domingo, janeiro 25, 2009

Desastre


Persistimos nas floreadas páginas do quinzenário regional A Mocidade, agora já do ano de 1940, onde topamos com a notícia de um aparatoso acidente de bicicleta. Isso de andar a duas rodas realmente nunca nos convenceu, se bem que o episódio em causa tenha sido de uma violência invulgar, pelo menos a fazer fé na descrição feita e no particular emprego do arcaísmo "saimento".

Quando ha dias o menino Eduardo Morgado Figueira filho do nosso presado assinante, Sr. Eduardo Figueira, da estação desta vila, andava de bicicleta, foi embater violentamente com uma árvore de que resultou receber graves ferimentos nos intestinos, com saimento destes. Conduzido à Casa de Saude, de Abrantes, onde lhe prestaram os devidos socorros, ali ficou internado por ser muito grave o seu estado. Desejamos-lhe rápidas melhoras.

quinta-feira, janeiro 22, 2009

Assassínio e roubo

Também em 1939, dá conta a alentejana Mocidade de mais um hediondo crime ocorrido nas redondezas de Montargil, desta feita sem padecimento de almas, se bem que, pela descrição que se faz da agressão, não possamos evitar questionar como é que a vítima António Fouto sobreviveu. Tal como no caso que reproduzimos anteriormente, também aqui o jornalista em causa é particularmente dotado ao nível da narração (apesar do desprezo pela acentuação de algumas palavras e de fazer anteceder o nome das pessoas por artigo definido), exibindo uma peculiar omnisciência relativamente a factos e intenções. Ainda dizem que antigamente não haviacrime violento no nosso país... Ficai pois, caríssimos leitores, com o relato destes mui gravosos acontecimentos, conforme dados a lume pela Mocidade de Ponte do Sôr.

No dia de Ano Bom, no lugar da Marouca, subúrbios da vila de Montargil, deste concelho, deu-se um revoltante crime de tentativa de assassinato e roubo que, pelas trágicas circunstancias em que foi cometido, bem revela a extraordinaria audacia e ferocidade de quem nele tomou parte,

Antonio Fouto, casado, proprietario, morador naquele lugar, é um indivíduo que tem fama de possuir dinheiro. Sua mulher encontra-se ha bastante tempo internada num hospital e o Fouto, vivendo quási só, costumava deitar-se bastante cedo. Encontrando-se já recolhido, sentiu bater à porta; e, julgando ser algum dos seus filhos, levantou-se para abrir.

Imediatamente três meliantes que se encontravam na rua, lançaram-se sobre ele, agredindo-o à machadada, sem que o Fouto podesse esboçar qualquer defesa, lançando-o por terra a jorrar abundante sangue. Supondo-o morto, os assaltantes percorreram os cantos da casa encontrando apenas uma nota de cem escudos que a victima tinha no bolso falso do casaco. Em seguida ataram uma corda ao pescoço do Fouto, arrastando-o a distancia, e ali um dos facinoras disse a um dos companheiros que lhe cortasse o pescoço. Munido de uma faca o outro bandido vibrou um golpe no pescoço do Fouto. Por felicidade a faca apenas cortara a grossa corda que apertava o pescoço da vítima, circunstancia em que os meliantes não repararam, certamente por a noite estar escura e supondo terem morto o Antonio Fouto, desapareceram.

Voltando a si passado algum tempo, a victima gritou por socorro, tendo os seus gritos sido ouvidos por Manoel Alves e Gabriel Fernandes, do Telheiro, que regressavam a suas casas. Transportado ao Hospital de Montargil, o ferido foi ali tratado pelo Snr. Doutor Amandio Lourenço Falcão da Luz que lhe suturou os ferimentos com 17 pontos. Felizmente estes não são de gravidade e o ferido encontra-se melhorando.

O caso foi participado às auctoridades, estando a proceder a investigações o agente Nunes de Almeida, da Polícia de Investigação Criminal de Lisbôa.

