quinta-feira, dezembro 07, 2006

A grande perplexidade

Em 1983, num breve texto introdutório a uma colectânea de ensaios seus, o filósofo George Steiner identificava retrospectivamente da seguinte forma aquele pesado paradoxo que acreditava ter em grande parte presidido a muita da sua reflexão em torno da literatura e da cultura em geral:

Even before I began writing, let alone reaching or publishing, it seemed to me that the problem of relations between culture and politics, between humane literacy and the politics of torture and mass-murder, was such as to put in question every aspect of the life of the mind. Educated in the classical framework of ‘the humanities’, feeling myself utterly drawn to the life of intellectual argument and the arts, of philosophy and poetics, I was confronted by an overwhelming, brutal paradox. The edifice of total warfare and of death-camps, of totalitarian torture and ‘the big lie’, has its base, had its contemporary triumphs, in the heart-lands of western culture. The spheres of Auschwitz-Birkenau and of the Beethoven recital, of the torture-cellar and the great library, were contiguous in space and time. Men could come home from their day’s butchery and falsehood to weep over Rilke or play Schubert.

E prossegue um pouco mais à frente:

How can a man ‘teach literature’ (itself a highly problematic concept), how can he engage the best of his capacities in the explication and transmission of philosophic or aesthetic values, if he does not seek to know what the effects, if any, will be on the quality and survival of society? How can scholarship and criticism be divorced from the crisis of the humane without, by this very divorcement, being reduced to academic trivia?

sexta-feira, novembro 24, 2006

árvore. homem

vi o homem deitado de borco nas lajes frias do largo antigo.
ali, em pleno centro histórico
onde há muitos e longos anos
segundo certo fotograma
crescia um plátano egoísta

repito:
ontem um plátano florescente
hoje um homem de borco, adormecido
por nossa imensa culpa

terça-feira, novembro 21, 2006

P.

Eu queria falar um pouco sobre P. Sobre a importância que ele tem na minha vida, apesar da sua existência me ser no fundo completamente indiferente. Ele é daquelas pessoas com especial pendor para a maledicência enquanto forma privilegiada de humor e entertenimento. Maledicência justificada, apontando este ou aquele aspecto merecedor de crítica, ou puramente ficcional, inventando histórias e lançando boatos vis. É certo que ele tem sempre uma certa graça. E também a noção fundamental de quando falar e na presença de quem fazer este ou aquele violentíssimo comentrário. Mas eu gosto de P. E gosto pelos mais fortes motivos. É que ao ser como é, maledicente e cruel, P. permite-me preservar uma certa e imaginada pureza de espírito. Ao ouvir como graceja dos outros, pleno de mordacidade, fico saciado de uma certa maldade que, sem P., teria eu próprio de tomar em mãos. De certo modo, é ele o potenciador de uma catarse que me é cara. A de violentar sem culpa, apenas enquanto cúmplice circunstancial, um pouco à margem (supostamente à margem) de tudo aquilo que P. vai alvitrando. Ele, o gigantesco maledicente que me vai escusando dos grandes pecados da alma.

segunda-feira, novembro 06, 2006

População mundial

No segundo romance de Jonathan Safran Foer, Extremely Loud & Incredibly Close, o pequeno narrador Oskar conta-nos que, pelo nono aniversário, recebeu da avó uma assinatura da revista National Geographic. Num dos números fica a saber que existem presentemente mais pessoas à face da terra do que as que morreram em toda a história da humanidade. Conclusão: «In other words, if everyone wanted to play Hamlet at once, they couldn't, because there aren't enough skulls!»

sexta-feira, novembro 03, 2006

Furto














em podendo, roubava
aquele chapéu de chuva
para não molhar a cabeça

imagino-me seco
depois do furto

daí o almejo

terça-feira, outubro 24, 2006

J.














havia nos seus olhos uma luz funda
qualquer coisa de íntimo, para além das palavras.
ao princípio pensei ser a cor que assim flamejava.
por isso se diz olhos bonitos
julgava eu.
mas o brilho era outro:

um cansaço tranquilo e resignado
a ausência de esperança
um carinho tolerante
pela impunidade dos maiores crimes
coisas descontentes
que porém brilhavam

segunda-feira, outubro 16, 2006

Sven Hassel ilustrado
























Conforme prometido na entrada anterior, eis aqui alguns exemplos de como, ao longo dos anos, ilustradores de todo o mundo procuraram fazer difícil justiça ao atroz mundo bélico recriado por Sven Hassel. Reparem na decomposição pejada de insectos retratada na capa de baixo. São obras-primas!

