sexta-feira, julho 28, 2006

Uma suspeita

No meu íntimo, ainda que sem qualquer motivo sólido, eu pensava que ele pudesse ter morrido. Isso sem dúvida que explicaria a total ausência de notícias suas durantes aqueles dias. Como viria mais tarde a comprovar, não tinha esta suspeita qualquer cabimento, mas o certo é que na altura eu não possuía qualquer rigoroso conhecimento do seu estado de saúde. A doença, pública como se tornara nos últimos meses, permanecia porém envolta em mistério quanto à sua verdadeira gravidade. Lembro-me que ele me havia um dia confessado as dificuldades que começava a sentir em deslocar-se de um sítio para o outro, por mais curtas que fossem as distâncias. Alguns dos olhares que me lançava, por entre palavras esforçadas, denotavam sem dúvida um sofrimento copioso. Por tudo isto, após dias de silêncio da sua parte, pensei realmente que tivesse falecido, simplesmente deixado de ser, como sucede às palavras depois de proferidas e extinto o seu eco no pensamento e na memória. O seu telefonema acabou por ser uma agradável surpresa. É evidente que não lhe dei a entender o quão aliviado ficara, a nossa relação é ainda demasiado formal. Talvez com a ineviável morte de um de nós a nossa intimidade ganhe novo fôlego.

terça-feira, julho 25, 2006

Álvaro Feijó

foi ao ler aqueles cadernos da juventude
as simples páginas
que me lembrei de escrever a sua biografia.
um artigo sobre os anos de uma escrita
qualquer coisa de sério
de publicável
sobre aquele único livro de poemas.
o enquadramento na geração nova
incluindo forçosamente
uma ou outra tirada sua
registada por um colega mais atento

a biografia de um poeta
coisa de envergadura
aqui, de resto, sumaríssima
por ter feijó durado
nem vinte e cinco anos

a sua biografia
ou à falta de melhor
uns versos encabeçados pelo seu nome

sexta-feira, julho 21, 2006

A fotografia do poeta

Eu nunca tinha visto uma fotografia do poeta ao lado do seu filho. Encontrei-a numa revista académica, um pequeno volume que lhe dedicava a esmagadora maioria das páginas. A mediar os artigos, os poemas e os excertos de longos poemas, lá apareciam a preto e branco fotografias várias, a infância pequena, a juventude e também o poeta com o filho, em pose para a objectiva. É evidente que o que me impressionara não fora unicamente a fotografia, mas a fotografia associada ao conhecimento da tragédia que se passara entretanto. O factor tempo, o seu passar constante e imperceptível, mostrava mais uma vez as suas garras cruéis, e ao olhar para aquela fotografia, com os sorrisos levemente esboçados em jeito de tranquilidade pura, não pude deixar de pensar que o poeta e o seu filho não podiam nessa altura sequer suspeitar do que aonteceria tempos depois. Essa constatação, quando confrontada com o meu conhecimento de todo o drama, era absolutamente monstruosa. Concluí que o que tanto me impressionava era, não tanto a fotografia em si, inocente retrato de família, mas o tempo a que se reportava. E não só o tempo a que se reportava, mas igualmente a distância de tempo que me separava desse tempo e tudo o que de tragicamente relevante sucedera nesse período. E a fotografia do poeta com o seu filho deixava assim de ser a fotografia do poeta com o seu filho, como o haviam pretendido os editores da mencionada revista. A fotografia do poeta com o seu filho tornava-se agora o retrato da angústia, do horror, do desconsolo.

sexta-feira, julho 14, 2006

Lições de narrativa: o final feliz

MacWhirter deu um passo em direcção a ela. As suas palavras soaram de forma austera.
- É sincera naquilo que está a dizer?
- Sim... Quero estar sempre consigo, nunca o deixar. Se você se for embora, jamais encontrarei alguém parecido e acabarei os meus dias em profunda solidão.
MacWhirter suspirou. Tirou a carteira e examinou o seu conteúdo com grande cuidado. Murmurou:

