terça-feira, maio 30, 2006

Gomes Leal

evito ler os seus versos
após conselho sincero
de certo primo do meu pai:

desconfia sempre de poetas
firmados na praça
por duplo apelido

domingo, maio 28, 2006

Poetas antigos, versos desconhecidos (2)

Dias Cinzentos

Menina à hora da novena
com os olhos aguados de religião
e o corpo esvaído de pecados;
rapaz ocioso
à esquina de uma rua qualquer;
sábio de borla e capelo
a coleccionar selos usados;
poeta aflito
por uma rosa que se desfolhou;
velhinho suspirando
a ouvir o fado;
viuvinha de crepes e de véus
vermelha por dentro de desejos;
atleta a levantar meio quilo
com um só braço
e a agradecer os aplausos,
e mais eu que sou poeta sem talento
para fazer um quadro de vós todos:
- em que dia nos vamos suicidar?


Manuel da Fonseca

terça-feira, maio 23, 2006

Poetas antigos, versos desconhecidos

1

Lá em cima, o campanário branco e o gelo dos ventos.
A torre deve dez metros de altura ao brasileiro dos Casais.
Meu avô doou um pedaço de quintal. Os outros fizeram o resto.
E hoje - badalão! badalão! - toda a serra
tem os ouvidos claros para o som de bronze.


Fernando Namora, Terra (1941)

sexta-feira, maio 19, 2006

Apontamento

Assinalo em jeito meramente informativo as 2000 visitas a estes quartos escuríssimos. A todos os visitantes, habituais ou esporádicos, um grito medonho de agradecimento. Arrrggghhhh!

quarta-feira, maio 17, 2006

Um sonho

Tive ontem um intenso pesadelo de cães. Sem saber ao certo como ou por que razão, vi-me atacado por pequenos canídeos de dentes arreganhados. Cercavam-me os pés e, na medida da sua fraca capacidade física, procuravam abocanhar-me os tornozelos e as canelas. Acabei por repeli-los a pontapé e com uma violência tal que dois ou três biqueiros se mostravam mais do que suficientes para os neutralizar. Ao despertar sem sobressalto, e enquanto tomava o pequeno-almoço, não pude deixar de admitir para comigo mesmo que havia usado de uma força algo desmesurada já que, após o primeiro par de patadas certeiras, não hesitava em lhes esmagar as mínimas cabeças contra o chão de terra batida. Mas ao contrário do que seria de esperar, que é o mesmo que dizer-se ao contrário da realidade como a podemos supor, não se desfaziam os crânios em sangue, ossos e matérias interiores afins. Aqueles pareciam tratar-se de pequenos cães empalhados, já que os corpos e as cabeças furiosas, mais do que destruídas sobre as minhas solas, se esfarrapavam em retalhos secos e poeirentos, dos quais nada mais acabava por restar do que um olhar esbugalhado num misto de derrota e surpresa. Ainda assim, apesar de algum inevitável remorso, julgo que não poderia ter agido de outra forma. Quem sabe de que danos poderiam tais criaturas ser capazes, caso não tivesse reagido de pronto, ainda que com alguma brusquidão?

domingo, maio 14, 2006

Mestre antigo (Thomas Bernhard com poema)



No Jardim da Minha Mãe

No jardim da minha mãe
o meu ancinho junta as estrelas
que caíram enquanto eu cá não estive.
A noite está quente e os meus membros
exalam a proveniência verde,
flores e folhas,o grito do melro e o bater do tear.
No jardim da minha mãe
piso, descalço, as cabeças das cobras
que avançam, a espreitar, pelo portão ferrugento
com línguas de fogo.


