Num texto do luminoso George Steiner leio: There never has been, there never can be any objective criticism in the proper sense of the term simply because (...) indifference, non-intentionality, cannot be a property of action. E mais adiante: No critical ruling can be refuted. Action knows reaction and counteraction, not refutation.
quinta-feira, abril 20, 2006
domingo, abril 16, 2006
Lorsedal

em comprimidos de cinco miligramas
dispostos por várias placas
inacessíveis sem receita
na bula leio
entre outras coisas
pertence ao grupo farmacoterapêutico
dos ansiolíticos
sedativos e
hipnóticos
lorazepan é a substãncia activa
uma benzodiazepina
capaz de actuar ao nível do
sistema nervoso central
como efeitos secundário possíveis
constam
amnésia dos factos recentes
ocultação de depressão existente
ilusão
fúria
e pesadelos
psicoses
comportamentos
inapropriados
de evitar descontinuação abrupta
do tratamento
com lorsedal
tomei dois deles
com três copos de tinto
(ai que me desgraço)
quarta-feira, abril 12, 2006
Informação
No top de vendas das livrarias bertrand, jorge coroado ultrapassou sveva casati modignani. Tirem disto a lição de vida que bem entenderem.
domingo, abril 09, 2006
Lições de narrativa: o momento descritivo
O nevoeiro desaparecera por completo, à distância brilhava uma alta montanha cuja crista ondulante se perdia mais longe ainda no meio da bruma levantada pelo Sol. De ambos os lados da estrada estendiam-se campos mal cultivados, circundando grandes fábricas, que se erguiam isoladamente na paisagem, mascarradas de fumo. Nas casernas de aluguer, dispersas ao acaso, as inúmeras janelas tremiam nos mais variados movimentos e reflexos, e em cada uma das pequenas varandas que mal se sustinham viam-se mulheres e crianças muito atarefadas, enquanto à volta delas, tapando-as e descobrindo-as, havia toalhas e peças de roupa branca penduradas ou deitadas que ora esvoaçavam, ora se enfunavam poderosamente ao vento matinal. Deixando vaguear os lhos para longe das casas, viam-se então as cotovias que voavam no céu, muito alto, e cá em baixo as andorinhas não muito acima das cabeças de quem ia passando nos veículos.
Franz Kafka, O Desaparecido (Assírio & Alvim)
quinta-feira, março 30, 2006
as sete diferenças. eu e o pássaro
segunda-feira, março 27, 2006
as sete diferenças. eu e a árvore
sábado, março 25, 2006
as sete diferenças. eu e o objecto
sábado, março 11, 2006
You fit into me
Já ganhei o fim-de-semana. Com palavras espantosas que alguém me deu a conhecer. Obrigado pelos versos, Carmen.
you fit into me
like a hook into an eye
a fish hook
an open eye
Margaret Atwood
you fit into me
like a hook into an eye
a fish hook
an open eye
Margaret Atwood
quinta-feira, março 09, 2006
E diz Reger finalmente, no Museu de História de Arte
A arte, no seu todo, não é também senão uma arte de sobrevivência, não podemos deixar de ter em conta este facto, ela é, em suma, a tentativa, feita sempre de uma forma que até comove o entendimento, para suportar este mundo e as suas actividades, o que, como nós sabemos, de maneira geral só é possível com o uso principalmente da mentira e da hipocrisia, da dissimulação e do engano de si próprio, assim disse Reger. Estes quadros estão cheios de mentira e hipocrisia, cheios de dissimulação e engano, e, se abstrairmos da sua perfeição técnica, muitas vezes genial, neles não existe mais nada. Todos estes quadros são, além disso, expressão da absoluta incapacidade do homem para viver em consonância consigo próprio e com aquilo que durante toda a vida o rodeia. É isso que exprimem todos estes quadros, essa incapacidade que, por um lado, envergonha a cabeça e, por outro, atormenta essa mesma cabeça e de emoção a leva à morte, assim disse Reger.
Thomas Bernhard, Antigos Mestres
terça-feira, março 07, 2006
Reitoria
No piso térreo da reitoria, sobre a mesinha do segurança, leio o pequeno letreiro de papel que o identifica: VIGILANTE. E depois vou para o meu posto de leitura fazer a minha própria folhinha, como naquelas primeiras semanas de escola: AUSENTE E ALIENADO.
segunda-feira, fevereiro 20, 2006
Manias (em resposta a um desafio de dois caros companheiros de luta, acreditando ambos que terei sem dúvida hábitos escabrosos)
Regulamento:
Cada bloguista participante tem de enunciar cinco manias suas, hábitos muito pessoais que os diferenciem do comum dos mortais. E além de dar ao público conhecimento dessas particularidades, tem de escolher cinco outros bloguistas para entrarem, igualmente, no jogo, não se esquecendo de deixar nos respectivos blogues aviso do "recrutamento". Ademais, cada participante deve reproduzir este "regulamento" no seu blogue.
1. Se vou conduzir à noite, acendo sempre os médios antes de pôr o carro a trabalhar. O meu primo diz que o meu carro é "daqueles que só arrancam com as luzes acesas".
