Importuna Razão, não me persigas;
Cesse a ríspida voz que em vão murmura;
Se a lei de Amor, se a força da ternura
Nem domas, nem contrastas, nem mitigas:
Se acusas os mortais, e os não abrigas,
Se (conhecendo o mal) não dás a cura,
Deixa-me apreciar minha loucura,
Importuna Razão, não me persigas.
É teu fim, teu projecto encher de pejo
Esta a alma frágil vítima daquela
Que, injusta e vária, noutros laços vejo
Queres que fuja de Sofia bela,
Que a maldiga, a desdenhe; e o meu desejo
É carpir, delirar, morrer por ela.
quinta-feira, novembro 29, 2007
segunda-feira, novembro 26, 2007
Lígia Dabul
Sim, eu sei que ainda não tinha falado das presenças femininas no Festival Tordesilhas. E vozes femininas foi o que não faltou por lá, se bem que eu tenha alguma dificuldade em falar sobre o que é isso de uma voz feminina. Por outro lado, sei muito bem quando se ganha uma amiga. Neste caso, uma mulher muito especial que tive a sorte de conhecer em São Paulo. Antropóloga e professora na Universidade Federal Fluminense, Lígia Dabul publicou já inúmeros poemas em revistas e jornais literários brasileiros. Dela recebi durante o festival o seu livro Som (Bem-Te-Vi, 2005) e também um dos maiores elogios que ouvi na vida: "um amigo que parece carioca". Quem quiser conhecer melhor esta poeta do Rio de Janeiro (e digo-vos que vale mesmo a pena conhecê-la), poderá ler alguns poemas seus e também uma belíssima entrevista aqui. Mas fica desde já um aviso: tanto no plano formal como ao nível da mensagem que resiste a uma leitura imediata, esta não é decididamente uma poesia para qualquer estômago. Deixo-vos com um dos poemas de Som. Bom proveito.
Chove tudo.
Chove tanto.
Chove como homem
depois do incômodo
do mormaço. Goza
como vento denso
finalmente molha o suor.
A chuva que se estende em tempo ameno,
desconcentrado,
quero com a boca ainda toda aberta
sexta-feira, novembro 23, 2007
Javier Díaz Gil
De Espanha, para além do basco Juan Krus Igerabide e do valenciano Joan Navarro, dois extraordinários poetas de quem também no futuro daremos conta, viajou o madrilenho Javier Díaz Gil, uma voz já segura na poesia espanhola contemporânea. O intimismo lúcido que caracteriza parte significativa da sua poesia, desembocando por vezes em momentos imprevisíves e contundentes, foi algo que me chamou a atenção desde o início. Conheçam um pouco melhor o poeta e a sua obra no seu blog pessoal. Para já, deixo-vos com um dos poemas que Díaz Gil nos apresentou durante o festival.
EL FANTASMA
El fantasma que he dejado en casa
Está descuidando las tareas.
Sé que está dejando
De regar las plantas,
Levantándose tarde
Y olvidándose de ir trabajar.
Deambula por la casa
Dejando la cama sin hacer
Comiendo más de la cuenta,
Desatendiendo el teléfono
Y a mis amigos.
Pero nada de eso importa,
Ni siquiera
Que haya dejado evaporarse el agua
De toda la lluvia que guardé.
Tengo miedo
que por olvido
No haya sabido
Guardarme la memoria.
quarta-feira, novembro 21, 2007
Fábio Aristimunho Vargas
Este foi outro magnífico poeta com quem passei óptimas horas de cerveja e cigarros. Formado em Direito e brilhante tradutor de e para a língua espanhola, Fábio mostrou-se incansável no apoio aos poetas convidados e foi sem dúvida uma das razões pelas quais o festival correu tão bem. Mas sabemos bem que o que aqui interessa é mesmo a poesia. Acabo de ler o seu livro Medianeira (Quinze & Trinta, 2005) e encontro curiosas semelhanças entre nós dois. Julgo que tanto eu como ele gostamos de camuflar no quotidiano a condição de sermos poetas. A escrita intensa é algo que se reserva primordialmente para o papel, num momento íntimo de registo. Não é timidez, é apenas a forma de viver a escrita. Revi-me também na sua intensa ironia, é algo que me diz muito como poeta e, sobretudo, leitor. E depois há aquele poema "Boca & Plágio", no qual me revejo perfeitamente:
Barangueiro(até) de idéias:
não fale perto
senão eu cato.