- O casamento fica caro. Terei de passar pelo banco às primeiras horas de amanhã.
- Eu poderia emprestar-lhe algum dinheiro - segredou Audrey.
- Nada que se pareça. Se vou casar com uma mulher, sou eu que pago o casamento. Estamos entendidos?
- Não precisa de pôr essa cara tão séria - gracejou Audrey com ternura.
Avançando em direcção a ela, ele disse numa voz doce:
- Da última vez que a tive nas minhas mãos, você parecia um passarinho... procurando escapar. Agora, você nunca mais me escapa...
Ela disse:
- Eu nunca vou querer escapar.
Agatha Christie, A Hora H

sexta-feira, junho 30, 2006

Lições de narrativa: a ironia da verdade

(...) de início, Ruzena não podia ter a certeza de quem era o responsável pela sua maternidade. Aquele que tomara primeiro em linha de conta era o homem que a observava agora às escondidas, mal dissimulado por uma árvore do jardim público. Isso fora, evidentemente, apenas de início, porque, posteriormente, mostrara-se cada vez mais favorável à escolha do trompetista como genitor, até ao dia em que decidira que era, com toda a certeza, ele. Entendamo-nos: não era por astúcia que queria atribuir-lhe a sua gravidez. Ao tomar a sua decisão, ela não escolhera a astúcia, mas a verdade. Decidira que as coisas eram de verdade assim.
Aliás, a maternidade é uma coisa a tal ponto sagrada que lhe parecia impossível que um homem que ela desprezava pudesse ser a sua causa. Não era de modo nenhum um raciocínio lógico, mas uma espécie de iluminação supra-racional o que a persuadira de que só podia ter engravidado de um homem que lhe agradava. E quando ouvira pelo telefone aquele que escolhera como pai do seu filho ficar chocado, aterrado, esforçando-se por recusar a sua missão paterna, tudo ficara definitivamente resolvido, porque, a partir desse momento, Ruzena não só deixara de duvidar da sua verdade, como ficara pronta a travar combate por ela.
Milan Kundera, A Valsa do Adeus

domingo, junho 25, 2006

Os dias mais curtos

os bancos mais soalheiros estão já ocupados por senhoras de idade
não são já muitas as manchas de luz
sabemos como no outono são mais curtos os dias
mais derradeiros

é no roseiral despido que se estende agora
a maior parte do sol que resta
mas aí não há bancos para me sentar
apenas parcelas com pés de rosa
caminhos para o jardineiro

(o verso narrativo,
o descritivo também,
há-de um dia ser o meu fim)

segunda-feira, junho 05, 2006

Poetas antigos, versos desconhecidos (3)

3

Um velho sábio de olhos transparentes,
que nos pousava a mão no ombro com ternura,
depois de ver nos livros e nos tubos de ensaio
o destino dos homens,
queimou os livros todos e afogou-se no rio.
E nunca mais ninguém nos pousou a mão no ombro
com a ternura do sábio que se afogou no rio.

