domingo, novembro 30, 2008
sexta-feira, novembro 28, 2008
Ramón Peralta
Pero hoy, día del juicio.
Incestos disimulan descanso bajo las adelfas
respiran futuro en una telaraña
descubren el miedo
y la pena no será errante
por la mancha que germina en el vientre.
Yo, pájaro ciego.
Atento al menor ruido del mal
En la seguridad de las frondas no creo
a pocos metros escucho un diluvio.
que dura este silencio
después el silencio no será beso
será tiempo.
sexta-feira, novembro 21, 2008
Francisco Serra Lopes
Não sei se deva estar aqui a alongar-me sobre a sua pessoa. Temo que seja algo que ele dispense por completo. Acrescento porém que foi com um enorme fascínio que recebi recentemente uma nova amostra da sua poesia, ambiciosa, pura, lexicalmente contundente. Ele diz ter sido de certa forma um regresso à poesia, após uma maior predominância na sua vida de outras leituras e reflexões, nomeadamente as relacionadas com o Doutoramento que se encontra a realizar na cidade de Barcelona. Mas uma vez cá dentro, a poesia nunca chega realmente a sair de nós, pois não?
Escorre de um fraco antebraço
linha de sangue, grossa:
a rude motivação é baço
reflexo da perda nossa.
O calor desaparece
desse braço para a anca
do moribundo amigo. Tece
uma linha que em vão estanca,
tépida. E a Providência
indica um trapo que aí jaz,
próximo. Não há ciência
que não mate. Desfaz-
-se-me o alento. Sofro
por ver a decadência
de cada corpo já amorfo.
É isso a experiência?
Reduz-se então o apego:
não é possível prolongar o luto
multiplicado. Quando chego
com os dedos à sua alma, escuto:
Eu não te peço afagos, companheiro;
não te peço um trapo que retenha
a vida que se esvai. O teu cheiro
a roupa quente, a tua voz castanha
de terra seca é tudo o que recolho
para levar para aquela terra estranha
de que falavas. Beija-me o olho
que ainda vê, fecha-mo, não venha
a morte antes de ti.
E vejo
como a retina se lhe abre em livro,
e inclino-me, solene, para um beijocomo quem quer eternizar o vivo.
Deixa-me ver a que sabe o hálito
rápido, acre na tua boca.
Detrás de quem beija – quero dizer:
por trás
do rosto a orelha que finta a noite
em que te sussurro orgasmos afins
à tua cadência que não ressona
mas ressoa enfim no meu alarido
interior, aí cumpres a tua função
conjugal e a excedes, até, no domínio
das personagens que passam dizendo
vamo-nos embora à queima-roupa.
segunda-feira, novembro 10, 2008
Balaustrada
o sentido do vocábulo balaustrada
palavra sempre ignorada
apesar do comum entendimento
a saber
formando varanda, grade
ou corrimão
(e prossegues, fluida,
prazenteira)
para efeitos de apoio
ou vedação
domingo, novembro 02, 2008
quinta-feira, outubro 30, 2008
Candy CD 112

Três recomendações tiradas do guia de instalação da minha máquina de lavar loiça, página cento e três:
Não utilize os seus electrodomésticos quando estiver descalça.
A água que fica na máquina ou na loiça a seguir à lavagem não deve ser bebida.
Sempre que se queira desfazer de uma máquina de lavar loiça antiga, tenha o cuidado de lhe retirar a fechadura da porta antes, para evitar que crianças se possam fechar na máquina.
domingo, outubro 26, 2008
Bernhard e o fracasso do pensamento
segunda-feira, outubro 20, 2008
Antero e o esmorecimento do intelecto
terça-feira, outubro 07, 2008
Construção da casa
acreditei poder o quarto e a sala enorme
erguerem-se suavemente por si próprios.
reuni, é certo, os materiais adequados
juntei-os até num mesmo espaço de obra.
logrei obter da autarquia
as permissões necessárias.
mas após tudo isto e durante largo tempo
esqueci da casa a construção ambicionada
agora estão as mãos exaustas da letargia.
já se vão habituando os membros lassos
de novo ao peso do obreiro instrumento
já aos poucos se ergue o corpo
se ergue a casa
já também se ergue o dia
e o alicerce
quarta-feira, setembro 24, 2008
Dia último. Compras. Despedida
sábado, setembro 20, 2008
Dia vigésimo. Santo Estevão
quarta-feira, setembro 17, 2008
Dia décimo nono. A cidade e a longa viagem para casa
segunda-feira, setembro 15, 2008
Dia décimo oitavo. Eslovénia
Atravessamos depois a fronteira, onde a funcionária eslovena nos recusa educadamente colorir os nossos passaportes com um carimbo do país, "por estarmos na união europeia". A paisagem muda radicalmente, conforme S. já me prevenira. Talvez se deva isto à proximidade dos Alpes: por todo o lado o verde, com manchas gigantes de árvores, montes cobertos de bosques cerrados e, nos vales, campos de erva fresca. As pequenas aldeias, onde por todo o lado se amontoa já a lenha em abundância para o Inverno, são perfeitos pontos de equilíbrio com a natureza. Tudo limpo, tudo em sossego absoluto.
Frustradas as tentativas de encontrar cama nos campestres arredores de Ljubliana, fazemo-nos à capital eslovena, onde chegamos já noite escura. O tempo está ameno e a cidade tranquila. Decidimos dar um passeio pelo centro, pelas margens do rio repletas de sofisticadas esplanadas, de novo tudo impecável e cheio de bom gosto, muito mais próximo do nível da vizinha Áustria que do dos outros países da ex-Jugoslávia. Aos eslovenos não lhes chega a faltar mesmo o mar, graças a uma mínima faixa costeira que quaisquer esforços políticos, fundados em sabe-se lá que argumentos, souberam preservar. Numa das mais emblemáticas praças de Ljubliana, o poeta nacional Prešeren lança o olhar para uma janela do outro lado, no edifício da qual podemos obsevar o baixo-relevo da sua amada Julia, a quem o poeta dedicou sonetos em grande quantidade. O amor é por aqui fácil de imaginar...
Retiramos depois à pousada da juventude onde estamos alojados, com a intenção de despertar cedo e poder ainda visitar a cidade durante algumas horas à luz do dia.
quinta-feira, setembro 11, 2008
Dia décimo sétimo. Omisalj. A praia

