terça-feira, outubro 03, 2006

Uma mudança

A poucos meses de uma mudança que se prevê significativa, começo lentamente a preparar as alterações de hábitos que se impõem. Há que acompanhar uma mudança de vida com uma nova especificidade de posturas e atitudes para que a transição seja, mais do que uma penosa vaga que vá devagar roubando areia a uma praia pequena, um verdadeiro corte com o quotidiano transacto. Por isso começo já a adoptar aquilo que prevejo vir a ser um novo eu de uma nova existência. Vou passar a tomar bicas de perna cruzada, recostado na cadeira e não mais atento ao relógio, apressado e ansioso. O meu estilo será casual, ainda que arranjado e limpo, o suficiente para não destoar do meio envolvente, preservando ainda assim o que me distingue eventualmente dos demais. Vou também regressar ao verso de circunstância e procurar soluções para o tempo imperfeito enquanto recordação trágica de momentos fundamentais. Como vêem, estou a preparar o terreno exacto para o novo ciclo de um cultivo. Em certa medida, gostaria até de deixar de ser quem sou, caso pudesse preservar duas ou três coisinhas de que gosto imenso. Mas isso já são efabulações impossíveis.

sexta-feira, setembro 29, 2006

e.e. cummings, outra vez

Agora num maravilhoso poema sobre a guerra, datado de 1926 e intitulado "my sweet old etcetera". Enjoy!


my sweet old etcetera
aunt lucy during the recent

war could and what
is more did tell you just
what everybody was fighting

for,
my sister

isabel created hundreds
(and
hundreds) of socks not to
mention shirts fleaproof earwarmers

etcetera wristers etcetera, my

mother hoped that

i would die etcetera
bravely of course my father used
to become hoarse talking about how it was
a privilege and if only he
could meanwhile my

self etcetera lay quietly
in the deep mud et

cetera
(dreaming,
et
cetera, of
Your smile
eyes knees and of your Etcetera)

quarta-feira, setembro 27, 2006

(?)

Após quase trinta anos, depois de inúmeras estações, umas a seguir às outras como manda a lei do tempo, uma questão permanece por esclarecer: como é capaz a cabeça de amar palavras impossíveis?

sexta-feira, setembro 15, 2006

Definição de filisteu




A Lula e a Baleia é um óptimo filme. Eis uma cena em que o egocêntrico pater familias Bernard (reparem no tom do "Come on. You have to try. It's no fun for me if you don't try") nos oferece a perfeita definição do que é um filisteu.

terça-feira, setembro 12, 2006

Mulher sentada

Todos os dias a encontro à porta do mesmo edifício. Sentada nos primeiros degraus da escadaria clássica, pertíssimo do passeio. É verdade que me pergunto o que a fará deslocar-se ali todos os dias e sentar-se invariavelmente no mesmo sítio. Mas a minha curiosidade prende-se mais com o insólito da situação do que propriamente com algum (inexistente, impossível) interesse que possa ter por ela. É feia. Não quero saber nada da sua vida, apenas me questiono para encher a cabeça vazia com alguma coisa de pensar. Sei que aquele é um edifício público, uma qualquer repartição judicial, por isso suspeito relacionar-se aquela permanente presença, ali sentada, com alguma opaca forma de protesto. Um protesto certamente misturado com certa quantidade de autoflagelação inconsciente. Do género: hei-de vir para aqui sentar-me todos os dias até me fazerem justiça, e: ai o que me havia de acontecer, aquilo até foi burrice minha, agora venho para aqui secar todos os dias para aprender a não ser parva.
É certo que todos os dias a encontro no mesmo sítio. Melhor dizendo, passo por ela. Vou sempre com alguma pressa. Sei que o motivo que ali a faz estar é bem mais complexo que o que me faz passar por ali (estou a caminho do trabalho). Mas por isso mesmo não desejo conhecê-la. Não quero perguntar-lhe nada. Receio o incómodo de uma intimidade que eu pudesse adquirir em relação ao seu "caso". Enoja-me profundamente a perspectiva de um qualquer mínimo conhecimento da sua infeliz situação. Passo por ela todos os dias. É a mulher sentada. Isso é mais que suficiente.

terça-feira, setembro 05, 2006

A lei. A palavra

trazes a lei à flor dos lábios.
nela cabem os termos que
imaginas perfeitos
para a ordenação dos sentidos

