sexta-feira, novembro 28, 2008

Ramón Peralta



Os quartos escuros albergam hoje um poeta que já há muito estava para aqui entrar. Conheci Ramón Peralta (Cidade do México, 1972) em Lisboa, cidade agora também sua, por intermédio de um amigo comum, o também poeta mexicano Rodrigo Flores. Trocámos poesias, falámos de predilecções e atirámos expectativas contra o futuro incerto. O poeta de sorriso malandro e olhar puro confessou-me ter entretanto terminado um romance, mas até agora apenas conheço parte do seu trabalho poético, nomeadamente os inéditos El Paso de Eva e Instantáneas, este último um conjunto de fragmentos.

Ramón Peralta é co-director da revista de poesia Oráculo. Publicou os livros de poemas Diáfanas Espigas (FETA, 2003) e Fotosíntesis (Ediciones Invisible, 2006). Para além disso é também tradutor e mantém o blog Aceite de Ajolote. Deixo-vos dois poemas do belíssimo inédito El Paso de Eva, desculpando-me por não apresentar a respectiva tradução portuguesa.



Avanza descalza sin lastimar la hierba.

Pero hoy, día del juicio.

Incestos disimulan descanso bajo las adelfas
respiran futuro en una telaraña
descubren el miedo
y la pena no será errante
por la mancha que germina en el vientre.

Yo, pájaro ciego.
Atento al menor ruido del mal

En la seguridad de las frondas no creo

a pocos metros escucho un diluvio.



Surge y estalla un beso
que dura este silencio
después el silencio no será beso
será tiempo.

sexta-feira, novembro 21, 2008

Francisco Serra Lopes

Começo desde já por anunciar que decidi regressar à apresentação de poesia da minha predilecção (se bem que em alguns casos pouco notabilizada) como forma de vencer certa inércia de que tem padecido a presente página. Os quartos escuros são por vezes assim: lugares onde escasseiam palavras e movimentos de membros. Mas esse não é naturalmente um estado que se pretenda perpetuar.



Francisco Serra Lopes é um poeta de quem já há muito tempo não lia nada. Conhecemo-nos, creio, há coisa de dez anos, entretidos que andávamos na altura com afazeres académicos aos quais ambos, nos anos seguintes, haveríamos de dar continuidade, ainda que em locais e linhagens distintas. Nos anos da Faculdade de Letras, publicava o Francisco no já mítico jornal Os Fazedores de Letras, e foi também por essa altura que me estendeu um dia, a pedido meu, uma reunião de poemas sob o pseudónimo António Ochôa, relíquia que ainda hoje guardo. Depois disso, a distância geográfica ditou que os nossos encontros se resumissem a uma ocasião anual, não mais que isso, altura em que me era sempre possível confirmar o à-vontade com que me sentia na sua presença e o prazer descomprometido das conversas mais díspares.

Não sei se deva estar aqui a alongar-me sobre a sua pessoa. Temo que seja algo que ele dispense por completo. Acrescento porém que foi com um enorme fascínio que recebi recentemente uma nova amostra da sua poesia, ambiciosa, pura, lexicalmente contundente. Ele diz ter sido de certa forma um regresso à poesia, após uma maior predominância na sua vida de outras leituras e reflexões, nomeadamente as relacionadas com o Doutoramento que se encontra a realizar na cidade de Barcelona. Mas uma vez cá dentro, a poesia nunca chega realmente a sair de nós, pois não?

Conheçam um pouco mais o Francisco na sua página Ibéricos e fiquem com dois poemas que seleccionei para a ocasião, o primeiro descrito pelo seu autor como "poema parecido" e o segundo como "poema sem efeito".


Escorre de um fraco antebraço
linha de sangue, grossa:
a rude motivação é baço
reflexo da perda nossa.

O calor desaparece
desse braço para a anca
do moribundo amigo. Tece
uma linha que em vão estanca,

tépida. E a Providência
indica um trapo que aí jaz,
próximo. Não há ciência
que não mate. Desfaz-

-se-me o alento. Sofro
por ver a decadência
de cada corpo já amorfo.
É isso a experiência?

