segunda-feira, janeiro 12, 2009

Poetas antigos, versos desconhecidos (5)

Entretanto o meu corpo há-de ruir.
E embora a ideia custe,
Inútil serás
Que deixarás nele cumprir-se a lei de Proust.

Políbio Gomes dos Santos, Voz Que Escuta (1944)

quinta-feira, janeiro 08, 2009

Today I am going to kill something. Anything


Em 2008, em resultado de um significativo aumento de criminalidade de rua no Reino Unido, onde as agressões com armas brancas atingem números preocupantes, as autoridades educativas britânicas recomendaram a destruição de todas as antologias literárias escolares onde figurasse o poema de Carol Ann Duffy "Education For Leisure". Curioso como, apesar de tudo, ainda há quem tema o poder sugestivo de um verso.

Today I am going to kill something. Anything.
I have had enough of being ignored and today
I am going to play God. It is an ordinary day,
a sort of grey with boredom stirring in the streets.

I squash a fly against the window with my thumb.
We did that at school. Shakespeare. It was in
another language and now the fly is in another language.
I breathe out talent on the glass to write my name.

I am a genius. I could be anything at all, with half
the chance. But today I am going to change the world.
Something’s world. The cat avoids me. The cat
knows I am a genius, and has hidden itself.

I pour the goldfish down the bog. I pull the chain.
I see that it is good. The budgie is panicking.
Once a fortnight, I walk the two miles into town
for signing on. They don’t appreciate my autograph.

There is nothing left to kill. I dial the radio
and tell the man he’s talking to a superstar.
He cuts me off. I get our bread-knife and go out.
The pavements glitter suddenly. I touch your arm.

segunda-feira, janeiro 05, 2009

Iluminações


A Biblioteca Digital Camões, da responsabilidade do excelso instituto com o mesmo nome, já disponiblizava um acervo considerável de obras, na sua maioria de teor ensaístico, estendendo-se por variadíssimas áreas do conhecimento, embora com especial pendor para as ditas humanidades. Mas hoje a BDC vem adicionar ao seu património mais 1200 documentos da cultura portuguesa dos últimos cinco séculos, entre textos literários, pautas musicais, ensaios, poemas e estudos científicos. Vem este conjunto juntar-se assim a outros de maior envergadura, como o Arquivo de Cultura Portuguesa Contemporânea, da responsabilidade da Biblioteca Nacional. Iluminações, portanto. E à distância apenas da vontade...

Thomas Bernhard dixit:
Conservei até hoje a minha predilecção
por aposentos quase inteiramente às escuras.
Não vejo quase nada,
é assim que prefiro.

quarta-feira, dezembro 31, 2008

terça-feira, dezembro 23, 2008

Tori Amos em BD


Para quem lê com alguma regularidade o admirável Cálssio do meu bom amigo António, não constitui especial novidade ter sido recentemente publicado nos Estados Unidos um grosso volume de banda desenhada, onde se reúnem cinquenta histórias de vários artistas, inspiradas em músicas (e letras) desse incansável anjo que é Tori Amos. Tendo seguido a oportuna sugestão do António, decidi adquirir o dito tomo, de título Comic Book Tatoo, o qual me chegou há poucas semanas às mãos, entregue à porta por um indíviduo que nesse momento me pareceu a mais amável criatura à face da terra.
A título de pura ornamentação, reproduzimos a primeira página da história inspirada em Winter, que apesar de pertencer ao já longínquo album de estreia de Tori Amos, continua a ser uma das minhas músicas preferidas.
A capa da edição limitada do single em questão é por causa do António, esse monstruoso parideiro e disseminador de informação cultural. Foi ele quem me ofereceu o disquinho, já lá vão seguramente uns cinco ou seis anos.
Não tem grande razão de ser esta entrada, ainda que o Inverno de Tori sempre me tenha sugerido uma atmosfera potencialmente natalícia. O que eu queria é que ela soubesse o quanto a aguardam alguns bons fãs portugueses, que a estas paragens nunca a viram chegar.

