se abominas imundos lavabos
e detestas
quando as sórdidas lajes
se colam ruidosas
às solas dos teus sapatos
então evita frequentar o restaurante outeiral
em campo de ourique
ao hospital inglês
como por certo evitas o descampado ermo
em tardes de fogo agudo
ou chuva forte
quinta-feira, janeiro 04, 2007
quinta-feira, dezembro 21, 2006
terça-feira, dezembro 12, 2006
Aniversário... com presente

É verdade, os Quartos Escuros fazem anos. Foi precisamente há três que abrimos a porta para lá entrar. E por lá fomos ficando a dizer e ouvir coisas. O escuro é mesmo o nosso lugar natural. E para a assinalar os três anos de idade, estamos a oferecer ao visitante exemplares de O Sopro da Tartaruga de João Miguel Henriques. Basta para isso deixar um comentário a esta entrada, indicando o nome, a morada e o número de exemplares pretendido (é para ler e oferecer aos amigos). Contamos vê-los aqui por muitos mais anos de escuridão.
quinta-feira, dezembro 07, 2006
A grande perplexidade
Em 1983, num breve texto introdutório a uma colectânea de ensaios seus, o filósofo George Steiner identificava retrospectivamente da seguinte forma aquele pesado paradoxo que acreditava ter em grande parte presidido a muita da sua reflexão em torno da literatura e da cultura em geral:
Even before I began writing, let alone reaching or publishing, it seemed to me that the problem of relations between culture and politics, between humane literacy and the politics of torture and mass-murder, was such as to put in question every aspect of the life of the mind. Educated in the classical framework of ‘the humanities’, feeling myself utterly drawn to the life of intellectual argument and the arts, of philosophy and poetics, I was confronted by an overwhelming, brutal paradox. The edifice of total warfare and of death-camps, of totalitarian torture and ‘the big lie’, has its base, had its contemporary triumphs, in the heart-lands of western culture. The spheres of Auschwitz-Birkenau and of the Beethoven recital, of the torture-cellar and the great library, were contiguous in space and time. Men could come home from their day’s butchery and falsehood to weep over Rilke or play Schubert.
E prossegue um pouco mais à frente:
How can a man ‘teach literature’ (itself a highly problematic concept), how can he engage the best of his capacities in the explication and transmission of philosophic or aesthetic values, if he does not seek to know what the effects, if any, will be on the quality and survival of society? How can scholarship and criticism be divorced from the crisis of the humane without, by this very divorcement, being reduced to academic trivia?
Even before I began writing, let alone reaching or publishing, it seemed to me that the problem of relations between culture and politics, between humane literacy and the politics of torture and mass-murder, was such as to put in question every aspect of the life of the mind. Educated in the classical framework of ‘the humanities’, feeling myself utterly drawn to the life of intellectual argument and the arts, of philosophy and poetics, I was confronted by an overwhelming, brutal paradox. The edifice of total warfare and of death-camps, of totalitarian torture and ‘the big lie’, has its base, had its contemporary triumphs, in the heart-lands of western culture. The spheres of Auschwitz-Birkenau and of the Beethoven recital, of the torture-cellar and the great library, were contiguous in space and time. Men could come home from their day’s butchery and falsehood to weep over Rilke or play Schubert.
E prossegue um pouco mais à frente:
How can a man ‘teach literature’ (itself a highly problematic concept), how can he engage the best of his capacities in the explication and transmission of philosophic or aesthetic values, if he does not seek to know what the effects, if any, will be on the quality and survival of society? How can scholarship and criticism be divorced from the crisis of the humane without, by this very divorcement, being reduced to academic trivia?
quarta-feira, novembro 29, 2006
sexta-feira, novembro 24, 2006
árvore. homem
vi o homem deitado de borco nas lajes frias do largo antigo.
ali, em pleno centro histórico
onde há muitos e longos anos
segundo certo fotograma
crescia um plátano egoísta
repito:
ontem um plátano florescente
hoje um homem de borco, adormecido
por nossa imensa culpa
ali, em pleno centro histórico
onde há muitos e longos anos
segundo certo fotograma
crescia um plátano egoísta
repito:
ontem um plátano florescente
hoje um homem de borco, adormecido
por nossa imensa culpa
terça-feira, novembro 21, 2006
P.