Reduz-se então o apego:
não é possível prolongar o luto
multiplicado. Quando chego
com os dedos à sua alma, escuto:

Eu não te peço afagos, companheiro;
não te peço um trapo que retenha
a vida que se esvai. O teu cheiro
a roupa quente, a tua voz castanha

de terra seca é tudo o que recolho
para levar para aquela terra estranha
de que falavas. Beija-me o olho
que ainda vê, fecha-mo, não venha

a morte antes de ti.
E vejo
como a retina se lhe abre em livro,
e inclino-me, solene, para um beijocomo quem quer eternizar o vivo.


Deixa-me ver a que sabe o hálito
rápido, acre na tua boca.
Detrás de quem beija – quero dizer:
por trás
do rosto a orelha que finta a noite
em que te sussurro orgasmos afins
à tua cadência que não ressona
mas ressoa enfim no meu alarido
interior, aí cumpres a tua função
conjugal e a excedes, até, no domínio
das personagens que passam dizendo
vamo-nos embora à queima-roupa.

segunda-feira, novembro 10, 2008

Balaustrada

já era tempo de me dares a conhecer
o sentido do vocábulo balaustrada
palavra sempre ignorada
apesar do comum entendimento

a saber

de balaustres
série ou fileira
formando varanda, grade
ou corrimão
(e prossegues, fluida,
prazenteira)
para efeitos de apoio
ou vedação

quinta-feira, outubro 30, 2008

Candy CD 112



Três recomendações tiradas do guia de instalação da minha máquina de lavar loiça, página cento e três:



Não utilize os seus electrodomésticos quando estiver descalça.


A água que fica na máquina ou na loiça a seguir à lavagem não deve ser bebida.


Sempre que se queira desfazer de uma máquina de lavar loiça antiga, tenha o cuidado de lhe retirar a fechadura da porta antes, para evitar que crianças se possam fechar na máquina.

domingo, outubro 26, 2008

Bernhard e o fracasso do pensamento


Mas nós temos de tomar sempre em conta o fracasso, senão acabamos abruptamente na inactividade, pensei eu, assim como, fora da nossa cabeça, não há nada contra que tenhamos de proceder com mais decisão do que contra a nossa inactividade, temos também, dentro da nossa cabeça, de proceder do mesmo modo contra a inactividade, mais ou menos com a falta de contemplação que nos é própria. Nós temos de nos permitir o pensamento, temos de o ousar, mesmo com o risco de logo fracassarmos, porque de repente nos é impossível ordenar os nossos pensamentos, dado que, quando pensamos, temos de tomar sempre em conta todos os pensamentos que há, que são possíveis, fracassamos sempre naturalmente, nós somos, no fundo, sempre fracassados e todos os outros também, seja como for que se tenham chamado, mesmo que tenham sido os maiores de todos os génios, de repente, num ponto qualquer, eles fracassaram e o seu sistema desmoronou-se, como provam os seus escritos, que nós admiramos, porque são os que, no fracasso, mais longe foram levados. Pensar significa fracassar, pensei eu. Agir significa fracassar.


Thomas Bernhard, Extinção, (Assírio & Alvim, 2004)

segunda-feira, outubro 20, 2008

Antero e o esmorecimento do intelecto


Tenho alcançado este inverno uma assinalada vantagem que vem a ser, separar o meu espírito do meu temperamento, e reduzir o que costumava ser ataque de misiticismo a simples ataque de inércia, frouxidão intelectual e debilidade extrema da vontade. É pouco, mas é o mais que logro, empregando quanto esforço em mim cabe. O que vejo claramente é que, debaixo do facto moral há um facto fisiológico, contra esse não posso eu nada, não posso impedir que a inteligência activa e criadora adormeça fatalmente durante certos períodos, porque assim está na natureza do meu cérebro, nem que a vontade objectiva e realizadora diminua correlativamente, àquele abaixamento intelectual.


