sexta-feira, abril 13, 2007

Ele

Ele olha para mim como se estivesse ao corrente dos últimos desenvolvimentos. Como se me conhecesse intimamente e, ao olhar-me, se interrogasse como ando eu a reagir ao que me aconteceu recentemente. Não, não se trata de um simples bom-dia acompanhado de um sorriso simpático. Aquilo é sim um olhar perscrutador, uma tentativa de avaliação. Claro que eu não lhe levo a mal. De todo. Apenas me pergunto como terá ele sabido de tanta coisa. Não nos movemos nas mesmas esferas, se bem que consigo perceber o caminho de ligação que o terá conduzido a um conhecimento, ainda que indirecto, da minha pessoa. Vá, continua a olhar-me. Vê lá se consegues ler-me a alma nos olhos.

segunda-feira, março 26, 2007

A hora da sensação verdadeira

Keuschnig estava em frente da porta da casa, e como não sabia como se havia de comportar e qual a sequência dos seus actos sentiu-se mal. Não compreendia como é que tinha encontrado todos os dias o caminho para casa, que não tivesse desaparecido no caminho. Porque é que ainda hoje no metro segurara na mão, com cuidado, a chave da casa? É preciso que ensaie em pensamentos o que tenho de fazer de seguida, pensou ele. De qualquer modo, tinha primeiro de pôr a pasta no bengaleiro. Era então de esperar (...) que a criança fosse a primeira a vir ao seu encontro e que o pudesse proteger dos outros. Se a criança não aparecesse (porque já estava a dormir), então assumiria o mais rapidamente possível no bengaleiro a cara conveniente e (...) apareceria às pessoas sem movimentos desnecessários. Não esperava nada, não se alegrava com ninguém. Quanto mais se aproximava delas, menos coisas em comum tinha com elas. Quando dava a volta à chave, a princípio de propósito na direcção errada, teve a impressão de se movimentar em direcção a hieróglifos há muito gravados na pedra e tornados ilegíveis para ele. Logo de seguida iria ter de ouvir a pergunta: «Então como vais?», e nem sequer podia, de imediato, ripostar. Mexeu o queixo de um lado para o outro e relaxou-se; sorriu antecipadamente para ao menos ter uma semelhança flagrante consigo próprio.
Peter Handke, A Hora da Sensação Verdadeira (Difel)

quarta-feira, março 21, 2007

Geologia



não chegámos a visitar o museu de geologia
conforme largamente planeado
em certa fase das nossas vidas

a tragédia deste fracasso é evidente:
tu jamais saberás das gemas preciosas
e eu não mais saberei distinguir
a ganga da matéria prima

sábado, março 10, 2007

e ao chegar a estação do abandono
a prematura luz da manhã fria
tu pedias, arde
arde hoje imenso
o tempo urge

eu hesitava
tremendo
e perguntava
quem depois cuidará das minhas cinzas?

domingo, março 04, 2007

Dos sentimentos

Venho por este meio, sem grande ironia, agradecer às mulheres em geral e às da minha vida em particular pelos ensinamentos inestimáveis acerca do assunto referido em título. Se não fossem seres tão estranhos eu até as levava a sério.

quinta-feira, fevereiro 15, 2007

uma sombra

será que ela existiu,
terá respirado sobre o meu ombro
essa sombra radiosa?

encontro dela,
revistos os dias,
indícios e pegadas

ainda as gotas simples
na palma da mão tranquila

mas como se sabe tão bem
pouco tende a restar
de uma sombra prenhe de fogo

tão somente
um límpido legado:
a duríssima lição
dos finais irreversíveis

sábado, fevereiro 10, 2007

o dia negro
atordoante
entrou hoje pela janela do meu quarto

agora sim
e para sempre
estou imerso neste quarto fundo e escuro

quarta-feira, janeiro 31, 2007

Jane Johnstone Schoolcraft


Não conhecia o nome de Jane Johnstone Schoolcraft, mas fiquei a conhecer hoje. É a mais antiga escritora americana índia de que se tem conhecimento, e o seu nome nativo significa qualquer coisa como "som das estrelas a correr pelo céu".

Acerca da sua obra temos o estudo de Robert Dale Parker, precisamente com o título The Sound the Stars Make Rushing Through the Sky (University of Pennsylvania, 2007).

Eis um excerto em inglês do seu poema Song for a Lover Killed in Battle:

Oh how can I sing the praise of my love! His spirit still lingers
around me. The grass that is growing over his bed of earth is yet
too low; its sighs cannot be heard upon the wind.

Oh he was beautiful!
Oh he was brave!

I must not break the silence of this still retreat; nor waste the
time in song, when his spirit still whispers to mine. I hear it in the
sounds of the newly budded leaves. It tells me that he yet lingers
near me, and that he loves me the same in death, though the
yellow sand lies over him.

Whisper, spirit,
Whisper to me.

I shall sing when the grass will answer my plaint; when its sighs
will respond to my moan. There my voice shall be heard in his
praise.

