segunda-feira, março 16, 2009

That's Amore


Que bom receber hoje no correio, ao final da manhã, o primeiro rebento da Arqueria, a editora recém-criada em São Paulo pela minha amiga e poeta Virna Teixeira. Poemas de amor por ela traduzidos, na linha do que há muito tempo tem vindo a fazer no seu maravilhoso Papel de Rascunho. Reproduzo dois deles, o primeiro de Richard Price e o outro de Lee Harwood. As traduções ficam comigo.


Odi et amo


You disgust me. I
love you. I.


Stop. asking. questions.

I.


Leave. me. alone.




Rain journal: London: June 1965

sitting naked together
on the edge of the bed
drinking vodka

this my first real love scene

your body so good
your eyes sad love stars

but john
now when we´re miles apart
the come-down from mountain visions

and the streets all raining
and me in the back of a shop

making free phone calls to you

what can we do?

crackling telephone wires shadow me
and this distance haunts me

and yes – I am miserable
and lost without you

whole days spent
remaking your face
the sound of your voice
the feel of your shoulder



segunda-feira, março 09, 2009

O culto das mercadorias, ou como pode nascer uma religião

No seu controverso livro The God Delusion, Richard Dawkins descreve o nascimento de um estranho culto religioso na região do Pacífico (Melanésia e Nova Guiné) durante a década de 1930. À imagem do que recentemente o documentário Zeitgeist procurou demonstrar, não é preciso muito para o ser humano inventar uma religião:

My main authority for the cargo cults is David Attenborough's Quest in Paradise, which he very kindly presented to me. The pattern is the same for all of them, from the earliest cults in the nineteenth century to the more famous ones that grew up in the aftermath of the Second World War. It seems that in every case the islanders were bowled over by wondrous possessions of the white immigrants to their islands. (...) The islanders noticed that the white people who enjoyed these wonders never made them themselves. When articles needed repairing they were sent away, and new ones kept arriving as "cargo" in ships or, later, planes. No white man was ever seen to make or repair anything, nor indeed did they do anything that could be recognized as useful work of any kind (sitting behind a desk shuffling papers was obviously some kind of religious devotion). Evidently, then, the "cargo" must be of supernatural origin. (...) Anthropologists have noted two separate outbreaks [of cargo cults] in New Caledonia, four in the Solomons, four in Fiji, seven in New Hebrides, and over fifty in New Guinea, most of them being quite independent and unconnected with one another. (...)

One famous cult on the island of Tanna (...) is still extant. It is centered on a messianic figure called John Frum. (...) It is not known whether he ever existed as a real man. (...) He made strange prophecies, and he went out of his way to turn the people against the missionaries. Eventually he returned to the ancestors after promising a triumphal second coming bearing bountiful cargo. (...) Most worryingly for the government, John Frum also prophesied that, on his second coming, he would bring new coinage, stamped with the image of a coconut. The people therefore got rid of all their money of the white man's currency. In 1941, this led to a wild spending spree; the people stopped working and the island's economy was seriously damaged. (...) In the 1950s, Attenborough (...) met the high priest [of the cult], a man called Nambas. Nambas referred to his messiah familiarly as John, and claimed to speak to him regularly by "radio" (...) which consisted of an old woman with an electric wire around her waist who would fall in a trance and talk gibberish, which Nambas interpreted as the words of John Frum.(...)

It is believed that the day of John Frum's return will be February 15th, but the year is unknown. Every year on February 15th his followers assemble for a religious ceremony to welcome him. So far he has not returned, but they are not downhearted. (...) [One cult devotee] says, "If you can wait two thousand years for Jesus Christ to come an' 'e no come, then I can wait more than nineteen years for John".

quinta-feira, março 05, 2009

Ruy Ventura traduzido nos Estados Unidos

Acaba de ser publicada nos Estados Unidos da América, em São Francisco , uma tradução do livro de poesia de Ruy Ventura (Portalegre, 1973) intitulado Assim se deixa uma casa (Coimbra, Alma Azul, 2003). A obra agora dada a lume com o título How to leave a house surge no âmbito do projecto “Second Mind”, contando com uma versão inglesa da responsabilidade de Brian Strang, que já antes publicara nessa língua poemas do autor de Arquitectura do Silêncio. Apesar de uma tradução como esta permanecer inacessível à maioria dos leitores em Portugal, cumpre realçar a atenção que lá por fora a poesia portuguesa moderna e contemporânea vai merecendo.

