Já ganhei o fim-de-semana. Com palavras espantosas que alguém me deu a conhecer. Obrigado pelos versos, Carmen.
you fit into me
like a hook into an eye
a fish hook
an open eye
Margaret Atwood
sábado, março 11, 2006
quinta-feira, março 09, 2006
E diz Reger finalmente, no Museu de História de Arte
A arte, no seu todo, não é também senão uma arte de sobrevivência, não podemos deixar de ter em conta este facto, ela é, em suma, a tentativa, feita sempre de uma forma que até comove o entendimento, para suportar este mundo e as suas actividades, o que, como nós sabemos, de maneira geral só é possível com o uso principalmente da mentira e da hipocrisia, da dissimulação e do engano de si próprio, assim disse Reger. Estes quadros estão cheios de mentira e hipocrisia, cheios de dissimulação e engano, e, se abstrairmos da sua perfeição técnica, muitas vezes genial, neles não existe mais nada. Todos estes quadros são, além disso, expressão da absoluta incapacidade do homem para viver em consonância consigo próprio e com aquilo que durante toda a vida o rodeia. É isso que exprimem todos estes quadros, essa incapacidade que, por um lado, envergonha a cabeça e, por outro, atormenta essa mesma cabeça e de emoção a leva à morte, assim disse Reger.
Thomas Bernhard, Antigos Mestres
terça-feira, março 07, 2006
Reitoria
No piso térreo da reitoria, sobre a mesinha do segurança, leio o pequeno letreiro de papel que o identifica: VIGILANTE. E depois vou para o meu posto de leitura fazer a minha própria folhinha, como naquelas primeiras semanas de escola: AUSENTE E ALIENADO.
segunda-feira, fevereiro 20, 2006
Manias (em resposta a um desafio de dois caros companheiros de luta, acreditando ambos que terei sem dúvida hábitos escabrosos)
Regulamento:
Cada bloguista participante tem de enunciar cinco manias suas, hábitos muito pessoais que os diferenciem do comum dos mortais. E além de dar ao público conhecimento dessas particularidades, tem de escolher cinco outros bloguistas para entrarem, igualmente, no jogo, não se esquecendo de deixar nos respectivos blogues aviso do "recrutamento". Ademais, cada participante deve reproduzir este "regulamento" no seu blogue.
1. Se vou conduzir à noite, acendo sempre os médios antes de pôr o carro a trabalhar. O meu primo diz que o meu carro é "daqueles que só arrancam com as luzes acesas".
2. A caminho do habitual jogo da bola com os amigos, dispendo sempre cinco ou dez minutos a imaginar (em câmara lenta, obviamente) o golo absolutamente fabuloso que jamais acabarei por marcar. É normalmente um pontapé de bicleta de fora da área, com a bola a entrar na gaveta.
3. As minha torradas ou vêm com becel em quantidade ou então mais vale passar fome.
4. Andar de meias sobre qualquer tipo de superfície atapetada é o mesmo (ou quase o mesmo) que espetar punhais ferrujentos nos ouvidos.
5. Sou demasiado simpático para os funcionários de estabelecimentos comerciais.
Posto isto, desafio os seguintes blogueiros:
A minha amiga e extraordinária poeta brasileira Virna Teixeira http://www.papelderascunho.net
A Sandra que pinta a alma com a alma e emoldura-se de palavras fundamentais
A Alexandra do outro lado do mundo
Maria Teresa
lembro-me de ti nas visitas de estudo a sintra.
sentavas-te nos primeiros bancos do autocarro
logo atrás dos professores
a mochila malcheirosa
das sandes de carne, da fruta assada
hoje vi-te no metro, pequena figura.
tens a afectação das pessoas
que forram os livros para esconder o título.
andas tristonha
arrelias-te se adormecem ao teu lado
suspiras um pouco
não te conheço, maria teresa
tu foste da minha escola
e eu nunca te conheci
sentavas-te nos primeiros bancos do autocarro
logo atrás dos professores
a mochila malcheirosa
das sandes de carne, da fruta assada
hoje vi-te no metro, pequena figura.
