quinta-feira, maio 07, 2009

O mentiroso


No Colégio Júlio de Castilhos, de Porto Alegre, onde estudei, havia um rapaz que tinha fama de mentiroso. Fama, não; ele era mentiroso. Todo o mundo sabia disso; todo mundo menos ele. Certa manhã o rádio transmitiu uma notícia alarmante: um avião em dificuldades - o trem de pouso não baixava - sobrevoava Porto Alegre, e podia cair a qualquer momento. No colégio (nossas aulas começavam logo depois do meio-dia) não se falava de outra coisa. Estávamos ali, preocupados, quando apareceu o nosso colega. Pálido, nervoso, disse que tinha visto uma cena terrível: o avião que estava em perigo caíra perto de sua casa e explodira, uma coisa medonha, muitas vítimas. Nós escutávamos, impressionados. Aí veio um colega correndo, com a boa notícia: o avião acabara de aterrisar sem problemas. Caímos na risada, claro. Mas o colega mentiroso não ria, mostrava-se ofendido: não pode ser, repetia teimosamente, eu vi o avião cair.
Agora, quando lembro este facto, concluo que, num certo sentido, o rapaz não estava mentindo. Vira, realmente, o avião cair. Com os olhos da imaginação, decerto; mas para ele o avião tinha caído, e tinha incendiado, e muita gente havia morrido...
O rapaz acreditava no que dizia, porque no fundo era um ficcionista. Se tivesse escrito o que contara, seria um escritor, bom ou mau; como não escrevera, tratava-se de um mentiroso.


(o escritor brasileiro Moacyr Scliar, em depoimento autobiográfico ao último número do Jornal de Letras)


terça-feira, maio 05, 2009

Postas as coisas dessa maneira...


L'art a un contenu ideologique
et n'est pas une idéologie proprement dite.
Voilá pourquoi les oeuvres survivent aux illusions ideólogiques.

(Henri Lefebvre)


quarta-feira, abril 29, 2009

Estranha influenza

O meu atento amigo Rui é muito capaz de ter razão. Isto de a chamada gripe suína estar na berra (como sabem, abre todos os telejornais por estes dias) cheira um pouco a esturro. De vez em quando, por motivos ora obscuros ora nem tanto, a intelligentsia da ordem mundial estabelecida parece vir sempre com uma coisa nova para assustar a malta, para pôr as hostes em sentidos para garantir que ninguém se esquece de que havemos sempre de precisar do seu músculo e bendita liderança. É que o medo, esse poderoso mecanismo de que o pós-11/9 foi pungente exemplo, é a melhor forma de manter a populaça na linha: Ai agora que só porque o capitalismo liberal está a ruir pensam que podem mandar o sistema à merda e começar a viver fora da nossa asa? Estão muito enganados! Tomem lá um surto mortífero de gripe suína e toca a amochar. Não se esqueçam de que somos nós que fabricamos e disponibilizamos a vacina, por isso muito cuidadinho, gentalha. Sim, sabemos que já utilizámos esta manobra em 1976, mas passados trinta anos já ninguém se lembra...


domingo, abril 26, 2009

Isto recebi...



... por gentileza do poeta e professor paulista Horácio Costa, que recentemente visitou Portugal e com quem passei uma bonita tarde. Dois livros dele, em belíssimas edições da Demónio Negro: o longo poema Paisagem II, dedicado a Ana Hatherly, e Ravenalas, volume que colige textos escritos entre 2004 e 2008. Deste último volume, passamos a reproduzir a longa "Memória de um taturanicida".