Carta de Antero de Quental a Oliveira Martins, 17 de Dezembro de 1873

terça-feira, outubro 07, 2008

Construção da casa

andei algum tempo afastado da construção da casa.
acreditei poder o quarto e a sala enorme
erguerem-se suavemente por si próprios.
reuni, é certo, os materiais adequados
juntei-os até num mesmo espaço de obra.
logrei obter da autarquia
as permissões necessárias.
mas após tudo isto e durante largo tempo
esqueci da casa a construção ambicionada

agora estão as mãos exaustas da letargia.
já se vão habituando os membros lassos
de novo ao peso do obreiro instrumento

já aos poucos se ergue o corpo
se ergue a casa
já também se ergue o dia
e o alicerce

quarta-feira, setembro 24, 2008

Dia último. Compras. Despedida


Dia para atar os nós que faltam. S. tem várias coisas a fazer, a mais interessante das quais se prende com a aquisição de uma flauta, compra que já há muito planeava fazer. Saio de casa sozinho, pelas onze da manhã, com o intuito de visitar dois estabelecimentos comerciais. O primeiro é um pequeno bazar de antiguidades e relíquias, com grande sortido de gravuras e objectos de decoração. Merda! Está fechado para férias até à próxima segunda-feira. No segundo há também posters antigos e livros em segunda mão. Passo lá um bom bocado, mas acabo por não comprar nada. Quero estar no exterior, despedir-me das ruas da cidade, vaguear um pouco antes do almoço.

Encontro-me com S. para comer qualquer coisa e vamos depois para o mercado, onde ela me ajuda a escolher uns souvenirs alimentares para a família mais próxima. Isso de recuerdos sem utilidade já deu o que tinha a dar. Pessoalmente prefiro coisas que se comam ou bebam, produtos do labor agrícola que possam proporcionar às papilas alguma nova experiência.

S. vai à sua vida durante o resto da tarde e eu por ali fico, perto do mercado, no simpático jardim do Museu Nacional. Percorro depois lentamente a circular e volto a sentar-se a ler, na Praça da Liberdade, onde um polémico monumento celebra a libertação da cidade em 1945 pelo ditoso exército vermelho. Diante do monumento encontra-se plantada uma tenda de protesto, lembrando o terror que, após a Segunda Guerra Mundial, os soviéticos infligiram ao povo húngaro.

Encontro-me de novo com S. numa esplanada em frente à Estação do Oeste. As coisas não lhe correm bem, está muito inquieta. A falta de tempo pode ser incrivelmente opressiva. Depois de uma cerveja, visitamos a sua amiga Sari, professora de inglês e conhecedora de russo. Acabamos num pequeno bar conversar sobre preconceitos raciais. Despedimo-nos.

O dia está a terminar. Também a nossa estadia. Tempo ainda para um jantar a dois na Praça Liszt. Reparo que não chegou a esmorecer por completo o bom tempo durante estas quase três semanas. Hei-de regressar aqui, estou seguro. Talvez aprenderei a bárbara língua em todos os seus insuspeitos cambiantes. Há-de em todo o caso restar esta tosca notícia de uma viagem maravilhosa. Como diria o poeta, também a memória é algum conhecimento.

sábado, setembro 20, 2008

Dia vigésimo. Santo Estevão


Dia nacional húngaro, no qual se comemora a fundação do estado pela mão de Santo Estevão, o rei primordial que se desenvencilhou do paganismo no território à custa de largos rios de sangue fraterno. O cristianismo raramente conseguiu impor-se de forma pacífica, pela mera revelação da palavra.
Depois do almoço com os tios de S., visitamos o túmulo de sua mãe. Momento difícil: não sei bem como comportar-me numa situação assim, mas logo me apercebo que S. está tranquila. Isso torna tudo simples e belo até.
Ao final da tarde, deslocamo-nos à casa de M. e da sua namorada para uma pequena reunião de amigos. Sinto-me bem: a faixa etária predominante tem mais a ver comigo e, para além disso, não sou aqui o único estrangeiro. Conversamos com os convivas, enternecemo-nos com algumas crianças pequenas, e às nove assistimos ao fabuloso fogo de artifício, amontoados na varanda do apartamento. Todos recordam ainda a tempestade grotesca que há dois anos, durante as celebrações deste preciso feriado, se abateu sobre a cidade, ceifando inclusivamente a vida a cinco pessoas. Experimento uma indizível invejo de quantos presenciaram semelhante furor da natureza.
Regressamos a casa cedo. Paira já no ar a perspectiva do fim da nossa estadia no país dos húngaros. S. é da opinião de que estas quase três semanas são o período ideal para uma boa visita. Concordo. Sinto alguma saudades das pessoas, da minha casa. Tenho na cabeça uma série de coisas boas a empreender. Também eu já me preparo para o regresso a Lisboa.