sexta-feira, dezembro 19, 2008

Ruído Luminoso: Quatro Poetas Portugueses

O número 40 da sèrie Alfa, revista electrónica catalã da responsabilidade do aqui já mencionado poeta e tradutor Joan Navarro, é dedicada a quatro poetas portugueses contemporâneos.
Luís Filipe Cristovão, Joaquim Costa Dias, Vasco Gato e João Miguel Henriques juntaram-se com duas composições cada um, sob o título "Ruído Luminoso". Há traduções em catalão, espanhol, francês e inglês. O trabalho fotográfico é do brasileiro Valdir Peyceré. Aqui.

sexta-feira, dezembro 12, 2008

Quinto Aniversário


Faz hoje precisamente cinco anos que os Quartos Escuros abriram as suas portas a quem neles achou por bem entrar, com maior ou menor regularidade. Esta página começou no dia 12 de Dezembro de 2003 com um breve poema de estrofe única, e a poesia tem com efeito sido o campo mais explorado ao longo deste tempo. Seguiram-se, anos fora, variadas rubricas, por entre fotografias legendadas, divulgação de escritas várias, passagens de livros, e até a descoberta arqueológica de composições proto-poéticas de uma civilização até então desconhecida. Reformularam-se ligações, registaram-se comentários e foram estes quartos paulatinamente adoptando algumas das incontáveis inovações que ao longo destes anos foram transformando o labor blogueiro. Para quem acha que isto soa a despedida, desiludam-se. É mais do género de eu a dar os merecidos parabéns a mim próprio. O último a juntar a sua à minha voz é um nabo. E já agora, a imagem reproduz uma colagem do artista Kevin Cherry.

O que por estes dias me vai ocupando...

sexta-feira, dezembro 05, 2008

Abreu Paxe



Detenhamo-nos por ora ainda na língua portuguesa, dedicando desta vez um espaço ao poeta angolano Abreu Paxe (Vale do Loge, 1969), cuja obra me foi pela primeira vez dada a conhecer pela minha amiga paulista Nicole Cristofalo.

Agrada-me na poesia de Paxe, de cuja totalidade conheço apenas um punhado de composições, a escassez ou mesmo ausência de pontuação, o que transfere para o leitor essa árdua e ao mesmo tempo entusiasmante tarefa de ele próprio criar uma ou mais leituras possíveis dos textos, fazendo e refazendo sintagmas, unindo ou separando vocábulos. O facto de estarmos muitas vezes perante poemas de estrofe única, contribui de igual modo para o ritmo muito particular dos textos em causa. Poderíamos chamá-los de intimistas, ainda que por vezes herméticos e insondáveis. O conteúdo, aqui e ali codificado, é resgatado pela riqueza lexical e poética de inúmeras passagens, das mais belas que ultimamente tenho lido em português.

A revista electrónica Zunái, que goza de ligação directa nesta página, alberga de Abreu Paxe outros poemas, para além de uma entrevista e breve ensaio da responsabilidade do incansável Cláudio Daniel. Da primeira destas páginas consta igualmente uma nota biográfica do poeta que por esse preciso motivo aqui se evitou avançar. Não se evita porém, bem pelo contrário, a reprodução de dois poemas de Abreu Paxe. Não fosse o visitante pensar serem os quartos escuros absolutamente inúteis.



Em sexo livre a língua

entre as trevas e a seiva da sintaxe abundam palavras
inofensivas nada dizem à pátria por imitação os impérios
renovam os aspectos os tempos os modos
outro soldado emergia
unia a habitação a fonética e a fonologia ao sol de casa
pirâmides e intervalos o corpo cego texto
regenera cidades por visitar falida interacção
as meninas árvores nocturnas com portas e janelas polares
tudo treme sobre o papel a mesma travessia despersa tudo



De certo modo os destroços palavras

de igual modo as partículas invariáveis traços lábias
sempre há uma mulher no mal
por isso trepo meu olhar pelas paredes e pelo tecto
o último cruzar de pernas
zona prestigiada o eixo compreendia o acento de intensidade
juntos todos os sentidos no modo algum tempo exacto
sem esquecer na via erudita expressão
o étimo uma mesa com o portal aberto
outro reino de certeza
a comunicação oficial adoptou o berço lìngua lençol
tanto tempo sonorizado
estava inscrito nas fronteiras este período
das alíneas funções sintácticas
diferenças dos pares vocabulares
nascem outras partículas variáveis destroços

terça-feira, dezembro 02, 2008

sexta-feira, novembro 28, 2008

Ramón Peralta



Os quartos escuros albergam hoje um poeta que já há muito estava para aqui entrar. Conheci Ramón Peralta (Cidade do México, 1972) em Lisboa, cidade agora também sua, por intermédio de um amigo comum, o também poeta mexicano Rodrigo Flores. Trocámos poesias, falámos de predilecções e atirámos expectativas contra o futuro incerto. O poeta de sorriso malandro e olhar puro confessou-me ter entretanto terminado um romance, mas até agora apenas conheço parte do seu trabalho poético, nomeadamente os inéditos El Paso de Eva e Instantáneas, este último um conjunto de fragmentos.