Foi detido como um dos supostos auctores de tão nefando crime, Monoel Gomes, por alcunha o Manelão, o qual ao ter conhecimento que a Polícia lhe estava passando uma busca em sua casa, correu a ela em atitude ameaçadora, munido de uma machada, tendo sido necessario para o conter em respeito, o agente puxar de uma pistola, ao mesmo tempo que a mulher intervinha, segurando-o.

terça-feira, janeiro 20, 2009

Tragédia em Aljustrel


Segunda-feira. Passo umas horas na desconfortável Hemeroteca de Lisboa, cheia de mofos e algumas caras menos simpáticas. Estou à procura de três periódicos, e é evidente que só acabo por encontrar um deles: A Mocidade (Quinzenário Regionalista de Grande Expansão), editado na segunda metade da década de 1930, em Ponte do Sôr. Folheio as débeis páginas, já em avançado estado de amarelecimento, na certeza de por aí encontrar uns poemas soltos (Álvaro Feijó, Manuel da Fonseca) e uma ou outra entrevistazinha mais interssante para as minhas investigações. Os tectos trabalhados da Hemeroteca estão a cair aos bocados. Tenho pena. O edifício até não deixa de ser jeitoso. A luz é porém daquelas esguias e brancas, de fazer aleijar a vista, imprópria para o desejado estado de afinco intelectual. Ao passar os olhos pelos vários números do quinzenário, vão desfilando diante de mim algumas notícias violentas, relatos de episódios trágicos, desgraças inomináveis num país aparentemente nada pacato. Passamos a reproduzir aqui em semi-facsímile (com transcrição por nosso punho, dada a ilegibilidade da imagem) alguns desses desaires da humanidade regional, começando por um crime passional ocorrido em 1939, na mineira vila de Aljustrel. Mais do que o facto propriamente dito, já de si digno de nota, sublinha-se a linguagem do jornalista, plena de indignação e com um certo pendor para o romanesco.



A pacata vila de Aljustrel, foi, na passada terça-feira, 28, teatro de uma lamentável tragédia que emocionou a população desta laborioso vila alentejana. Foram dela protagonistas a costureira Natividade Bertral, solteira, de 27 anos, e o Snr. Francisco Barão Carapinha Junior, também solteiro, de 31 anos, desenhador da Companhia de Minas daquela vila e estimado correspondente dêste jornal.

Pela manhã daquele dia, quando o nosso malogrado correspondente se dirigia para o escritório, viu surgir numa volta da estrada a sua antiga namorada, a Natividade Bertral, com quem andava de relações tensas. Trocaram algumas palavras e esta, que há muito o perseguia para o obrigar a cumprir uma pretensa promessa de casamento, viu-se, ao que parece, mais uma vez repudiada. Cega de raiva, a Natividade sacou de um revólver de que se munira, e, disparando um tiro, alvejou o Snr. Carapinha na região lombar, na ocasião em que êste lhe voltava as costas para prosseguir o caminho. Ferido gravemente, o nosso desditoso amigo que não esperava a agressão, ainda conseguiu desarmar a tresloucada, vibrando-lhe algumas pancadas na cabeça, com a coronha do revólver. Socorrido, foi conduzido a Lisboa, ao Hospital de S. José na tarde desse dia, onde infelizmente veio a falecer algumas horas depois. A agressora recolheu sob prisão ao Hospital da vila, onde mais tarde, com o mais revoltante cinismo, narrou a sua façanha, confessando não estar arrependida do acto que acabava de praticar.
O Snr. Francisco Barão Carapinha Junior, era um moço trabalhador, muito considerado, que contava gerais simpatias em Aljustrel, tendo a sua inesperada morte causado ali a maior consternação. Era um grande amigo do nosso jornal, que, devido ao seu esfôrço e de outros amigos, conseguiu ver duplicada a sua tiragem. Trabalhou por ele ardorosamente, já ilustrando-lhe as colunas com os seus conscienciosos escritos, já conseguindo arranjar correspondentes e assinantes em várias terras do Baixo Alentejo. Ainda ha bem pouco tempo havia ganho a «Maratona da Amisade», do nosso jornal, pelo avultado número de assinantes que conseguira.
A notícia foi-nos transmitida telefonicamente pelo nosso dedicado correspondente no Cartaxo, Snr. Silvestre Constantino Alexandre, e infelizmente confirmada pelos jornais que à noite recebemos.
Sentindo devéras a morte trágica deste nosso querido companheiro de trabalho, que na flor da vida foi tão abruptamente roubado ao carinho dos seus, «A Mocidade», envia a sua família a expressão sincera das mais sentidas condolências, e desfolha sôbre a campa do infortunado companheiro, as pétalas de uma saüdade infinda.