quarta-feira, setembro 17, 2008

Dia décimo nono. A cidade e a longa viagem para casa


Ljubliana está repleta de portugueses. Em nenhuma outra paragem desta incursão, Budapeste incluída, me deparei com tantos compatriotas, de todas as idades, em grupos de amigos ou em família. Apercebo-me que a minha mãe não deve ter sido a única a ter assistido a certo programa de televisão, no qual se exaltavam os encantos da capital eslovena. Reza a lenda que foi aqui, nos outrora pântanos do rio Ljublianica, que Jasão derrotou um terrível e gigantesco dragão. O mítico animal tornou-se assim símbolo da cidade, numa curiosa homenagem ao interveniente derrotado em detrimento do heróico vencedor. Dois dragões ladeiam por isso a entrada da principal ponte sobre o estreito rio. Deixamo-nos vaguear pelo centro a manhã toda, e culminamos a nossa curta passagem por Ljubliana com uma visita ao castelo (oh íngreme escalada!) e um almoço ligeiro no café do parque Tivoli. Numa cidade tão perfeita e arrumada, com um espírito tão arejado, até os pardais vêm comer às nossas mãos, crentes ainda na talvez inata bondade do género humano.

Passamos o resto do dia em viagem de carro de volta a Budapeste. A necessidade de evitar a onerosa auto-estrada eslovena leva-nos por demorados troços secundários: Ljubliana - Celje - Maribor - Murska Sobota e depois, já na Hungria, Keszthely, e daí, já mais acelerados, até à capital. Chegamos exautos a casa. O corpo não aprecia estes longos trajectos, sempre na mesma posição. A mente ressente-se também de abruptas deslocações espaciais. Adormecemos.

segunda-feira, setembro 15, 2008

Dia décimo oitavo. Eslovénia


Após um último e brevíssimo banho no Adriático, junto a uns pequenos rochedos perto da casa de A., arrumamos a trouxa e, conforme delineado, seguimos para norte, rumo à Eslovénia. Fazemos um desvio por Rjieka, a italiana Fiume, e daí pela requintada costa balnear da Istria: Opatja, Lovran e, por fim, a mágica localidade de Mošenice, sobranceira sobre o mar, com o seu emaranhado de mínimas ruelas, tudo em pedra lavada, como uma espécie de medieval aldeia de fadas. Melhor despedida da Croácia não poderia imaginar-se. Estamos consolados na alma e no corpo. O sol persiste em acompanhar-nos, suave e prazenteiro, e do Adriático ficamos com a certeza, ou pelo menos o firmado desejo, de um futuro regresso.
Atravessamos depois a fronteira, onde a funcionária eslovena nos recusa educadamente colorir os nossos passaportes com um carimbo do país, "por estarmos na união europeia". A paisagem muda radicalmente, conforme S. já me prevenira. Talvez se deva isto à proximidade dos Alpes: por todo o lado o verde, com manchas gigantes de árvores, montes cobertos de bosques cerrados e, nos vales, campos de erva fresca. As pequenas aldeias, onde por todo o lado se amontoa já a lenha em abundância para o Inverno, são perfeitos pontos de equilíbrio com a natureza. Tudo limpo, tudo em sossego absoluto.
Frustradas as tentativas de encontrar cama nos campestres arredores de Ljubliana, fazemo-nos à capital eslovena, onde chegamos já noite escura. O tempo está ameno e a cidade tranquila. Decidimos dar um passeio pelo centro, pelas margens do rio repletas de sofisticadas esplanadas, de novo tudo impecável e cheio de bom gosto, muito mais próximo do nível da vizinha Áustria que do dos outros países da ex-Jugoslávia. Aos eslovenos não lhes chega a faltar mesmo o mar, graças a uma mínima faixa costeira que quaisquer esforços políticos, fundados em sabe-se lá que argumentos, souberam preservar. Numa das mais emblemáticas praças de Ljubliana, o poeta nacional Prešeren lança o olhar para uma janela do outro lado, no edifício da qual podemos obsevar o baixo-relevo da sua amada Julia, a quem o poeta dedicou sonetos em grande quantidade. O amor é por aqui fácil de imaginar...
Retiramos depois à pousada da juventude onde estamos alojados, com a intenção de despertar cedo e poder ainda visitar a cidade durante algumas horas à luz do dia.

