quarta-feira, dezembro 31, 2008

terça-feira, dezembro 23, 2008

Tori Amos em BD


Para quem lê com alguma regularidade o admirável Cálssio do meu bom amigo António, não constitui especial novidade ter sido recentemente publicado nos Estados Unidos um grosso volume de banda desenhada, onde se reúnem cinquenta histórias de vários artistas, inspiradas em músicas (e letras) desse incansável anjo que é Tori Amos. Tendo seguido a oportuna sugestão do António, decidi adquirir o dito tomo, de título Comic Book Tatoo, o qual me chegou há poucas semanas às mãos, entregue à porta por um indíviduo que nesse momento me pareceu a mais amável criatura à face da terra.
A título de pura ornamentação, reproduzimos a primeira página da história inspirada em Winter, que apesar de pertencer ao já longínquo album de estreia de Tori Amos, continua a ser uma das minhas músicas preferidas.
A capa da edição limitada do single em questão é por causa do António, esse monstruoso parideiro e disseminador de informação cultural. Foi ele quem me ofereceu o disquinho, já lá vão seguramente uns cinco ou seis anos.
Não tem grande razão de ser esta entrada, ainda que o Inverno de Tori sempre me tenha sugerido uma atmosfera potencialmente natalícia. O que eu queria é que ela soubesse o quanto a aguardam alguns bons fãs portugueses, que a estas paragens nunca a viram chegar.

sexta-feira, dezembro 19, 2008

Ruído Luminoso: Quatro Poetas Portugueses

O número 40 da sèrie Alfa, revista electrónica catalã da responsabilidade do aqui já mencionado poeta e tradutor Joan Navarro, é dedicada a quatro poetas portugueses contemporâneos.
Luís Filipe Cristovão, Joaquim Costa Dias, Vasco Gato e João Miguel Henriques juntaram-se com duas composições cada um, sob o título "Ruído Luminoso". Há traduções em catalão, espanhol, francês e inglês. O trabalho fotográfico é do brasileiro Valdir Peyceré. Aqui.

sexta-feira, dezembro 12, 2008

Quinto Aniversário


Faz hoje precisamente cinco anos que os Quartos Escuros abriram as suas portas a quem neles achou por bem entrar, com maior ou menor regularidade. Esta página começou no dia 12 de Dezembro de 2003 com um breve poema de estrofe única, e a poesia tem com efeito sido o campo mais explorado ao longo deste tempo. Seguiram-se, anos fora, variadas rubricas, por entre fotografias legendadas, divulgação de escritas várias, passagens de livros, e até a descoberta arqueológica de composições proto-poéticas de uma civilização até então desconhecida. Reformularam-se ligações, registaram-se comentários e foram estes quartos paulatinamente adoptando algumas das incontáveis inovações que ao longo destes anos foram transformando o labor blogueiro. Para quem acha que isto soa a despedida, desiludam-se. É mais do género de eu a dar os merecidos parabéns a mim próprio. O último a juntar a sua à minha voz é um nabo. E já agora, a imagem reproduz uma colagem do artista Kevin Cherry.

O que por estes dias me vai ocupando...

sexta-feira, dezembro 05, 2008

Abreu Paxe



Detenhamo-nos por ora ainda na língua portuguesa, dedicando desta vez um espaço ao poeta angolano Abreu Paxe (Vale do Loge, 1969), cuja obra me foi pela primeira vez dada a conhecer pela minha amiga paulista Nicole Cristofalo.

Agrada-me na poesia de Paxe, de cuja totalidade conheço apenas um punhado de composições, a escassez ou mesmo ausência de pontuação, o que transfere para o leitor essa árdua e ao mesmo tempo entusiasmante tarefa de ele próprio criar uma ou mais leituras possíveis dos textos, fazendo e refazendo sintagmas, unindo ou separando vocábulos. O facto de estarmos muitas vezes perante poemas de estrofe única, contribui de igual modo para o ritmo muito particular dos textos em causa. Poderíamos chamá-los de intimistas, ainda que por vezes herméticos e insondáveis. O conteúdo, aqui e ali codificado, é resgatado pela riqueza lexical e poética de inúmeras passagens, das mais belas que ultimamente tenho lido em português.

A revista electrónica Zunái, que goza de ligação directa nesta página, alberga de Abreu Paxe outros poemas, para além de uma entrevista e breve ensaio da responsabilidade do incansável Cláudio Daniel. Da primeira destas páginas consta igualmente uma nota biográfica do poeta que por esse preciso motivo aqui se evitou avançar. Não se evita porém, bem pelo contrário, a reprodução de dois poemas de Abreu Paxe. Não fosse o visitante pensar serem os quartos escuros absolutamente inúteis.