Ramón Peralta é co-director da revista de poesia Oráculo. Publicou os livros de poemas Diáfanas Espigas (FETA, 2003) e Fotosíntesis (Ediciones Invisible, 2006). Para além disso é também tradutor e mantém o blog Aceite de Ajolote. Deixo-vos dois poemas do belíssimo inédito El Paso de Eva, desculpando-me por não apresentar a respectiva tradução portuguesa.



Avanza descalza sin lastimar la hierba.

Pero hoy, día del juicio.

Incestos disimulan descanso bajo las adelfas
respiran futuro en una telaraña
descubren el miedo
y la pena no será errante
por la mancha que germina en el vientre.

Yo, pájaro ciego.
Atento al menor ruido del mal

En la seguridad de las frondas no creo

a pocos metros escucho un diluvio.



Surge y estalla un beso
que dura este silencio
después el silencio no será beso
será tiempo.

sexta-feira, novembro 21, 2008

Francisco Serra Lopes

Começo desde já por anunciar que decidi regressar à apresentação de poesia da minha predilecção (se bem que em alguns casos pouco notabilizada) como forma de vencer certa inércia de que tem padecido a presente página. Os quartos escuros são por vezes assim: lugares onde escasseiam palavras e movimentos de membros. Mas esse não é naturalmente um estado que se pretenda perpetuar.



Francisco Serra Lopes é um poeta de quem já há muito tempo não lia nada. Conhecemo-nos, creio, há coisa de dez anos, entretidos que andávamos na altura com afazeres académicos aos quais ambos, nos anos seguintes, haveríamos de dar continuidade, ainda que em locais e linhagens distintas. Nos anos da Faculdade de Letras, publicava o Francisco no já mítico jornal Os Fazedores de Letras, e foi também por essa altura que me estendeu um dia, a pedido meu, uma reunião de poemas sob o pseudónimo António Ochôa, relíquia que ainda hoje guardo. Depois disso, a distância geográfica ditou que os nossos encontros se resumissem a uma ocasião anual, não mais que isso, altura em que me era sempre possível confirmar o à-vontade com que me sentia na sua presença e o prazer descomprometido das conversas mais díspares.

Não sei se deva estar aqui a alongar-me sobre a sua pessoa. Temo que seja algo que ele dispense por completo. Acrescento porém que foi com um enorme fascínio que recebi recentemente uma nova amostra da sua poesia, ambiciosa, pura, lexicalmente contundente. Ele diz ter sido de certa forma um regresso à poesia, após uma maior predominância na sua vida de outras leituras e reflexões, nomeadamente as relacionadas com o Doutoramento que se encontra a realizar na cidade de Barcelona. Mas uma vez cá dentro, a poesia nunca chega realmente a sair de nós, pois não?

Conheçam um pouco mais o Francisco na sua página Ibéricos e fiquem com dois poemas que seleccionei para a ocasião, o primeiro descrito pelo seu autor como "poema parecido" e o segundo como "poema sem efeito".


Escorre de um fraco antebraço
linha de sangue, grossa:
a rude motivação é baço
reflexo da perda nossa.

O calor desaparece
desse braço para a anca
do moribundo amigo. Tece
uma linha que em vão estanca,

tépida. E a Providência
indica um trapo que aí jaz,
próximo. Não há ciência
que não mate. Desfaz-

-se-me o alento. Sofro
por ver a decadência
de cada corpo já amorfo.
É isso a experiência?

Reduz-se então o apego:
não é possível prolongar o luto
multiplicado. Quando chego
com os dedos à sua alma, escuto:

Eu não te peço afagos, companheiro;
não te peço um trapo que retenha
a vida que se esvai. O teu cheiro
a roupa quente, a tua voz castanha

de terra seca é tudo o que recolho
para levar para aquela terra estranha
de que falavas. Beija-me o olho
que ainda vê, fecha-mo, não venha

a morte antes de ti.
E vejo
como a retina se lhe abre em livro,
e inclino-me, solene, para um beijocomo quem quer eternizar o vivo.