Linger, lover! linger
Stay, spirit! stay.

quinta-feira, janeiro 18, 2007

Um desaparecimento

O detective Sam Spade, personagem criado por Dashiell Hammett, explica as razões do desaparecimento de Mr. Flintcroft, homem convencional e prendado chefe de família:
Here's what happened to him. Going to lunch he passed an office-building that was being put up - just the skeleton. A beam or something fell eight or ten stories down and smacked the sidewalk along side him. It brushed pretty close to him, but didn't touch him, though a piece of sidewalk was chipped off and flew up and hit his cheek. It only took a piece of skin off, but he still had the scar when I saw him. He rubbed it with his fingers - well, affectionately - when he told me about it. He was scared stiff of course, he said, but he was more shocked than really frightened. He felt like somebody had taken the lid off his life and let him look at the works.
Flitcraft had been a good citizen and a good husband and father, not by any outer compulsion, but simply because he was a man who was most comfortable in step with his surroundings. He had been raised that way. The people he knew were like that. The life he knew was a clean orderly sane responsible affair. Now a falling beam had shown him that life was fundamentally none of these things. He, the good citizen-husband-father, could be wiped out between office and restaurant by the accident of a falling beam. He knew then that men died at haphazard like that, and lived only while blind chance spared them.
It was not, primarily, the injustice of it that disturbed him: he accepted that after the first shock. What disturbed him was the discovery that in sensibly ordering his affairs he had got out of step, not into step, with life. He said he knew before he had got twenty feet from the fallen beam that he would never know peace again until he had adjusted himself to this new glimpse of life. By the time he had eaten his luncheon he had found his means of adjustment. Life could be ended for him at random by a falling beam: he would change his life at random by simply going away. He loved his family, he said, as much as he supposed was usual, but he knew he was leaving them adequately provided for, and his love for them was not of the sort that would make absence painful.
He went to Seattle that afternoon ... and from there by boat to San Francisco. For a couple of years he wandered around and then drifted back to the Northwest, and settled in Spokane and got married. His second wife didn't look like the first, but they were more alike than they were different. You know, the kind of women that play fair games of golf and bridge and like new salad-recipes. He wasn't sorry for what he had done. It seemed reasonable enough to him. I don't think he even knew he had settled back into the same groove he had jumped out of in Tacoma. But that's the part of it I always liked. He adjusted himself to beams falling, and then no more of them fell, and he adjusted himself to them not falling.

quinta-feira, janeiro 04, 2007

Conselho

se abominas imundos lavabos
e detestas
quando as sórdidas lajes
se colam ruidosas
às solas dos teus sapatos
então evita frequentar o restaurante outeiral
em campo de ourique
ao hospital inglês
como por certo evitas o descampado ermo
em tardes de fogo agudo
ou chuva forte

terça-feira, dezembro 12, 2006

Aniversário... com presente





É verdade, os Quartos Escuros fazem anos. Foi precisamente há três que abrimos a porta para lá entrar. E por lá fomos ficando a dizer e ouvir coisas. O escuro é mesmo o nosso lugar natural. E para a assinalar os três anos de idade, estamos a oferecer ao visitante exemplares de O Sopro da Tartaruga de João Miguel Henriques. Basta para isso deixar um comentário a esta entrada, indicando o nome, a morada e o número de exemplares pretendido (é para ler e oferecer aos amigos). Contamos vê-los aqui por muitos mais anos de escuridão.

quinta-feira, dezembro 07, 2006

A grande perplexidade

Em 1983, num breve texto introdutório a uma colectânea de ensaios seus, o filósofo George Steiner identificava retrospectivamente da seguinte forma aquele pesado paradoxo que acreditava ter em grande parte presidido a muita da sua reflexão em torno da literatura e da cultura em geral:

Even before I began writing, let alone reaching or publishing, it seemed to me that the problem of relations between culture and politics, between humane literacy and the politics of torture and mass-murder, was such as to put in question every aspect of the life of the mind. Educated in the classical framework of ‘the humanities’, feeling myself utterly drawn to the life of intellectual argument and the arts, of philosophy and poetics, I was confronted by an overwhelming, brutal paradox. The edifice of total warfare and of death-camps, of totalitarian torture and ‘the big lie’, has its base, had its contemporary triumphs, in the heart-lands of western culture. The spheres of Auschwitz-Birkenau and of the Beethoven recital, of the torture-cellar and the great library, were contiguous in space and time. Men could come home from their day’s butchery and falsehood to weep over Rilke or play Schubert.

E prossegue um pouco mais à frente:

How can a man ‘teach literature’ (itself a highly problematic concept), how can he engage the best of his capacities in the explication and transmission of philosophic or aesthetic values, if he does not seek to know what the effects, if any, will be on the quality and survival of society? How can scholarship and criticism be divorced from the crisis of the humane without, by this very divorcement, being reduced to academic trivia?

sexta-feira, novembro 24, 2006

árvore. homem

vi o homem deitado de borco nas lajes frias do largo antigo.
ali, em pleno centro histórico
onde há muitos e longos anos
segundo certo fotograma
crescia um plátano egoísta

repito:
ontem um plátano florescente
hoje um homem de borco, adormecido
por nossa imensa culpa

terça-feira, novembro 21, 2006

P.

Eu queria falar um pouco sobre P. Sobre a importância que ele tem na minha vida, apesar da sua existência me ser no fundo completamente indiferente. Ele é daquelas pessoas com especial pendor para a maledicência enquanto forma privilegiada de humor e entertenimento. Maledicência justificada, apontando este ou aquele aspecto merecedor de crítica, ou puramente ficcional, inventando histórias e lançando boatos vis. É certo que ele tem sempre uma certa graça. E também a noção fundamental de quando falar e na presença de quem fazer este ou aquele violentíssimo comentrário. Mas eu gosto de P. E gosto pelos mais fortes motivos. É que ao ser como é, maledicente e cruel, P. permite-me preservar uma certa e imaginada pureza de espírito. Ao ouvir como graceja dos outros, pleno de mordacidade, fico saciado de uma certa maldade que, sem P., teria eu próprio de tomar em mãos. De certo modo, é ele o potenciador de uma catarse que me é cara. A de violentar sem culpa, apenas enquanto cúmplice circunstancial, um pouco à margem (supostamente à margem) de tudo aquilo que P. vai alvitrando. Ele, o gigantesco maledicente que me vai escusando dos grandes pecados da alma.