Enalteçamos a transformação, por isso
Execremos o taturanicida.
Ele descobrira a analogia
Entre a taturana e a vulva.
Inspirou-se.
Passou a expor o pene
A abrasações de taturanas
Esmigalhadas.
A glande primeiro sufocava,
Depois inchava como um
Montgolfier.
Então objetivava penetrar
Todas as mulheres, não,
Apenas a musa,
Aquela que sempre toma a fresca
Na varanda.
Aquela cuja saia são azulejos
Pulcros, azuis e brancos,
Aos pés dos quais ajuntam-se
Cadáveres e cadáveres de insetos.
Ele se submetia à dor
Para impressioná-la.
Vêde que grande glande tenho,
Implorava-lhe, quem, mais do que
Nessa, reparava
Na desgraciosa cacofonia.
E as profundidades
Não lhas abria.
O obsessivo taturanicida
Suportou pesares:
Centenas de taturanas mortas,
mariposas que jamais voaram
E a glande cada vez maior:
Mais arredia, a musa.
Morreu de seu próprio veneno
O execrável taturanicida
E Calíope segue em sua varanda
Tomando a fresca,
Vestida de azulejos frios,
Enquanto simpatiza com o vôo
Feliz de lepidópteros.

sexta-feira, abril 24, 2009

Isto li...


... numa breve viagem de comboio metropolitano, de rajada, lançando os olhos avidamente de um poema para o outro, após ter comprado o volume em causa numa daquelas feirinhas do livro que agora se montam nos átrios de algumas estações. Fogo Sobre Fogo, de Jorge Sousa Braga, em edição da Fenda. Noto nestas páginas a predilecção do poeta pela forma breve e depurada, o que o levou noutras instâncias a traduzir, por exemplo os haikus de Bashô. Reproduzo aqui dois poemas do livro.



sábado, abril 18, 2009

Isto vi...


... a ser distribuído gratuitamente na estação de autocarros de Évora, num pequeno monte, ao balcão da bilheteira. Baluerna. Cuadernos del Viajero. Caderninho de dez páginas, com dois poemas de Antonio María Flórez, no original castelhano e em tradução portuguesa. Meti um ao bolso, claro. Ao verificar que se tratava do número vinte e oito, indaguei o funcionário bilheteiro acerca da possibilidade de obter os anteriores volumes da publicação. Que não, que os números antigos já ali não moravam. Bonita coisa, esta, adequadamente editada pela Estación de Autobuses de Cáceres.

sexta-feira, abril 10, 2009

McTeagle ou a natural propensão do artista para a recorrência de motivos

Já não sei com quem foi, possivelmente com o Ricardo, numa daquelas inaugurais conversas na esplanada do Príncipe Real. Nem tão pouco me lembro de como terá surgido o assunto, mas sei que a dada altura abordámos as injustificadas críticas de que por vezes um artista é alvo por insistir, em alguns casos ad nausea, num dado tema, motivo ou recurso formal. Que mal tem isso?, concluimos a dada altura. Deve o músico ser realmente recriminado por insistir numa determinada sonoridade, ainda que isso fatigue e desgaste audiências? Serão merecidas as críticas ao escultor que insiste na representação de amantes ternamente enlaçados? E por que motivo desconfiar de um poeta como Glauco Mattoso, que não cessa de compor sonetos em celebração do seu fetiche por pés. Nada de errado, portanto, nessa natural propensão das mentes criativas para a recorrência de motivos. Pelo contrário, estranheza causam algumas vezes aqueles que, quais interesseiros camaleões, parecem navegar ao sabor da vaga (ou voga) do momento. Mas adiante. Só para dizer que esta já antiga conversa com o Ricardo me trouxe à memória certa brilhante tirada montypythoniana acerca do poeta escocês Ewan Mcteagle. No seu caso, o motivo recorrente são os pedidos de empréstimo monetário, de que é exemplo, como a peça faz questão de realçar, a notável passagem Oh gi'e to me a shillin' for some fags / and I'll pay ye back on Thursday, / but if you wait till Saturday I'm expecting / a divvy from the Harpenden Building Society. Brilhante.