(tradução de José A. Palma Caetano, in Na Terra e no Inferno, Assírio & Alvim, 2000)

sexta-feira, maio 12, 2006

Espécie de plágio. O reconhecimento de um mestre

À luz agora de uns meses valentes, olho para o meu primeiro livro, esse grotesco rebento, com um misto de ternura agrícola e remorso de plágio. Não aquele plágio em sentido estrito, o plágio gritante de uma Kaavya Viswanathan, o que gera controvérsias intermináveis. Mas em todo o caso uma inspiração evidente, uma imagem aproveitada e reproduzida em contexto diferente, a manutenção de uma mesma estrutura sintáctica, a utilização do mesmo tipo de momento inesperado sob o signo de uma tristeza profunda. A interminável amargura de Thomas Bernhard, esse antigo mestre.
Tenho à minha frente os dois livros, o meu e o dele. Conheço perfeitamente a fonte acidental de uns três versos meus. E também o poema de Bernhard que terá motivado este meu outro. E vou desfolhando ambos os livros e descobrindo outras paráfrases, ali um verso que podia ser dele, e mais acolá três ou quatro palavras que os meus lábios, em certas condições, teriam pronunciado.
Estou em boa companhia, na tradição do mestre antigo.

quarta-feira, maio 03, 2006

Uma Paisagem



tinha aquela paisagem um traço qualquer de tragédia

as casas perfilavam-se pelas imediações da estrada
distantes o suficiente
para não ruirem ao passar dos rebanhos

por cima das árvores robustas
os pássaros queimavam as asas
no pequeno incêndio da manhã

havia versos na minha boca
como gosma involuntária

quinta-feira, abril 20, 2006

O acto crítico

Num texto do luminoso George Steiner leio: There never has been, there never can be any objective criticism in the proper sense of the term simply because (...) indifference, non-intentionality, cannot be a property of action. E mais adiante: No critical ruling can be refuted. Action knows reaction and counteraction, not refutation.

domingo, abril 16, 2006

Lorsedal



em comprimidos de cinco miligramas
dispostos por várias placas
inacessíveis sem receita

na bula leio
entre outras coisas
pertence ao grupo farmacoterapêutico
dos ansiolíticos
sedativos e
hipnóticos

lorazepan é a substãncia activa
uma benzodiazepina
capaz de actuar ao nível do
sistema nervoso central

como efeitos secundário possíveis
constam
amnésia dos factos recentes
ocultação de depressão existente
ilusão
fúria
e pesadelos
psicoses
comportamentos
inapropriados

de evitar descontinuação abrupta
do tratamento
com lorsedal

tomei dois deles
com três copos de tinto

(ai que me desgraço)

quarta-feira, abril 12, 2006

Informação

No top de vendas das livrarias bertrand, jorge coroado ultrapassou sveva casati modignani. Tirem disto a lição de vida que bem entenderem.

domingo, abril 09, 2006

Lições de narrativa: o momento descritivo

O nevoeiro desaparecera por completo, à distância brilhava uma alta montanha cuja crista ondulante se perdia mais longe ainda no meio da bruma levantada pelo Sol. De ambos os lados da estrada estendiam-se campos mal cultivados, circundando grandes fábricas, que se erguiam isoladamente na paisagem, mascarradas de fumo. Nas casernas de aluguer, dispersas ao acaso, as inúmeras janelas tremiam nos mais variados movimentos e reflexos, e em cada uma das pequenas varandas que mal se sustinham viam-se mulheres e crianças muito atarefadas, enquanto à volta delas, tapando-as e descobrindo-as, havia toalhas e peças de roupa branca penduradas ou deitadas que ora esvoaçavam, ora se enfunavam poderosamente ao vento matinal. Deixando vaguear os lhos para longe das casas, viam-se então as cotovias que voavam no céu, muito alto, e cá em baixo as andorinhas não muito acima das cabeças de quem ia passando nos veículos.
Franz Kafka, O Desaparecido (Assírio & Alvim)

quinta-feira, março 30, 2006

as sete diferenças. eu e o pássaro



o pássaro não ouve nada
eu ouço tudo, por inteiro
a mim cortaram-me as asas
o pássaro é todo ele asas
constrói um ninho com palha e ramos
o pássaro não procura nada
nasce exausto
eu vivo sobre a terra
eu rastejo sobre a terra

segunda-feira, março 27, 2006

as sete diferenças. eu e a árvore



a árvore não tem inveja
a árvore dura duzentos anos
eu não dou frutos a colher
por mim não passam as estações
sou eu que passo por elas
a árvore não chora
a árvore sabe de onde vem
eu respiro pela boca

sábado, março 25, 2006

as sete diferenças. eu e o objecto



o objecto não se perde
não possui mobilidade própria
não tem olhos
eu progrido
os meus passos guiam-me
o objecto não tem vida

sábado, março 11, 2006

You fit into me

Já ganhei o fim-de-semana. Com palavras espantosas que alguém me deu a conhecer. Obrigado pelos versos, Carmen.