Ruy Ventura reside e trabalha no concelho de Sesimbra, onde é professor. Publicou, em poesia, Arquitectura do Silêncio (Lisboa, 2000; Prémio Revelação de Poesia, da Associação Portuguesa de Escritores), sete capítulos do mundo (Lisboa, 2003), Assim se deixa uma casa (Coimbra, 2003), Um pouco mais sobre a cidade (Villanueva de la Serena, 2004) e O lugar, a imagem (Badajoz, 2006); em 2009 editará o original Chave de ignição, com edição simultânea em Portugal (Edições Cosmorama) e em Espanha (Littera Libros). Como investigador, trabalha neste momento num projecto dedicado ao estudo da toponímia e do património religioso de uma parte do Barlavento Algarvio. Coordena os blogues Estrada do Alicerce e Arquivo do Norte Alentejano.


domingo, março 01, 2009

Um plano

Estávamos os quatro à mesa, num momento de paleio profundo pós-jantar. Suponho que o arroz de peixe acompanhado de uma razoável garrafa de vinho propicie este tipo de reflexões, a saber, projectos futuros, o que fazer de válido, de minimamente relevante com os anos que ainda restam. Foi aí que ele disse que por agora iria continuar com a sua vida normal, com a rotina de trabalho. Mas fez questão de acrescentar que não o tencionava fazer para sempre. Era só para poder um dia retirar-se e “poder começar a descobrir o que é que realmente se passa por aí.” Assim o disse textualmente, numa formulação das mais felizes que alguma vez ouvi aplicar a essa fundamental tarefa de qualquer ser humano que se interroga, que se inquieta com a penumbra em que vivemos envoltos. Parar um pouco. Mandar até um pouco o trabalho às urtigas. Começar por fim a examinar, ainda que sob o risco do absoluto insucesso, que vis engendramentos ou verdades luminosas se ocultam sob a superfície. Belíssima ideia.

sexta-feira, fevereiro 27, 2009

Cavalo de Tróia. Imagem do mundo


Mais à frente, numa plataforma rolante, Epeu e outros ajudantes levantavam quatro colunas que, embora estivessem dispostas de maneira pouco ortodoxa, pareciam a base de uma estrutura mais alta.
Timalco viu-os trabalharem durante muito tempo antes de se retirar invadido por dúvidas. Enquanto andava, sentiu-se acometido por um vago temor que não soube interpretar. Se a construção tinha a aparência de uma extravagante máquina de guerra própria para um cerco, o que planeava fazer com ela Odysseus? Que nova artimanha urdia? Estremeceu, inquieto. As traições do senhor de Ítaca foram a causa da morte de Palamedes e Ájax, e quase o foram da de Diomedes. Por sua culpa, aqueles dois nobres heróis acompanhavam agora Pátroclo, Heitor e Aquiles na sua escura morada além do rio dos mortos. Todos aqueles admiráveis combatentes, mortos em tão pouco espaço de tempo, provavam-lhe que a boa ou má fortuna nada tinha a ver com o mérito ou a virtude; que na vida, Themis, a deusa da justiça, nem sempre favorece os melhores. Talvez fosse sinal dos tempos, pensou. Talvez os homens de valor estivessem a acabar para que uma nova estirpe reinasse em seu lugar. Uma raça perversa, como era a de Odysseus, cuja força residisse não no coração mas na cabeça. Que valorizasse mais a palavra do que os actos. Os seus adeptos apreciariam o engano menosprezando a honra, e o combate leal seria substituído pela mentira, pela falsidade e pela astúcia. Já não haveria batalhas em campo aberto, os vencedores espreitariam na sombra. E seriam eles, no fim, que, aproveitando a rectidão e a pouca malícia dos seus inimigos, governariam a terra.