é a força da lei que evitas os dias.
sabe-los absurdos, e assim
recorres à legalidade do verbo
(fundamental proveniência)
para mostrares o teu desdém

trazes a lei na ponta dos dedos.
é à força da lei que contornas a morte

quarta-feira, agosto 23, 2006

A apanha da amêndoa. Mito húngaro

Alguns dos mais antigos e interessantes mitos magiares estão associados ao trabalho do campo, podendo ser entendidos como espécie de paliativo perante as agruras do árduo quotidiano laboral. Um deles teve origem remota do trabalho da apanha da amêndoa, actividade também responsável por parte significativa do cancioneiro rural húngaro.
Perante uma amendoeira carregada, o trabalhador leva a cabo a colheita em três fases distintas. Primeiro deve posicionar-se de cócoras e revistar o solo em redor da árvore, à procura dos frutos já caídos. Numa segunda fase, de pé, o trabalhador colhe naturalmente as amêndoas ao alcance da mão, devendo prestar especial atenção aos ramos interiores onde, por manifesto mimetismo, se confundem as amêndoas com a folhagem. Finalmente há que colher os frutos dos ramos mais altos. Nesta instância é o trabalhador auxiliado pelo giosz, um engenhoso instrumento agrícola cuja competente utilização permitirá realizar o trabalho com sucesso. O giosz é um longo cabo de madeira, da altura de um indivíduo adulto, rematado por um saco de pano acoplado longitudinalmente à parte de cima do dito cabo. Com esta alfaia, o trabalhador procurará abanar as amêndoas mais altas de modo a que estas se desprendam dos seus caules maduros e caiam no dito saco.
A mitologia húngara conta a história do giosz estranhamente animado pelo vento nocturno, ganhando assim vida própria. Balouçando-se no ar com admirável destreza, o instrumento vagueia pelo céu da noite húngara, colhendo não as triviais amêndoas mas as estrelas mais brilhantes. É com elas que as moças enfeitarão os vestidos para a o dia do primeiro baile de aldeia.

terça-feira, agosto 01, 2006

Poetas antigos, versos desconhecidos (4)

Arrancámos amoras
da vereda.
O céu era um mundo aberto.
As nossas bocas estavam
tão vermelhas
e tão perto!


Carlos de Oliveira, Turismo

sexta-feira, julho 28, 2006

Uma suspeita

No meu íntimo, ainda que sem qualquer motivo sólido, eu pensava que ele pudesse ter morrido. Isso sem dúvida que explicaria a total ausência de notícias suas durantes aqueles dias. Como viria mais tarde a comprovar, não tinha esta suspeita qualquer cabimento, mas o certo é que na altura eu não possuía qualquer rigoroso conhecimento do seu estado de saúde. A doença, pública como se tornara nos últimos meses, permanecia porém envolta em mistério quanto à sua verdadeira gravidade. Lembro-me que ele me havia um dia confessado as dificuldades que começava a sentir em deslocar-se de um sítio para o outro, por mais curtas que fossem as distâncias. Alguns dos olhares que me lançava, por entre palavras esforçadas, denotavam sem dúvida um sofrimento copioso. Por tudo isto, após dias de silêncio da sua parte, pensei realmente que tivesse falecido, simplesmente deixado de ser, como sucede às palavras depois de proferidas e extinto o seu eco no pensamento e na memória. O seu telefonema acabou por ser uma agradável surpresa. É evidente que não lhe dei a entender o quão aliviado ficara, a nossa relação é ainda demasiado formal. Talvez com a ineviável morte de um de nós a nossa intimidade ganhe novo fôlego.

terça-feira, julho 25, 2006

Álvaro Feijó

foi ao ler aqueles cadernos da juventude
as simples páginas
que me lembrei de escrever a sua biografia.
um artigo sobre os anos de uma escrita
qualquer coisa de sério
de publicável
sobre aquele único livro de poemas.
o enquadramento na geração nova
incluindo forçosamente
uma ou outra tirada sua
registada por um colega mais atento

a biografia de um poeta
coisa de envergadura
aqui, de resto, sumaríssima
por ter feijó durado
nem vinte e cinco anos