Mário Dionísio

sexta-feira, junho 02, 2006

Uma inveja

Aquela havia sido uma magnífica sessão sobre a vida e obra de Gabriele D'Annunzio. Sorridente, ainda que tímido, o jovem professor falara com a clareza e fluidez dos verdadeiramente iluminados. Naquela gelada manhã de inverno, num terceiro andar da george square, tomámos conhecimento da genial façanha levada a cabo por D'Annunzio nos primeiros anos da sua carreira literária: havia nada mais nada menos que encenado nos jornais da época a sua própria morte. Lograra, não sei já por que diligências, fazer publicar a falsa notícia do seu trágico e prematuro falecimento, de modo a potenciar o reconhecimento do seu nome e obra poética. Parece que a coisa resultara, apesar das inevitáveis manifestações de ultraje público que se seguiram, algo que de certa forma acabaria por caracterizar toda a carreira do controverso italiano. No final da hora e meia de aula, notei que me assolava, misturada com a natural satisfação de quem aprende algo de valioso, uma ponta de inveja intelectual. Aquele jovem professor sabia coisas fabulosas, estudara tudo aquilo com evidente competência e empenho e transmitira-o daquela forma cândida, quase empolgante. Eu nessa altura não era pessoa que reflectisse muito sobre as causas deste ou aquele estado de espírito. Pelo menos não me esforçava nesse sentido, parecia sempre fazê-lo de forma deficiente. Daí ter à época atribuído aquela ténue inveja ao um pretenso desejo de ter também sabido e estudado algo sobre Gabriele D'Annunzio, nem que tivesse sido apenas aquele fantástico episódio de uma morte encenada. Só anos mais tarde, já um pouco mais versado nas origens e contornos dos próprios sentimentos, desfiz o mito daquele suposta inveja por não ter lido D'Annunzio. Sentimento, diga-se de passagem, absolutamente descabido, visto que jamais havia reflectido muito sobre a presença do transalpino no cânone da literatura universal antes daquela brilhante aula. A inveja existira, não me enganara nisso, mas era, conforme pude acertadamente determinar, inveja da abslouta paixão com que aquele académico tratara o tema da sua predilecção. Inveja desse simpático desconhecido, por ter ele na sua existência livresca algo tão absorvente e estimulante que o ocupasse e justificasse o acordar de manhã. Desejo, não de conhecer Gabriele D'Annunzio, mas de conhecer fosse o que fosse com aquele mesmo ardor desinteressado. Era como invejar um amigo casado, não pela mulher atraente, mas pelo casamento feliz. Tudo isto concluíra eu, como já disse, anos após aquela prelecção sobre D'Annunzio. Mas mais vale tarde que nunca quando se trata de apurar as verdadeiras razões de um sentimento forte.

terça-feira, maio 30, 2006

Gomes Leal

evito ler os seus versos
após conselho sincero
de certo primo do meu pai:

desconfia sempre de poetas
firmados na praça
por duplo apelido

domingo, maio 28, 2006

Poetas antigos, versos desconhecidos (2)

Dias Cinzentos

Menina à hora da novena
com os olhos aguados de religião
e o corpo esvaído de pecados;
rapaz ocioso
à esquina de uma rua qualquer;
sábio de borla e capelo
a coleccionar selos usados;
poeta aflito
por uma rosa que se desfolhou;
velhinho suspirando
a ouvir o fado;
viuvinha de crepes e de véus
vermelha por dentro de desejos;
atleta a levantar meio quilo
com um só braço
e a agradecer os aplausos,
e mais eu que sou poeta sem talento
para fazer um quadro de vós todos:
- em que dia nos vamos suicidar?


Manuel da Fonseca

terça-feira, maio 23, 2006

Poetas antigos, versos desconhecidos

1

Lá em cima, o campanário branco e o gelo dos ventos.
A torre deve dez metros de altura ao brasileiro dos Casais.
Meu avô doou um pedaço de quintal. Os outros fizeram o resto.
E hoje - badalão! badalão! - toda a serra
tem os ouvidos claros para o som de bronze.


Fernando Namora, Terra (1941)

sexta-feira, maio 19, 2006

Apontamento

Assinalo em jeito meramente informativo as 2000 visitas a estes quartos escuríssimos. A todos os visitantes, habituais ou esporádicos, um grito medonho de agradecimento. Arrrggghhhh!

quarta-feira, maio 17, 2006

Um sonho

Tive ontem um intenso pesadelo de cães. Sem saber ao certo como ou por que razão, vi-me atacado por pequenos canídeos de dentes arreganhados. Cercavam-me os pés e, na medida da sua fraca capacidade física, procuravam abocanhar-me os tornozelos e as canelas. Acabei por repeli-los a pontapé e com uma violência tal que dois ou três biqueiros se mostravam mais do que suficientes para os neutralizar. Ao despertar sem sobressalto, e enquanto tomava o pequeno-almoço, não pude deixar de admitir para comigo mesmo que havia usado de uma força algo desmesurada já que, após o primeiro par de patadas certeiras, não hesitava em lhes esmagar as mínimas cabeças contra o chão de terra batida. Mas ao contrário do que seria de esperar, que é o mesmo que dizer-se ao contrário da realidade como a podemos supor, não se desfaziam os crânios em sangue, ossos e matérias interiores afins. Aqueles pareciam tratar-se de pequenos cães empalhados, já que os corpos e as cabeças furiosas, mais do que destruídas sobre as minhas solas, se esfarrapavam em retalhos secos e poeirentos, dos quais nada mais acabava por restar do que um olhar esbugalhado num misto de derrota e surpresa. Ainda assim, apesar de algum inevitável remorso, julgo que não poderia ter agido de outra forma. Quem sabe de que danos poderiam tais criaturas ser capazes, caso não tivesse reagido de pronto, ainda que com alguma brusquidão?