Antonio Sarabia, Tróia ao Entardecer

quinta-feira, fevereiro 19, 2009


ouço lá fora o conserto dos telhados
enquanto ao espelho
o tempo progride sereno
pelas curvas do meu rosto
em boa e perfeita verdade
não difere o dia de hoje
de todos os dias
em todas as casas
a vitória dos telhados sobre o tempo
a vitória do tempo sobre as faces

domingo, fevereiro 15, 2009

Namora


No ano em que se assinala o vigésimo aniversário da morte de Fernando Namora, e depois de em tempos termos trazido aqui um poema do seu livro Terra, voltamos a recuperar-lhe a poesia, género em que acabou por notabilizar-se menos, por comparação com a obra que deixou como romancista. Retirámos "Entardecer" do seu segundo livro de versos, Mar de Sargaços:
O dia morre contigo. Deixa que os teus braços pendam
sobre a hora que não tarda.
A tua túnica ondeia como um verme espreguiçado.
Os teus mamilos já não fremem: a hora cobre-te a nudez.
A primeira estrela subiu e veio depor o beijo sobre a tua fronte
[suada.
As aves estão contigo. Abrigam-te as lágrimas serenas nas
[suas asas de crepe.
Pronto. Cerra os olhos. É o fim.

quarta-feira, fevereiro 11, 2009

À morte do Sr. José Nogueira Vaz Monteiro

Terminamos hoje o breve conjunto de citações retiradas do excelso quinzenário alentejano A Mocidade, apresentando um notável exercício de linguagem enlutada levada à sua máxima contundência. Tudo isto a propósito do falecimento de certa figura ilustre, corria o agoirado ano de 1939:
(...) uma tristeza infinita da natureza dolorida - o céu plúmbeo a escorrer uma chuva espessa e viscosa - envolve a terra num manto pesado e funéreo. Tristeza desconforme, também, ressuma do coração dos homens, acabrunhados ao peso da desgraça hórrida e inclemente.

quinta-feira, fevereiro 05, 2009

segunda-feira, fevereiro 02, 2009

Arrombamento e roubo

Atraiu-nos na notícia que passamos a reproduzir, e que fomos topar no jornal A Mocidade ao lado de um interessantíssimo artigo de F. Muller-Lyer intitulado "As Grandes Cozinhas Modernas", a descarada aliteração contida desde logo no título, bem como, à imagem das outras notícias já transcritas, as invulgares capacidades de dedução e conclusão do anónimo repórter em causa. Nenhum sangue, desta vez. Mas, senhores! Uns valentes contos de reis em prejuízo de mercancias!

Na noite de 31 de Outubro findo, os gatunos entraram por meio de arrombamento no estabelecimento comercial do Snr. Ramiro Pires Filipe, nesta vila, donde levaram vários artigos, como camisas de populine, de lã, calçado, pull-overs para homem, camurcins, um capote, todo o tabaco que encontraram e cinquenta escudos em dinheiro que estava na caixa registadora e que ali tinha ficado para trocos. Adivinha-se que os gatunos procuravam apenas dinheiro, pois que, encontrando-se num estabelecimento tão importante, poderiam fazer uma verdadeira razia. Esta circunstância leva-nos a crer que os gatunos não deviam ser de longe. Foram detidos para averiguações vários indivíduos de quem se suspeitou, os quais sairam em liberdade por nada se ter apurado contra eles. O roubo deve ter sido praticado depois das 2 horas da madrugada, hora a que se apaga a iluminação pública, tendo os gatunos forçado um grosso cadeado de uma das portas que dá para a estrada da Estação e arrombado, provavelmente com um pé de "cabra", uma potente fechadura.

domingo, janeiro 25, 2009

Desastre


Persistimos nas floreadas páginas do quinzenário regional A Mocidade, agora já do ano de 1940, onde topamos com a notícia de um aparatoso acidente de bicicleta. Isso de andar a duas rodas realmente nunca nos convenceu, se bem que o episódio em causa tenha sido de uma violência invulgar, pelo menos a fazer fé na descrição feita e no particular emprego do arcaísmo "saimento".