2. A caminho do habitual jogo da bola com os amigos, dispendo sempre cinco ou dez minutos a imaginar (em câmara lenta, obviamente) o golo absolutamente fabuloso que jamais acabarei por marcar. É normalmente um pontapé de bicleta de fora da área, com a bola a entrar na gaveta.
3. As minha torradas ou vêm com becel em quantidade ou então mais vale passar fome.
4. Andar de meias sobre qualquer tipo de superfície atapetada é o mesmo (ou quase o mesmo) que espetar punhais ferrujentos nos ouvidos.
5. Sou demasiado simpático para os funcionários de estabelecimentos comerciais.
Posto isto, desafio os seguintes blogueiros:
A minha amiga e extraordinária poeta brasileira Virna Teixeira http://www.papelderascunho.net
A Sandra que pinta a alma com a alma e emoldura-se de palavras fundamentais
A Alexandra do outro lado do mundo
Maria Teresa
lembro-me de ti nas visitas de estudo a sintra.
sentavas-te nos primeiros bancos do autocarro
logo atrás dos professores
a mochila malcheirosa
das sandes de carne, da fruta assada
hoje vi-te no metro, pequena figura.
tens a afectação das pessoas
que forram os livros para esconder o título.
andas tristonha
arrelias-te se adormecem ao teu lado
suspiras um pouco
não te conheço, maria teresa
tu foste da minha escola
e eu nunca te conheci
sentavas-te nos primeiros bancos do autocarro
logo atrás dos professores
a mochila malcheirosa
das sandes de carne, da fruta assada
hoje vi-te no metro, pequena figura.
tens a afectação das pessoas
que forram os livros para esconder o título.
andas tristonha
arrelias-te se adormecem ao teu lado
suspiras um pouco
não te conheço, maria teresa
tu foste da minha escola
e eu nunca te conheci
sexta-feira, fevereiro 17, 2006
Comboio
leio
do monte até oeiras
e depois que ela passa
vestida sem jeito
durmo de oeiras
ao cais do sodré
(após longa ponderação
decidi que isto conta
como poema confessional)
do monte até oeiras
e depois que ela passa
vestida sem jeito
durmo de oeiras
ao cais do sodré
(após longa ponderação
decidi que isto conta
como poema confessional)
quinta-feira, fevereiro 09, 2006
Reger fala de novo
Eu observei-o a maior parte do tempo sem efectivamente o ver. Ele disse ontem que naturalmente não tivera todas, mas tivera decerto muitas possibilidades na infância e no período juvenil que se seguiu à infância e que finalmente não se decidira por nenhuma dessas possibilidades que se lhe ofereciam para enveredar por uma carreira profissional. Como não tinha sido obrigado a ganhar a sua vida, porque recebera a herança dos pais, que não era de depreciar, pôde dedicar-se durante anos, tranquilamente, às suas ideias, às suas preferências, às suas inclinações. Não fora, porém, a natureza que desde o princípio o atraíra, pelo contrário, tinha evitado a natureza sempre que lhe fora possível, a arte é o que o tinha atraído, tudo o que era artificial, disse ele ontem, absolutamente tudo o que era artificial.
Thomas Bernhard, Antigos Mestres
domingo, fevereiro 05, 2006
Mr Sad Bear
sexta-feira, janeiro 20, 2006
Reger
Não há nenhum quadro perfeito e não há nenhum livro perfeito e não há nenhuma peça de música perfeita, disse Reger, esta é que é a verdade e esta verdade permite que uma cabeça como a minha, que durante a vida inteira não tem sido senão uma cabeça desesperada, continue a existir. A cabeça tem de ser uma cabeça que procura, uma cabeça que procura os erros, os erros da humanidade, tem de ser uma cabeça que procura o fracasso. A cabeça humana só é efectivamente uma cabeça humana quando procura os erros da humanidade. A cabeça humana não é nenhuma cabeça humana quando não se põe à procura dos erros da humanidade.
Thomas Bernhard, Antigos Mestres
quarta-feira, janeiro 11, 2006
(?)
Porque é que as pessoas dizem o que dizem e da forma que o fazem? Porquê determinadas palavras e não outras, também possíveis, também dignas de reprodução? Porquê esta ou aquela construção, aquele número de pausas, aquela disposição de sons e entoação? Qual a razão da linguagem no país do vácuo pensamento? Será que faço bem em preocupar-me tão cedo com coisas tão profundas?
segunda-feira, janeiro 09, 2006
A partir de uma curtíssima troca de palavras (acontece ter encontrado nelas, como por vezes sucede, um sentido profundo e um potencial de versos)
não é fácil ser-se eu,
dizias às vezes
por brincadeira
nem eu
querendo ser-te
a toda a hora
dizias às vezes
por brincadeira
nem eu
querendo ser-te
a toda a hora
quarta-feira, janeiro 04, 2006
Menção
Assinalo com algum orgulho as mil visitas aos quartos escuros desde que decidi instalar este contador há coisa de nove ou dez meses. Estava em casa com pouco para fazer, lá fora chovia e eu esperava com impaciência a resposta a uma candidatura de emprego.
terça-feira, janeiro 03, 2006
Versos antigos (espécie de haiku intimista)
como o ramo e a folha verde
a flor e a borboleta
assim nós
tu e eu
juntos
como sempre deve ser
a flor e a borboleta
assim nós
tu e eu
juntos
como sempre deve ser
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