quinta-feira, setembro 11, 2008

Dia décimo sétimo. Omisalj. A praia


Dia de sol. Já pelas dez nos percebemos de que irá estar calor. Saímos com A. para almoçar na localidade de Omisalj, onde somos elucidados acerca dos malefícios da aí estabelecida refinaria. Ainda assim, isso faz com que por aqui haja menos turistas e as simpáticas ruas nos pareçam, por conseguinte, mais aprazíveis e genuínas.
Depois do almoço, cruzamos a ilha de norte a sul, rumo a uma das praias de Stara Baska, a preferida de A. Este é sem dúvida um dos mais belos pedaços de costa que alguma vez vi na vida. Descemos por um caminho íngreme e rugoso até uma pequena enseada coberta de pedrinhas e rodeada de montes a pique, todos feitos de rocha áspera, despidos de vegetação frondosa e habitados por algumas simpáticas ovelhas que por ali vão desbastando os rasteiros arbustos. À nossa frente, o tranquilo Adriático com a mais límpida água que alguma vez experimentei, em parte pelo facto de o seu fundo ser de alga e rocha, com pouca areia. A água está à temperatura ideal para refrescar o corpo, e o sol, por esta já tardia hora aconchegante, acaba por induzir-me a uma sesta maravilhosa, da qual desperto uma hora depois, com um fio de baba a escorrer-me pela cara. Esta ilha é um sonho. Imagino como seria há um par de séculos atrás, semideserta, selvagem, espécie de réplica perfeita de uma qualquer generosa concepção do éden.
Jantamos mais tarde num pequeno e familiar restaurante no interior da ilha, longe de italianos e alemães. Somos aí familiarizados com o extraordinário prato croata de carne de borrego e uma espécie local de massa. O molho é delicioso e o vinho branco escorrega como poucos portugueses.
Dia equilibrado, perfeito. O descanso que se segue não lhe fica atrás. Pena que amanhã teremos já de prosseguir ccaminho. Suponho que o peso da efemeridade deva ser atributo comum a todas as coisas boas da existência humana.

segunda-feira, setembro 08, 2008

Dia décimo sexto. Krk


Estamos na ilha. Ilha de pedra, de arvoredo, de estradas esguias à vista do mar tranquilo. Passamos a manhã em casa, abrigados da chuva que ainda resta da noite passada. Ao princípio da tarde saímos para Krk, a principal localidade deste pedaço de terra com o mesmo nome. Fortaleza antiga, com igreja e torre de vigia. Numa tabuleta informativa, leio qualquer coisa sucinta acerca do dialecto outrora por aqui falado, o vegliot, extinto no século XIX com o falecimento do seu último falante. Também as línguas definham e morrem, como invariavelmente todas as coisas sobre a terra.
Em Vrebnik, caminhamos pelas ruas estreitas e sinuosas, e adquirimos cinco litros do fabuloso vinho branco Žlahtina. Apercebo-me ter a Croácia maior número de semelhanças com o meu país do que a Hungria, possivelmente pela contiguidade marítima ou pela sua latitude mais meridional: funcionários trombudos em certos estabelecimentos, programas televisivos legendados, as conversas aos berros, o azeite...
À noite, sou requisitado para a ignição de um fogo de lenha para churrasco. Exagero na combustão, como é costume acontecer. Os alemães do andar de cima da vivenda onde estamos instalados mostram a sua bem-disposta compreensão. Após o prazenteiro jantar e vários decilitros do referido vinho, instalo-me com S. na cama e inicio o Diário de Leituras de Alberto Manguel, livro sobre livros e sobre as ocasionais e admiráveis relações destes com a realidade mais ou menos lata de cada leitor:

Para um livro nos atrair, talvez seja necessário que ele estabeleça entre a nossa experiência e a experiência da ficção - entre as duas imaginações, a nossa e a registada na página - uma ligação de coincidências.

sábado, setembro 06, 2008

Dia décimo quinto. A caminho da Croácia


Dia de estrada, este, com S. sempre ao volante, deveras segura e agradada com a viatura disponiblizada pela agência de aluguer. Após um último banho no Balaton, fundamental para um urgente arrefecimento do corpo, metemo-nos a caminho da vizinha Croácia, numa primeira incursão por solo extra-magiar. O destino final é a casa de A. na ilha de Krk, em pleno Mar Adriático, embora a primeira paragem seja Vara ždin, em tempos capital do território, para um breve encontro com I. e o seu marido. Sucede-me de novo não simpatizar imenso com uma amiga de S., e por conseguinte procurar escondê-lo o mais possível, mostrando os dentes num sorriso mais ou menos forçado. Já na estrada para Zagreb, S. pergunta-me se não os achei simpáticos. Respondo que ela é simpática, sim, apesar de um pouco estranha... A língua tem destes termos vagos e convenientes, capazes de congregar uma série quase infinita de possibilidades semânticas.
De Zagreb, a capital croata, pouco poderei discorrer, por termos lá passado apenas um par de horas, já ao princípio da noite. Encontramos a urbe algo abandonada: também aqui é Agosto e se deslocam as gentes para as suas férias na costa. Do que vi, levo a impressão de ruas bonitas, pitorescas, pejadas de agradáveis cafés e esplanadas, tudo em tamanho mais ou menos reduzido, proporcional à dimensão do país e à histórica compleição da cidade. Uma praça principal mais ou menos movimentada, uma catedral (essa sim) magnânime, e um par de jardins públicos agradáveis, tudo muito elegante e equilibrado. Não chegou aqui, deo gratias, o violento fratricídio balcânico de inícios da década de noventa...
Após o jantar, tivemos o privilégio (acompanhado a dada altura de algum receio) de assistir à trovoada das nossas vidas, um imenso espectáculo de luz abarcando, de ponta a ponta, todo o horizonte diante de nós. Raios, clarões e mais tarde, já a coisa de cinquenta quilómetros da costa, numa região mais montanhosa, uma violentíssima chuva de granizo, intempérie de cobrou de S. toda a sua concentração e competência automobilística. Chegámos à ilha de Krk por volta da uma da manhã, onde A. nos recebeu com copos da muito necessitada aguardente húngara, como que a lembrar que naquele dia havíamos coberto toda uma considerável distância entre as águas do Balaton e as do Adriático.

quinta-feira, setembro 04, 2008

Dia décimo quarto. Lago Balaton


Passadas praticamente duas semanas de termos chegado ao país dos húngaros, decidimos abandonar a capital por alguns dias, em viagem de recreio e cultura às suas regiões contíguas. Primeiro destino: o imenso Lago Balaton, ou Platensee, como é conhecido na rude língua germânica, largamente representada pelos milhares de turistas alemães que até aqui se têm deslocado ao longo das décadas.
Esta é maior massa de água doce que alguma vez vi (é sensivelmente um rectângulo de, em média, 5 por 70 quilómetros), e encontra-se rodeada de viçosa flora e pitorescas localidades, votadas em grande parte ao negócio do lazer, com zonas balneares relvadas e pejadas de pequeno e médio comércio.
Ficámos instalados numa das mais belas regiões do Balaton, a saber, a pequena península de Tihany, da qual sem dúvida se destaca um sobranceiro monte decorado por uma imponente igreja e abadia. Tive a oportunidade de visitar a igreja mais ou menos de rajada e deste modo recolher a informação de aqui se ter em tempos guardado o mais antigo documento em língua húgara de que há conhecimento, e de ter aqui ficado por alguns dias o escorraçado monarca Carlos IV, antes da sua morte e exílio na ilha da Madeira.
Após esta curta visita, juntámo-nos aos nossos simpáticos anfitriões, A. e B., um casal amigo de S. que por aqui mantém casa de férias. O almoço (hão-de perdoar-me estas regulares referências gastronómicas) consisitiu numa agradável sopa de peixe, seguida de um bem conseguido prato de massa com toucinho e queijo de cabra. À tarde, mergulhei pela primeira vez os lombos no simpático lago, experiência curiosa pela surpreendente calmaria das águas e pelo fundo de lamas suaves. Aqui é possível nadar o que se quiser, tal é o sossego e a boa temperatura. Sem dúvida que se tratou de um ponto alto da excursão...
Perto dos nossos arraiais em Tihany, ficava a importante vila de Balatonfüred, à qual nos deslocámos pelo fim da tarde a propósito de um festival de vinho. Tenho dificuldade em corroborar a tese de S. relativamente à superioridade dos brancos húngaros, ainda que fossem agradáveis os por aqui degustados. De igual modo não eram nada maus os tintos, um deles cheirosíssimo, com imensa massa corporal. O festival em si: belíssimo!
Uma lua generosa vigiava a inteira paisagem do lago, por aquela hora nocturna pintalgado de luzes e luzinhas, cenário idílico e perfeitamente ajustado ao torpor que por fim nos acompanhou aos braços de Morfeu.