Eu queria falar um pouco sobre P. Sobre a importância que ele tem na minha vida, apesar da sua existência me ser no fundo completamente indiferente. Ele é daquelas pessoas com especial pendor para a maledicência enquanto forma privilegiada de humor e entertenimento. Maledicência justificada, apontando este ou aquele aspecto merecedor de crítica, ou puramente ficcional, inventando histórias e lançando boatos vis. É certo que ele tem sempre uma certa graça. E também a noção fundamental de quando falar e na presença de quem fazer este ou aquele violentíssimo comentrário. Mas eu gosto de P. E gosto pelos mais fortes motivos. É que ao ser como é, maledicente e cruel, P. permite-me preservar uma certa e imaginada pureza de espírito. Ao ouvir como graceja dos outros, pleno de mordacidade, fico saciado de uma certa maldade que, sem P., teria eu próprio de tomar em mãos. De certo modo, é ele o potenciador de uma catarse que me é cara. A de violentar sem culpa, apenas enquanto cúmplice circunstancial, um pouco à margem (supostamente à margem) de tudo aquilo que P. vai alvitrando. Ele, o gigantesco maledicente que me vai escusando dos grandes pecados da alma.
quarta-feira, novembro 15, 2006
segunda-feira, novembro 06, 2006
População mundial
No segundo romance de Jonathan Safran Foer, Extremely Loud & Incredibly Close, o pequeno narrador Oskar conta-nos que, pelo nono aniversário, recebeu da avó uma assinatura da revista National Geographic. Num dos números fica a saber que existem presentemente mais pessoas à face da terra do que as que morreram em toda a história da humanidade. Conclusão: «In other words, if everyone wanted to play Hamlet at once, they couldn't, because there aren't enough skulls!»
sexta-feira, novembro 03, 2006
Furto
terça-feira, outubro 24, 2006
J.

havia nos seus olhos uma luz funda
qualquer coisa de íntimo, para além das palavras.
ao princípio pensei ser a cor que assim flamejava.
por isso se diz olhos bonitos
julgava eu.
mas o brilho era outro:
um cansaço tranquilo e resignado
a ausência de esperança
um carinho tolerante
pela impunidade dos maiores crimes
coisas descontentes
que porém brilhavam
segunda-feira, outubro 16, 2006
Sven Hassel ilustrado
sexta-feira, outubro 13, 2006
Sven Hassel: mais um ano de oblívio

Como todos certamente já saberão, a Academia Sueca decidiu ontem atribuir o Prémio Nobel da Literatura 2006 ao turco Orhan Pamuk. Seguramente que este escritor, de quem nunca li nada, terá os seus méritos. Ninguém duvida disso. Mas enquanto a Academia vai distinguindo ano após ano esta ou aquela personalidade das letras, um nome continua a ser persistentemente esquecido: Sven Hassel. São duas palavrinhas sinónimo de genialidade literária ao nível do romance de guerra. Hassel, aqui com o seu célebre cão Granade e rodeado dos seus inúmeros best-sellers, é insuperável na narração de tensões bélicas e na descrição detalhada dos horrores do campo de batalha. A Segunda Guerra Mundial, na qual participou ao serviço do Eixo apesar da sua origem dinamarquesa, não tem para ele quaisquer segredos. Os mais de cinquenta (cinquenta!) milhões de exemplares vendidos em todo mundo (disponíveis em mais de uma dezena de línguas) atestam bem o folgo criador de Hassel. Em Portugal, a vetusta casa editorial Europa-América teve a visão de traduzir e publicar os romances pseudo-autobiográficos de Sven Hassel para o nosso país. O próprio titulo de algumas obras deixa já antever o puro génio que as largas páginas albergam. Em futuros posts procuraremos também reproduzir algumas das extraordinárias capas que, por todo o mundo, procuraram com sucesso fazer justiça à obra de Hassel. Entretanto, aqui fica uma lista completa dos livros em português por ordem cronológica de publicação no original:
Regimento da Morte
Os Carros do Inferno
Camaradas de Guerra
Batalhão de Choque
Gestapo
Monte Cassino
Destruam Paris
General SS
O Assalto a Varsóvia
Vi-os morrer
Conselho de Guerra
A Prisão de OGPU
O Comissário
segunda-feira, outubro 09, 2006
(sem título)
ele diz que as minhas palavras têm a justa medida
e o peso adequado que convém.
dizem o bastante, mais que isso seria já
demasiado (acrescenta)
sorrio, orgulhoso
visito pela noite
o grande mestre quantificador de palavras e sentidos.
mora dentro de mim
algures entre o peito, a cabeça
e a ponta dos dedos
tem uma balança minúscula
que preza acima de todas as coisas
dou-lhe os parabéns
óptimo trabalho, senhor
óptimo trabalho
e o peso adequado que convém.
dizem o bastante, mais que isso seria já
demasiado (acrescenta)
sorrio, orgulhoso
visito pela noite
o grande mestre quantificador de palavras e sentidos.