quarta-feira, janeiro 14, 2009

José Gomes Ferreira e os Lírios do Monte



Nem sempre é pacífica a relação dos escritores com as suas obras inaugurais, muitas vezes produtos de uma criatividade ainda pouco amadurecida ou resultado de um fulgor de juventude com o qual, mais tarde, o já experimentado autor pouco ou nada se identifica. Na literatura portuguesa, são vários os exemplos de autores (poetas, principalmente) que renegaram, ou pelo menos procuraram subestimar, as respectivas obras de estreia. Eis como o sempre contundente José Gomes Ferreira fala da sua obra primeira, Lírios do Monte:


Aos 17 anos, imberbe e cândido, possuía na gaveta toda a natureza metrificada e escrita, num caderno a que pus este título de sabor botânico: Lírios do Monte. Anos depois (...) parti com um amigo em peregrinação de estudo para o campo (...) - Olha: aqui tens os abrolhos. Já os conhecias? - Não, respondia eu, em êxtase de ignorância lírica. Só sabia que abrolhos rimavam com olhos. E as boninas? As que rimam com as colinas? Onde estão? (...) Um dia encontrámos no vale uma flor entranhadamente roxa. - Que é? perguntei curioso. Nunca vi essa flor! - Nem eu, respondeu o meu companheiro (...) Passados dias (meu Deus! Que vergonha!) entra-me o meu amigo pelo quarto, a gritar: - Sabes que flor é? - Não! - Não fazes ideia, pá? - Não! - Faz um esforço! - Não! - Pois ouve e não desmaies: é um lírio do monte! (...) Quando lembro este episódio e folheio, colérico, os ignóbeis Lírios do Monte, sinto ganas de ir à procura de todos os meus antigos professores do liceu para pedir-lhes explicações e quebrar-lhes a cara! (...) Vocês são os responsáveis de tudo: das boninas, das avenas, dos abrolhos a rimarem com olhos, dos lírios a rimarem com martírios e de toda a minha ignorância do mundo exterior a empurrar-me para a ilusão de só exisitir beleza dentro de mim.


José Gomes Ferreira, O Mundo dos Outros

segunda-feira, janeiro 12, 2009

Poetas antigos, versos desconhecidos (5)

Entretanto o meu corpo há-de ruir.
E embora a ideia custe,
Inútil serás
Que deixarás nele cumprir-se a lei de Proust.

Políbio Gomes dos Santos, Voz Que Escuta (1944)

quinta-feira, janeiro 08, 2009

Today I am going to kill something. Anything


Em 2008, em resultado de um significativo aumento de criminalidade de rua no Reino Unido, onde as agressões com armas brancas atingem números preocupantes, as autoridades educativas britânicas recomendaram a destruição de todas as antologias literárias escolares onde figurasse o poema de Carol Ann Duffy "Education For Leisure". Curioso como, apesar de tudo, ainda há quem tema o poder sugestivo de um verso.

Today I am going to kill something. Anything.
I have had enough of being ignored and today
I am going to play God. It is an ordinary day,
a sort of grey with boredom stirring in the streets.

I squash a fly against the window with my thumb.
We did that at school. Shakespeare. It was in
another language and now the fly is in another language.
I breathe out talent on the glass to write my name.

I am a genius. I could be anything at all, with half
the chance. But today I am going to change the world.
Something’s world. The cat avoids me. The cat
knows I am a genius, and has hidden itself.

I pour the goldfish down the bog. I pull the chain.
I see that it is good. The budgie is panicking.
Once a fortnight, I walk the two miles into town
for signing on. They don’t appreciate my autograph.