segunda-feira, setembro 08, 2008
Dia décimo sexto. Krk

sábado, setembro 06, 2008
Dia décimo quinto. A caminho da Croácia

Após o jantar, tivemos o privilégio (acompanhado a dada altura de algum receio) de assistir à trovoada das nossas vidas, um imenso espectáculo de luz abarcando, de ponta a ponta, todo o horizonte diante de nós. Raios, clarões e mais tarde, já a coisa de cinquenta quilómetros da costa, numa região mais montanhosa, uma violentíssima chuva de granizo, intempérie de cobrou de S. toda a sua concentração e competência automobilística. Chegámos à ilha de Krk por volta da uma da manhã, onde A. nos recebeu com copos da muito necessitada aguardente húngara, como que a lembrar que naquele dia havíamos coberto toda uma considerável distância entre as águas do Balaton e as do Adriático.
quinta-feira, setembro 04, 2008
Dia décimo quarto. Lago Balaton

Esta é maior massa de água doce que alguma vez vi (é sensivelmente um rectângulo de, em média, 5 por 70 quilómetros), e encontra-se rodeada de viçosa flora e pitorescas localidades, votadas em grande parte ao negócio do lazer, com zonas balneares relvadas e pejadas de pequeno e médio comércio.
Ficámos instalados numa das mais belas regiões do Balaton, a saber, a pequena península de Tihany, da qual sem dúvida se destaca um sobranceiro monte decorado por uma imponente igreja e abadia. Tive a oportunidade de visitar a igreja mais ou menos de rajada e deste modo recolher a informação de aqui se ter em tempos guardado o mais antigo documento em língua húgara de que há conhecimento, e de ter aqui ficado por alguns dias o escorraçado monarca Carlos IV, antes da sua morte e exílio na ilha da Madeira.
Após esta curta visita, juntámo-nos aos nossos simpáticos anfitriões, A. e B., um casal amigo de S. que por aqui mantém casa de férias. O almoço (hão-de perdoar-me estas regulares referências gastronómicas) consisitiu numa agradável sopa de peixe, seguida de um bem conseguido prato de massa com toucinho e queijo de cabra. À tarde, mergulhei pela primeira vez os lombos no simpático lago, experiência curiosa pela surpreendente calmaria das águas e pelo fundo de lamas suaves. Aqui é possível nadar o que se quiser, tal é o sossego e a boa temperatura. Sem dúvida que se tratou de um ponto alto da excursão...
Perto dos nossos arraiais em Tihany, ficava a importante vila de Balatonfüred, à qual nos deslocámos pelo fim da tarde a propósito de um festival de vinho. Tenho dificuldade em corroborar a tese de S. relativamente à superioridade dos brancos húngaros, ainda que fossem agradáveis os por aqui degustados. De igual modo não eram nada maus os tintos, um deles cheirosíssimo, com imensa massa corporal. O festival em si: belíssimo!
Uma lua generosa vigiava a inteira paisagem do lago, por aquela hora nocturna pintalgado de luzes e luzinhas, cenário idílico e perfeitamente ajustado ao torpor que por fim nos acompanhou aos braços de Morfeu.
segunda-feira, setembro 01, 2008
Dia décimo terceiro. Sziget