quarta-feira, abril 08, 2009

Querela & Bicicleta



Quis o simpático destino que nos últimos tempos eu fosse presenteado com exemplares de duas revistas que suspeito pouco conhecidas da maioria dos habituais leitores de periódicos. Publicações, entenda-se bem, pouco ou mal alinhadas com os convencionalismos do periodismo tradicional, tanto pelo domínio de trabalho (em termos genéricos, o campo da criação ou creatividade artística) como pela atitude que ambas partilham, a saber, a provocação e, em larga medida, o desafio estético de linhagem surrealista.
Com apenas um número até à data (facto que lhe vai garantindo provisoriamente o estatuto de inestimável relíquia) a Querela é editada na cidade invicta e chegou-me até às mãos pela gentileza do seu principal paridor, Ricardo Castro, que lhe preenche também algumas páginas com palavra e notável ilustração.
Já a Bicicleta, da qual recebemos o número nono, é dirigida pelo indomável Bruno Vilão e apresenta-se como propriedade do centro de cultura e pesquisa de arte de nome Mandrágora. Contando com a participação de autores tão insignes como Almeida e Sousa, Fernando Aguiar ou Nicolau Saião, destacam-se neste número, entre outras pérolas, os poemas visuais de rebelde inspiração. Reproduzimos abaixo o "estado febril" do supracitado Vilão.

sexta-feira, abril 03, 2009

Indivisível: segunda apresentação



Foi assim na semana passada, na Livraria Trama, ainda que aqui se apresentem apenas fragmentos de uma performance que teve cerca de uma hora de duração. Amanhã, sábado, o Indivisível será apresentado na Sé Catedral de Idanha-a-Velha, pelas 21:30. Sabemos que não é propriamente o lugar mais acessível para a maioria das pessoas, mas se estiverem por perto...

quinta-feira, março 26, 2009

Livro ao calhas. Página 161. Quinta frase



Eu já sabia que esta coisa andava por aí. Tinha a esperança de que, se aguardasse com paciência, acabasse finalmente por chegar até mim, para eu abraçá-la. E chegou por via do inevitável Cálssio, claro, do qual gerações futuras cantarão loas e os gloriosos portentos. O desafio, conforme me foi colocado, consiste em escolher um livro ao calhas da estante, abri-lo na página 161 e dar a conhecer a quinta frase dessa página. A graça disto é vária: reproduzir um movimento de mão e leitura que se vai repetindo por diversos domicílios, partilhar um ou outro título mais obscuro que habite a nossa biblioteca, ou simplesmente satisfazer um qualquer estranho voyeurismo alheio. O perigo da coisa também não é menos evidente: uma pessoa submete-se às estranhas leis da aleatoriedade e se sai uma frase perfeitamente adequada ao estado de espírito presente ou apropriada à própria existência, não restará ao indivíduo outra solução que não o imediato suicídio perante o insustentável peso da coincidência. Como já terão percebido, por eu estar aliás a escrever estas linhas, desse perigo acabei eu por livrar-me. Fui de dedo em riste para a estante e calhou-me o Dai Nippon do nosso Wenceslau de Moraes, numa colorida edição brasileira com a chancela da Nórdica:
A proprietária do estabelecimento deu-nos do caso uma explicação plausível: o aposento destinado às damas achava-se em concertos.

Gostava de passar o desafio a outra gente, como parece aliás ser da praxe, mas não tenho amigos com blogs.

segunda-feira, março 23, 2009

Indivisível - Poesia sonora na Trama


Tem lugar na próxima sexta-feira, dia 27 de Março, pelas 22:30, na Livraria Trama (ao Rato), a apresentação em Lisboa do espectáculo Indivisível, poema-polifonia para vozes, violino, penduricalhos e processamento electrónico. Trata-se de uma performance de poesia sonora da autoria de Márcio-André, poeta brasileiro que passado os últimos meses a viver e trabalhar na aldeia de Monsanto a convite do município de Idanha-a-Nova. O espectáculo será acompanhado de projecção de vídeo e contará com a participação dos poetas Bruno Santos, Karinna Gulias e João Miguel Henriques. Antes da performance, terá lugar uma breve apresentação do livro de Márcio-André Ensaios Radioactivos. Algum do trabalho do poeta brasileiro no campo da poesia sonora encontra-se disponível em vídeo na sua página pessoal. Porém, talvez o melhor seja o espectador deixar surpreender-se um pouco que seja. O convite está feito. Até sexta...