you fit into me
like a hook into an eye
a fish hook
an open eye

Margaret Atwood

quinta-feira, março 09, 2006

E diz Reger finalmente, no Museu de História de Arte

A arte, no seu todo, não é também senão uma arte de sobrevivência, não podemos deixar de ter em conta este facto, ela é, em suma, a tentativa, feita sempre de uma forma que até comove o entendimento, para suportar este mundo e as suas actividades, o que, como nós sabemos, de maneira geral só é possível com o uso principalmente da mentira e da hipocrisia, da dissimulação e do engano de si próprio, assim disse Reger. Estes quadros estão cheios de mentira e hipocrisia, cheios de dissimulação e engano, e, se abstrairmos da sua perfeição técnica, muitas vezes genial, neles não existe mais nada. Todos estes quadros são, além disso, expressão da absoluta incapacidade do homem para viver em consonância consigo próprio e com aquilo que durante toda a vida o rodeia. É isso que exprimem todos estes quadros, essa incapacidade que, por um lado, envergonha a cabeça e, por outro, atormenta essa mesma cabeça e de emoção a leva à morte, assim disse Reger.
Thomas Bernhard, Antigos Mestres

terça-feira, março 07, 2006

Reitoria

No piso térreo da reitoria, sobre a mesinha do segurança, leio o pequeno letreiro de papel que o identifica: VIGILANTE. E depois vou para o meu posto de leitura fazer a minha própria folhinha, como naquelas primeiras semanas de escola: AUSENTE E ALIENADO.

segunda-feira, fevereiro 20, 2006

Manias (em resposta a um desafio de dois caros companheiros de luta, acreditando ambos que terei sem dúvida hábitos escabrosos)

Regulamento:

Cada bloguista participante tem de enunciar cinco manias suas, hábitos muito pessoais que os diferenciem do comum dos mortais. E além de dar ao público conhecimento dessas particularidades, tem de escolher cinco outros bloguistas para entrarem, igualmente, no jogo, não se esquecendo de deixar nos respectivos blogues aviso do "recrutamento". Ademais, cada participante deve reproduzir este "regulamento" no seu blogue.
1. Se vou conduzir à noite, acendo sempre os médios antes de pôr o carro a trabalhar. O meu primo diz que o meu carro é "daqueles que só arrancam com as luzes acesas".
2. A caminho do habitual jogo da bola com os amigos, dispendo sempre cinco ou dez minutos a imaginar (em câmara lenta, obviamente) o golo absolutamente fabuloso que jamais acabarei por marcar. É normalmente um pontapé de bicleta de fora da área, com a bola a entrar na gaveta.
3. As minha torradas ou vêm com becel em quantidade ou então mais vale passar fome.
4. Andar de meias sobre qualquer tipo de superfície atapetada é o mesmo (ou quase o mesmo) que espetar punhais ferrujentos nos ouvidos.
5. Sou demasiado simpático para os funcionários de estabelecimentos comerciais.
Posto isto, desafio os seguintes blogueiros:
A minha amiga e extraordinária poeta brasileira Virna Teixeira http://www.papelderascunho.net
A Sandra que pinta a alma com a alma e emoldura-se de palavras fundamentais
A Alexandra do outro lado do mundo

Maria Teresa

lembro-me de ti nas visitas de estudo a sintra.
sentavas-te nos primeiros bancos do autocarro
logo atrás dos professores
a mochila malcheirosa
das sandes de carne, da fruta assada

hoje vi-te no metro, pequena figura.
tens a afectação das pessoas
que forram os livros para esconder o título.
andas tristonha
arrelias-te se adormecem ao teu lado
suspiras um pouco

não te conheço, maria teresa
tu foste da minha escola
e eu nunca te conheci