There is nothing left to kill. I dial the radio
and tell the man he’s talking to a superstar.
He cuts me off. I get our bread-knife and go out.
The pavements glitter suddenly. I touch your arm.

segunda-feira, janeiro 05, 2009

Iluminações


A Biblioteca Digital Camões, da responsabilidade do excelso instituto com o mesmo nome, já disponiblizava um acervo considerável de obras, na sua maioria de teor ensaístico, estendendo-se por variadíssimas áreas do conhecimento, embora com especial pendor para as ditas humanidades. Mas hoje a BDC vem adicionar ao seu património mais 1200 documentos da cultura portuguesa dos últimos cinco séculos, entre textos literários, pautas musicais, ensaios, poemas e estudos científicos. Vem este conjunto juntar-se assim a outros de maior envergadura, como o Arquivo de Cultura Portuguesa Contemporânea, da responsabilidade da Biblioteca Nacional. Iluminações, portanto. E à distância apenas da vontade...

Thomas Bernhard dixit:
Conservei até hoje a minha predilecção
por aposentos quase inteiramente às escuras.
Não vejo quase nada,
é assim que prefiro.

quarta-feira, dezembro 31, 2008

terça-feira, dezembro 23, 2008

Tori Amos em BD


Para quem lê com alguma regularidade o admirável Cálssio do meu bom amigo António, não constitui especial novidade ter sido recentemente publicado nos Estados Unidos um grosso volume de banda desenhada, onde se reúnem cinquenta histórias de vários artistas, inspiradas em músicas (e letras) desse incansável anjo que é Tori Amos. Tendo seguido a oportuna sugestão do António, decidi adquirir o dito tomo, de título Comic Book Tatoo, o qual me chegou há poucas semanas às mãos, entregue à porta por um indíviduo que nesse momento me pareceu a mais amável criatura à face da terra.
A título de pura ornamentação, reproduzimos a primeira página da história inspirada em Winter, que apesar de pertencer ao já longínquo album de estreia de Tori Amos, continua a ser uma das minhas músicas preferidas.
A capa da edição limitada do single em questão é por causa do António, esse monstruoso parideiro e disseminador de informação cultural. Foi ele quem me ofereceu o disquinho, já lá vão seguramente uns cinco ou seis anos.
Não tem grande razão de ser esta entrada, ainda que o Inverno de Tori sempre me tenha sugerido uma atmosfera potencialmente natalícia. O que eu queria é que ela soubesse o quanto a aguardam alguns bons fãs portugueses, que a estas paragens nunca a viram chegar.

sexta-feira, dezembro 19, 2008

Ruído Luminoso: Quatro Poetas Portugueses

O número 40 da sèrie Alfa, revista electrónica catalã da responsabilidade do aqui já mencionado poeta e tradutor Joan Navarro, é dedicada a quatro poetas portugueses contemporâneos.
Luís Filipe Cristovão, Joaquim Costa Dias, Vasco Gato e João Miguel Henriques juntaram-se com duas composições cada um, sob o título "Ruído Luminoso". Há traduções em catalão, espanhol, francês e inglês. O trabalho fotográfico é do brasileiro Valdir Peyceré. Aqui.

sexta-feira, dezembro 12, 2008

Quinto Aniversário


Faz hoje precisamente cinco anos que os Quartos Escuros abriram as suas portas a quem neles achou por bem entrar, com maior ou menor regularidade. Esta página começou no dia 12 de Dezembro de 2003 com um breve poema de estrofe única, e a poesia tem com efeito sido o campo mais explorado ao longo deste tempo. Seguiram-se, anos fora, variadas rubricas, por entre fotografias legendadas, divulgação de escritas várias, passagens de livros, e até a descoberta arqueológica de composições proto-poéticas de uma civilização até então desconhecida. Reformularam-se ligações, registaram-se comentários e foram estes quartos paulatinamente adoptando algumas das incontáveis inovações que ao longo destes anos foram transformando o labor blogueiro. Para quem acha que isto soa a despedida, desiludam-se. É mais do género de eu a dar os merecidos parabéns a mim próprio. O último a juntar a sua à minha voz é um nabo. E já agora, a imagem reproduz uma colagem do artista Kevin Cherry.

