu auxílio, segura no aparatoso berço, abre a porta de trás do automóvel e trata de acomodar a criança (essa sim, bastante jovem, embora por esta altura já eu não ponha as mãos no fogo).

Retomo a minha marcha lenta, atarantado com tamanho erro de julgamento da minha parte. Assisto ainda, pelo canto do olho, a uma beijo na boca entre a parideira de meia-idade e o seu suposto marido, que ainda continua a parecer-me um miúdo de escola, com aquele seu ar de primeira comunhão. Penso para mim que acabei de trocar umas palavras com o ser mais novo que alguma vez pisou a face da terra.

quarta-feira, maio 20, 2009

Disco décimo


Apesar de propensa ao pecado assim de um modo um pouco fora do comum, a verdade é que a grande senhora não pára. Como dizia o outro, só me apetece é ganir.

segunda-feira, maio 18, 2009

Apontamento de língua

Detenhamo-nos agora, à falta de melhor coisa com que nos entreter, em certas formulações do português europeu oral, como o são as expressões"já marchava", "servia perfeitamente" ou "partia-a toda cá com uma pinta", regra-geral pronunciadas por indivíduos do sexo masculino, em exercício de aberta heterossexualidade, e dirigidas a exemplares do sexo feminino, em marcha pela via pública ou imobilizadas, à vista do emissor em questão. À parte dos advérbios e locuções adverbiais, aqui reproduzidos a título meramente ilustrativo e propensos a toda uma extensa quantidade de variações, cabe-nos chamar desde logo a atenção para a tão portuguesa utilização do pretérito imperfeito do indicativo com sentido condicional, utilização essa de natureza acentuadamente coloquial, porventura passível de se explicar por certa familiaridade fonética com a forma condicional propriamente dita, isto pelo menos ao nível dos chamados verbos da 2ª e 3ª conjugações ("servia" é semelhante ao mais propriamente correcto "serviria", por exemplo).

Ao nível do sentido, porém, duas ordens semânticas parecem estar simultaneamente presentes, ainda que a níveis distintos. A primeira ordem de sentido tem naturalmente que ver com a utilização das formas verbais em causa, invariavelmente remetendo para o acto sexual, pressupondo concreta efectivação do coito. Deste modo, a forma "marchar" configura certo exercício metafórico de contornos algo insondáveis, porventura associados a um acto de consumo desenfreado, como na formulação "comprei três dúzias de cervejas para a festa e marcharam todas". No caso da utilização do verbo "partir", parece estarmos perante uma referência explícita ao movimento cadenciado da penetração, com evidente hiperbolização do mesmo, resultando em certa ideia de violência imposta pela lei do falo sequioso. Mas é a forma do verbo "servir" que aqui evidencia contornos de maior subtileza, por apenas resultar implícita a finalidade, o objectivo, enfim, a meta última para cuja consecução a avistada fêmea contribuiria. "Servia" então para quê? Para o coito, pois claro. Mas para quê, estritamente falando? Parece-nos aqui sugerir-se um sentido mais específico, entendido na sua derivação mais biológica. "Servia", está claro de ver, para o exercício ejaculatório e consequente (ou simultâneo) esvaziamento testicular. A segunda ordem de sentido que estas formulações colocam em evidência é, naturalemente, a menos imediata significação condicional. Menos imediata uma vez que muito raramente o falante elucida o ouvinte acerca das razões porque a fêmea não "marcha já", não "serve perfeitamente" ou não "é partida toda, agora mesmo, sem mais nem quê". Mas uma breve reflexão de teor sociológico, bem suportada por experiências próprias ou contacto com a experiência alheia, permite uma sucinta catalogação das condições sugeridas pelas mencionadas formulações de desejo sexual ou apreciação estética do espécime feminino. Dividimo-las em três classes primaciais, ilustrando-as devidamente do ponto de vista do falante, sem deixar de lado a hipótese de existirem outras sortes de classes que à presente análise tenham escapado:

  • Condições materiais e logísticas: o acto sexual seria efectivado se o falante tivesse dinheiro para pagar à fêmea em questão, se tivesse fracção ou lugar de automóvel onde levar a cabo o coito, se tivesse disponibilidade de tempo para o acto, etc.
  • Condições físico-psicológicas: o acto sexual seria efectivado se o falante tivesse um aparelho genital em razoáveis condições de desempenho ou se não fosse demasiado tímido ou inseguro para abordar a fêmea em causa com vista ao coito.
  • Condições morais e sociais: o acto sexual seria efectivdo se o falante não fosse já comprometido ou, no mesmo caso, se pudesse ser de algum modo garantido o sigilo relativamente à materialização do acto.

sábado, maio 16, 2009

Recentemente descobri...

que não consigo ouvir isto...