sexta-feira, março 20, 2009

A poesia explica-se (ocultando-se). Um poema de Ana Cristina César

Primeira lição


Os gêneros de poesia são : lírico, satírico, didático, épico, ligeiro.
O gênero lírico compreende o lirismo.
Lirismo é a tradução de um sentimento subjetivo, sincero e pessoal.
É a linguagem do coração, do amor.
O lirismo é assim denominado porque em outros tempos os
versos sentimentais eram declamados ao som da lira.
O lirismo pode ser:
a) Elegíaco, quando trata de assuntos tristes, quase sempre a morte.
b) Bucólico, quando versa sobre assuntos campestres.
c) Erótico, quando versa sobre o amor.
O lirismo elegíaco compreende a elegia, a nênia, a endecha, o epitáfio e o epicédio.
Elegia é uma poesia que trata de assuntos tristes.
Nênia é uma poesia em homenagem a uma pessoa morta.
Era declamada junto à fogueira onde o cadáver era incinerado.
Endecha é uma poesia que revela as dores do coração.
Epitáfio é um pequeno verso gravado em pedras tumulares.
Epicédio é uma poesia onde o poeta relata a vida de uma pessoa morta.

terça-feira, março 17, 2009

Green Tone Bits. Segundo andamento


Caros! Ficai inteirados da realização da segunda sessão do inolvidável Green Tone Bits, noite de copos e convívio em que o portento Ricardo Mestre nos irá mais uma vez presentear com o melhor que se faz em termos de música absolutamente independente e free of charge. Ou seja, música de net labels, fora circuito mais comercialóide, e portanto livre para downloads e partilha entre jograis e amadores de incautos sons.
Na página do Green Tone Bits poderão inteirar-se melhor do conceito e ambições do projecto. Disponível para download está também a playlist da primeira sessão, na qual pude eu próprio, a dada altura, testemunhar os uivos e espasmos de alma suscitados por tamanha orgia musical. Não faltai, por conseguinte, a esta segunda sessão, a ter lugar no bar Ogâmico (ao Príncipe Real, ou um pouco mais abaixo), já esta quinta-feira (dia 19), entre as 22:00 e a 1:00. Acorrei aos magotes, sedentos de fulgurantes sonoridades. Eu já lá estou!

segunda-feira, março 16, 2009

That's Amore


Que bom receber hoje no correio, ao final da manhã, o primeiro rebento da Arqueria, a editora recém-criada em São Paulo pela minha amiga e poeta Virna Teixeira. Poemas de amor por ela traduzidos, na linha do que há muito tempo tem vindo a fazer no seu maravilhoso Papel de Rascunho. Reproduzo dois deles, o primeiro de Richard Price e o outro de Lee Harwood. As traduções ficam comigo.


Odi et amo


You disgust me. I
love you. I.


Stop. asking. questions.

I.


Leave. me. alone.




Rain journal: London: June 1965

sitting naked together
on the edge of the bed
drinking vodka

this my first real love scene

your body so good
your eyes sad love stars

but john
now when we´re miles apart
the come-down from mountain visions

and the streets all raining
and me in the back of a shop

making free phone calls to you

what can we do?

crackling telephone wires shadow me
and this distance haunts me

and yes – I am miserable
and lost without you

whole days spent
remaking your face
the sound of your voice
the feel of your shoulder



segunda-feira, março 09, 2009

O culto das mercadorias, ou como pode nascer uma religião

No seu controverso livro The God Delusion, Richard Dawkins descreve o nascimento de um estranho culto religioso na região do Pacífico (Melanésia e Nova Guiné) durante a década de 1930. À imagem do que recentemente o documentário Zeitgeist procurou demonstrar, não é preciso muito para o ser humano inventar uma religião:

My main authority for the cargo cults is David Attenborough's Quest in Paradise, which he very kindly presented to me. The pattern is the same for all of them, from the earliest cults in the nineteenth century to the more famous ones that grew up in the aftermath of the Second World War. It seems that in every case the islanders were bowled over by wondrous possessions of the white immigrants to their islands. (...) The islanders noticed that the white people who enjoyed these wonders never made them themselves. When articles needed repairing they were sent away, and new ones kept arriving as "cargo" in ships or, later, planes. No white man was ever seen to make or repair anything, nor indeed did they do anything that could be recognized as useful work of any kind (sitting behind a desk shuffling papers was obviously some kind of religious devotion). Evidently, then, the "cargo" must be of supernatural origin. (...) Anthropologists have noted two separate outbreaks [of cargo cults] in New Caledonia, four in the Solomons, four in Fiji, seven in New Hebrides, and over fifty in New Guinea, most of them being quite independent and unconnected with one another. (...)

