sexta-feira, julho 20, 2007

vejo as árvores despidas de folhas
carregadas de ninhos e pássaros:
coisas magras
de bico torto
arrumadas em rolos de palha
e montinhos de ramos secos

assim se vê quando é altura de ir embora
de rumar para algum outro lugar
quando das árvores não há mais que esperar
do que aves esfomeadas
e ninhos frios e vazios,
bicos sem forma ou feitio
cantando noite e dia
tragédias inomináveis

segunda-feira, julho 09, 2007

Três Verdades Universais

1. "Pêssego" é a melhor metáfora para cona.
2. "Jornalistas" é uma grande série portuguesa de ficção
3. "Serenata de Amor" é um bombom bastante agradável.

sábado, julho 07, 2007


Aquela abnegada tia-avó era realmente a excepção numa família que há gerações instituíra a tradição de preferir o advérbio "relativamente" à locução "mais ou menos", tão gasta e abusada pela vulgar populaça. Isso fazia com que, no convívio com ela, as pessoas evitassem fazer-lhe verdadeiras perguntas, em relação às quais não pudessem prever com acuidade a resposta evidente, preferindo apenas interpelar a anciã sempre que o risco de um "mais ou menos" parecia efectivamente reduzido.

quinta-feira, junho 28, 2007

Perigosa



ai mas ela é muito perigosa
não vás rapaz nas suas cantigas
há-de parecer-te simpática
a conversa será agradável
hás-de rir-te enfim um bom bocado
mas à noite rapaz pela calada
irá cravar-te perigosíssima
o salto agulha no peito imberbe
e golpear-te a face com as garras de fera
não hás-de morrer seguramente
mas bem vistas as coisas rapaz
tudo isto aleija um pouco

quarta-feira, junho 20, 2007


A casa antiga. Falara muitas vezes nos seus poemas de uma casa como aquela. Passara já inúmeras vezes naquela rua, mas só agora reparava que a casa dos seus versos afinal existia mesmo. Estava ali cada contorno imaginado, pedra por pedra, conforme lhe havia ditado o correr da pena. Colocou também a hipótese de a casa ter apenas aparecido aos seus olhos por influência da própria escrita. Nesse caso teria a casa antiga uma natureza comum à de todas as outras coisas que povoam o mundo dos homens: impossíveis de existir sem a linguagem parideira de coisas.

segunda-feira, junho 18, 2007

Na verdade, ela estava a pensar era nas pobrezas do ser humano. Não obviamente nas pobrezas materiais, mas sim em tudo aquilo que torna o homem sempre tão inferior à condição almejada. A mentira, o egoísmo, o desejo...

domingo, junho 17, 2007



Naquele tempo os médicos não haviam ainda descoberto a causa da sua constante fadiga. Daí que tamanha lassidão de membros e evidente peso de olhos fossem amiúde confundidos por um descarado estado de embriaguez, acusação à qual ele apenas conseguia responder com gemidos imperceptíveis.

domingo, maio 20, 2007

Ensaio para Medeia

Inicia-se hoje uma rubrica de filmes (alguns de produção própria), finda a qual acredita-se poderem ser iluminados os grandes mistérios da existência humana. Agradecem-se comentários.

quarta-feira, maio 16, 2007

5.000

São cinco mil as visitas aos quartos escuros desde que foi instalado o contador. Já dava para encher o velhinho campo António Coimbra da Mota. À conta disso, acho que vou abrir aquela garrafa de Aldeia Velha que tenho ali.

quinta-feira, maio 03, 2007

A mulher de Poznan

Pus-me para aqui a pensar na mulher de Poznan. Faço-o muitas vezes nos dias que correm. Concluí que não se trata de qualquer espécie de transferência, processo mental do qual aliás já fui acusado. Segundo creio, não é a mulher de Poznan uma qualquer substituição. É sim, e não apenas, alguém que me falou dos invernos rigorosos. "Metro e meio de neve por todo o lado. Já não há invernos assim". A mulher de ancas admiráveis. Nela busco a ajuda para achar o caminho para casa.