Em sexo livre a língua

entre as trevas e a seiva da sintaxe abundam palavras
inofensivas nada dizem à pátria por imitação os impérios
renovam os aspectos os tempos os modos
outro soldado emergia
unia a habitação a fonética e a fonologia ao sol de casa
pirâmides e intervalos o corpo cego texto
regenera cidades por visitar falida interacção
as meninas árvores nocturnas com portas e janelas polares
tudo treme sobre o papel a mesma travessia despersa tudo



De certo modo os destroços palavras

de igual modo as partículas invariáveis traços lábias
sempre há uma mulher no mal
por isso trepo meu olhar pelas paredes e pelo tecto
o último cruzar de pernas
zona prestigiada o eixo compreendia o acento de intensidade
juntos todos os sentidos no modo algum tempo exacto
sem esquecer na via erudita expressão
o étimo uma mesa com o portal aberto
outro reino de certeza
a comunicação oficial adoptou o berço lìngua lençol
tanto tempo sonorizado
estava inscrito nas fronteiras este período
das alíneas funções sintácticas
diferenças dos pares vocabulares
nascem outras partículas variáveis destroços

terça-feira, dezembro 02, 2008

sexta-feira, novembro 28, 2008

Ramón Peralta



Os quartos escuros albergam hoje um poeta que já há muito estava para aqui entrar. Conheci Ramón Peralta (Cidade do México, 1972) em Lisboa, cidade agora também sua, por intermédio de um amigo comum, o também poeta mexicano Rodrigo Flores. Trocámos poesias, falámos de predilecções e atirámos expectativas contra o futuro incerto. O poeta de sorriso malandro e olhar puro confessou-me ter entretanto terminado um romance, mas até agora apenas conheço parte do seu trabalho poético, nomeadamente os inéditos El Paso de Eva e Instantáneas, este último um conjunto de fragmentos.

Ramón Peralta é co-director da revista de poesia Oráculo. Publicou os livros de poemas Diáfanas Espigas (FETA, 2003) e Fotosíntesis (Ediciones Invisible, 2006). Para além disso é também tradutor e mantém o blog Aceite de Ajolote. Deixo-vos dois poemas do belíssimo inédito El Paso de Eva, desculpando-me por não apresentar a respectiva tradução portuguesa.



Avanza descalza sin lastimar la hierba.

Pero hoy, día del juicio.

Incestos disimulan descanso bajo las adelfas
respiran futuro en una telaraña
descubren el miedo
y la pena no será errante
por la mancha que germina en el vientre.

Yo, pájaro ciego.
Atento al menor ruido del mal

En la seguridad de las frondas no creo

a pocos metros escucho un diluvio.



Surge y estalla un beso
que dura este silencio
después el silencio no será beso
será tiempo.

sexta-feira, novembro 21, 2008

Francisco Serra Lopes

Começo desde já por anunciar que decidi regressar à apresentação de poesia da minha predilecção (se bem que em alguns casos pouco notabilizada) como forma de vencer certa inércia de que tem padecido a presente página. Os quartos escuros são por vezes assim: lugares onde escasseiam palavras e movimentos de membros. Mas esse não é naturalmente um estado que se pretenda perpetuar.



Francisco Serra Lopes é um poeta de quem já há muito tempo não lia nada. Conhecemo-nos, creio, há coisa de dez anos, entretidos que andávamos na altura com afazeres académicos aos quais ambos, nos anos seguintes, haveríamos de dar continuidade, ainda que em locais e linhagens distintas. Nos anos da Faculdade de Letras, publicava o Francisco no já mítico jornal Os Fazedores de Letras, e foi também por essa altura que me estendeu um dia, a pedido meu, uma reunião de poemas sob o pseudónimo António Ochôa, relíquia que ainda hoje guardo. Depois disso, a distância geográfica ditou que os nossos encontros se resumissem a uma ocasião anual, não mais que isso, altura em que me era sempre possível confirmar o à-vontade com que me sentia na sua presença e o prazer descomprometido das conversas mais díspares.

Não sei se deva estar aqui a alongar-me sobre a sua pessoa. Temo que seja algo que ele dispense por completo. Acrescento porém que foi com um enorme fascínio que recebi recentemente uma nova amostra da sua poesia, ambiciosa, pura, lexicalmente contundente. Ele diz ter sido de certa forma um regresso à poesia, após uma maior predominância na sua vida de outras leituras e reflexões, nomeadamente as relacionadas com o Doutoramento que se encontra a realizar na cidade de Barcelona. Mas uma vez cá dentro, a poesia nunca chega realmente a sair de nós, pois não?

