Comecemos então o rescaldo dos poetas que participaram no Festival Tordesilhas com o brasileiro Glauco Mattoso, o pseudónimo de Pedro José Ferreira da Silva. É sempre bonito começar pela velha guarda paulistana e, neste caso, por uma das vozes mais irreverentes da produção poética brasileira da segunda metade do passado século. Não sei bem porquê, mas o seu intenso fetiche por pés e o facto de cultivar obsessivamente o soneto fazem-me querer conhecê-lo cada vez mais. Estive tentadíssimo a incluir aqui um soneto seu dedicado à adolescente Dolores, "uma ninfômana precoce". Mas decido reproduzir, em jeito de apresentação do autor, o seu "Soneto Ensaístico". Nele o poeta cego dá-se a conhecer num registo auto-reflexivo admirável. Já sabem o que fazer a seguir a isto: explorar a web e conhecer o resto da sua vasta obra:
Chamemo-la de fase iconoclasta,
à minha poesia antes de cego.
Pintei, bordei. Porém não a renego.
Forçou-me a invalidez a dar um basta.
A nova não é casta, nem contrasta
com velhas anarquias. Só me entrego
ao pé, onde em soneto a língua esfrego.
Chamemo-la de fase podorasta.
Mas nem por isso é menos transgressiva.
Impõe-se um paradoxo na medida
da forma e da temática obsessiva:
Na universalidade presumida,
Igualo-me a Bocage, Botto e Piva.
Ao cego, o feio é belo, e a dor é vida.