Quando ha dias o menino Eduardo Morgado Figueira filho do nosso presado assinante, Sr. Eduardo Figueira, da estação desta vila, andava de bicicleta, foi embater violentamente com uma árvore de que resultou receber graves ferimentos nos intestinos, com saimento destes. Conduzido à Casa de Saude, de Abrantes, onde lhe prestaram os devidos socorros, ali ficou internado por ser muito grave o seu estado. Desejamos-lhe rápidas melhoras.

quinta-feira, janeiro 22, 2009

Assassínio e roubo

Também em 1939, dá conta a alentejana Mocidade de mais um hediondo crime ocorrido nas redondezas de Montargil, desta feita sem padecimento de almas, se bem que, pela descrição que se faz da agressão, não possamos evitar questionar como é que a vítima António Fouto sobreviveu. Tal como no caso que reproduzimos anteriormente, também aqui o jornalista em causa é particularmente dotado ao nível da narração (apesar do desprezo pela acentuação de algumas palavras e de fazer anteceder o nome das pessoas por artigo definido), exibindo uma peculiar omnisciência relativamente a factos e intenções. Ainda dizem que antigamente não haviacrime violento no nosso país... Ficai pois, caríssimos leitores, com o relato destes mui gravosos acontecimentos, conforme dados a lume pela Mocidade de Ponte do Sôr.

No dia de Ano Bom, no lugar da Marouca, subúrbios da vila de Montargil, deste concelho, deu-se um revoltante crime de tentativa de assassinato e roubo que, pelas trágicas circunstancias em que foi cometido, bem revela a extraordinaria audacia e ferocidade de quem nele tomou parte,

Antonio Fouto, casado, proprietario, morador naquele lugar, é um indivíduo que tem fama de possuir dinheiro. Sua mulher encontra-se ha bastante tempo internada num hospital e o Fouto, vivendo quási só, costumava deitar-se bastante cedo. Encontrando-se já recolhido, sentiu bater à porta; e, julgando ser algum dos seus filhos, levantou-se para abrir.

Imediatamente três meliantes que se encontravam na rua, lançaram-se sobre ele, agredindo-o à machadada, sem que o Fouto podesse esboçar qualquer defesa, lançando-o por terra a jorrar abundante sangue. Supondo-o morto, os assaltantes percorreram os cantos da casa encontrando apenas uma nota de cem escudos que a victima tinha no bolso falso do casaco. Em seguida ataram uma corda ao pescoço do Fouto, arrastando-o a distancia, e ali um dos facinoras disse a um dos companheiros que lhe cortasse o pescoço. Munido de uma faca o outro bandido vibrou um golpe no pescoço do Fouto. Por felicidade a faca apenas cortara a grossa corda que apertava o pescoço da vítima, circunstancia em que os meliantes não repararam, certamente por a noite estar escura e supondo terem morto o Antonio Fouto, desapareceram.

Voltando a si passado algum tempo, a victima gritou por socorro, tendo os seus gritos sido ouvidos por Manoel Alves e Gabriel Fernandes, do Telheiro, que regressavam a suas casas. Transportado ao Hospital de Montargil, o ferido foi ali tratado pelo Snr. Doutor Amandio Lourenço Falcão da Luz que lhe suturou os ferimentos com 17 pontos. Felizmente estes não são de gravidade e o ferido encontra-se melhorando.

O caso foi participado às auctoridades, estando a proceder a investigações o agente Nunes de Almeida, da Polícia de Investigação Criminal de Lisbôa.

Foi detido como um dos supostos auctores de tão nefando crime, Monoel Gomes, por alcunha o Manelão, o qual ao ter conhecimento que a Polícia lhe estava passando uma busca em sua casa, correu a ela em atitude ameaçadora, munido de uma machada, tendo sido necessario para o conter em respeito, o agente puxar de uma pistola, ao mesmo tempo que a mulher intervinha, segurando-o.