De acrescentar que Fábio faz parte do conjunto de novíssimos poetas brasileiros que integraram em conjunto a antologia Vacamarela, naquele que foi um dos momentos mais divertidos do festival em São Paulo (houve outros muito divertidos que não me cabe aqui relatar). Em devido tempo darei conta dos outros poetas que a Vacamarela veio revelar. Para já, fiquem com um dos poemas com que o poeta Fábio Aristimunho Vargas participou nesta antologia, e descubram-no mais no seu blog.
Notícias do vácuo
Hoje os astrônomos decidiram que Plutão não é mais um planeta.
Dizem que Plutão é muito menor que a Terra e até mesmo menor que a lua.
Bobagem.
Muitas vezes já me disse que o mês é bem maior que o meu salário,
mas não deixei de constelar contas e cadastros
e nem por isso os astros deixaram de ser astros.
segunda-feira, novembro 19, 2007
Mario Bojórquez

Com obra já traduzida para o português, francês e inglês, o mexicano Mario Bojórquez foi das principais figuras a marcar presença no Festival Tordesilhas. Para além da sua obra, já largamente publicada, deu-nos também a conhecer o gigante poeta Francisco Cervantes e respectivo alter ego trovadoresco Hugo Vidal (é mesmo de conhecer). Mario Bojórquez mantém o blog www.hiperboreos.blogspot.com Dele tive a fortuna de receber dois livros seus: Pretzels e El Deseo Postergado (Prémio de Poesia Aguascalientes 2007). É desta mais recente obra que reproduzo um poema:
Dios asiste. Y acato.
ABIGAEL BOHÓRQUEZ
No se vuelve del sueño
Donde aquel que fuiste
Lanzó su vida por senderos distintos
No se vuelve
No hay camino posible para volver de ahí
Ni siquiera podrás regresar al huerto que alimentó aquel sueño
Allá te quedas
La apariencia
Desnuda
Afila
Tus huesos carcomidos
Sobre tibias e fémures
Alzas una memoria
De lo que no es aquí
Si no recuerdo
Y el tumbo de los muebles
Al rozar tu esqueleto
Resuena una música triste
quarta-feira, novembro 14, 2007
Glauco Mattoso
Comecemos então o rescaldo dos poetas que participaram no Festival Tordesilhas com o brasileiro Glauco Mattoso, o pseudónimo de Pedro José Ferreira da Silva. É sempre bonito começar pela velha guarda paulistana e, neste caso, por uma das vozes mais irreverentes da produção poética brasileira da segunda metade do passado século. Não sei bem porquê, mas o seu intenso fetiche por pés e o facto de cultivar obsessivamente o soneto fazem-me querer conhecê-lo cada vez mais. Estive tentadíssimo a incluir aqui um soneto seu dedicado à adolescente Dolores, "uma ninfômana precoce". Mas decido reproduzir, em jeito de apresentação do autor, o seu "Soneto Ensaístico". Nele o poeta cego dá-se a conhecer num registo auto-reflexivo admirável. Já sabem o que fazer a seguir a isto: explorar a web e conhecer o resto da sua vasta obra:
Chamemo-la de fase iconoclasta,
à minha poesia antes de cego.
Pintei, bordei. Porém não a renego.
Forçou-me a invalidez a dar um basta.
A nova não é casta, nem contrasta
com velhas anarquias. Só me entrego
ao pé, onde em soneto a língua esfrego.
Chamemo-la de fase podorasta.
Mas nem por isso é menos transgressiva.
Impõe-se um paradoxo na medida
da forma e da temática obsessiva:
Na universalidade presumida,
Igualo-me a Bocage, Botto e Piva.
Ao cego, o feio é belo, e a dor é vida.
segunda-feira, novembro 12, 2007
De regresso, ainda com o Festival Tordesilhas na cabeça e no corpo...

