quarta-feira, novembro 14, 2007

Glauco Mattoso

Comecemos então o rescaldo dos poetas que participaram no Festival Tordesilhas com o brasileiro Glauco Mattoso, o pseudónimo de Pedro José Ferreira da Silva. É sempre bonito começar pela velha guarda paulistana e, neste caso, por uma das vozes mais irreverentes da produção poética brasileira da segunda metade do passado século. Não sei bem porquê, mas o seu intenso fetiche por pés e o facto de cultivar obsessivamente o soneto fazem-me querer conhecê-lo cada vez mais. Estive tentadíssimo a incluir aqui um soneto seu dedicado à adolescente Dolores, "uma ninfômana precoce". Mas decido reproduzir, em jeito de apresentação do autor, o seu "Soneto Ensaístico". Nele o poeta cego dá-se a conhecer num registo auto-reflexivo admirável. Já sabem o que fazer a seguir a isto: explorar a web e conhecer o resto da sua vasta obra:


Chamemo-la de fase iconoclasta,
à minha poesia antes de cego.
Pintei, bordei. Porém não a renego.
Forçou-me a invalidez a dar um basta.

A nova não é casta, nem contrasta
com velhas anarquias. Só me entrego
ao pé, onde em soneto a língua esfrego.
Chamemo-la de fase podorasta.

Mas nem por isso é menos transgressiva.
Impõe-se um paradoxo na medida
da forma e da temática obsessiva:

Na universalidade presumida,
Igualo-me a Bocage, Botto e Piva.
Ao cego, o feio é belo, e a dor é vida.

segunda-feira, novembro 12, 2007

De regresso, ainda com o Festival Tordesilhas na cabeça e no corpo...



Terminou no passado dia 4 em São Paulo a primeira edição do Tordesilhas, Festival de Poesia Ibero-Americana. Decidi ficar mais uma semana em São Paulo após o festival e só regressei hoje, há poucas horas. Como devem imaginar, foi um regresso difícil. Aliás, penso que nem sequer conseguem imaginar perfeitamente. Na verdade, o que me apetecia agora era começar a confessar aqui tudo aquilo que pessoalmente representou para mim ter estado em São Paulo estas duas últimas semanas. Mas estes quartos andam carentes de alguma claridade, e nem eu próprio tenho por vezes resistência emocional para a escuridão de alguns dias. Por isso quero que saibam, e daí o motivo deste texto estranhamente directo e directamente dirigido, que irei dedicar os próximos tempos a fazer um rescaldo detalhado de boa parte dos cinquenta poetas ibero-americanos que tive o priviégio de conhecer em São Paulo, numa orgia de poesia e boas energias que se estendeu durante uma semana. Como é óbvio, tentarei divulgar o que foi o festival através de outras iniciativas, das quais darei conta em seu tempo. Também a secção de links terá de sofrer alterações sérias. Escrevo estas coisas porque sinto que o Festival Tordesilhas representou um ponto de viragem na minha percepção da poesia de línguas ibero-americanas. Consequentemente, também os quartos escuros prestarão maior atenção a tudo o que foi conquistado estes últimos dias no Brasil. O Atlântico ficou mais pequeno e o festival em si foi apenas o início de uma viagem que promete prolongar-se indefinidamente. Entretanto vamos matando aos poucos o desconhecimento que tanto nos faz mal.

quarta-feira, novembro 07, 2007

sampa

reformulando uma frase que por aqui ouvi do jovem poeta nícollas ranieri (esse monstro!), devo confessar que para mim o festival tordesilhas é bem como a avenida paulista: começa no paraíso e acaba na consolação. o paraiso foi todo o festival. a consolação serão os bons livros e memórias que trarei comigo de volta. meu deus, que vontade louca de ficar mais tempo...

domingo, outubro 28, 2007

em são paulo...

... a destruir a linha de tordesilhas

segunda-feira, outubro 22, 2007

cultura: a nossa ilusão preferida

(...) la culture est avant tout une illusion, comme le pensait Freud de la religion! Une illusion qui donne Shakespeare et Montaigne, ce qui n'est pas rien! La culture est souvent l'expression d'un désir refoulé, sublimé, et il faut la distinguer de la realité sociale. Mais les deux interagissent. Bientôt, les amoureux voudront vivre leur passion à la maniére des personnages de Racine et de Shakespeare.