tens a afectação das pessoas
que forram os livros para esconder o título.
andas tristonha
arrelias-te se adormecem ao teu lado
suspiras um pouco
não te conheço, maria teresa
tu foste da minha escola
e eu nunca te conheci
sexta-feira, fevereiro 17, 2006
Comboio
leio
do monte até oeiras
e depois que ela passa
vestida sem jeito
durmo de oeiras
ao cais do sodré
(após longa ponderação
decidi que isto conta
como poema confessional)
do monte até oeiras
e depois que ela passa
vestida sem jeito
durmo de oeiras
ao cais do sodré
(após longa ponderação
decidi que isto conta
como poema confessional)
quinta-feira, fevereiro 09, 2006
Reger fala de novo
Eu observei-o a maior parte do tempo sem efectivamente o ver. Ele disse ontem que naturalmente não tivera todas, mas tivera decerto muitas possibilidades na infância e no período juvenil que se seguiu à infância e que finalmente não se decidira por nenhuma dessas possibilidades que se lhe ofereciam para enveredar por uma carreira profissional. Como não tinha sido obrigado a ganhar a sua vida, porque recebera a herança dos pais, que não era de depreciar, pôde dedicar-se durante anos, tranquilamente, às suas ideias, às suas preferências, às suas inclinações. Não fora, porém, a natureza que desde o princípio o atraíra, pelo contrário, tinha evitado a natureza sempre que lhe fora possível, a arte é o que o tinha atraído, tudo o que era artificial, disse ele ontem, absolutamente tudo o que era artificial.
Thomas Bernhard, Antigos Mestres
domingo, fevereiro 05, 2006
Mr Sad Bear
sexta-feira, janeiro 20, 2006
Reger
Não há nenhum quadro perfeito e não há nenhum livro perfeito e não há nenhuma peça de música perfeita, disse Reger, esta é que é a verdade e esta verdade permite que uma cabeça como a minha, que durante a vida inteira não tem sido senão uma cabeça desesperada, continue a existir. A cabeça tem de ser uma cabeça que procura, uma cabeça que procura os erros, os erros da humanidade, tem de ser uma cabeça que procura o fracasso. A cabeça humana só é efectivamente uma cabeça humana quando procura os erros da humanidade. A cabeça humana não é nenhuma cabeça humana quando não se põe à procura dos erros da humanidade.
Thomas Bernhard, Antigos Mestres
quarta-feira, janeiro 11, 2006
(?)
Porque é que as pessoas dizem o que dizem e da forma que o fazem? Porquê determinadas palavras e não outras, também possíveis, também dignas de reprodução? Porquê esta ou aquela construção, aquele número de pausas, aquela disposição de sons e entoação? Qual a razão da linguagem no país do vácuo pensamento? Será que faço bem em preocupar-me tão cedo com coisas tão profundas?
segunda-feira, janeiro 09, 2006
A partir de uma curtíssima troca de palavras (acontece ter encontrado nelas, como por vezes sucede, um sentido profundo e um potencial de versos)
não é fácil ser-se eu,
dizias às vezes
por brincadeira
nem eu
querendo ser-te
a toda a hora
dizias às vezes
por brincadeira
nem eu
querendo ser-te
a toda a hora
quarta-feira, janeiro 04, 2006
Menção
Assinalo com algum orgulho as mil visitas aos quartos escuros desde que decidi instalar este contador há coisa de nove ou dez meses. Estava em casa com pouco para fazer, lá fora chovia e eu esperava com impaciência a resposta a uma candidatura de emprego.
terça-feira, janeiro 03, 2006
Versos antigos (espécie de haiku intimista)
como o ramo e a folha verde
a flor e a borboleta
assim nós
tu e eu
juntos
como sempre deve ser
a flor e a borboleta
assim nós
tu e eu
juntos
como sempre deve ser
segunda-feira, janeiro 02, 2006
Conversa de bola
Hoje no café, cedo pela manhã, dois senhores de idade discutiam o recente empréstimo de certa promessa do nosso futebol a um clube de menor dimensão. É que ele precisa de minutos, dizia um.