One famous cult on the island of Tanna (...) is still extant. It is centered on a messianic figure called John Frum. (...) It is not known whether he ever existed as a real man. (...) He made strange prophecies, and he went out of his way to turn the people against the missionaries. Eventually he returned to the ancestors after promising a triumphal second coming bearing bountiful cargo. (...) Most worryingly for the government, John Frum also prophesied that, on his second coming, he would bring new coinage, stamped with the image of a coconut. The people therefore got rid of all their money of the white man's currency. In 1941, this led to a wild spending spree; the people stopped working and the island's economy was seriously damaged. (...) In the 1950s, Attenborough (...) met the high priest [of the cult], a man called Nambas. Nambas referred to his messiah familiarly as John, and claimed to speak to him regularly by "radio" (...) which consisted of an old woman with an electric wire around her waist who would fall in a trance and talk gibberish, which Nambas interpreted as the words of John Frum.(...)

It is believed that the day of John Frum's return will be February 15th, but the year is unknown. Every year on February 15th his followers assemble for a religious ceremony to welcome him. So far he has not returned, but they are not downhearted. (...) [One cult devotee] says, "If you can wait two thousand years for Jesus Christ to come an' 'e no come, then I can wait more than nineteen years for John".

quinta-feira, março 05, 2009

Ruy Ventura traduzido nos Estados Unidos

Acaba de ser publicada nos Estados Unidos da América, em São Francisco , uma tradução do livro de poesia de Ruy Ventura (Portalegre, 1973) intitulado Assim se deixa uma casa (Coimbra, Alma Azul, 2003). A obra agora dada a lume com o título How to leave a house surge no âmbito do projecto “Second Mind”, contando com uma versão inglesa da responsabilidade de Brian Strang, que já antes publicara nessa língua poemas do autor de Arquitectura do Silêncio. Apesar de uma tradução como esta permanecer inacessível à maioria dos leitores em Portugal, cumpre realçar a atenção que lá por fora a poesia portuguesa moderna e contemporânea vai merecendo.

Ruy Ventura reside e trabalha no concelho de Sesimbra, onde é professor. Publicou, em poesia, Arquitectura do Silêncio (Lisboa, 2000; Prémio Revelação de Poesia, da Associação Portuguesa de Escritores), sete capítulos do mundo (Lisboa, 2003), Assim se deixa uma casa (Coimbra, 2003), Um pouco mais sobre a cidade (Villanueva de la Serena, 2004) e O lugar, a imagem (Badajoz, 2006); em 2009 editará o original Chave de ignição, com edição simultânea em Portugal (Edições Cosmorama) e em Espanha (Littera Libros). Como investigador, trabalha neste momento num projecto dedicado ao estudo da toponímia e do património religioso de uma parte do Barlavento Algarvio. Coordena os blogues Estrada do Alicerce e Arquivo do Norte Alentejano.


domingo, março 01, 2009

Um plano

Estávamos os quatro à mesa, num momento de paleio profundo pós-jantar. Suponho que o arroz de peixe acompanhado de uma razoável garrafa de vinho propicie este tipo de reflexões, a saber, projectos futuros, o que fazer de válido, de minimamente relevante com os anos que ainda restam. Foi aí que ele disse que por agora iria continuar com a sua vida normal, com a rotina de trabalho. Mas fez questão de acrescentar que não o tencionava fazer para sempre. Era só para poder um dia retirar-se e “poder começar a descobrir o que é que realmente se passa por aí.” Assim o disse textualmente, numa formulação das mais felizes que alguma vez ouvi aplicar a essa fundamental tarefa de qualquer ser humano que se interroga, que se inquieta com a penumbra em que vivemos envoltos. Parar um pouco. Mandar até um pouco o trabalho às urtigas. Começar por fim a examinar, ainda que sob o risco do absoluto insucesso, que vis engendramentos ou verdades luminosas se ocultam sob a superfície. Belíssima ideia.