Deixa-me ver a que sabe o hálito
rápido, acre na tua boca.
Detrás de quem beija – quero dizer:
por trás
do rosto a orelha que finta a noite
em que te sussurro orgasmos afins
à tua cadência que não ressona
mas ressoa enfim no meu alarido
interior, aí cumpres a tua função
conjugal e a excedes, até, no domínio
das personagens que passam dizendo
vamo-nos embora à queima-roupa.

segunda-feira, novembro 10, 2008

Balaustrada

já era tempo de me dares a conhecer
o sentido do vocábulo balaustrada
palavra sempre ignorada
apesar do comum entendimento

a saber

de balaustres
série ou fileira
formando varanda, grade
ou corrimão
(e prossegues, fluida,
prazenteira)
para efeitos de apoio
ou vedação

quinta-feira, outubro 30, 2008

Candy CD 112



Três recomendações tiradas do guia de instalação da minha máquina de lavar loiça, página cento e três:



Não utilize os seus electrodomésticos quando estiver descalça.


A água que fica na máquina ou na loiça a seguir à lavagem não deve ser bebida.


Sempre que se queira desfazer de uma máquina de lavar loiça antiga, tenha o cuidado de lhe retirar a fechadura da porta antes, para evitar que crianças se possam fechar na máquina.

domingo, outubro 26, 2008

Bernhard e o fracasso do pensamento


Mas nós temos de tomar sempre em conta o fracasso, senão acabamos abruptamente na inactividade, pensei eu, assim como, fora da nossa cabeça, não há nada contra que tenhamos de proceder com mais decisão do que contra a nossa inactividade, temos também, dentro da nossa cabeça, de proceder do mesmo modo contra a inactividade, mais ou menos com a falta de contemplação que nos é própria. Nós temos de nos permitir o pensamento, temos de o ousar, mesmo com o risco de logo fracassarmos, porque de repente nos é impossível ordenar os nossos pensamentos, dado que, quando pensamos, temos de tomar sempre em conta todos os pensamentos que há, que são possíveis, fracassamos sempre naturalmente, nós somos, no fundo, sempre fracassados e todos os outros também, seja como for que se tenham chamado, mesmo que tenham sido os maiores de todos os génios, de repente, num ponto qualquer, eles fracassaram e o seu sistema desmoronou-se, como provam os seus escritos, que nós admiramos, porque são os que, no fracasso, mais longe foram levados. Pensar significa fracassar, pensei eu. Agir significa fracassar.


Thomas Bernhard, Extinção, (Assírio & Alvim, 2004)

segunda-feira, outubro 20, 2008

Antero e o esmorecimento do intelecto


Tenho alcançado este inverno uma assinalada vantagem que vem a ser, separar o meu espírito do meu temperamento, e reduzir o que costumava ser ataque de misiticismo a simples ataque de inércia, frouxidão intelectual e debilidade extrema da vontade. É pouco, mas é o mais que logro, empregando quanto esforço em mim cabe. O que vejo claramente é que, debaixo do facto moral há um facto fisiológico, contra esse não posso eu nada, não posso impedir que a inteligência activa e criadora adormeça fatalmente durante certos períodos, porque assim está na natureza do meu cérebro, nem que a vontade objectiva e realizadora diminua correlativamente, àquele abaixamento intelectual.


Carta de Antero de Quental a Oliveira Martins, 17 de Dezembro de 1873

terça-feira, outubro 07, 2008

Construção da casa

andei algum tempo afastado da construção da casa.
acreditei poder o quarto e a sala enorme
erguerem-se suavemente por si próprios.
reuni, é certo, os materiais adequados
juntei-os até num mesmo espaço de obra.
logrei obter da autarquia
as permissões necessárias.
mas após tudo isto e durante largo tempo
esqueci da casa a construção ambicionada

agora estão as mãos exaustas da letargia.
já se vão habituando os membros lassos
de novo ao peso do obreiro instrumento

já aos poucos se ergue o corpo
se ergue a casa
já também se ergue o dia
e o alicerce