Conheçam um pouco mais o Francisco na sua página Ibéricos e fiquem com dois poemas que seleccionei para a ocasião, o primeiro descrito pelo seu autor como "poema parecido" e o segundo como "poema sem efeito".


Escorre de um fraco antebraço
linha de sangue, grossa:
a rude motivação é baço
reflexo da perda nossa.

O calor desaparece
desse braço para a anca
do moribundo amigo. Tece
uma linha que em vão estanca,

tépida. E a Providência
indica um trapo que aí jaz,
próximo. Não há ciência
que não mate. Desfaz-

-se-me o alento. Sofro
por ver a decadência
de cada corpo já amorfo.
É isso a experiência?

Reduz-se então o apego:
não é possível prolongar o luto
multiplicado. Quando chego
com os dedos à sua alma, escuto:

Eu não te peço afagos, companheiro;
não te peço um trapo que retenha
a vida que se esvai. O teu cheiro
a roupa quente, a tua voz castanha

de terra seca é tudo o que recolho
para levar para aquela terra estranha
de que falavas. Beija-me o olho
que ainda vê, fecha-mo, não venha

a morte antes de ti.
E vejo
como a retina se lhe abre em livro,
e inclino-me, solene, para um beijocomo quem quer eternizar o vivo.


Deixa-me ver a que sabe o hálito
rápido, acre na tua boca.
Detrás de quem beija – quero dizer:
por trás
do rosto a orelha que finta a noite
em que te sussurro orgasmos afins
à tua cadência que não ressona
mas ressoa enfim no meu alarido
interior, aí cumpres a tua função
conjugal e a excedes, até, no domínio
das personagens que passam dizendo
vamo-nos embora à queima-roupa.

segunda-feira, novembro 10, 2008

Balaustrada

já era tempo de me dares a conhecer
o sentido do vocábulo balaustrada
palavra sempre ignorada
apesar do comum entendimento

a saber

de balaustres
série ou fileira
formando varanda, grade
ou corrimão
(e prossegues, fluida,
prazenteira)
para efeitos de apoio
ou vedação

quinta-feira, outubro 30, 2008

Candy CD 112



Três recomendações tiradas do guia de instalação da minha máquina de lavar loiça, página cento e três:



Não utilize os seus electrodomésticos quando estiver descalça.


A água que fica na máquina ou na loiça a seguir à lavagem não deve ser bebida.


Sempre que se queira desfazer de uma máquina de lavar loiça antiga, tenha o cuidado de lhe retirar a fechadura da porta antes, para evitar que crianças se possam fechar na máquina.

domingo, outubro 26, 2008

Bernhard e o fracasso do pensamento


Mas nós temos de tomar sempre em conta o fracasso, senão acabamos abruptamente na inactividade, pensei eu, assim como, fora da nossa cabeça, não há nada contra que tenhamos de proceder com mais decisão do que contra a nossa inactividade, temos também, dentro da nossa cabeça, de proceder do mesmo modo contra a inactividade, mais ou menos com a falta de contemplação que nos é própria. Nós temos de nos permitir o pensamento, temos de o ousar, mesmo com o risco de logo fracassarmos, porque de repente nos é impossível ordenar os nossos pensamentos, dado que, quando pensamos, temos de tomar sempre em conta todos os pensamentos que há, que são possíveis, fracassamos sempre naturalmente, nós somos, no fundo, sempre fracassados e todos os outros também, seja como for que se tenham chamado, mesmo que tenham sido os maiores de todos os génios, de repente, num ponto qualquer, eles fracassaram e o seu sistema desmoronou-se, como provam os seus escritos, que nós admiramos, porque são os que, no fracasso, mais longe foram levados. Pensar significa fracassar, pensei eu. Agir significa fracassar.


Thomas Bernhard, Extinção, (Assírio & Alvim, 2004)

segunda-feira, outubro 20, 2008

Antero e o esmorecimento do intelecto


Tenho alcançado este inverno uma assinalada vantagem que vem a ser, separar o meu espírito do meu temperamento, e reduzir o que costumava ser ataque de misiticismo a simples ataque de inércia, frouxidão intelectual e debilidade extrema da vontade. É pouco, mas é o mais que logro, empregando quanto esforço em mim cabe. O que vejo claramente é que, debaixo do facto moral há um facto fisiológico, contra esse não posso eu nada, não posso impedir que a inteligência activa e criadora adormeça fatalmente durante certos períodos, porque assim está na natureza do meu cérebro, nem que a vontade objectiva e realizadora diminua correlativamente, àquele abaixamento intelectual.