...sem que me venha à cabeça isto

quinta-feira, maio 14, 2009

Karinna Alves Gulias



Há qualquer coisa que a um mesmo tempo me inquieta e entusiasma no trabalho da poeta brasileira Karinna Alves Gulias (Niterói, 1983), uma das participantes da recentemente apresentada performance de poesia sonora "Indivisível". Suspeito que essa entusiasmada inquietação tenha que ver com a proliferação de sentidos inesperados e com a forma aparentemente simples e natural com que essas surpreendentes associações são veiculadas. Uma linguagem contundente, crua até, aplicada a um universo onírico. O tom sentencioso de algumas passagens, a descrição ao jeito de uma velada omnisciência das coisas, estes são elementos que sugerem um certo carácter fundador ou mitológico nos poemas avulsos que até agora pude ler. Como se, assim soltos, os poemas fizessem parte de um livro maior, uma história de origens, sobre a criação das coisas ou as fundações da humanidade e da linguagem. Até à publicação do seu primeiro livro, poderão conhecer o trabalho da Karinna através do seu blog pessoal, Galeria de Beggar's Body Art, na página que a revista electrónica Zunái lhe dedica, ou então visitando a belíssima Confraria do Vento, onde é possivel também ler alguns textos seus. A poeta encontra-se igualmente antologiada no livro Poetas de Hoje em Dia(nte) (Florianópolis, Letras Contemporâneas, 2009). Para ilustrar a ambiência genesíaca de que falava, deixo-vos "A primeira história" da Parte I de Terra dos Nomes Perdidos.


Uma mãe feita para criar bois [espelhados],
administrar a base da terra para a permanência.

Fez um filho com a massa negra da noite.


Uma mãe feita para criar bois [gigantes]
e aumentar a sua sombra.

Acendeu velas

para o dia em que seria dona de cria.

Com o movimento
,
seu nome mudou-se para outra casa;
pertence a outro número. A outro ofício.


Na mudança:
- De todos os rios por que passou,
ficou-lhes terços de seu cabelo, agora branco,
como espuma de mar.

À noite os rios a visitavam e derramavam
transparências em seu peito. De seu ventre, então,

nasceram cabelos de estrelas e espumas de mar. -


Mais uma vez seu nome foi mudado de casa,

até a vontade se retrair.

Seus cabelos caíram e o nome passou a ser:

poca sombra

e por fim

Nasceu um menino.

domingo, maio 10, 2009

Lido e Relido



Enquanto faço a cama, arrumo a cozinha e dobro a roupa, vou ouvindo este maravilhoso programa. Gente que gosta de livros, à conversa com uma das minhas vozes de rádio preferidas. Cena tótil. Aqui.

quinta-feira, maio 07, 2009

O mentiroso


No Colégio Júlio de Castilhos, de Porto Alegre, onde estudei, havia um rapaz que tinha fama de mentiroso. Fama, não; ele era mentiroso. Todo o mundo sabia disso; todo mundo menos ele. Certa manhã o rádio transmitiu uma notícia alarmante: um avião em dificuldades - o trem de pouso não baixava - sobrevoava Porto Alegre, e podia cair a qualquer momento. No colégio (nossas aulas começavam logo depois do meio-dia) não se falava de outra coisa. Estávamos ali, preocupados, quando apareceu o nosso colega. Pálido, nervoso, disse que tinha visto uma cena terrível: o avião que estava em perigo caíra perto de sua casa e explodira, uma coisa medonha, muitas vítimas. Nós escutávamos, impressionados. Aí veio um colega correndo, com a boa notícia: o avião acabara de aterrisar sem problemas. Caímos na risada, claro. Mas o colega mentiroso não ria, mostrava-se ofendido: não pode ser, repetia teimosamente, eu vi o avião cair.
Agora, quando lembro este facto, concluo que, num certo sentido, o rapaz não estava mentindo. Vira, realmente, o avião cair. Com os olhos da imaginação, decerto; mas para ele o avião tinha caído, e tinha incendiado, e muita gente havia morrido...
O rapaz acreditava no que dizia, porque no fundo era um ficcionista. Se tivesse escrito o que contara, seria um escritor, bom ou mau; como não escrevera, tratava-se de um mentiroso.


(o escritor brasileiro Moacyr Scliar, em depoimento autobiográfico ao último número do Jornal de Letras)


terça-feira, maio 05, 2009

Postas as coisas dessa maneira...


L'art a un contenu ideologique
et n'est pas une idéologie proprement dite.
Voilá pourquoi les oeuvres survivent aux illusions ideólogiques.

(Henri Lefebvre)