a sua biografia
ou à falta de melhor
uns versos encabeçados pelo seu nome

sexta-feira, julho 21, 2006

A fotografia do poeta

Eu nunca tinha visto uma fotografia do poeta ao lado do seu filho. Encontrei-a numa revista académica, um pequeno volume que lhe dedicava a esmagadora maioria das páginas. A mediar os artigos, os poemas e os excertos de longos poemas, lá apareciam a preto e branco fotografias várias, a infância pequena, a juventude e também o poeta com o filho, em pose para a objectiva. É evidente que o que me impressionara não fora unicamente a fotografia, mas a fotografia associada ao conhecimento da tragédia que se passara entretanto. O factor tempo, o seu passar constante e imperceptível, mostrava mais uma vez as suas garras cruéis, e ao olhar para aquela fotografia, com os sorrisos levemente esboçados em jeito de tranquilidade pura, não pude deixar de pensar que o poeta e o seu filho não podiam nessa altura sequer suspeitar do que aonteceria tempos depois. Essa constatação, quando confrontada com o meu conhecimento de todo o drama, era absolutamente monstruosa. Concluí que o que tanto me impressionava era, não tanto a fotografia em si, inocente retrato de família, mas o tempo a que se reportava. E não só o tempo a que se reportava, mas igualmente a distância de tempo que me separava desse tempo e tudo o que de tragicamente relevante sucedera nesse período. E a fotografia do poeta com o seu filho deixava assim de ser a fotografia do poeta com o seu filho, como o haviam pretendido os editores da mencionada revista. A fotografia do poeta com o seu filho tornava-se agora o retrato da angústia, do horror, do desconsolo.

sexta-feira, julho 14, 2006

Lições de narrativa: o final feliz

MacWhirter deu um passo em direcção a ela. As suas palavras soaram de forma austera.
- É sincera naquilo que está a dizer?
- Sim... Quero estar sempre consigo, nunca o deixar. Se você se for embora, jamais encontrarei alguém parecido e acabarei os meus dias em profunda solidão.
MacWhirter suspirou. Tirou a carteira e examinou o seu conteúdo com grande cuidado. Murmurou:

- O casamento fica caro. Terei de passar pelo banco às primeiras horas de amanhã.
- Eu poderia emprestar-lhe algum dinheiro - segredou Audrey.
- Nada que se pareça. Se vou casar com uma mulher, sou eu que pago o casamento. Estamos entendidos?
- Não precisa de pôr essa cara tão séria - gracejou Audrey com ternura.
Avançando em direcção a ela, ele disse numa voz doce:
- Da última vez que a tive nas minhas mãos, você parecia um passarinho... procurando escapar. Agora, você nunca mais me escapa...
Ela disse:
- Eu nunca vou querer escapar.
Agatha Christie, A Hora H

sexta-feira, junho 30, 2006

Lições de narrativa: a ironia da verdade

(...) de início, Ruzena não podia ter a certeza de quem era o responsável pela sua maternidade. Aquele que tomara primeiro em linha de conta era o homem que a observava agora às escondidas, mal dissimulado por uma árvore do jardim público. Isso fora, evidentemente, apenas de início, porque, posteriormente, mostrara-se cada vez mais favorável à escolha do trompetista como genitor, até ao dia em que decidira que era, com toda a certeza, ele. Entendamo-nos: não era por astúcia que queria atribuir-lhe a sua gravidez. Ao tomar a sua decisão, ela não escolhera a astúcia, mas a verdade. Decidira que as coisas eram de verdade assim.
Aliás, a maternidade é uma coisa a tal ponto sagrada que lhe parecia impossível que um homem que ela desprezava pudesse ser a sua causa. Não era de modo nenhum um raciocínio lógico, mas uma espécie de iluminação supra-racional o que a persuadira de que só podia ter engravidado de um homem que lhe agradava. E quando ouvira pelo telefone aquele que escolhera como pai do seu filho ficar chocado, aterrado, esforçando-se por recusar a sua missão paterna, tudo ficara definitivamente resolvido, porque, a partir desse momento, Ruzena não só deixara de duvidar da sua verdade, como ficara pronta a travar combate por ela.
Milan Kundera, A Valsa do Adeus

domingo, junho 25, 2006

Os dias mais curtos

os bancos mais soalheiros estão já ocupados por senhoras de idade
não são já muitas as manchas de luz
sabemos como no outono são mais curtos os dias
mais derradeiros

é no roseiral despido que se estende agora
a maior parte do sol que resta
mas aí não há bancos para me sentar
apenas parcelas com pés de rosa
caminhos para o jardineiro

(o verso narrativo,
o descritivo também,
há-de um dia ser o meu fim)

segunda-feira, junho 05, 2006

Poetas antigos, versos desconhecidos (3)

3

Um velho sábio de olhos transparentes,
que nos pousava a mão no ombro com ternura,
depois de ver nos livros e nos tubos de ensaio
o destino dos homens,
queimou os livros todos e afogou-se no rio.
E nunca mais ninguém nos pousou a mão no ombro
com a ternura do sábio que se afogou no rio.