O que por estes dias me vai ocupando...

sexta-feira, dezembro 05, 2008

Abreu Paxe



Detenhamo-nos por ora ainda na língua portuguesa, dedicando desta vez um espaço ao poeta angolano Abreu Paxe (Vale do Loge, 1969), cuja obra me foi pela primeira vez dada a conhecer pela minha amiga paulista Nicole Cristofalo.

Agrada-me na poesia de Paxe, de cuja totalidade conheço apenas um punhado de composições, a escassez ou mesmo ausência de pontuação, o que transfere para o leitor essa árdua e ao mesmo tempo entusiasmante tarefa de ele próprio criar uma ou mais leituras possíveis dos textos, fazendo e refazendo sintagmas, unindo ou separando vocábulos. O facto de estarmos muitas vezes perante poemas de estrofe única, contribui de igual modo para o ritmo muito particular dos textos em causa. Poderíamos chamá-los de intimistas, ainda que por vezes herméticos e insondáveis. O conteúdo, aqui e ali codificado, é resgatado pela riqueza lexical e poética de inúmeras passagens, das mais belas que ultimamente tenho lido em português.

A revista electrónica Zunái, que goza de ligação directa nesta página, alberga de Abreu Paxe outros poemas, para além de uma entrevista e breve ensaio da responsabilidade do incansável Cláudio Daniel. Da primeira destas páginas consta igualmente uma nota biográfica do poeta que por esse preciso motivo aqui se evitou avançar. Não se evita porém, bem pelo contrário, a reprodução de dois poemas de Abreu Paxe. Não fosse o visitante pensar serem os quartos escuros absolutamente inúteis.



Em sexo livre a língua

entre as trevas e a seiva da sintaxe abundam palavras
inofensivas nada dizem à pátria por imitação os impérios
renovam os aspectos os tempos os modos
outro soldado emergia
unia a habitação a fonética e a fonologia ao sol de casa
pirâmides e intervalos o corpo cego texto
regenera cidades por visitar falida interacção
as meninas árvores nocturnas com portas e janelas polares
tudo treme sobre o papel a mesma travessia despersa tudo



De certo modo os destroços palavras

de igual modo as partículas invariáveis traços lábias
sempre há uma mulher no mal
por isso trepo meu olhar pelas paredes e pelo tecto
o último cruzar de pernas
zona prestigiada o eixo compreendia o acento de intensidade
juntos todos os sentidos no modo algum tempo exacto
sem esquecer na via erudita expressão
o étimo uma mesa com o portal aberto
outro reino de certeza
a comunicação oficial adoptou o berço lìngua lençol
tanto tempo sonorizado
estava inscrito nas fronteiras este período
das alíneas funções sintácticas
diferenças dos pares vocabulares
nascem outras partículas variáveis destroços

terça-feira, dezembro 02, 2008

sexta-feira, novembro 28, 2008

Ramón Peralta



Os quartos escuros albergam hoje um poeta que já há muito estava para aqui entrar. Conheci Ramón Peralta (Cidade do México, 1972) em Lisboa, cidade agora também sua, por intermédio de um amigo comum, o também poeta mexicano Rodrigo Flores. Trocámos poesias, falámos de predilecções e atirámos expectativas contra o futuro incerto. O poeta de sorriso malandro e olhar puro confessou-me ter entretanto terminado um romance, mas até agora apenas conheço parte do seu trabalho poético, nomeadamente os inéditos El Paso de Eva e Instantáneas, este último um conjunto de fragmentos.

Ramón Peralta é co-director da revista de poesia Oráculo. Publicou os livros de poemas Diáfanas Espigas (FETA, 2003) e Fotosíntesis (Ediciones Invisible, 2006). Para além disso é também tradutor e mantém o blog Aceite de Ajolote. Deixo-vos dois poemas do belíssimo inédito El Paso de Eva, desculpando-me por não apresentar a respectiva tradução portuguesa.



Avanza descalza sin lastimar la hierba.

Pero hoy, día del juicio.

Incestos disimulan descanso bajo las adelfas
respiran futuro en una telaraña
descubren el miedo
y la pena no será errante
por la mancha que germina en el vientre.