mora dentro de mim
algures entre o peito, a cabeça
e a ponta dos dedos
tem uma balança minúscula
que preza acima de todas as coisas
dou-lhe os parabéns
óptimo trabalho, senhor
óptimo trabalho
terça-feira, outubro 03, 2006
Uma mudança
A poucos meses de uma mudança que se prevê significativa, começo lentamente a preparar as alterações de hábitos que se impõem. Há que acompanhar uma mudança de vida com uma nova especificidade de posturas e atitudes para que a transição seja, mais do que uma penosa vaga que vá devagar roubando areia a uma praia pequena, um verdadeiro corte com o quotidiano transacto. Por isso começo já a adoptar aquilo que prevejo vir a ser um novo eu de uma nova existência. Vou passar a tomar bicas de perna cruzada, recostado na cadeira e não mais atento ao relógio, apressado e ansioso. O meu estilo será casual, ainda que arranjado e limpo, o suficiente para não destoar do meio envolvente, preservando ainda assim o que me distingue eventualmente dos demais. Vou também regressar ao verso de circunstância e procurar soluções para o tempo imperfeito enquanto recordação trágica de momentos fundamentais. Como vêem, estou a preparar o terreno exacto para o novo ciclo de um cultivo. Em certa medida, gostaria até de deixar de ser quem sou, caso pudesse preservar duas ou três coisinhas de que gosto imenso. Mas isso já são efabulações impossíveis.
sexta-feira, setembro 29, 2006
e.e. cummings, outra vez
Agora num maravilhoso poema sobre a guerra, datado de 1926 e intitulado "my sweet old etcetera". Enjoy!
my sweet old etcetera
aunt lucy during the recent
war could and what
is more did tell you just
what everybody was fighting
for,
my sister
isabel created hundreds
(and
hundreds) of socks not to
mention shirts fleaproof earwarmers
etcetera wristers etcetera, my
mother hoped that
i would die etcetera
bravely of course my father used
to become hoarse talking about how it was
a privilege and if only he
could meanwhile my
self etcetera lay quietly
in the deep mud et
cetera
(dreaming,
et
cetera, of
Your smile
eyes knees and of your Etcetera)
my sweet old etcetera
aunt lucy during the recent
war could and what
is more did tell you just
what everybody was fighting
for,
my sister
isabel created hundreds
(and
hundreds) of socks not to
mention shirts fleaproof earwarmers
etcetera wristers etcetera, my
mother hoped that
i would die etcetera
bravely of course my father used
to become hoarse talking about how it was
a privilege and if only he
could meanwhile my
self etcetera lay quietly
in the deep mud et
cetera
(dreaming,
et
cetera, of
Your smile
eyes knees and of your Etcetera)
quarta-feira, setembro 27, 2006
(?)
Após quase trinta anos, depois de inúmeras estações, umas a seguir às outras como manda a lei do tempo, uma questão permanece por esclarecer: como é capaz a cabeça de amar palavras impossíveis?
sexta-feira, setembro 15, 2006
Definição de filisteu
A Lula e a Baleia é um óptimo filme. Eis uma cena em que o egocêntrico pater familias Bernard (reparem no tom do "Come on. You have to try. It's no fun for me if you don't try") nos oferece a perfeita definição do que é um filisteu.
terça-feira, setembro 12, 2006
Mulher sentada
Todos os dias a encontro à porta do mesmo edifício. Sentada nos primeiros degraus da escadaria clássica, pertíssimo do passeio. É verdade que me pergunto o que a fará deslocar-se ali todos os dias e sentar-se invariavelmente no mesmo sítio. Mas a minha curiosidade prende-se mais com o insólito da situação do que propriamente com algum (inexistente, impossível) interesse que possa ter por ela. É feia. Não quero saber nada da sua vida, apenas me questiono para encher a cabeça vazia com alguma coisa de pensar. Sei que aquele é um edifício público, uma qualquer repartição judicial, por isso suspeito relacionar-se aquela permanente presença, ali sentada, com alguma opaca forma de protesto. Um protesto certamente misturado com certa quantidade de autoflagelação inconsciente. Do género: hei-de vir para aqui sentar-me todos os dias até me fazerem justiça, e: ai o que me havia de acontecer, aquilo até foi burrice minha, agora venho para aqui secar todos os dias para aprender a não ser parva.
É certo que todos os dias a encontro no mesmo sítio. Melhor dizendo, passo por ela. Vou sempre com alguma pressa. Sei que o motivo que ali a faz estar é bem mais complexo que o que me faz passar por ali (estou a caminho do trabalho). Mas por isso mesmo não desejo conhecê-la. Não quero perguntar-lhe nada. Receio o incómodo de uma intimidade que eu pudesse adquirir em relação ao seu "caso". Enoja-me profundamente a perspectiva de um qualquer mínimo conhecimento da sua infeliz situação. Passo por ela todos os dias. É a mulher sentada. Isso é mais que suficiente.
terça-feira, setembro 05, 2006
A lei. A palavra
trazes a lei à flor dos lábios.
nela cabem os termos que
imaginas perfeitos
para a ordenação dos sentidos
é a força da lei que evitas os dias.
sabe-los absurdos, e assim
recorres à legalidade do verbo
(fundamental proveniência)
para mostrares o teu desdém
trazes a lei na ponta dos dedos.
é à força da lei que contornas a morte
nela cabem os termos que
imaginas perfeitos
para a ordenação dos sentidos
é a força da lei que evitas os dias.
sabe-los absurdos, e assim
recorres à legalidade do verbo
(fundamental proveniência)
para mostrares o teu desdém
trazes a lei na ponta dos dedos.
é à força da lei que contornas a morte
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