Mário Dionísio

sexta-feira, junho 02, 2006

Uma inveja

Aquela havia sido uma magnífica sessão sobre a vida e obra de Gabriele D'Annunzio. Sorridente, ainda que tímido, o jovem professor falara com a clareza e fluidez dos verdadeiramente iluminados. Naquela gelada manhã de inverno, num terceiro andar da george square, tomámos conhecimento da genial façanha levada a cabo por D'Annunzio nos primeiros anos da sua carreira literária: havia nada mais nada menos que encenado nos jornais da época a sua própria morte. Lograra, não sei já por que diligências, fazer publicar a falsa notícia do seu trágico e prematuro falecimento, de modo a potenciar o reconhecimento do seu nome e obra poética. Parece que a coisa resultara, apesar das inevitáveis manifestações de ultraje público que se seguiram, algo que de certa forma acabaria por caracterizar toda a carreira do controverso italiano. No final da hora e meia de aula, notei que me assolava, misturada com a natural satisfação de quem aprende algo de valioso, uma ponta de inveja intelectual. Aquele jovem professor sabia coisas fabulosas, estudara tudo aquilo com evidente competência e empenho e transmitira-o daquela forma cândida, quase empolgante. Eu nessa altura não era pessoa que reflectisse muito sobre as causas deste ou aquele estado de espírito. Pelo menos não me esforçava nesse sentido, parecia sempre fazê-lo de forma deficiente. Daí ter à época atribuído aquela ténue inveja ao um pretenso desejo de ter também sabido e estudado algo sobre Gabriele D'Annunzio, nem que tivesse sido apenas aquele fantástico episódio de uma morte encenada. Só anos mais tarde, já um pouco mais versado nas origens e contornos dos próprios sentimentos, desfiz o mito daquele suposta inveja por não ter lido D'Annunzio. Sentimento, diga-se de passagem, absolutamente descabido, visto que jamais havia reflectido muito sobre a presença do transalpino no cânone da literatura universal antes daquela brilhante aula. A inveja existira, não me enganara nisso, mas era, conforme pude acertadamente determinar, inveja da abslouta paixão com que aquele académico tratara o tema da sua predilecção. Inveja desse simpático desconhecido, por ter ele na sua existência livresca algo tão absorvente e estimulante que o ocupasse e justificasse o acordar de manhã. Desejo, não de conhecer Gabriele D'Annunzio, mas de conhecer fosse o que fosse com aquele mesmo ardor desinteressado. Era como invejar um amigo casado, não pela mulher atraente, mas pelo casamento feliz. Tudo isto concluíra eu, como já disse, anos após aquela prelecção sobre D'Annunzio. Mas mais vale tarde que nunca quando se trata de apurar as verdadeiras razões de um sentimento forte.

terça-feira, maio 30, 2006

Gomes Leal

evito ler os seus versos
após conselho sincero
de certo primo do meu pai:

desconfia sempre de poetas
firmados na praça
por duplo apelido

domingo, maio 28, 2006

Poetas antigos, versos desconhecidos (2)

Dias Cinzentos

Menina à hora da novena
com os olhos aguados de religião
e o corpo esvaído de pecados;
rapaz ocioso
à esquina de uma rua qualquer;
sábio de borla e capelo
a coleccionar selos usados;
poeta aflito
por uma rosa que se desfolhou;
velhinho suspirando
a ouvir o fado;
viuvinha de crepes e de véus
vermelha por dentro de desejos;
atleta a levantar meio quilo
com um só braço
e a agradecer os aplausos,
e mais eu que sou poeta sem talento
para fazer um quadro de vós todos:
- em que dia nos vamos suicidar?


Manuel da Fonseca

terça-feira, maio 23, 2006

Poetas antigos, versos desconhecidos

1

Lá em cima, o campanário branco e o gelo dos ventos.
A torre deve dez metros de altura ao brasileiro dos Casais.
Meu avô doou um pedaço de quintal. Os outros fizeram o resto.
E hoje - badalão! badalão! - toda a serra
tem os ouvidos claros para o som de bronze.


Fernando Namora, Terra (1941)