E eu de décadas, senhor, de séculos inteiros para me afirmar.
E eu de décadas, senhor, de séculos inteiros para me afirmar.
terça-feira, dezembro 20, 2005
Dia trinta
Acordei hoje no quarto escuro, acossado pelas possibilidades de uma transmutação semântica do nosso léxico. Não uma total transformação de sentidos ou classes morfológicas, apenas um enxerto novo num ou noutro nome comum ou abstracto.
Chego de manhã ao escritório. Tenho em cima da secretária, junto ao planisfério, o recibo do meu vencimento. Vencimento. Sempre aguardado, sempre simpático. E também uma dessas palavras que se prestam a outros empregos fictícios . Quisera resgatar o termo à sinonímia com salário, ordenado. Retirar o vencimento do infame campo semântico do labor remunerado. E porque não fazê-lo regressar para perto da raíz que partilha com vencer e vencedor? Mas suavemente, sem pressas. Do sufixo mento, fonte de uma amena substantivação, preservaria a sonoridade branda e tranquila. Teríamos então, que bom seria, um vencimento não no sentido rigoroso e marcial de vitória ou conquista, mas mais enquanto progressiva imposição da matéria, afirmação consentida de um poder que não molesta totalmente. Um vencimento não como antónimo de derrota, mas mais como o oposto de suave rendição. E nessa altura, para submeter à experiência a deliciosa possibilidade, escreveria versos como o vencimento do meu corpo por teu intermédio, ou passagens descritivas como o vencimento da manhã sobre a noite longa tinha no costumeiro tom rosáceo o prenúncio de um dia quente. São coisas a que as palavras se prestam na minha cabeça. Imagino.
domingo, dezembro 18, 2005
Um poeta fala de si
Sou poeta. Esse é o fulcro dos meus interesses. É disso que escrevo. Posso amar, posso ser jogador, e também apreciar as belezas do Cáucaso - mas apenas quando isso deixa um sedimento de palavras.
Vladimir Maiakowski
sábado, dezembro 17, 2005
Tv
hoje
natal dos hospitais
quis tirar um dia de férias
ficar por entre cobertores
ao pé dos meus cães
mas o trabalho obriga
oprime
exige tudo o que ainda resta
natal dos hospitais
quis tirar um dia de férias
ficar por entre cobertores
ao pé dos meus cães
mas o trabalho obriga
oprime
exige tudo o que ainda resta
segunda-feira, dezembro 12, 2005
Depois do Inverno
do outro lado do muro
bem por cima do meu ombro
há um arbusto de neve e cansaço
na sua linguagem estranha
feita de formas, pequenos indícios
diz-nos que há-de chegar a idade
o momento solto
passada a estação de inverno
a neve cairá dos ramos
e à volta do tronco esguio
há-de acabar por secar a terra
(o repouso do cão abandonado
um retiro de amantes
o velho com o suicídio na cabeça)
e eu haverei de sair da biblioteca
para vir cantar o arbusto centenário
bem por cima do meu ombro
há um arbusto de neve e cansaço
na sua linguagem estranha
feita de formas, pequenos indícios
diz-nos que há-de chegar a idade
o momento solto
passada a estação de inverno
a neve cairá dos ramos
e à volta do tronco esguio
há-de acabar por secar a terra
(o repouso do cão abandonado
um retiro de amantes
o velho com o suicídio na cabeça)
e eu haverei de sair da biblioteca
para vir cantar o arbusto centenário
sexta-feira, dezembro 09, 2005
Nota
Suspende-se pelo menos até ao início do próximo ano a transcrição de algumas composições do chamado Ciclo das Invocações (ver entrada do dia 11 de Setembro) dada a existência de alguns problemas inesperados no exame dos ditos textos.
segunda-feira, outubro 31, 2005
Lok
Subscrever:
Mensagens (Atom)