sexta-feira, outubro 13, 2006

Sven Hassel: mais um ano de oblívio



Como todos certamente já saberão, a Academia Sueca decidiu ontem atribuir o Prémio Nobel da Literatura 2006 ao turco Orhan Pamuk. Seguramente que este escritor, de quem nunca li nada, terá os seus méritos. Ninguém duvida disso. Mas enquanto a Academia vai distinguindo ano após ano esta ou aquela personalidade das letras, um nome continua a ser persistentemente esquecido: Sven Hassel. São duas palavrinhas sinónimo de genialidade literária ao nível do romance de guerra. Hassel, aqui com o seu célebre cão Granade e rodeado dos seus inúmeros best-sellers, é insuperável na narração de tensões bélicas e na descrição detalhada dos horrores do campo de batalha. A Segunda Guerra Mundial, na qual participou ao serviço do Eixo apesar da sua origem dinamarquesa, não tem para ele quaisquer segredos. Os mais de cinquenta (cinquenta!) milhões de exemplares vendidos em todo mundo (disponíveis em mais de uma dezena de línguas) atestam bem o folgo criador de Hassel. Em Portugal, a vetusta casa editorial Europa-América teve a visão de traduzir e publicar os romances pseudo-autobiográficos de Sven Hassel para o nosso país. O próprio titulo de algumas obras deixa já antever o puro génio que as largas páginas albergam. Em futuros posts procuraremos também reproduzir algumas das extraordinárias capas que, por todo o mundo, procuraram com sucesso fazer justiça à obra de Hassel. Entretanto, aqui fica uma lista completa dos livros em português por ordem cronológica de publicação no original:

Regimento da Morte
Os Carros do Inferno
Camaradas de Guerra
Batalhão de Choque
Gestapo
Monte Cassino
Destruam Paris
General SS
O Assalto a Varsóvia
Vi-os morrer
Esquecidos de Deus
Conselho de Guerra
A Prisão de OGPU
O Comissário

segunda-feira, outubro 09, 2006

(sem título)

ele diz que as minhas palavras têm a justa medida
e o peso adequado que convém.
dizem o bastante, mais que isso seria já
demasiado (acrescenta)

sorrio, orgulhoso

visito pela noite
o grande mestre quantificador de palavras e sentidos.
mora dentro de mim
algures entre o peito, a cabeça
e a ponta dos dedos

tem uma balança minúscula
que preza acima de todas as coisas

dou-lhe os parabéns

óptimo trabalho, senhor
óptimo trabalho

terça-feira, outubro 03, 2006

Uma mudança

A poucos meses de uma mudança que se prevê significativa, começo lentamente a preparar as alterações de hábitos que se impõem. Há que acompanhar uma mudança de vida com uma nova especificidade de posturas e atitudes para que a transição seja, mais do que uma penosa vaga que vá devagar roubando areia a uma praia pequena, um verdadeiro corte com o quotidiano transacto. Por isso começo já a adoptar aquilo que prevejo vir a ser um novo eu de uma nova existência. Vou passar a tomar bicas de perna cruzada, recostado na cadeira e não mais atento ao relógio, apressado e ansioso. O meu estilo será casual, ainda que arranjado e limpo, o suficiente para não destoar do meio envolvente, preservando ainda assim o que me distingue eventualmente dos demais. Vou também regressar ao verso de circunstância e procurar soluções para o tempo imperfeito enquanto recordação trágica de momentos fundamentais. Como vêem, estou a preparar o terreno exacto para o novo ciclo de um cultivo. Em certa medida, gostaria até de deixar de ser quem sou, caso pudesse preservar duas ou três coisinhas de que gosto imenso. Mas isso já são efabulações impossíveis.

sexta-feira, setembro 29, 2006

e.e. cummings, outra vez

Agora num maravilhoso poema sobre a guerra, datado de 1926 e intitulado "my sweet old etcetera". Enjoy!


my sweet old etcetera
aunt lucy during the recent

war could and what
is more did tell you just
what everybody was fighting

for,
my sister

isabel created hundreds
(and
hundreds) of socks not to
mention shirts fleaproof earwarmers

etcetera wristers etcetera, my

mother hoped that

i would die etcetera
bravely of course my father used
to become hoarse talking about how it was
a privilege and if only he
could meanwhile my

self etcetera lay quietly
in the deep mud et

cetera
(dreaming,
et
cetera, of
Your smile
eyes knees and of your Etcetera)

quarta-feira, setembro 27, 2006

(?)

Após quase trinta anos, depois de inúmeras estações, umas a seguir às outras como manda a lei do tempo, uma questão permanece por esclarecer: como é capaz a cabeça de amar palavras impossíveis?

sexta-feira, setembro 15, 2006

Definição de filisteu




A Lula e a Baleia é um óptimo filme. Eis uma cena em que o egocêntrico pater familias Bernard (reparem no tom do "Come on. You have to try. It's no fun for me if you don't try") nos oferece a perfeita definição do que é um filisteu.