MGMT valeu pelos temas, se bem que entoados sem fugir muito ao registo do estúdio, o que para muitos não deixa de ser sinónimo de um bom concerto. De Flogging Molly recebemos apenas o rugido e a energia de um rock de raízes irlandesas, talhado para a embriaguez descontrolada. Estávamos por essa altura entretidos com um par de cervejas e um belo lángos (foto), especialidade húngara que consiste numa espécie de pequena e leve pizza de alho, pincelada de saborosas natas e por fim polvilhadA com queijo em largas quantidades.
Já pelo escurinho da noite apareceu Alanis, essa espécie de fantasmagórica criatura, sorridente e sensaborona. De The Kooks esperava eu um final possivelmente interessante, mas veio a provar-se o contrário, e assim demostrar-se certa tolice minha em acreditar que algumas bandinhas com um par de boas canções podem realmente valer alguma coisa.
Ainda assim, tem o Sziget, como seguramente os outros festivais de verão, muito mais a oferecer para além da música. E nesse algo mais o festival excedeu as minhas expectativas. Talvez venha um dia a repetir a dose...
domingo, agosto 31, 2008
Dia décimo segundo. Pelo Danúbio até Viségrad

Ainda assim, a viagem compensa imenso: que belo é o rio por estas paragens! E imaginem só por momentos os povos que aqui acharam por bem assentar arraiais e fundar povoados... Que privilégio! Os banhistas, as pequenas habitações de recreio, a lírica passarada, tudo suave no Danúbio, suave e tranquilo, suave e inesquecível.
Em Viségrad, aproveitamos para almoçar no belíssimo Don Vito, um restaurante italiano profusamente decorado com iconografia relativa à personagem encarnada por Marlon Brando na saga de Coppola. Ao ler o menú, dividido em várias secções consoante o tipo de prato, apercebo-me da primeira verdadeira graçola alguma vez por mim lida numa ementa de restaurante: sob a rubrica “pratos de cavalo”, um item apenas, a saber, “horse head in bed sheets, English style”. Preço: 600.000 dólares americanos.
Depois do almoço, apanhamos um táxi que nos leva ao cimo do alto monte, principal atracção da histórica vila. Experimentamos, quais crianças deleitadas, as curvas e velocidades do tobogã de verão. Testamos depois a nossa perícia (a minha incompetência) em doze buracos de minigolfe. Dirigimo-nos subsequentemente ao imponente castelo, amplamente ornamentado de artifícios medievais, desde armas a intrumentos de caça. Trata-se originalmente de uma construção romana do século IV, tendo sido depois bastião de povos eslavos, reduto dos primeiros húngaros, alvo do poder ocupacionista turco e, finalmente, de novo morada da realeza magiar, que teve de o reconstruir após a parcial destruição otomana.
Das muralhas do castelo, meio atordoados pela singular beleza do Danúbio, admiramos a vista que se estende ao nosso olhar. São centenas de metros de rio para ambos os lados, ladeados de diversas e verdejantes elevações. Tudo idílico, indescritível. Aqui teria em tempos sido possível passar toda uma inteira eternidade em caçadas, recreios vários, abençoados pelas águas e pela tranquila natura. Que muitos e bons anos ainda te preservem, bela Viségrad, à beira rio plantada!
De regresso à capital, igualmente ao sabor do rio, tomamos a brusca decisão de saltar do barco em Vác e seguir posteriormente para casa de comboio. A vila está muito bem tratada, com belíssimos espaços para passear à beira rio e uma sumptuosa praça principal, em perfeita desproporção relativamente ao real tamanho da localidade. Será confusão minha ou não foi o Vác, há alguns valentes anos, adversário do Glorioso em certa eliminatória europeia. Sim, foram mesmo eles! Recordo ver a primeira mão na televisão com o meu primo R., numa casa que já sofreu entretanto profundas remodelações. Golo de Schwartz, de pé esquerdo, naturalmente. Creio que depois, na segunda mão, goleámos na Luz.
Pelas oito horas e meia da noite, tomámos o comboio de volta para casa, onde não oferecemos grande resistência ao sono e ao cansaço dos membros. Levámos para casa imagens das margens do Danúbio e também das suas águas, do seu vagar, dos séculos inteiros transportados por essas correntes.
sábado, agosto 30, 2008
Dia décimo primeiro. Arrumações. Gül Baba

Ao fim da tarde, e antes de S. me arrastar mais uma vez para um bufê de sushi não muito longe da Estação Oeste, tentamos visitar uma antiga casa otomana, do tempo da ocupação turca. Já passa das seis e casa está já fechada, vedada a visitas até ao dia seguinte. É-nos ainda assim possível apreciar a estátua de corpo inteiro de Gül Baba (foto), de turbante e túnica vestido, do qual vimos mais tarde a saber tratar-se de um poeta que acompanhou o sultão Suleiman, o Magnífico, nas suas campanhas europeias e que faleceu nesta cidade em 1541.
Após o jantar, tenho a infelicidade de passar um par de entediantes horas com S. e dois amigos seus. A bárbara língua, quando em imperceptível e continuado exercício, tem o dom de por vezes me aleijar os sentidos. Estou fora do assunto, fora da conversa, não percebo uma palavra.
Vou para casa aborrecido e só consigo adormecer muito tarde, assolado por sonhos e conjecturas de vária ordem. Suspeito, por semelhantes experiências anteriores, haver algo no peixe cru que me perturba o sono e o repouso das ideias.