Terminou no passado dia 4 em São Paulo a primeira edição do Tordesilhas, Festival de Poesia Ibero-Americana. Decidi ficar mais uma semana em São Paulo após o festival e só regressei hoje, há poucas horas. Como devem imaginar, foi um regresso difícil. Aliás, penso que nem sequer conseguem imaginar perfeitamente. Na verdade, o que me apetecia agora era começar a confessar aqui tudo aquilo que pessoalmente representou para mim ter estado em São Paulo estas duas últimas semanas. Mas estes quartos andam carentes de alguma claridade, e nem eu próprio tenho por vezes resistência emocional para a escuridão de alguns dias. Por isso quero que saibam, e daí o motivo deste texto estranhamente directo e directamente dirigido, que irei dedicar os próximos tempos a fazer um rescaldo detalhado de boa parte dos cinquenta poetas ibero-americanos que tive o priviégio de conhecer em São Paulo, numa orgia de poesia e boas energias que se estendeu durante uma semana. Como é óbvio, tentarei divulgar o que foi o festival através de outras iniciativas, das quais darei conta em seu tempo. Também a secção de links terá de sofrer alterações sérias. Escrevo estas coisas porque sinto que o Festival Tordesilhas representou um ponto de viragem na minha percepção da poesia de línguas ibero-americanas. Consequentemente, também os quartos escuros prestarão maior atenção a tudo o que foi conquistado estes últimos dias no Brasil. O Atlântico ficou mais pequeno e o festival em si foi apenas o início de uma viagem que promete prolongar-se indefinidamente. Entretanto vamos matando aos poucos o desconhecimento que tanto nos faz mal.
quarta-feira, novembro 07, 2007
sampa
reformulando uma frase que por aqui ouvi do jovem poeta nícollas ranieri (esse monstro!), devo confessar que para mim o festival tordesilhas é bem como a avenida paulista: começa no paraíso e acaba na consolação. o paraiso foi todo o festival. a consolação serão os bons livros e memórias que trarei comigo de volta. meu deus, que vontade louca de ficar mais tempo...
domingo, outubro 28, 2007
segunda-feira, outubro 22, 2007
cultura: a nossa ilusão preferida
(...) la culture est avant tout une illusion, comme le pensait Freud de la religion! Une illusion qui donne Shakespeare et Montaigne, ce qui n'est pas rien! La culture est souvent l'expression d'un désir refoulé, sublimé, et il faut la distinguer de la realité sociale. Mais les deux interagissent. Bientôt, les amoureux voudront vivre leur passion à la maniére des personnages de Racine et de Shakespeare.
Jacque Le Goff, "Le sentiment, aussi", in La plus belle histoire de l'amour
sábado, outubro 20, 2007
quarta-feira, outubro 17, 2007
Fim de semana

E foi num desses momentos de auto-análise mais ponderada, numa dessas alturas em que o sentimento intenso dá lugar a um lampejo de razão clarividente, que ela concluiu como se tornara com o tempo dependente das suas visitas de fim de semana. Não que estivesse irremediavelmente apaixonada por ele ou sequer lhe fizesse imensa falta a sua constante atenção e companhia. Mas a verdade é que o fim de semana sem um telefonema seu, sem uma qualquer combinação para café, passeio ou teatro, afigurava-se-lhe profundamente violento. Tanto que a própria semana, aí a partir de quarta-feira, ou mesmo terça pela noite, tornara-se para ela um triste e doentio período de preparação para o ainda longínquo fim de semana. Uma vez que durante a semana de trabalho era impensável para ele deslocar-se a vê-la (assim o dizia ele, "impensável, minha querida"), passava ela os solitários serões a congeminar como seria o sábado ou a tarde domingueira. Não, não estava apaixonada, ou mortinha de amores, como lhe sugerira a madrinha numa conversa em que ela revelara à velhota a nova amizade que travara. Mas a verdade é que criara uma dependência, e isso com certeza não podia ser positivo.
Nesse sábado ele viria a casa dela, viria a buscá-la para um passeio de automóvel, talvez tivessem ainda tempo para lanchar do outro lado da serrania. Ela estava já à porta, mais que pronta, faltavam ainda quase dez minutos para a hora marcada. Sim, é verdade, é realmente quando se está de pé, quando se caminha um pouco de um lado para o outro, que a cabeça aclara as ideias e espírito consegue gozar dos chamados momentos de discernimento. Fora então que tomara súbita consciência do vício contraído, e o vício era ele, ele ao fim de semana, ele com ela, ou melhor, o contrário de ela sem ele, sem alguém que fosse, como aliás tinha sido a sua penosa existência até então. Daí ter percebido que havia uma escolha terrível a fazer, uma escolha a materializar em palavras, o que era quase sempre certíssima garantia de as coisas não correrem pelo melhor. Na verdade a escolha, apesar de difícil, deveria ser feita entre apenas duas opções possíveis: deixar de vê-lo, privar-se para sempre da sua companhia e, na medida das suas forças, procurar ultrapassar a áspera crise de privação que se previa, ou então confessar-lhe tudo o que lhe ia no peito, agarrar-lhe as mãos, o corpo se fosse preciso, e dizer-lhe, baixo, com a voz da raposa ardilosa, leva-me contigo, leva-me que sem ti não suporto mais ser.