segunda-feira, setembro 01, 2008

Dia décimo terceiro. Sziget


Festival de Sziget, numa ilha em pleno em Danúbio... A bem dizer, tirando MGMT, o cartaz do dia até era bastante fraquinho, pelo menos no que às minhas predileçcões diz respeito. Mas Sziget é um dos maiores festivais da Europa, pelo que o ensejo de o visitar não podia ter sido desperdiçado. Chegámos por volta das três, após um gratifcante almoço com T., a prima D. e a avó de S., em casa desta última. O ambiente festivaleiro estava ao seu melhor nível: calor em largas golfadas, um florescente comércio alternativo, rapaziada bem disposta, e muita música espalhada por um sem número de palcos e tendas.
MGMT valeu pelos temas, se bem que entoados sem fugir muito ao registo do estúdio, o que para muitos não deixa de ser sinónimo de um bom concerto. De Flogging Molly recebemos apenas o rugido e a energia de um rock de raízes irlandesas, talhado para a embriaguez descontrolada. Estávamos por essa altura entretidos com um par de cervejas e um belo lángos (foto), especialidade húngara que consiste numa espécie de pequena e leve pizza de alho, pincelada de saborosas natas e por fim polvilhadA com queijo em largas quantidades.
Já pelo escurinho da noite apareceu Alanis, essa espécie de fantasmagórica criatura, sorridente e sensaborona. De The Kooks esperava eu um final possivelmente interessante, mas veio a provar-se o contrário, e assim demostrar-se certa tolice minha em acreditar que algumas bandinhas com um par de boas canções podem realmente valer alguma coisa.
Ainda assim, tem o Sziget, como seguramente os outros festivais de verão, muito mais a oferecer para além da música. E nesse algo mais o festival excedeu as minhas expectativas. Talvez venha um dia a repetir a dose...