domingo, maio 14, 2006

Mestre antigo (Thomas Bernhard com poema)



No Jardim da Minha Mãe

No jardim da minha mãe
o meu ancinho junta as estrelas
que caíram enquanto eu cá não estive.
A noite está quente e os meus membros
exalam a proveniência verde,
flores e folhas,o grito do melro e o bater do tear.
No jardim da minha mãe
piso, descalço, as cabeças das cobras
que avançam, a espreitar, pelo portão ferrugento
com línguas de fogo.


(tradução de José A. Palma Caetano, in Na Terra e no Inferno, Assírio & Alvim, 2000)

sexta-feira, maio 12, 2006

Espécie de plágio. O reconhecimento de um mestre

À luz agora de uns meses valentes, olho para o meu primeiro livro, esse grotesco rebento, com um misto de ternura agrícola e remorso de plágio. Não aquele plágio em sentido estrito, o plágio gritante de uma Kaavya Viswanathan, o que gera controvérsias intermináveis. Mas em todo o caso uma inspiração evidente, uma imagem aproveitada e reproduzida em contexto diferente, a manutenção de uma mesma estrutura sintáctica, a utilização do mesmo tipo de momento inesperado sob o signo de uma tristeza profunda. A interminável amargura de Thomas Bernhard, esse antigo mestre.
Tenho à minha frente os dois livros, o meu e o dele. Conheço perfeitamente a fonte acidental de uns três versos meus. E também o poema de Bernhard que terá motivado este meu outro. E vou desfolhando ambos os livros e descobrindo outras paráfrases, ali um verso que podia ser dele, e mais acolá três ou quatro palavras que os meus lábios, em certas condições, teriam pronunciado.
Estou em boa companhia, na tradição do mestre antigo.

quarta-feira, maio 03, 2006

Uma Paisagem



tinha aquela paisagem um traço qualquer de tragédia

as casas perfilavam-se pelas imediações da estrada
distantes o suficiente
para não ruirem ao passar dos rebanhos

por cima das árvores robustas
os pássaros queimavam as asas
no pequeno incêndio da manhã

havia versos na minha boca
como gosma involuntária

quinta-feira, abril 20, 2006

O acto crítico

Num texto do luminoso George Steiner leio: There never has been, there never can be any objective criticism in the proper sense of the term simply because (...) indifference, non-intentionality, cannot be a property of action. E mais adiante: No critical ruling can be refuted. Action knows reaction and counteraction, not refutation.

domingo, abril 16, 2006

Lorsedal



em comprimidos de cinco miligramas
dispostos por várias placas
inacessíveis sem receita

na bula leio
entre outras coisas
pertence ao grupo farmacoterapêutico
dos ansiolíticos
sedativos e
hipnóticos

lorazepan é a substãncia activa
uma benzodiazepina
capaz de actuar ao nível do
sistema nervoso central

como efeitos secundário possíveis
constam
amnésia dos factos recentes
ocultação de depressão existente
ilusão
fúria
e pesadelos
psicoses
comportamentos
inapropriados

de evitar descontinuação abrupta
do tratamento
com lorsedal

tomei dois deles
com três copos de tinto

(ai que me desgraço)

quarta-feira, abril 12, 2006

Informação

No top de vendas das livrarias bertrand, jorge coroado ultrapassou sveva casati modignani. Tirem disto a lição de vida que bem entenderem.