terça-feira, janeiro 20, 2009

Tragédia em Aljustrel


Segunda-feira. Passo umas horas na desconfortável Hemeroteca de Lisboa, cheia de mofos e algumas caras menos simpáticas. Estou à procura de três periódicos, e é evidente que só acabo por encontrar um deles: A Mocidade (Quinzenário Regionalista de Grande Expansão), editado na segunda metade da década de 1930, em Ponte do Sôr. Folheio as débeis páginas, já em avançado estado de amarelecimento, na certeza de por aí encontrar uns poemas soltos (Álvaro Feijó, Manuel da Fonseca) e uma ou outra entrevistazinha mais interssante para as minhas investigações. Os tectos trabalhados da Hemeroteca estão a cair aos bocados. Tenho pena. O edifício até não deixa de ser jeitoso. A luz é porém daquelas esguias e brancas, de fazer aleijar a vista, imprópria para o desejado estado de afinco intelectual. Ao passar os olhos pelos vários números do quinzenário, vão desfilando diante de mim algumas notícias violentas, relatos de episódios trágicos, desgraças inomináveis num país aparentemente nada pacato. Passamos a reproduzir aqui em semi-facsímile (com transcrição por nosso punho, dada a ilegibilidade da imagem) alguns desses desaires da humanidade regional, começando por um crime passional ocorrido em 1939, na mineira vila de Aljustrel. Mais do que o facto propriamente dito, já de si digno de nota, sublinha-se a linguagem do jornalista, plena de indignação e com um certo pendor para o romanesco.



A pacata vila de Aljustrel, foi, na passada terça-feira, 28, teatro de uma lamentável tragédia que emocionou a população desta laborioso vila alentejana. Foram dela protagonistas a costureira Natividade Bertral, solteira, de 27 anos, e o Snr. Francisco Barão Carapinha Junior, também solteiro, de 31 anos, desenhador da Companhia de Minas daquela vila e estimado correspondente dêste jornal.

Pela manhã daquele dia, quando o nosso malogrado correspondente se dirigia para o escritório, viu surgir numa volta da estrada a sua antiga namorada, a Natividade Bertral, com quem andava de relações tensas. Trocaram algumas palavras e esta, que há muito o perseguia para o obrigar a cumprir uma pretensa promessa de casamento, viu-se, ao que parece, mais uma vez repudiada. Cega de raiva, a Natividade sacou de um revólver de que se munira, e, disparando um tiro, alvejou o Snr. Carapinha na região lombar, na ocasião em que êste lhe voltava as costas para prosseguir o caminho. Ferido gravemente, o nosso desditoso amigo que não esperava a agressão, ainda conseguiu desarmar a tresloucada, vibrando-lhe algumas pancadas na cabeça, com a coronha do revólver. Socorrido, foi conduzido a Lisboa, ao Hospital de S. José na tarde desse dia, onde infelizmente veio a falecer algumas horas depois. A agressora recolheu sob prisão ao Hospital da vila, onde mais tarde, com o mais revoltante cinismo, narrou a sua façanha, confessando não estar arrependida do acto que acabava de praticar.
O Snr. Francisco Barão Carapinha Junior, era um moço trabalhador, muito considerado, que contava gerais simpatias em Aljustrel, tendo a sua inesperada morte causado ali a maior consternação. Era um grande amigo do nosso jornal, que, devido ao seu esfôrço e de outros amigos, conseguiu ver duplicada a sua tiragem. Trabalhou por ele ardorosamente, já ilustrando-lhe as colunas com os seus conscienciosos escritos, já conseguindo arranjar correspondentes e assinantes em várias terras do Baixo Alentejo. Ainda ha bem pouco tempo havia ganho a «Maratona da Amisade», do nosso jornal, pelo avultado número de assinantes que conseguira.
A notícia foi-nos transmitida telefonicamente pelo nosso dedicado correspondente no Cartaxo, Snr. Silvestre Constantino Alexandre, e infelizmente confirmada pelos jornais que à noite recebemos.
Sentindo devéras a morte trágica deste nosso querido companheiro de trabalho, que na flor da vida foi tão abruptamente roubado ao carinho dos seus, «A Mocidade», envia a sua família a expressão sincera das mais sentidas condolências, e desfolha sôbre a campa do infortunado companheiro, as pétalas de uma saüdade infinda.



quarta-feira, janeiro 14, 2009

José Gomes Ferreira e os Lírios do Monte



Nem sempre é pacífica a relação dos escritores com as suas obras inaugurais, muitas vezes produtos de uma criatividade ainda pouco amadurecida ou resultado de um fulgor de juventude com o qual, mais tarde, o já experimentado autor pouco ou nada se identifica. Na literatura portuguesa, são vários os exemplos de autores (poetas, principalmente) que renegaram, ou pelo menos procuraram subestimar, as respectivas obras de estreia. Eis como o sempre contundente José Gomes Ferreira fala da sua obra primeira, Lírios do Monte:


