domingo, setembro 23, 2007

Referência bibliográfica preferida

TEIXEIRA, Ramiro, Neo-Realismo, Alves Redol e seus reflexos, Porto, Grupo Desportivo dos Empregados do Banco Borges & Irmão, 1981.

quarta-feira, setembro 19, 2007

Iucatão

o iucatão seria em mim uma ilha
não mais privada dos rodeios de água
por qualquer infame língua de terra

passaria a trazer o meu nome do meio
e do seu barro nasceriam impérios fundos
(a ilha vagueia pela água anunciando
a tua chegada)

de uma peninsular natureza
não restaria mais que um sonho feio.
para isso erigiu o pai a casa dos proscritos:
nela se punem hoje os delitos de memória
e acomodam-se quantos suspiram ainda
pelo tempo antes do nome novo

sexta-feira, setembro 14, 2007

A vida, o sonho

Tenho de suprimir esta ninharia da vida. Estas duas coisas não podem mais coabitar - esta estupidez e este sonho dorido e imenso, o grotesco de todos os dias, quando do outro lado galopa e passa uma coisa sôfrega e imensa. Tu não te podes chamar Baltazar Moscoso, e ao mesmo tempo existir o céu estrelado.
(O Doido e a Morte, de Raul Brandão, citado por Carlos de Oliveira)

segunda-feira, setembro 03, 2007

sexta-feira, julho 20, 2007

vejo as árvores despidas de folhas
carregadas de ninhos e pássaros:
coisas magras
de bico torto
arrumadas em rolos de palha
e montinhos de ramos secos

assim se vê quando é altura de ir embora
de rumar para algum outro lugar
quando das árvores não há mais que esperar
do que aves esfomeadas
e ninhos frios e vazios,
bicos sem forma ou feitio
cantando noite e dia
tragédias inomináveis

segunda-feira, julho 09, 2007

Três Verdades Universais

1. "Pêssego" é a melhor metáfora para cona.
2. "Jornalistas" é uma grande série portuguesa de ficção
3. "Serenata de Amor" é um bombom bastante agradável.

sábado, julho 07, 2007


Aquela abnegada tia-avó era realmente a excepção numa família que há gerações instituíra a tradição de preferir o advérbio "relativamente" à locução "mais ou menos", tão gasta e abusada pela vulgar populaça. Isso fazia com que, no convívio com ela, as pessoas evitassem fazer-lhe verdadeiras perguntas, em relação às quais não pudessem prever com acuidade a resposta evidente, preferindo apenas interpelar a anciã sempre que o risco de um "mais ou menos" parecia efectivamente reduzido.

quinta-feira, junho 28, 2007

Perigosa



ai mas ela é muito perigosa
não vás rapaz nas suas cantigas
há-de parecer-te simpática
a conversa será agradável
hás-de rir-te enfim um bom bocado
mas à noite rapaz pela calada
irá cravar-te perigosíssima
o salto agulha no peito imberbe
e golpear-te a face com as garras de fera
não hás-de morrer seguramente
mas bem vistas as coisas rapaz
tudo isto aleija um pouco

quarta-feira, junho 20, 2007


A casa antiga. Falara muitas vezes nos seus poemas de uma casa como aquela. Passara já inúmeras vezes naquela rua, mas só agora reparava que a casa dos seus versos afinal existia mesmo. Estava ali cada contorno imaginado, pedra por pedra, conforme lhe havia ditado o correr da pena. Colocou também a hipótese de a casa ter apenas aparecido aos seus olhos por influência da própria escrita. Nesse caso teria a casa antiga uma natureza comum à de todas as outras coisas que povoam o mundo dos homens: impossíveis de existir sem a linguagem parideira de coisas.

segunda-feira, junho 18, 2007

Na verdade, ela estava a pensar era nas pobrezas do ser humano. Não obviamente nas pobrezas materiais, mas sim em tudo aquilo que torna o homem sempre tão inferior à condição almejada. A mentira, o egoísmo, o desejo...

domingo, junho 17, 2007



Naquele tempo os médicos não haviam ainda descoberto a causa da sua constante fadiga. Daí que tamanha lassidão de membros e evidente peso de olhos fossem amiúde confundidos por um descarado estado de embriaguez, acusação à qual ele apenas conseguia responder com gemidos imperceptíveis.

domingo, maio 20, 2007

Ensaio para Medeia

Inicia-se hoje uma rubrica de filmes (alguns de produção própria), finda a qual acredita-se poderem ser iluminados os grandes mistérios da existência humana. Agradecem-se comentários.

quarta-feira, maio 16, 2007

5.000

São cinco mil as visitas aos quartos escuros desde que foi instalado o contador. Já dava para encher o velhinho campo António Coimbra da Mota. À conta disso, acho que vou abrir aquela garrafa de Aldeia Velha que tenho ali.

quinta-feira, maio 03, 2007

A mulher de Poznan

Pus-me para aqui a pensar na mulher de Poznan. Faço-o muitas vezes nos dias que correm. Concluí que não se trata de qualquer espécie de transferência, processo mental do qual aliás já fui acusado. Segundo creio, não é a mulher de Poznan uma qualquer substituição. É sim, e não apenas, alguém que me falou dos invernos rigorosos. "Metro e meio de neve por todo o lado. Já não há invernos assim". A mulher de ancas admiráveis. Nela busco a ajuda para achar o caminho para casa.