Carta de Antero de Quental a Oliveira Martins, 17 de Dezembro de 1873

terça-feira, outubro 07, 2008

Construção da casa

andei algum tempo afastado da construção da casa.
acreditei poder o quarto e a sala enorme
erguerem-se suavemente por si próprios.
reuni, é certo, os materiais adequados
juntei-os até num mesmo espaço de obra.
logrei obter da autarquia
as permissões necessárias.
mas após tudo isto e durante largo tempo
esqueci da casa a construção ambicionada

agora estão as mãos exaustas da letargia.
já se vão habituando os membros lassos
de novo ao peso do obreiro instrumento

já aos poucos se ergue o corpo
se ergue a casa
já também se ergue o dia
e o alicerce

quarta-feira, setembro 24, 2008

Dia último. Compras. Despedida


Dia para atar os nós que faltam. S. tem várias coisas a fazer, a mais interessante das quais se prende com a aquisição de uma flauta, compra que já há muito planeava fazer. Saio de casa sozinho, pelas onze da manhã, com o intuito de visitar dois estabelecimentos comerciais. O primeiro é um pequeno bazar de antiguidades e relíquias, com grande sortido de gravuras e objectos de decoração. Merda! Está fechado para férias até à próxima segunda-feira. No segundo há também posters antigos e livros em segunda mão. Passo lá um bom bocado, mas acabo por não comprar nada. Quero estar no exterior, despedir-me das ruas da cidade, vaguear um pouco antes do almoço.

Encontro-me com S. para comer qualquer coisa e vamos depois para o mercado, onde ela me ajuda a escolher uns souvenirs alimentares para a família mais próxima. Isso de recuerdos sem utilidade já deu o que tinha a dar. Pessoalmente prefiro coisas que se comam ou bebam, produtos do labor agrícola que possam proporcionar às papilas alguma nova experiência.

S. vai à sua vida durante o resto da tarde e eu por ali fico, perto do mercado, no simpático jardim do Museu Nacional. Percorro depois lentamente a circular e volto a sentar-se a ler, na Praça da Liberdade, onde um polémico monumento celebra a libertação da cidade em 1945 pelo ditoso exército vermelho. Diante do monumento encontra-se plantada uma tenda de protesto, lembrando o terror que, após a Segunda Guerra Mundial, os soviéticos infligiram ao povo húngaro.

Encontro-me de novo com S. numa esplanada em frente à Estação do Oeste. As coisas não lhe correm bem, está muito inquieta. A falta de tempo pode ser incrivelmente opressiva. Depois de uma cerveja, visitamos a sua amiga Sari, professora de inglês e conhecedora de russo. Acabamos num pequeno bar conversar sobre preconceitos raciais. Despedimo-nos.

O dia está a terminar. Também a nossa estadia. Tempo ainda para um jantar a dois na Praça Liszt. Reparo que não chegou a esmorecer por completo o bom tempo durante estas quase três semanas. Hei-de regressar aqui, estou seguro. Talvez aprenderei a bárbara língua em todos os seus insuspeitos cambiantes. Há-de em todo o caso restar esta tosca notícia de uma viagem maravilhosa. Como diria o poeta, também a memória é algum conhecimento.

sábado, setembro 20, 2008

Dia vigésimo. Santo Estevão


Dia nacional húngaro, no qual se comemora a fundação do estado pela mão de Santo Estevão, o rei primordial que se desenvencilhou do paganismo no território à custa de largos rios de sangue fraterno. O cristianismo raramente conseguiu impor-se de forma pacífica, pela mera revelação da palavra.
Depois do almoço com os tios de S., visitamos o túmulo de sua mãe. Momento difícil: não sei bem como comportar-me numa situação assim, mas logo me apercebo que S. está tranquila. Isso torna tudo simples e belo até.
Ao final da tarde, deslocamo-nos à casa de M. e da sua namorada para uma pequena reunião de amigos. Sinto-me bem: a faixa etária predominante tem mais a ver comigo e, para além disso, não sou aqui o único estrangeiro. Conversamos com os convivas, enternecemo-nos com algumas crianças pequenas, e às nove assistimos ao fabuloso fogo de artifício, amontoados na varanda do apartamento. Todos recordam ainda a tempestade grotesca que há dois anos, durante as celebrações deste preciso feriado, se abateu sobre a cidade, ceifando inclusivamente a vida a cinco pessoas. Experimento uma indizível invejo de quantos presenciaram semelhante furor da natureza.
Regressamos a casa cedo. Paira já no ar a perspectiva do fim da nossa estadia no país dos húngaros. S. é da opinião de que estas quase três semanas são o período ideal para uma boa visita. Concordo. Sinto alguma saudades das pessoas, da minha casa. Tenho na cabeça uma série de coisas boas a empreender. Também eu já me preparo para o regresso a Lisboa.