domingo, agosto 31, 2008

Dia décimo segundo. Pelo Danúbio até Viségrad


Levámos hoje por diante o bom projecto de tomar um cruzeiro Danúbio acima, na direcção da fronteira eslovaca, rumo à idílica vila de Viségrad (foto), com passagem pelas verdejantes margens do rio e suas sossegadas ilhotas. A viagem fez-se não sem pontuais inconvenientes: a madrugadora hora da partida, as três horas e meia de viagem na quase lotada embarcação, e os magotes lentos e queixosos de velhíssimos aposentados, cheios de caprichos, a ocupar sempre os melhores lugares por terem chegado ao barco seguramente com um par de horas de antecedência.
Ainda assim, a viagem compensa imenso: que belo é o rio por estas paragens! E imaginem só por momentos os povos que aqui acharam por bem assentar arraiais e fundar povoados... Que privilégio! Os banhistas, as pequenas habitações de recreio, a lírica passarada, tudo suave no Danúbio, suave e tranquilo, suave e inesquecível.
Em Viségrad, aproveitamos para almoçar no belíssimo Don Vito, um restaurante italiano profusamente decorado com iconografia relativa à personagem encarnada por Marlon Brando na saga de Coppola. Ao ler o menú, dividido em várias secções consoante o tipo de prato, apercebo-me da primeira verdadeira graçola alguma vez por mim lida numa ementa de restaurante: sob a rubrica “pratos de cavalo”, um item apenas, a saber, “horse head in bed sheets, English style”. Preço: 600.000 dólares americanos.
Depois do almoço, apanhamos um táxi que nos leva ao cimo do alto monte, principal atracção da histórica vila. Experimentamos, quais crianças deleitadas, as curvas e velocidades do tobogã de verão. Testamos depois a nossa perícia (a minha incompetência) em doze buracos de minigolfe. Dirigimo-nos subsequentemente ao imponente castelo, amplamente ornamentado de artifícios medievais, desde armas a intrumentos de caça. Trata-se originalmente de uma construção romana do século IV, tendo sido depois bastião de povos eslavos, reduto dos primeiros húngaros, alvo do poder ocupacionista turco e, finalmente, de novo morada da realeza magiar, que teve de o reconstruir após a parcial destruição otomana.
Das muralhas do castelo, meio atordoados pela singular beleza do Danúbio, admiramos a vista que se estende ao nosso olhar. São centenas de metros de rio para ambos os lados, ladeados de diversas e verdejantes elevações. Tudo idílico, indescritível. Aqui teria em tempos sido possível passar toda uma inteira eternidade em caçadas, recreios vários, abençoados pelas águas e pela tranquila natura. Que muitos e bons anos ainda te preservem, bela Viségrad, à beira rio plantada!
De regresso à capital, igualmente ao sabor do rio, tomamos a brusca decisão de saltar do barco em Vác e seguir posteriormente para casa de comboio. A vila está muito bem tratada, com belíssimos espaços para passear à beira rio e uma sumptuosa praça principal, em perfeita desproporção relativamente ao real tamanho da localidade. Será confusão minha ou não foi o Vác, há alguns valentes anos, adversário do Glorioso em certa eliminatória europeia. Sim, foram mesmo eles! Recordo ver a primeira mão na televisão com o meu primo R., numa casa que já sofreu entretanto profundas remodelações. Golo de Schwartz, de pé esquerdo, naturalmente. Creio que depois, na segunda mão, goleámos na Luz.
Pelas oito horas e meia da noite, tomámos o comboio de volta para casa, onde não oferecemos grande resistência ao sono e ao cansaço dos membros. Levámos para casa imagens das margens do Danúbio e também das suas águas, do seu vagar, dos séculos inteiros transportados por essas correntes.

sábado, agosto 30, 2008

Dia décimo primeiro. Arrumações. Gül Baba


Pouco a dizer acerca deste pálido dia. Até às cinco da tarde, acedo ao pedido de S. de a ajudar em casa com arrumações várias, transportando daqui para ali sacos, caixas e caixotes. Durante as pausas, entretenho-me com as olimpíadas e leio no Cálssio que o meu bom amigo A. acaba de dar gigantes passadas rumo à conclusão da sua licenciatura. Belo!
Ao fim da tarde, e antes de S. me arrastar mais uma vez para um bufê de sushi não muito longe da Estação Oeste, tentamos visitar uma antiga casa otomana, do tempo da ocupação turca. Já passa das seis e casa está já fechada, vedada a visitas até ao dia seguinte. É-nos ainda assim possível apreciar a estátua de corpo inteiro de Gül Baba (foto), de turbante e túnica vestido, do qual vimos mais tarde a saber tratar-se de um poeta que acompanhou o sultão Suleiman, o Magnífico, nas suas campanhas europeias e que faleceu nesta cidade em 1541.
Após o jantar, tenho a infelicidade de passar um par de entediantes horas com S. e dois amigos seus. A bárbara língua, quando em imperceptível e continuado exercício, tem o dom de por vezes me aleijar os sentidos. Estou fora do assunto, fora da conversa, não percebo uma palavra.
Vou para casa aborrecido e só consigo adormecer muito tarde, assolado por sonhos e conjecturas de vária ordem. Suspeito, por semelhantes experiências anteriores, haver algo no peixe cru que me perturba o sono e o repouso das ideias.