terça-feira, setembro 12, 2006

Mulher sentada

Todos os dias a encontro à porta do mesmo edifício. Sentada nos primeiros degraus da escadaria clássica, pertíssimo do passeio. É verdade que me pergunto o que a fará deslocar-se ali todos os dias e sentar-se invariavelmente no mesmo sítio. Mas a minha curiosidade prende-se mais com o insólito da situação do que propriamente com algum (inexistente, impossível) interesse que possa ter por ela. É feia. Não quero saber nada da sua vida, apenas me questiono para encher a cabeça vazia com alguma coisa de pensar. Sei que aquele é um edifício público, uma qualquer repartição judicial, por isso suspeito relacionar-se aquela permanente presença, ali sentada, com alguma opaca forma de protesto. Um protesto certamente misturado com certa quantidade de autoflagelação inconsciente. Do género: hei-de vir para aqui sentar-me todos os dias até me fazerem justiça, e: ai o que me havia de acontecer, aquilo até foi burrice minha, agora venho para aqui secar todos os dias para aprender a não ser parva.
É certo que todos os dias a encontro no mesmo sítio. Melhor dizendo, passo por ela. Vou sempre com alguma pressa. Sei que o motivo que ali a faz estar é bem mais complexo que o que me faz passar por ali (estou a caminho do trabalho). Mas por isso mesmo não desejo conhecê-la. Não quero perguntar-lhe nada. Receio o incómodo de uma intimidade que eu pudesse adquirir em relação ao seu "caso". Enoja-me profundamente a perspectiva de um qualquer mínimo conhecimento da sua infeliz situação. Passo por ela todos os dias. É a mulher sentada. Isso é mais que suficiente.

terça-feira, setembro 05, 2006

A lei. A palavra

trazes a lei à flor dos lábios.
nela cabem os termos que
imaginas perfeitos
para a ordenação dos sentidos

é a força da lei que evitas os dias.
sabe-los absurdos, e assim
recorres à legalidade do verbo
(fundamental proveniência)
para mostrares o teu desdém

trazes a lei na ponta dos dedos.
é à força da lei que contornas a morte

quarta-feira, agosto 23, 2006

A apanha da amêndoa. Mito húngaro

Alguns dos mais antigos e interessantes mitos magiares estão associados ao trabalho do campo, podendo ser entendidos como espécie de paliativo perante as agruras do árduo quotidiano laboral. Um deles teve origem remota do trabalho da apanha da amêndoa, actividade também responsável por parte significativa do cancioneiro rural húngaro.
Perante uma amendoeira carregada, o trabalhador leva a cabo a colheita em três fases distintas. Primeiro deve posicionar-se de cócoras e revistar o solo em redor da árvore, à procura dos frutos já caídos. Numa segunda fase, de pé, o trabalhador colhe naturalmente as amêndoas ao alcance da mão, devendo prestar especial atenção aos ramos interiores onde, por manifesto mimetismo, se confundem as amêndoas com a folhagem. Finalmente há que colher os frutos dos ramos mais altos. Nesta instância é o trabalhador auxiliado pelo giosz, um engenhoso instrumento agrícola cuja competente utilização permitirá realizar o trabalho com sucesso. O giosz é um longo cabo de madeira, da altura de um indivíduo adulto, rematado por um saco de pano acoplado longitudinalmente à parte de cima do dito cabo. Com esta alfaia, o trabalhador procurará abanar as amêndoas mais altas de modo a que estas se desprendam dos seus caules maduros e caiam no dito saco.
A mitologia húngara conta a história do giosz estranhamente animado pelo vento nocturno, ganhando assim vida própria. Balouçando-se no ar com admirável destreza, o instrumento vagueia pelo céu da noite húngara, colhendo não as triviais amêndoas mas as estrelas mais brilhantes. É com elas que as moças enfeitarão os vestidos para a o dia do primeiro baile de aldeia.

terça-feira, agosto 01, 2006

Poetas antigos, versos desconhecidos (4)

Arrancámos amoras
da vereda.
O céu era um mundo aberto.
As nossas bocas estavam
tão vermelhas
e tão perto!


Carlos de Oliveira, Turismo

sexta-feira, julho 28, 2006

Uma suspeita

No meu íntimo, ainda que sem qualquer motivo sólido, eu pensava que ele pudesse ter morrido. Isso sem dúvida que explicaria a total ausência de notícias suas durantes aqueles dias. Como viria mais tarde a comprovar, não tinha esta suspeita qualquer cabimento, mas o certo é que na altura eu não possuía qualquer rigoroso conhecimento do seu estado de saúde. A doença, pública como se tornara nos últimos meses, permanecia porém envolta em mistério quanto à sua verdadeira gravidade. Lembro-me que ele me havia um dia confessado as dificuldades que começava a sentir em deslocar-se de um sítio para o outro, por mais curtas que fossem as distâncias. Alguns dos olhares que me lançava, por entre palavras esforçadas, denotavam sem dúvida um sofrimento copioso. Por tudo isto, após dias de silêncio da sua parte, pensei realmente que tivesse falecido, simplesmente deixado de ser, como sucede às palavras depois de proferidas e extinto o seu eco no pensamento e na memória. O seu telefonema acabou por ser uma agradável surpresa. É evidente que não lhe dei a entender o quão aliviado ficara, a nossa relação é ainda demasiado formal. Talvez com a ineviável morte de um de nós a nossa intimidade ganhe novo fôlego.