Aos 17 anos, imberbe e cândido, possuía na gaveta toda a natureza metrificada e escrita, num caderno a que pus este título de sabor botânico: Lírios do Monte. Anos depois (...) parti com um amigo em peregrinação de estudo para o campo (...) - Olha: aqui tens os abrolhos. Já os conhecias? - Não, respondia eu, em êxtase de ignorância lírica. Só sabia que abrolhos rimavam com olhos. E as boninas? As que rimam com as colinas? Onde estão? (...) Um dia encontrámos no vale uma flor entranhadamente roxa. - Que é? perguntei curioso. Nunca vi essa flor! - Nem eu, respondeu o meu companheiro (...) Passados dias (meu Deus! Que vergonha!) entra-me o meu amigo pelo quarto, a gritar: - Sabes que flor é? - Não! - Não fazes ideia, pá? - Não! - Faz um esforço! - Não! - Pois ouve e não desmaies: é um lírio do monte! (...) Quando lembro este episódio e folheio, colérico, os ignóbeis Lírios do Monte, sinto ganas de ir à procura de todos os meus antigos professores do liceu para pedir-lhes explicações e quebrar-lhes a cara! (...) Vocês são os responsáveis de tudo: das boninas, das avenas, dos abrolhos a rimarem com olhos, dos lírios a rimarem com martírios e de toda a minha ignorância do mundo exterior a empurrar-me para a ilusão de só exisitir beleza dentro de mim.


José Gomes Ferreira, O Mundo dos Outros

segunda-feira, janeiro 12, 2009

Poetas antigos, versos desconhecidos (5)

Entretanto o meu corpo há-de ruir.
E embora a ideia custe,
Inútil serás
Que deixarás nele cumprir-se a lei de Proust.

Políbio Gomes dos Santos, Voz Que Escuta (1944)

quinta-feira, janeiro 08, 2009

Today I am going to kill something. Anything


Em 2008, em resultado de um significativo aumento de criminalidade de rua no Reino Unido, onde as agressões com armas brancas atingem números preocupantes, as autoridades educativas britânicas recomendaram a destruição de todas as antologias literárias escolares onde figurasse o poema de Carol Ann Duffy "Education For Leisure". Curioso como, apesar de tudo, ainda há quem tema o poder sugestivo de um verso.

Today I am going to kill something. Anything.
I have had enough of being ignored and today
I am going to play God. It is an ordinary day,
a sort of grey with boredom stirring in the streets.

I squash a fly against the window with my thumb.
We did that at school. Shakespeare. It was in
another language and now the fly is in another language.
I breathe out talent on the glass to write my name.

I am a genius. I could be anything at all, with half
the chance. But today I am going to change the world.
Something’s world. The cat avoids me. The cat
knows I am a genius, and has hidden itself.

I pour the goldfish down the bog. I pull the chain.
I see that it is good. The budgie is panicking.
Once a fortnight, I walk the two miles into town
for signing on. They don’t appreciate my autograph.

There is nothing left to kill. I dial the radio
and tell the man he’s talking to a superstar.
He cuts me off. I get our bread-knife and go out.
The pavements glitter suddenly. I touch your arm.

segunda-feira, janeiro 05, 2009

Iluminações


A Biblioteca Digital Camões, da responsabilidade do excelso instituto com o mesmo nome, já disponiblizava um acervo considerável de obras, na sua maioria de teor ensaístico, estendendo-se por variadíssimas áreas do conhecimento, embora com especial pendor para as ditas humanidades. Mas hoje a BDC vem adicionar ao seu património mais 1200 documentos da cultura portuguesa dos últimos cinco séculos, entre textos literários, pautas musicais, ensaios, poemas e estudos científicos. Vem este conjunto juntar-se assim a outros de maior envergadura, como o Arquivo de Cultura Portuguesa Contemporânea, da responsabilidade da Biblioteca Nacional. Iluminações, portanto. E à distância apenas da vontade...

Thomas Bernhard dixit:
Conservei até hoje a minha predilecção
por aposentos quase inteiramente às escuras.
Não vejo quase nada,
é assim que prefiro.