quinta-feira, outubro 11, 2007
Tordesilhas – Festival Ibero-Americano de Poesia Contemporânea

O “Tordesilhas – Festival Ibero-Americano de Poesia Contemporânea” é um evento literário que pretende apresentar e discutir a produção recente de poesia na América Latina e Península Ibérica. A proposta do festival, “Desconstruindo a Linha de Tordesilhas”, expressa a busca de novos diálogos e acordos entre poetas de língua portuguesa e espanhola nestes países.
O TORDESILHAS reunirá poetas de diversas partes do Brasil, América Latina, Portugal e Espanha, cujo trabalho é representativo e de destaque internacional, além de académicos, críticos e editores de poesia interessados na temática íbero-americana. De Portugal viajarão Luís Serguilha e João Miguel Henriques.
O festival terá lugar no período de 30 de Outubro a 4 de Novembro de 2007, em São Paulo, na Caixa Cultural, e também no Instituto Cervantes e no Espaço Parlapatões da Praça Roosevelt.
terça-feira, outubro 09, 2007
A uma senhora não muito boa mas que ainda assim despertou no poeta certo desejo
ai, o espanto todo, o espanto imenso
de perceber que bem te quero, e como, e tanto
que ardo hoje com igualíssimo tamanho
que ardia ontem, e amanhã, e quase sempre
e por tu não me quereres assim agora
como eu te quero em toda a vária hora
prossigo ardendo por ti constantemente
que o fogo é o espanto imenso de querer-te
e o tu não me quereres como eu, senhora
é outro fogo todo atiçado, cruel e lento
de perceber que bem te quero, e como, e tanto
que ardo hoje com igualíssimo tamanho
que ardia ontem, e amanhã, e quase sempre
e por tu não me quereres assim agora
como eu te quero em toda a vária hora
prossigo ardendo por ti constantemente
que o fogo é o espanto imenso de querer-te
e o tu não me quereres como eu, senhora
é outro fogo todo atiçado, cruel e lento
sábado, outubro 06, 2007
domingo, setembro 23, 2007
Referência bibliográfica preferida
TEIXEIRA, Ramiro, Neo-Realismo, Alves Redol e seus reflexos, Porto, Grupo Desportivo dos Empregados do Banco Borges & Irmão, 1981.
quarta-feira, setembro 19, 2007
Iucatão
o iucatão seria em mim uma ilha
não mais privada dos rodeios de água
por qualquer infame língua de terra
passaria a trazer o meu nome do meio
e do seu barro nasceriam impérios fundos
(a ilha vagueia pela água anunciando
a tua chegada)
de uma peninsular natureza
não restaria mais que um sonho feio.
para isso erigiu o pai a casa dos proscritos:
nela se punem hoje os delitos de memória
e acomodam-se quantos suspiram ainda
pelo tempo antes do nome novo
não mais privada dos rodeios de água
por qualquer infame língua de terra
passaria a trazer o meu nome do meio
e do seu barro nasceriam impérios fundos
(a ilha vagueia pela água anunciando
a tua chegada)
de uma peninsular natureza
não restaria mais que um sonho feio.
para isso erigiu o pai a casa dos proscritos:
nela se punem hoje os delitos de memória
e acomodam-se quantos suspiram ainda
pelo tempo antes do nome novo
sexta-feira, setembro 14, 2007
A vida, o sonho
Tenho de suprimir esta ninharia da vida. Estas duas coisas não podem mais coabitar - esta estupidez e este sonho dorido e imenso, o grotesco de todos os dias, quando do outro lado galopa e passa uma coisa sôfrega e imensa. Tu não te podes chamar Baltazar Moscoso, e ao mesmo tempo existir o céu estrelado.
(O Doido e a Morte, de Raul Brandão, citado por Carlos de Oliveira)
quarta-feira, setembro 12, 2007
segunda-feira, setembro 03, 2007
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