quarta-feira, setembro 17, 2008

Dia décimo nono. A cidade e a longa viagem para casa


Ljubliana está repleta de portugueses. Em nenhuma outra paragem desta incursão, Budapeste incluída, me deparei com tantos compatriotas, de todas as idades, em grupos de amigos ou em família. Apercebo-me que a minha mãe não deve ter sido a única a ter assistido a certo programa de televisão, no qual se exaltavam os encantos da capital eslovena. Reza a lenda que foi aqui, nos outrora pântanos do rio Ljublianica, que Jasão derrotou um terrível e gigantesco dragão. O mítico animal tornou-se assim símbolo da cidade, numa curiosa homenagem ao interveniente derrotado em detrimento do heróico vencedor. Dois dragões ladeiam por isso a entrada da principal ponte sobre o estreito rio. Deixamo-nos vaguear pelo centro a manhã toda, e culminamos a nossa curta passagem por Ljubliana com uma visita ao castelo (oh íngreme escalada!) e um almoço ligeiro no café do parque Tivoli. Numa cidade tão perfeita e arrumada, com um espírito tão arejado, até os pardais vêm comer às nossas mãos, crentes ainda na talvez inata bondade do género humano.

Passamos o resto do dia em viagem de carro de volta a Budapeste. A necessidade de evitar a onerosa auto-estrada eslovena leva-nos por demorados troços secundários: Ljubliana - Celje - Maribor - Murska Sobota e depois, já na Hungria, Keszthely, e daí, já mais acelerados, até à capital. Chegamos exautos a casa. O corpo não aprecia estes longos trajectos, sempre na mesma posição. A mente ressente-se também de abruptas deslocações espaciais. Adormecemos.

segunda-feira, setembro 15, 2008

Dia décimo oitavo. Eslovénia


Após um último e brevíssimo banho no Adriático, junto a uns pequenos rochedos perto da casa de A., arrumamos a trouxa e, conforme delineado, seguimos para norte, rumo à Eslovénia. Fazemos um desvio por Rjieka, a italiana Fiume, e daí pela requintada costa balnear da Istria: Opatja, Lovran e, por fim, a mágica localidade de Mošenice, sobranceira sobre o mar, com o seu emaranhado de mínimas ruelas, tudo em pedra lavada, como uma espécie de medieval aldeia de fadas. Melhor despedida da Croácia não poderia imaginar-se. Estamos consolados na alma e no corpo. O sol persiste em acompanhar-nos, suave e prazenteiro, e do Adriático ficamos com a certeza, ou pelo menos o firmado desejo, de um futuro regresso.
Atravessamos depois a fronteira, onde a funcionária eslovena nos recusa educadamente colorir os nossos passaportes com um carimbo do país, "por estarmos na união europeia". A paisagem muda radicalmente, conforme S. já me prevenira. Talvez se deva isto à proximidade dos Alpes: por todo o lado o verde, com manchas gigantes de árvores, montes cobertos de bosques cerrados e, nos vales, campos de erva fresca. As pequenas aldeias, onde por todo o lado se amontoa já a lenha em abundância para o Inverno, são perfeitos pontos de equilíbrio com a natureza. Tudo limpo, tudo em sossego absoluto.
Frustradas as tentativas de encontrar cama nos campestres arredores de Ljubliana, fazemo-nos à capital eslovena, onde chegamos já noite escura. O tempo está ameno e a cidade tranquila. Decidimos dar um passeio pelo centro, pelas margens do rio repletas de sofisticadas esplanadas, de novo tudo impecável e cheio de bom gosto, muito mais próximo do nível da vizinha Áustria que do dos outros países da ex-Jugoslávia. Aos eslovenos não lhes chega a faltar mesmo o mar, graças a uma mínima faixa costeira que quaisquer esforços políticos, fundados em sabe-se lá que argumentos, souberam preservar. Numa das mais emblemáticas praças de Ljubliana, o poeta nacional Prešeren lança o olhar para uma janela do outro lado, no edifício da qual podemos obsevar o baixo-relevo da sua amada Julia, a quem o poeta dedicou sonetos em grande quantidade. O amor é por aqui fácil de imaginar...
Retiramos depois à pousada da juventude onde estamos alojados, com a intenção de despertar cedo e poder ainda visitar a cidade durante algumas horas à luz do dia.