Jacque Le Goff, "Le sentiment, aussi", in La plus belle histoire de l'amour

quarta-feira, outubro 17, 2007

Fim de semana


E foi num desses momentos de auto-análise mais ponderada, numa dessas alturas em que o sentimento intenso dá lugar a um lampejo de razão clarividente, que ela concluiu como se tornara com o tempo dependente das suas visitas de fim de semana. Não que estivesse irremediavelmente apaixonada por ele ou sequer lhe fizesse imensa falta a sua constante atenção e companhia. Mas a verdade é que o fim de semana sem um telefonema seu, sem uma qualquer combinação para café, passeio ou teatro, afigurava-se-lhe profundamente violento. Tanto que a própria semana, aí a partir de quarta-feira, ou mesmo terça pela noite, tornara-se para ela um triste e doentio período de preparação para o ainda longínquo fim de semana. Uma vez que durante a semana de trabalho era impensável para ele deslocar-se a vê-la (assim o dizia ele, "impensável, minha querida"), passava ela os solitários serões a congeminar como seria o sábado ou a tarde domingueira. Não, não estava apaixonada, ou mortinha de amores, como lhe sugerira a madrinha numa conversa em que ela revelara à velhota a nova amizade que travara. Mas a verdade é que criara uma dependência, e isso com certeza não podia ser positivo.
Nesse sábado ele viria a casa dela, viria a buscá-la para um passeio de automóvel, talvez tivessem ainda tempo para lanchar do outro lado da serrania. Ela estava já à porta, mais que pronta, faltavam ainda quase dez minutos para a hora marcada. Sim, é verdade, é realmente quando se está de pé, quando se caminha um pouco de um lado para o outro, que a cabeça aclara as ideias e espírito consegue gozar dos chamados momentos de discernimento. Fora então que tomara súbita consciência do vício contraído, e o vício era ele, ele ao fim de semana, ele com ela, ou melhor, o contrário de ela sem ele, sem alguém que fosse, como aliás tinha sido a sua penosa existência até então. Daí ter percebido que havia uma escolha terrível a fazer, uma escolha a materializar em palavras, o que era quase sempre certíssima garantia de as coisas não correrem pelo melhor. Na verdade a escolha, apesar de difícil, deveria ser feita entre apenas duas opções possíveis: deixar de vê-lo, privar-se para sempre da sua companhia e, na medida das suas forças, procurar ultrapassar a áspera crise de privação que se previa, ou então confessar-lhe tudo o que lhe ia no peito, agarrar-lhe as mãos, o corpo se fosse preciso, e dizer-lhe, baixo, com a voz da raposa ardilosa, leva-me contigo, leva-me que sem ti não suporto mais ser.

quinta-feira, outubro 11, 2007

Tordesilhas – Festival Ibero-Americano de Poesia Contemporânea


O “Tordesilhas – Festival Ibero-Americano de Poesia Contemporânea” é um evento literário que pretende apresentar e discutir a produção recente de poesia na América Latina e Península Ibérica. A proposta do festival, “Desconstruindo a Linha de Tordesilhas”, expressa a busca de novos diálogos e acordos entre poetas de língua portuguesa e espanhola nestes países.

O TORDESILHAS reunirá poetas de diversas partes do Brasil, América Latina, Portugal e Espanha, cujo trabalho é representativo e de destaque internacional, além de académicos, críticos e editores de poesia interessados na temática íbero-americana. De Portugal viajarão Luís Serguilha e João Miguel Henriques.

O festival terá lugar no período de 30 de Outubro a 4 de Novembro de 2007, em São Paulo, na Caixa Cultural, e também no Instituto Cervantes e no Espaço Parlapatões da Praça Roosevelt.

terça-feira, outubro 09, 2007

A uma senhora não muito boa mas que ainda assim despertou no poeta certo desejo

ai, o espanto todo, o espanto imenso
de perceber que bem te quero, e como, e tanto
que ardo hoje com igualíssimo tamanho
que ardia ontem, e amanhã, e quase sempre
e por tu não me quereres assim agora
como eu te quero em toda a vária hora
prossigo ardendo por ti constantemente
que o fogo é o espanto imenso de querer-te
e o tu não me quereres como eu, senhora
é outro fogo todo atiçado, cruel e lento

domingo, setembro 23, 2007

Referência bibliográfica preferida

TEIXEIRA, Ramiro, Neo-Realismo, Alves Redol e seus reflexos, Porto, Grupo Desportivo dos Empregados do Banco Borges & Irmão, 1981.

quarta-feira, setembro 19, 2007

Iucatão

o iucatão seria em mim uma ilha
não mais privada dos rodeios de água
por qualquer infame língua de terra

passaria a trazer o meu nome do meio
e do seu barro nasceriam impérios fundos
(a ilha vagueia pela água anunciando
a tua chegada)

de uma peninsular natureza
não restaria mais que um sonho feio.
para isso erigiu o pai a casa dos proscritos:
nela se punem hoje os delitos de memória
e acomodam-se quantos suspiram ainda
pelo tempo antes do nome novo

sexta-feira, setembro 14, 2007

A vida, o sonho

Tenho de suprimir esta ninharia da vida. Estas duas coisas não podem mais coabitar - esta estupidez e este sonho dorido e imenso, o grotesco de todos os dias, quando do outro lado galopa e passa uma coisa sôfrega e imensa. Tu não te podes chamar Baltazar Moscoso, e ao mesmo tempo existir o céu estrelado.
(O Doido e a Morte, de Raul Brandão, citado por Carlos de Oliveira)

segunda-feira, setembro 03, 2007

sexta-feira, julho 20, 2007

vejo as árvores despidas de folhas
carregadas de ninhos e pássaros:
coisas magras
de bico torto
arrumadas em rolos de palha
e montinhos de ramos secos

assim se vê quando é altura de ir embora
de rumar para algum outro lugar
quando das árvores não há mais que esperar
do que aves esfomeadas
e ninhos frios e vazios,
bicos sem forma ou feitio
cantando noite e dia
tragédias inomináveis

segunda-feira, julho 09, 2007

Três Verdades Universais

1. "Pêssego" é a melhor metáfora para cona.
2. "Jornalistas" é uma grande série portuguesa de ficção
3. "Serenata de Amor" é um bombom bastante agradável.

sábado, julho 07, 2007


Aquela abnegada tia-avó era realmente a excepção numa família que há gerações instituíra a tradição de preferir o advérbio "relativamente" à locução "mais ou menos", tão gasta e abusada pela vulgar populaça. Isso fazia com que, no convívio com ela, as pessoas evitassem fazer-lhe verdadeiras perguntas, em relação às quais não pudessem prever com acuidade a resposta evidente, preferindo apenas interpelar a anciã sempre que o risco de um "mais ou menos" parecia efectivamente reduzido.