segunda-feira, abril 23, 2007

Euston Road / Leather Lane

eis-me o poeta na biblioteca.
a cidade prospera, e os seus mercados
são passagens para o corpo e os meus versos.
aqui moram os livros em galerias.
na biblioteca tingida de sangue
a cidade recorda as origens perfeitas.
os homens de letras relembram o século,
e o poeta tingido de sangue
arrasta o corpo e os versos
pelo mercado farto de livros

domingo, abril 15, 2007

Os desastres da vida humana

Thomas Lang, o herói do romance policial The Gun Seller, de Hugh Laurie, reflecte sobre os infortúnios da existência do homem na terra:


(...) what does it mean to say that things aren't going well? Compared to what? You can say: compared to how things were going a couple of hours ago, or a couple of years ago. But that's not the point. If two cars are speeding towards a brick wall with no brakes, and one car hits the wall moments before the other, you can't spend those moments saying that the second car is much better off than the first.
Death and disaster are at our shoulders every second of our lives, trying to get at us. Missing, a lot of the time. A lot of miles on the motorway without a front whell blow-out. A lot of viruses that slither through our bodies without snagging. A lot of pianos that fall a minute after we've passed. Or a month, it makes no difference.
So unless we're going to get down on our knees and give thanks every time disaster misses, it makes no sense to moan when it strikes. Us, or anyone else. Because we're not comparing it with anything.
And anyway, we're all dead, or never born, and the whole thing really is a dream.

sexta-feira, abril 13, 2007

Ele

Ele olha para mim como se estivesse ao corrente dos últimos desenvolvimentos. Como se me conhecesse intimamente e, ao olhar-me, se interrogasse como ando eu a reagir ao que me aconteceu recentemente. Não, não se trata de um simples bom-dia acompanhado de um sorriso simpático. Aquilo é sim um olhar perscrutador, uma tentativa de avaliação. Claro que eu não lhe levo a mal. De todo. Apenas me pergunto como terá ele sabido de tanta coisa. Não nos movemos nas mesmas esferas, se bem que consigo perceber o caminho de ligação que o terá conduzido a um conhecimento, ainda que indirecto, da minha pessoa. Vá, continua a olhar-me. Vê lá se consegues ler-me a alma nos olhos.

segunda-feira, março 26, 2007

A hora da sensação verdadeira

Keuschnig estava em frente da porta da casa, e como não sabia como se havia de comportar e qual a sequência dos seus actos sentiu-se mal. Não compreendia como é que tinha encontrado todos os dias o caminho para casa, que não tivesse desaparecido no caminho. Porque é que ainda hoje no metro segurara na mão, com cuidado, a chave da casa? É preciso que ensaie em pensamentos o que tenho de fazer de seguida, pensou ele. De qualquer modo, tinha primeiro de pôr a pasta no bengaleiro. Era então de esperar (...) que a criança fosse a primeira a vir ao seu encontro e que o pudesse proteger dos outros. Se a criança não aparecesse (porque já estava a dormir), então assumiria o mais rapidamente possível no bengaleiro a cara conveniente e (...) apareceria às pessoas sem movimentos desnecessários. Não esperava nada, não se alegrava com ninguém. Quanto mais se aproximava delas, menos coisas em comum tinha com elas. Quando dava a volta à chave, a princípio de propósito na direcção errada, teve a impressão de se movimentar em direcção a hieróglifos há muito gravados na pedra e tornados ilegíveis para ele. Logo de seguida iria ter de ouvir a pergunta: «Então como vais?», e nem sequer podia, de imediato, ripostar. Mexeu o queixo de um lado para o outro e relaxou-se; sorriu antecipadamente para ao menos ter uma semelhança flagrante consigo próprio.
Peter Handke, A Hora da Sensação Verdadeira (Difel)

quarta-feira, março 21, 2007

Geologia



não chegámos a visitar o museu de geologia
conforme largamente planeado
em certa fase das nossas vidas

a tragédia deste fracasso é evidente:
tu jamais saberás das gemas preciosas
e eu não mais saberei distinguir
a ganga da matéria prima