Yo, pájaro ciego.
Atento al menor ruido del mal

En la seguridad de las frondas no creo

a pocos metros escucho un diluvio.



Surge y estalla un beso
que dura este silencio
después el silencio no será beso
será tiempo.

sexta-feira, novembro 21, 2008

Francisco Serra Lopes

Começo desde já por anunciar que decidi regressar à apresentação de poesia da minha predilecção (se bem que em alguns casos pouco notabilizada) como forma de vencer certa inércia de que tem padecido a presente página. Os quartos escuros são por vezes assim: lugares onde escasseiam palavras e movimentos de membros. Mas esse não é naturalmente um estado que se pretenda perpetuar.



Francisco Serra Lopes é um poeta de quem já há muito tempo não lia nada. Conhecemo-nos, creio, há coisa de dez anos, entretidos que andávamos na altura com afazeres académicos aos quais ambos, nos anos seguintes, haveríamos de dar continuidade, ainda que em locais e linhagens distintas. Nos anos da Faculdade de Letras, publicava o Francisco no já mítico jornal Os Fazedores de Letras, e foi também por essa altura que me estendeu um dia, a pedido meu, uma reunião de poemas sob o pseudónimo António Ochôa, relíquia que ainda hoje guardo. Depois disso, a distância geográfica ditou que os nossos encontros se resumissem a uma ocasião anual, não mais que isso, altura em que me era sempre possível confirmar o à-vontade com que me sentia na sua presença e o prazer descomprometido das conversas mais díspares.

Não sei se deva estar aqui a alongar-me sobre a sua pessoa. Temo que seja algo que ele dispense por completo. Acrescento porém que foi com um enorme fascínio que recebi recentemente uma nova amostra da sua poesia, ambiciosa, pura, lexicalmente contundente. Ele diz ter sido de certa forma um regresso à poesia, após uma maior predominância na sua vida de outras leituras e reflexões, nomeadamente as relacionadas com o Doutoramento que se encontra a realizar na cidade de Barcelona. Mas uma vez cá dentro, a poesia nunca chega realmente a sair de nós, pois não?

Conheçam um pouco mais o Francisco na sua página Ibéricos e fiquem com dois poemas que seleccionei para a ocasião, o primeiro descrito pelo seu autor como "poema parecido" e o segundo como "poema sem efeito".


Escorre de um fraco antebraço
linha de sangue, grossa:
a rude motivação é baço
reflexo da perda nossa.

O calor desaparece
desse braço para a anca
do moribundo amigo. Tece
uma linha que em vão estanca,

tépida. E a Providência
indica um trapo que aí jaz,
próximo. Não há ciência
que não mate. Desfaz-

-se-me o alento. Sofro
por ver a decadência
de cada corpo já amorfo.
É isso a experiência?

Reduz-se então o apego:
não é possível prolongar o luto
multiplicado. Quando chego
com os dedos à sua alma, escuto:

Eu não te peço afagos, companheiro;
não te peço um trapo que retenha
a vida que se esvai. O teu cheiro
a roupa quente, a tua voz castanha

de terra seca é tudo o que recolho
para levar para aquela terra estranha
de que falavas. Beija-me o olho
que ainda vê, fecha-mo, não venha

a morte antes de ti.
E vejo
como a retina se lhe abre em livro,
e inclino-me, solene, para um beijocomo quem quer eternizar o vivo.


Deixa-me ver a que sabe o hálito
rápido, acre na tua boca.
Detrás de quem beija – quero dizer:
por trás
do rosto a orelha que finta a noite
em que te sussurro orgasmos afins
à tua cadência que não ressona
mas ressoa enfim no meu alarido
interior, aí cumpres a tua função
conjugal e a excedes, até, no domínio
das personagens que passam dizendo
vamo-nos embora à queima-roupa.

segunda-feira, novembro 10, 2008

Balaustrada

já era tempo de me dares a conhecer
o sentido do vocábulo balaustrada
palavra sempre ignorada
apesar do comum entendimento

a saber

de balaustres
série ou fileira
formando varanda, grade
ou corrimão
(e prossegues, fluida,
prazenteira)
para efeitos de apoio
ou vedação